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A trilha sonora desta entrevista é Oranger em
A view of the city from na airplane.



Uma mistura de Beatles e Zombies influenciados pela nova psicodelia de Elephant 6, bandas como Apples in Stereo e Beulah com o som
de clássico ácido de bandas rock como Jefferson Airplane e Moby Grape.

"Eu quase mandei 'Swingin on a Star', do Bing Crosby, 'September 13', do Eumir Deodato, 'Delta Disco', do Transglobal Underground,
ou 'Song for Shelter', do Fatboy Slim. Bem, não foi fácil.
Acho que essa música representa bem o momento."
- entardecer duma quinta feira chuvosa, casa azul
- estúdio de Charles Di Pinto.




por Carmela Toninelo

Uma brasileira que conheceu um americano. Um americano que se apaixonou por uma brasileira. Um matrimônio como resultado. Um filho como produto.

Charles Di Pinto, ou simplesmente Cholly nasceu em terras americanas. Mas ao norte. Filho de desentendes italianos que migraram do sul da Itália para a costa leste americana, Cholly cresceu ao redor da cozinha farta desenvolvida pela família. Na Filadélfia.

Uma viagem ao Brasil, uma visita ao Paraguai e um presente ao filho. O ano era 1979 e Cholly ganhava um tecladinho branco da Casio, teclado e calculadora juntos. Foi quando o menino passou a calcular sons. "Claro que a culpa foi toda dos pais que não olham com muita felicidade pra isso, mas foram eles que causaram o dano." Um tecladinho, os teclados, um piano depois. "É quase natural começar pelo lado de teclados e você entrar para a parte de produção."

Ou você nunca olhou um encarte de álbum para saber quem assinava a produção ou você sempre menosprezou o trabalho de gênios da criação. Uma banda toca a matéria-prima. Um cara esculpe o produto final. Cholly faz isso, e tem feito há mais de dez anos.

Começou a trabalhar profissionalmente e teve companhia de Dudu Marote, na época em que o primeiro trabalho eletrônico do Rio Grande do Sul dava vazão nos aparelhos de som. Era o início da década de noventa e continuar a parceria era uma opção. Cholly preferiu a individualidade e a conquista tanto quanto a descoberta da terra que viria a habitar.

A música eletrônica foi sempre o seu lado primário pelas influências de formação de música negra, soul. Mas pelo lado da família, ter primos roqueiros também ajudou. "Faço música eletrônica, mas também faço composição de qualquer música que tenha vestígios da música negra americana e muito rock, porque em Porto Alegre agora, eu fui tirado para roqueiro."

Empatia com Cholly é sinônimo de sorriso no rosto. E isso foi fielmente comprovado em novembro de 1999 quando o Projeto Hyper, idealizado por ele, reuniu músicos com diferentes backgrounds em um único CD tocando mais de dez canções compostas organicamente.

Um projeto, um álbum, 30 músicos do cenário de rock e pop de Porto Alegre, fotógrafos, produtores e publicitários. Uma festa de lançamento no bar Zelig de Porto Alegre e um Cholly emocionado. "Normalmente eu não falo bem de coisas que envolvem os meus projetos mas essa foi uma das coisas que eu mais gostei, talvez o evento ligado a uma das produções que eu mais gostei de fazer. Uma coisa bem orgânica, tipo eu e você."

Um projeto que foi o pé no funk, soul e r&b. A maior parte das músicas tinham balanço, puro groove, e um cachorro de estimação. "Meu cachorro é um artista, eu trouxe ele para o estúdio, coloquei os phones de ouvido nele e ele cantou. Cantou To be free com o Navarro."

Se o Projeto Hyper foi um marco, hoje ele serve como incentivo. O ideal deste ano é produzir Hyper II, produções separadas de rock, hip-hop e outro só de eletrônico.

"O que vai acontecer no Hyper II é o que deveria ter acontecido no primeiro, que é, eu vou largar a produção de muitas faixas e entra o novo colaborador, o produtor." Eletrônico é só o nome geral do projeto. Haverá o disco duplo em eletrônico, mas não só qualquer tipo como também haverá uma fusão com outros estilos. As pessoas poderão chegar e fazer um hip-hop eletrônico. "A idéia é que essa é mais uma representação da comunidade eletrônica de Porto Alegre. O Hyper original tinha alguma coisa a ver com a mistura de pessoas mas não era uma regra estabelecida que tinha de ser estilos multi-diferentes. Isso aconteceu porque o Hyper tentava fazer muitas coisas numa vez só e isso não era necessário . Ele pode ser muitas coisas, mas não tentar ser tudo."

Esse ano serão três projetos em release e provavelmente o hip-hop será lançado entre maio e junho. Depois virá o rock e no final do inverno virá o duplo, o eletrônico. Renato Severo, Luciano Dias, Jonatas Prates. Somente alguns dos nomes.

"O segundo Hyper é interessante porque terá muitos convidados sendo eles vários de fora de Porto Alegre. Gente surpresa, gente já lançada. O segundo talvez acabe como o primeiro, que vai ter lançamento, vai para as rádios e talvez seja uma coisa que nem todo mundo tenha, uma pena, mas eu garanto que no mínimo estará no mp3.com direto."

A verdade é que como já dizia Jon Fuga, o resultado do projeto fica no CD e é compreensível apenas através do sentido da audição. Assim é fácil discernir a sinceridade de Cholly quando suas idéias são de bancar a distribuição. "Existe essa possibilidade de eu mandar prensar, botar gás e muitos de graça... essa é a idéia do negócio, que o lucro seja de todos."

Existe o trabalho dentro do underground, existe o de fora dele. Existe o lucro de cada um e a satisfação de ambas as partes. "Eu mixei Walverdes e Walverdes é a melhor banda do mundo. A mixagem que a gente fez foi uma realização pra mim e foi perfeito pra eles." Chegar, mixar e deu. E assim saiu um disco inteiro em tempo recorde. "Adorei, sou fanzaço."

No começo, Porto Alegre era a cidade que imaginava Cholly, o faria ganhar dinheiro criando audio publicitários. "Chegou uma hora que eu percebi que audio publicitário não levava a nada, o mesmo que trabalhar numa fábrica fechando latas de ervilhas... ninguém vai lembrar de você."

"Quando eu resolvi procurar o talento em Porto Alegre, eu levei um susto. O tempo todo eu estava aqui, o talento estava aqui e eu não havia percebido. E tudo começou com o Pedro Veríssimo que quando eu cheguei em 98 eu peguei e disse vamos fazer uma música, eu sei que tu canta bem em inglês e eu só não sabia se as referências dele eram legais ou não. E quando eu vi o que ele queria fazer eu pensei nossa! Foi quando ele me disse que havia o Mini e enfim,... eu comecei a descobrir as coisas legais em Porto Alegre. Estamos numa capital da criatividade, que comparado com a Filadélfia aqui é um espaço prometedor, não promissor."

O desejo maior não é ser famoso, é participar de entregas de prêmios e visitar sua Disneylândia particular conhecida como a produção de videoclips. O desejo maior não é ser ladrão do ouro, mas o contemplador. "Eu vou voltar para a Filadélfia, mas isso faz parte de um plano. Seria como dizer que eu voltaria para lá para me reciclar e depois retornaria ao sul. Agora que eu descobri essa mina de ouro eu vou realmente explorar ela ao máximo. Como dizem os americanos que foram para a Amazônia roubar o ouro do Brasil, eu vou roubar o ouro de Porto Alegre. Mas eu não furtarei, eu simplesmente usarei aqui e quero dar a oportunidade de fazer o resto do país ver o que eu consigo ver. Mostrar isso para o mercado alternativo e mostrar para as pessoas certas."

"Eu fico extremamente chocado de ver o tamanho talento que existe neste local. Um talento diferente da Filadélfia, dos Estados Unidos por exemplo." Explosivo, intuitivo, nascente. " Isto é o sul, pessoas descobrindo a música e fazendo coisas frescas. Nos Estados Unidos a referência é muito clara, é muito batida, ela já está escrita em pedra."

"Estamos num momento legal, mas dá pra sentir que está passando o momento do Rio Grande do Sul. Teve um tempo que eu acho que não foi capitalizado e agora a visão nacional está começando a perceber outros lugares do país, Centro-Oeste, Nordeste e nós éramos o foco, então temos que aproveitar os últimos instantes ou dar vazão aos trabalhos para voltar a chamar atenção para o nosso lado."

"Bidê ou Balde é uma das bandas mais prometedoras do sul do Brasil. Eu acho que se tu olhar as coisas que tem aqui agora tu vai ver que eles realmente estão no lugar certo, eles estão na ponta do que tem aqui está acho que eles fazem parte de um grupo da elite do rock que vem do sul." Wonkavision, Tom Bloch. "Há um conceito extremamente original. Tem gente que os acha um pouco Pixies, mas não é isso. Eles são extremamente originais e isso é uma coisa de fato, rara. Este é o ponto do porquê eu gosto da Tom Bloch, eles são talvez a banda de rock alternativo mais original do sul, e eu não consigo pensar numa outra."

Video Hits. "Eles sem dúvida são também mega rock stars no sul. Acho que eles tem muita coisa em comum com a Bidê ou Balde, com a Wonkavision." Video Hits - máximo, Bidê ou Balde - máximo, Wonkavision - máximo. " Essas três fazem parte de um campo. Aí do outro lado você tem Tom Bloch, Superphones. Aí de um outro você tem Irmãos Rocha! que tem um conceito diferente de fazer música bonitinha, o negócio deles é entreter e divertir. Eles são punk de verdade. E ninguém mais precisa mencionar o Wander Wilder, Frank Jorge, Ultramen, Júpiter Apple." Marcaram.

"Há pessoas talentosas nesta cidade. O Mini é uma prova viva. O Mini é o superstar de Porto Alegre. E tem Marcos Ludwig." Então seria... "Mini um superstar que usa referências amaricanas e Marcos Ludwig que caminha como o Mini, só que usa referências inglesas e menos americanas. Marcos é mais Radiohead e Mini é Pavement."

É expressa a paixão pelo novo, mas notável é a história. "A minha formação de música começou com Steve Wonder, então dá pra ver que minha praia em algum lugar lá no fundo veio dessas coisas, os Jacksons, Marvin Gaye, jazz. O que eu não consigo fazer é me tornar um especialista em alguma área específica porque teria que deixar de lado outras coisas que realmente contam. Sempre teremos Beatles e Beach Boys que não dá pra largar." Bandas que sempre voltam. "Tanta coisa, que você consegue fazer um ciclo e nunca chega a ser tedioso."

"Uma pessoa que curte música mesmo, onde é que ela vai tirar tempo de se especializar em punk, eletrônico, MPB, rock, bossa nova, lounge, backbeat ? Não tem como. Você nunca começa a se aprofundar em nada se você não escolher,... eu gosto de muita coisa, mas eu sou um ermitão, daqueles que trabalha em casa entre as quatro e as seis, uma hora ridícula mas é a hora que eu sento e faço com prazer." Recluso, mas não sociopata. Um aparelho de som como companhia. "Recentemente Sérgio Mendes, João Gilberto, Tom Jobim, clássico americano, Tom Bennet, Frank Sinatra, Elvis Presley, Barry Mandel , ... rock alternativo, Oranger, Stephen Malkmus, New Pornographers, Groove Armada, coisa nova, tem muita coisa velha aí também, mas Fatboy Slim, Björk, Pizzicato Five."

Uma banda toca a matéria-prima. Um cara esculpe o produto final. Virar rockstar nos dias de hoje não está com nada. Ou você é aquilo que produz ou você não passa de imagem medíocre e criada. Num planeta já saturado de mesquinharias, o humano tem se sobressaído. Você sente, você vive, você renasce. Um garotinho ganha um teclado branco e velho da Casio e descobre que música também tem coração. Um coração comparado ao humano que o faz viajar milhares de quilômetros para visitar uma mãe. Naquela época, era a materna, hoje em dia é a musical.


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Charles Di Pinto na rede - www.cholly.com

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