..................
Copyright © 2000
UNISINOS - Todos os direitos reservados
D o g m a 9 5
>> por Carmela Toninelo

Não importa quem faz ou quem vê, o cinema sempre será um jogo. Na opinião de um pequeno número de cineastas, porém, um jogo que se tornou incrivelmente chato, por ter chegado a um ponto em que todas as jogadas são possíveis. O marasmo, como conseqüência, atingiu também o espectador, de olhos já indiferentes, anestesiados, sem capacidade para enxergar nada de estimulante nas imagens produzidas, e saturado de produções hollywoodianas. Como então, tornar o jogo do cinema novamente interessante e menos sacal? Este grupo de cineastas recorreu a uma forma um tanto arbitrária. Criando novas regras, reinventando a forma de se jogar.

Esta foi a principal motivação de quatro diretores dinamarqueses ao assinarem, em 1995, um manifesto. Possivelmente o primeiro da história do cinema depois de muitos anos, ele é o Dogma 95 ou, informalmente, Voto de Castidade. Num tempo em que qualquer imagem é permitida, o manifesto impõe dez regras que limitam ao máximo o fazer do cinema.

Artificialismos, modismos, preferências pessoais e interferências na imagem e no som tornaram-se absolutamente proibidos, impondo aos cineastas novos, velhos desafios, principalmente ao reaprender a lidar com limitações técnicas e a adaptar sua dramaturgia às condições propostas. De acordo com o Dogma, o simples fato de trazer um abajur necessário à história para a cena, por exemplo, não é permitido. A equipe será obrigada a encontrar uma locação que já tenha este abajur desejado. Usar música também está proibido, a não ser que faça parte da cena filmada e que seja tocada, cantada ou ambos, por um dos personagens. O filme se passa sempre "aqui e agora", ou seja, histórias de época estão descartadas, e o diretor não pode nem pensar em fazer aquela charmosa citação homenageando seu cineasta favorito.

Os primeiros resultados concretos do Dogma 95 chegaram à tela quatro anos após a idéia ter sido gerada. Durante o Festival de Cannes, representaram um sopro de novidade como há tempos não se via. Os filmes chamavam-se oficialmente Festen (Festa em Família) e Itiotern (Idiotas), mas ambos receberam os subtítulos de Dogma 1 e Dogma 2, respectivamente, como uma espécie de carimbo para a rápida identificação da proposta dos filmes (hoje a lista de filmes no formato do manifesto ultrapassa a casa dos dez).

Não que Festen e Idiotern tenham modificado, ou venham a modificar a história do cinema. Mas, certamente, representam uma tentativa pertinente, importante e por enquanto isolada de reavivar ânimos num momento de absoluta estagnação. O contexto não permite mais combate, a destruição, como na época das novas ondas dos anos 60.

"Se se pretende fazer um protesto, é preciso fazê-lo contra alguma coisa que porte autoridade. E se nós considerarmos que nada tem autoridade, não há razão para protestar. Não sou alguém que protesta. Prefiro propor. Este foi nosso objetivo ao publicar o Dogma 95", justificou o excêntrico, hábil e polêmico Lars Von Trier à revista Cahiers du Cinema. Lars, é a figura à frente desse movimento. Mas mesmo assim, o pessoal do Dogma tem vontade de espalhar essa proposta de um cinema diferente mundo afora, recuperando uma verdade que a atividade teria perdido globalmente.

Na verdade, o Dogma simboliza a concretização radicalizada de uma tendência geral. Mas que agora parte de um grupo que faz questão de gritar alto sua insatisfação com o que tem sido feito. Para eles o cinema não é uma ilusão, e "buscar a verdade" dos personagens é o alvo principal.

O M a n i f e s t o

Eu juro me submeter ao seguinte conjunto de regras concebidas
e confirmadas pelo Dogma 95:

1 - A filmagem deve ser feita em locação. Objetos e cenários não devem ser incorporados. Se um determinado objeto é necessário à história, a locação escolhida precisa conter esse objeto.

2 - O som nunca deve ser produzido separadamente das imagens e vice-versa. Música não deve ser usada a não ser que ocorra na cena em que está sendo filmada.

3 - A câmera deve estar na mão. Qualquer movimento ou imobilidade é permitido desde que seja produzido pela mão. O filme não pode se passar onde a c6amera esteja. A filmagem deve ocorrer onde o filme ocorre.

4 - o filme deve ser a cores. Iluminação especial é inaceitável. Se há muito pouca luz para exposição, a cena deverá ser cortada, ou uma simples e única lâmpada deverá ser ligada à câmera.

5 - Trabalhos óticos e filtros estão proibidos.

6 - O filme não deve conter ação superficial. (Assassinatos, disparos de armas, etc, não devem ocorrer.)

7 - Alienação temporal e geográfica estão proibidas. (Isso quer dizer que o filme se passa aqui e agora.)

8 - Filmes de gênero não são aceitos.

9 - O formato do filme deve ser em 35 milímetros acadêmico.

10 - O diretor não deve receber crédito.

Além do mais, eu juro, como diretor, renunciar ao meu gosto pessoal. Não sou mais um artista. Eu juro renunciar à criação de uma "obra", já que eu considero o instante mais importante que o todo. Meu objetivo supremo é arrancar a verdade de meus personagens e cenários. Prometo fazê-lo por todos os meios à minha disposição e ao custo de qualquer "bom gosto" e considerações estéticas.
Portanto, faço aqui meu Voto de Castidade.

Copenhagen, segunda-feira, 13 de março de 1995.

Lars Von Trier
Thomas Vinterberg

página central
Hosted by www.Geocities.ws

1