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SUICÍDIO
RESUMOS DO SIMPÓSIO SOBRE SUICÍDIO - 1999/p>
Insiste-se
fortemente, em relação ao suicídio, que se dedique esforços renovados
para:
1 - aumentar o conhecimento público e profissional dos fatores de
risco para o suicídio;
2 - aumentar o acesso precoce a avaliações clínicas adequadas, aumentando
a segurança e a efetividade dos tratamentos para os transtornos afetivos
e psicóticos;
3 - encorajar e apoiar pesquisas para esclarecer benefícios e riscos
específicos dos tratamentos médicos e intervenções sociais que almejam
a prevenção do suicídio.
NEUROLOGIA E RISCO DE SUICÍDIO
Mann J, Oquendo M, Underwood MD, Arango V - J. Clin. Psychiatry, 1999; 60 (2): 7-11
O suicídio é a causa da morte de 30.000 americanos, a cada ano, e é uma evolução freqüente de transtornos psiquiátricos maiores. Entre pacientes que sofrem de depressão ou esquizofrenia, 10% e 15% cometem suicídio.
Nos últimos 20 anos, foram constatadas evidências crescentes de que o comportamento suicida tem forte determinante neurobiológico. O conhecimento desta neurobiologia permitirá, no futuro, lançar mãos de ferramentas clínicas para tratar este comportamento e evitar mortes.
Os comportamentos suicidas têm determinantes neurobiológicos independentes do transtorno psiquiátrico com o qual estejam associados. As pessoas que estão sob risco de suicídio tendem a fazer tentativas de modo relativamente precoce, na evolução de seus quadros. São dois os modelos que podem explicar esta suscetibilidade:
1 - a resposta a um estresse agudo e;
2 - a ultrapassagem de um limiar pessoal, desencadeando a
ativação do gatilho para o suicídio ou sua tentativa.
O mais importante elemento sugestivo de risco para a tentativa de suicídio é a história pregressa de outra(s) tentativa(s) de suicídio. O limiar para um comportamento suicida também pode ser observado levando-se em conta a história familiar de comportamentos suicidas e certos traços pessoais, tais como a presença de transtorno de personalidade comórbida, comorbidade com abuso de drogas ou álcool e excessiva impulsividade e agressão no decorrer da vida, assim como transtornos alimentares.
Os autores observaram que alguns pacientes com depressão maior são vulneráveis para agir quando sofrem impulsos suicidas. Esta vulnerabilidade resulta da interação entre pontos gatilhos ou precipitantes e o limiar de comportamento suicida (John Mann, Maria Oquendo, Mark D. Underwood, Victoria Arango, 1999).
Um fator neurobiológico importante, ao se considerar o limiar de um indivíduo para agir sob impulsos suicidas, é a função serotoninérgica cerebral. Esta atividade se mostrou mais baixa em pacientes que tentaram suicídio, pelos estudos de medição dos metabólitos da serotonina no líqüor e pelos estudos de resposta da prolactina à fenfluramina.
É importante notar que quanto mais baixa a serotonina cerebral, mais grave é a tentativa de suicídio, havendo, portanto, correlação direta com a letalidade. Outro fato importante é que existe relação entre os baixos níveis cerebrais de serotonina e a agressividade, não se esquecendo que o suicídio pode ser entendido como uma auto-agressividade.
A importância da genética no suicídio pode estar relacionada com a informação cromossômica para a síntese e secreção de serotonina. De modo interessante, o sexo feminino tem um nível médio mais elevado de serotonina cerebral que o sexo masculino, e menor incidência de suicídio.
Os estudos pós-morte das vítimas de suicídio revelam redução da atividade da serotonina no córtex ventro-lateral pré-frontal, uma área reconhecidamente importante para o comportamento.
Novas tecnologias de avaliação de neuro-imagens, tais como o tomógrafo por emissão de pósitrons (PET), oferecem uma oportunidade de visualizar a função da serotonina "in vivo" de modo direto. Estas tecnologias podem fornecer a possibilidade de uma intervenção terapêutica mais precoce e oportuna em pacientes com alto risco para suicídio.
Tentativas de Suicídio no Transtorno Afetivo e Comorbidade com Abuso de Drogas
Tondo L, Baldessarini RJ, Hennen J, Minnai GP, Salis P, Scanonatti L, Masia M, Ghiani C, Mannu P - J. Clin. Psvchiatrv, 1999; 60 (2): 63-69
Existe consenso geral de que os transtornos psiquiátricos com abuso de drogas e dependência estão associados com maior risco de suicídio, especialmente em pacientes com transtornos maiores do humor. No entanto, os ensaios publicados até o momento não distinguem o risco maior pelo abuso ou pela dependência de drogas.
O abuso de drogas se inicia na adolescência e pode desempenhar papel proeminente no aumento de 300% nos casos de suicídio nesta faixa etária. Nos jovens, o abuso de drogas pode estar associado com elevada freqüência à depressão e transtorno bipolar, quadros que são mais incidentes quando se é jovem.
As principais substâncias descritas nessa associação são: o álcool, o tabaco, a cocaína, opióides e outras drogas tais como o ácido lisérgico (LSD), a fenciclidina e as anfetaminas. Além do transtorno do humor e do abuso de drogas, podem ser fatores de risco associados ao suicídio a deterioração social, profissional, doenças físicas e alterações nutricionais.
A presente pesquisa avaliou dados retrospectivos desta associação, assim como dados clínicos das tentativas de suicídio e abuso de drogas em 504 pacientes com transtorno de humor e hospitalizados em 4 unidades psiquiátricas da Sardenha, filiada ao sistema italiano de saúde mental.
Os resultados desta pesquisa demonstraram que a literatura apóia a associação de abuso de álcool e de drogas com transtornos afetivos maiores e de algumas drogas com o comportamento suicida.
Os novos achados desta pesquisa apóiam, no geral, estas duas associações. Os riscos de suicídio são semelhantes em homens e mulheres hospitalizados, estando associados com transtornos bipolares, tanto do tipo II quanto do tipo I (principalmente misto), assim como unipolares com o abuso de drogas e o efeito do tipo de agente utilizado. O abuso de drogas foi mais comum em homens com idade abaixo dos 30 anos com transtorno bipolar não misto.
Os agentes mais utilizados foram o álcool
(15%), a cocaína (4%) e a heroína (3%); o abuso de
polisubstâncias ocorreu em 6% dos pacientes.
Existe uma tendência para o paciente bipolar do tipo
I, principalmente os não mistos, os quais têm um risco
relativamente alto de abuso de drogas, de baixo risco
para tentativas de suicídio, enquanto a maior parte dos
dados indica que os transtornos depressivos ou disfóricos
(bipolar tipo II, unipolar e bipolar tipo I,
principalmente misto) podem ser especialmente letais, em
termos de suicídio.
As diferenças nos riscos para abuso de drogas e comportamento suicida, em homens e em pacientes bipolares do tipo I, sugerem que o abuso de drogas e o transtorno de humor podem contribuir para o risco de suicídio com independência parcial, sendo fatores a serem estudados de modo isolado para avaliar a real participação de cada um.
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