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Apaguem
as luzes e vamos dançar
>> Carmela
Toninelo
O
título deveria ser "apaguem as luzes e vamos chorar", mas
Dançando
no Escuro e sua sugestiva trilha sonora, remete muito mais à
dança, como refúgio da personagem da história, do que
às lágrimas que caem de nossas faces, quando a última
cena fecha tudo numa completa escuridão.
Dançando
no escuro é sétima arte. Vencedor do Festival de Cannes
do ano 2000, o filme é uma experiência ousada e destemida. Assinado
por Lars von Trier, um dos dinamarqueses fundadores do manifesto Dogma
95, a produção inspira - brilhantemente - adulação
e desdém. Juntos.
Lars,
hoje, deveria ser comparado com diretores de quatro décadas atrás
como Francois Truffaut e Jean-Luc Godard, ou quem sabe Scorsese e Altman,
nos anos setenta. O trabalho do diretor é artisticamente novo e sensacionalmente
inovador. Isso, numa mídia onde tantos diziam que inovações
era algo já morto.
A menos que você esteja vivendo sob um mundo pop rock, do qual eu me
baseio no mainstream americano, você já sabe que Björk
é a bonequinha de porcelana, cantora islandesa, que começou
sua carreira como líder da banda Sugarcubes. Desde a morte da
banda em meados dos anos 90, Björk tem criado músicas psicodelicamente
dançantes, doando seu enorme vocal talhado e dando uma curiosa visita
nos fios cortantes na aparelhagem de DJs. O resultado é uma música
suficientemente verdadeira a ser tarjada "alternativa", e impossível
não reconhecer que se encaixa no "especial".
Em Dançando
no Escuro, Björk
encena Selma, outra mártir feminina de von Trier. A história
é, antes de tudo, sobre a devoção de uma mãe.
No enredo, há assassinato, crueldades do destino e pena de morte. Uma
tragédia musical, na qual a heroína trama em sua cabeça
seqüências musicais e coreografias, de modo que isso possa aliviar
a reviravolta que expressa-se na sua vida.
Björk
se torna um marco pela atuação de Selma, uma imigrante tcheca,
morando no interior do estado de Washington, no início dos anos 60
(o filme foi rodado na Suécia e Dinamarca). Mora com seu filho em um
trailer, trabalha como operária numa fábrica, freqüenta
uma casa de teatro local com sua amiga, e também operária Kathy
(Catherine Deneuve, convincentemente desleixada), e consegue até mesmo
o papel de Maria na produção amadora de The sound of music.
Música
e cinema são os refúgios de Selma. Ela está ficando cega
(problema de família, diz ela), e sente-se culpada por ter tido uma
criança que também carrega o gene da cegueira. Após economizar
dinheiro para uma operação que irá curá-lo, Selma
confronta-se com seu vizinho (David Morse), que a rouba e torna seu maior
sacrifício em sacrifício fatal.
Dançando
no Escuro é produto 90% Dogma 95. Só falha nos musicais
centrados de Björk, mas compensa perfeitamente no trabalho de câmera.
Esta não apenas observa os personagens, como parece capturá-los
da antagonização de suas vidas e, por certo, as fascinantes
tomadas expõem ao extremo suas fragilidades.
Björk,
que nunca atuou antes, está extra ordinária
como Selma. Aí, eu espero que você não seja daqueles hipócritas
críticos ou consumidores de cinema, que a viriam julgar incapaz de
atuar. Comparar Björk com Madonna, John Bon Jovi ou Witney Huston seria
um sacrilégio. É a sua inexperiência que torna o personagem
tão espontâneo, exibindo uma impecável defesa honesta,
de um ser humano comum. Além de parecer ela, purificada pela música.
Catherine
Deneuve, que escreveu uma carta a von Trier pedindo um papel neste filme,
trabalha tocantemente com Björk. Seu personagem oferece à Selma
uma bárbara e fiel amizade. Da mesma forma, eu imaginaria que Deneuve
encorajou Björk em tomadas mais pesadas e árduas. Assim, vê-se
uma rainha atuando em um papel secundário, e extendendo uma amigável
mão a uma novata.
Dançando
no escuro é mais do que especial, estranho. Aparte de roteiros
dos quais já estamos condicionados a esperar, o filme reconsidera o
meio e nos faz pensar em nosso mundo. E tão especial quanto o que o
filme nos proporciona, é ver que coragem e afeição está
tão comprometido com suas próprias diferenças. Lars von
Trier que nos mostre isso, mesmo que seja no escuro.
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