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RESUMOS DO SIMPÓSIO SOBRE SUICÍDIO - 1999

Introdução

O Simpósio

Introdução

O suicídio é um risco sempre presente junto aos pacientes com transtornos psiquiátricos e seu risco de ocorrência tem sido bastante elevado. Estima-se uma incidência anual de suicídio, entre 10 e 20 a cada 100.000 indivíduos, na população geral mundial. O suicídio geralmente está associado a transtornos psiquiátricos ou ao abuso de drogas, e pode ser observado entre 10% a 25% das mortes de pessoas com depressão maior de forma semelhante em uni e em bipolares.

Apesar desses números relacionando suicídio-depressão, estudos recentes indicam que o diagnóstico dos transtornos do humor ocorre em apenas um quarto dos casos de suicídio e somente uma fração destes recebem tratamento médico adequado.

Em fevereiro de 1999 realizou-se em Miami um simpósio patrocinado pela Fundação Americana para prevenção do Johns Hopkins University School of Medicine e pela Long Island Jewish Medical Center. Alguns dos trabalhos apresentados nesse simpósio são divulgados aqui, traduzidos pela revista Resenha de Psiquiatria (vol.7), e a totalidade deles está The Journal of Clinical Psychiatry, vol 60, suppl.2, 1999.

O SIMPÓSIO

O simpósio internacional avaliou o conhecimento da epidemiologia, da psicologia e dos efeitos do tratamento médico sobre o comportamento suicida. Apesar dos avanços extraordinários no tratamento médico dos transtornos do humor ocorrido na metade passada do século, as taxas de atos suicidas pouco mudaram na população geral.

Não há ainda sólida evidência de redução de taxas de suicídios em populações com risco específico em longo prazo, particularmente em pessoas com doenças afetivas maiores e outros transtornos comuns primários ou comorbidade psiquiátrica e abuso de drogas. É bastante possível que a redução da morbidade psiquiátrica deva limitar o risco de suicídio, mas pouco se conhece sobre os efeitos específicos da maioria dos tratamentos psiquiátricos ou outras intervenções com a finalidade de prevenção do suicídio.

A única prova substancial é a redução do risco de suicídio, durante o tratamento em longo prazo com lítio, que não é igual com a carbamazepina. Contudo, o diagnóstico e as intervenções terapêuticas adequadas alcançam uma pequena parte dos pacientes psiquiátricos com risco para o suicídio.

Conclusões sobre o tratamento médico na ideação suicida

São essas as conclusões acerca do tratamento médico para os casos de ideação suicida apuradas no simpósio:
1 - A maioria dos casos de suicídio envolve um transtorno psiquiátrico em evolução e tipicamente tratável e, talvez, em metade dos casos, um transtorno maior do humor, isolado ou complicado por uma comorbidade, tal como o abuso do álcool e/ou de outras substâncias.
2 - Razoavelmente bem estabelecidos, os fatores de risco para o suicídio, os quais incluem, atualmente, a depressão grave (particularmente no início do curso da doença), histórico familiar ou pessoal prévia de depressão ou tentativas de suicídio, abuso do álcool ou outras substâncias, psicose, agitação, ansiedade grave, insônia, sexo masculino, idade avançada (principalmente em associação com outras patologias clínicas) e talvez, juventude, falta ou perda de apoio social, encarceramento, perda recente, crise pessoal ou causa para vergonha e falta de um tratamento psiquiátrico ativo e mantido.
3 - O refinamento de avaliações preditivas para o suicídio requer melhor definição dos estados psicológicos relevantes, os quais incluem agitação, raiva, culpa, ansiedade, e um impulso para agir, bem como também desespero depressivo e a quantificação do risco.
4 - Mais estudos são exigidos para especificar os riscos de suicídio nos grupos especificamente definidos pelos fatores, tais como sexo, idade, etnia, diagnóstico psiquiátrico e clínico, local do tratamento e ambiente social.
5 - Torna-se necessário esclarecimento posterior das impressões que o risco para suicídio aumenta com mudanças do estado clínico ou do tratamento, especialmente nos episódios novos de depressão ou de psicose, logo após a alta hospitalar ou a descontinuação do tratamento e com sintomas residuais durante a recuperação de episódio de doença aguda.
6 - O esclarecimento da periodicidade do risco para suicídio é necessário para seguir as observações que os atos suicidas freqüentemente ocorrem cedo na doença psicótica ou afetiva, mas também continua por muitos anos em muitas pessoas, em especial nos períodos de recidivas de doença episódica, principalmente a depressão. Desde que o risco para o suicídio se expressa muito antes da avaliação clínica e do estabelecimento de tratamento contínuo, são exigidas avaliações precoces e intervenções protetoras.
7 - Os estudos e relatórios de pesquisa devem definir e especificar os níveis de severidade do comportamento suicida, baseado em pensamentos, planos, pequenas auto-mutilações, atentados ameaçadores de vida e fatalidades.
8 - Os conceitos atuais de depressão maior são excessivamente extensos, incluem uma série de riscos para o suicídio e requerem modificações para guiar as avaliações do risco de suicídio.
9 - A avaliação para o risco de suicídio é um processo clínico individualizado e contínuo, sendo que os riscos de um comportamento violento devem ser investigados na rotina dos procedimentos e registros de avaliação psiquiátrica.
10 - As avaliações e relatórios detalhados dos pacientes, devem referir o histórico de suicídio no passado (incluindo letalidade, número e tipos dos atos), idade do início da doença, diagnóstico de doenças psiquiátricas e médicas maiores, histórico familiar de transtornos do humor, abuso de drogas e atos suicidas, histórico e abuso atual de álcool e drogas, tipo da droga, dose, tipo e duração do tratamento administrado, estimativas de aceitação e aderência ao tratamento.
11 - Maiores esforços são necessários para facilitar o acesso precoce e a manutenção do tratamento de homens e mulheres, sua representação mais equilibrada nos estudos de suicídio e em "autópsias psicológicas", nas quais as mulheres predominam.
12 - Um estudo posterior é exigido para testar associações emergentes entre o estado funcional prejudicado dos mecanismos serotoninérgicos centrais com a agressividade e o suicídio.

 

Conclusões sobre o efeito do tratamento médico e o suicídio

São essas as conclusões sobre os efeitos do tratamento médico para os casos de suicídio apuradas no simpósio:

1 - A eficácia das intervenções (médica e psicossocial) dirigidas à prevenção do suicídio é ainda muito limitada e requer, urgentemente, novos estudos.
2 - A melhora do conhecimento e da intervenção clínica oportuna nos transtornos depressivos e psicóticos podem ser meios poderosos de limitar o risco de suicídio, particularmente se são estabelecidos tratamentos contínuos em longo prazo para transtornos recorrentes ou crônicos.
3 - Muitos tratamentos psiquiátricos contemporâneos reduzem ou previnem sintomas e melhoram o estado funcional e a qualidade de vida, mas seus efeitos no risco de suicídio exigem demonstração específica.
4 - Há suporte consistente para o risco reduzido dos atos suicidas durante a profilaxia com lítio, possivelmente devido à suas ações antiagressivas e serotoninérgicas. Existem evidências de que a carbamazepina não partilha deste efeito e é inconclusivo o impacto em longo prazo dos antidepressivos ou ECT (embora ECT tenha uma ação anti-suicida de curta duração).
5 - Permanece a ser demonstrado se as taxas de suicídio mais baixas encontradas durante o tratamento com lítio, de pacientes bipolares e, talvez, esquizoafetivos e unipolares, permitem generalizar seu uso em outras condições clínicas.
6 - Muitos tratamentos requerem um esclarecimento de seus efeitos no suicídio, incluindo anticonvulsivantes, antipsicóticos, ansiolíticos e tipos específicos de antidepressivos (por exemplo, aqueles que sedam ou ativam), particularmente os novos agentes, isolados e em combinação com outros tratamentos.
7 - As impressões clínicas sugerem que as intervenções médicas gerais, paliativas ou de suporte e as intervenções psicossociais limitam o risco de suicídio, mas permanece desconhecido o impacto específico de intervenções particulares.
8 - Comparações de tratamentos específicos para serem anti-suicidas e naturalísticos, com grupos de tratamento não experimentalmente determinados, deveriam ser tanto éticos quanto informativos.
9 - Estudos de tratamentos para transtornos afetivos, psicóticos e por abuso de drogas devem considerar os efeitos sobre a mortalidade total como também sobre o suicídio.
10 - Os estudos de tratamentos de pacientes deprimidos têm, tipicamente, excluído aqueles que são reconhecidos por serem suicidas, bipolares, ou psicóticos - todos carregam altos riscos de suicídio.
11 - Os fatores contribuintes para os reduzidos níveis de diagnósticos (1/3) e tratamentos adequados (1/4 daqueles diagnosticados) de pessoas com transtornos de humor maiores possivelmente 1/10 a 1/20, (no global), como também pela aderência limitada ao tratamento em longo prazo, requerem melhores definição e modificação.
12 - Doses moderadas e individualizadas dos medicamentos, assim como tratamentos realizados em centros especializados e competentes podem aumentar a aderência ao tratamento e, desse modo, contribuir para a redução em longo prazo do risco para o suicídio.
13 - O risco de suicídio pode resultar de mudanças rápidas no tratamento, nas doses ou pela descontinuação dos medicamentos, que freqüentemente ocorrem sem consultas ao médico.
14 - Os estudos da biologia dos transtornos de humor e dos comportamentos agressivos, como também das ações de agentes que alteram o humor podem levar ao desenvolvimento mais racional de novos tratamentos para redução do suicídio.
15 - Não está claro em que extensão os efeitos de tratamentos associados com a redução do risco de suicídio são devidos aos efeitos psico-biológicos específicos ou à melhora da doença psiquiátrica, ou aos efeitos não específicos, porém importantes, de se estar em tratamento ou se o reflexo é por falhas de seleção em relação àqueles que aceitam e permanecem em tratamento.
16 - Agentes que aumentam a serotonina devem ser avaliados sobre possíveis benefícios anti-suicídio e outros comportamentos agressivos e devem ser comparados com agentes que alteram o humor, atuando principalmente nos sistemas catecolaminérgicos ou outros neurotransmissores.
17 - Agentes que interagem com as proteínas quinases e outras enzimas envolvidas nas ações de neurotransmissores devem ser avaliadas em relação aos benefícios contra o suicídio.

 Recomendações sobre esforços gerais e educacionais

São essas as recomendações acerca da abordagem dos casos de suicídio apuradas no simpósio:

1 - Parece ainda ser discreto a compreensão cultural do suicídio como uma manifestação de alguma doença psiquiátrica. Prevalece ainda o sentimento rancoroso e a opinião cultural de que o suicida se conduz dessa forma "porque quer".
2 - São necessários esforços redobrados para melhorar o conhecimento dos clínicos e outros profissionais médicos, profissionais da saúde e o público geral para encorajar o reconhecimento precoce e necessidade de tratamento oportuno da depressão, do transtorno psicótico e do abuso de drogas, a fim de evitar o suicídio.
3 - Devem ser estimuladas revisões mais precisas e freqüentes das escalas para avaliação dos transtornos de humor e para risco de suicídio junto aos clínicos, outros profissionais da saúde e o público em geral.
4 – São necessários esforços contínuos específicos para aumentar o conhecimento e o tratamento de pacientes com transtorno do humor, incluindo aqueles com doença clínica, tratados particularmente por clínicos da atenção primária à saúde.
5 - Devem ser desenvolvidos guias, escalas e protocolos para que os clínicos da atenção primária à saúde, reconheçam a depressão clínica, avaliem de modo eficiente os fatores de risco para suicídio e busquem assistência psiquiátrica apropriada.
6 - O acesso rápido ao suporte do psiquiatra, por parte dos clínicos da atenção primária à saúde e outros profissionais da saúde para os casos com alto risco de suicídio requer melhor eficácia.
7 - Programas de educação clinica e avaliações devem ser incentivadas, com o treinamento adequado e o suporte profissional para programas que tenham o objetivo de prevenir o suicídio na população geral.
8 - Companhias farmacêuticas e de seguros, como também agências de benefícios podem ajudar patrocinando estudos de longo termo sobre a eficácia de antipsicóticos e estabilizadores do humor, que incluam uma grande faixa de pacientes psicóticos ou com transtornos afetivos e que avaliem o risco de suicídio.
10 – Estimular o desenvolvimento de amplos bancos de dados, nacionais e internacionais para estudos sobre o suicídio e outros eventos psíquicos críticos.
11 - O suicídio é um problema importante de saúde pública. São essenciais os esforços para determinar o papel do fácil acesso e a disponibilidade de meios altamente letais de suicídio, incluindo, entre outros, as armas de fogo e o álcool 

A GENÉTICA DO SUICÍDIO

Roy A, Nielsen D, Rylander G, Sarchiapone M, Segal N - J. Clin. Psychiatry, 1999; 60 (2): 12-17

O suicídio é um ato multi-determinado. A importância de fatores psiquiátricos, biológicos e sociais, da psicodinâmica e das doenças físicas já está bem estabelecido, no entanto, evidências têm se acumulado de que fatores genéticos possam ser incluídos entre os muitos determinantes do suicídio.
Estudos clínicos com pacientes psiquiátricos sugerem que o risco do comportamento suicida aumenta na presença de uma história familiar de suicídio uma afirmação que também tem apoio nos achados de estudos de gêmeos e de adoção. Em pacientes com depressão, cerca de 5% revelam uma história de suicídio em familiares de primeiro grau, e cerca de 30% a 50% dos pacientes com depressão que têm história familiar positiva tentam, eles próprios, o suicídio.
Uma história pregressa de tentativa de suicídio está freqüentemente associada com uma tentativa de suicídio mais violenta. Os achados do estudo AMISH indicam risco elevado de suicídio em pacientes com diagnóstico de transtorno afetivo maior e com forte história familiar de suicídio. A presença isolada do transtorno afetivo não foi conclusiva para um risco maior de suicídio (Alec Roy, David Nielsen, Gunnar Rylander, Marco Sarchiapone e Nancy Segal, 1999).
Em estudos com gêmeos monozigotos mostra uma elevada concordância para suicídio, concordância esta estatisticamente significativa em relação aos gêmeos dizigóticos, o mesmo valendo para as tentativas, de suicídio. Em relação ao tipo de herança para o suicídio, os estudos não são muito concordantes, porém a maioria acredita que deva ser poligênica.
Além disso, os estudos genéticos moleculares registraram polimortismos no gene da enzima triptofano-hidroxilase, que está envolvido na síntese de serotonina. O alelo U parece proteger o indivíduo do suicídio, levando à produção e secreção de serotonina em grande quantidade, enquanto o alelo L parece ser responsável pela tendência ao suicídio e a menor síntese e secreção de serotonina. Em estudos com gêmeos, estes achados foram corroborados, o mesmo podendo ser dito para pacientes com transtornos afetivos ou de personalidade.
A suscetibilidade genética para o suicídio, contudo, tende a se expressar apenas nos indivíduos em associação com algum fator de estresse ou algum transtorno psiquiátrico.

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