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| Mutação Psíquica | |||
| Carmen F. Lent | |||
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MUTAÇÃO PSÍQUICA Carmen F. Lent en el jardin de las prohibiciones es el momento en que el hombre cristalización no aquí no allá sino entre acá / allá Octavio Paz
Há anos que o tema me persegue. Por apresentar-se constantemente de formas variadas, conseguiu disfarçar longamente sua identidade. Ainda assim, houve o momento de constatar que se tratava de uma mesma música, alterada apenas na letra. Esse foi também o momento de perceber o isomorfismo entre o assunto e a maneira como vinha aparecendo. No início não me dei conta, juro, nem um pouco. É que não tinha nem como dar-me conta. A psicologia que conheci, com a qual me formei, não tinha elementos, lá pelos anos sessenta, para pensar na individualidade radical dos eventos que levam a uma mutação. Nos informava a respeito de passagens, mudanças, processos que pertenciam à universalidade, às regularidades estatísticas de uma determinada cultura, lugar e época histórica. Portanto, certos fenômenos únicos - embora a longo prazo acabem eles próprios por constituir-se em uma série - foram tão invisíveis quanto o assunto foi para mim. Não sendo reconhecido, o fato não pode ser batizado, não adquire nome, não tem como existir. Porém, existe. E é justamente o paradoxo desta existência inominada, uma das principais causas de sofrimento para quem atravessa a situação. Enquanto o ser humano funciona como un organismo imerso no ecossistema no qual foi gerado e criado sintonicamente; enquanto se mantém unívoco com o conjunto de signos e símbolos mediante os quais foi semiotizado; enquanto é um elemento completamente assimilado ao corpo de valores e expectativas do seu círculo de pertencimento, enquanto toda esta edificação permanece intacta, este ser não tem como reconhecer-se peça de engrenagem. Não realmente. É constitutivo do ser peça de engrenagem a tácita incapacidade de considerar-se tal. Afinal, todos sabemos que para o carioca, quem tem sotaque é o baiano. Tomar consciência do próprio sotaque é nem mais nem menos, deslizar para dentro do jardim das proibições. É transgredir a implícita interdição que temos de lembrar da nossa auto-construção. Interdição que nos organiza possibilitando-nos viver e que, no entanto, tantas vezes nos cerceia empurrando-nos inadvertidamente à cega repetição. Nos impede assim de sermos cúmplices do raio, aquele com o qual nosso desejo poderia entrar em cena e desmontar o obsoleto, o imprestável da vida. Dificulta, enfim, sermos as constantes Fenix que a transformação invoca. Reciprocamente, uma vez instalada a brecha - abertura exilante entre o ser e seu entorno - ja não será possivel retornar à surdo-muda e implícita imersão. Desaprender a noção de sermos peça de engrenagem, noção descoberta nas entranhas, é mais insonhável que desaprender a andar de bicicleta. Os paradigmas são filhos do seu tempo. Com a crescente aceleração da velocidade das mudanças neste século, os modelos com os quais fomos construindo percepções e explicacões, sofreram metamorfoses poderosas. O que apenas vinte anos atrás só podería ser revelado por acidente, que carecia d'un mot pour le dire, atualmente tem suficiente palavra própria para sustentar sua legitimidade. Aqui é onde de fato começa o tema e, para situá-lo, me interessa fazer um certo racconto do seu surgimento. II O fato é que saí de Buenos Aires, terra natal, deixando para trás vinte e cinco anos de querência, pertencimento total e inquestionado. Mais do que isso, inquestionável. O fato é que me vi instalada em Berkeley, California, onde uma série de circunstâncias aparentemente contingentes, me levaram a cursar uma pós-graduação em Psiquiatria Comunitária. O encanto de um casamento recente e a empolgante efervescência californiana dos late sixties lubrificavam minha vida cotidiana. A novidade, para mim, era generalizada, ao ponto de anestesiar-me. Havia escolhido essa virada no rumo da vida e realizava-a com toda a elegância que cabia a alguém que, em algum lugar não remoto de si, retirou -se de toda e quanta coisa lhe era familiar. Me acompanhava inseparavelmente uma sensação peculiar, praticamente corpórea pela sua intensidade.Sensação de haver perdido tudo, quando, curiosamente, estava tudo ali... O fato é que, em meio a este panorama, escolhi entre as ramificações opcionais do curso em que me encontrava, dedicar-me ao que se denominava "Crisis Intervention." Por "acaso", o Centro de Especialização em Psiquiatria Comunitária no qual tinha sido aceita, era um projeto novíssimo que a esta altura só existia em três lugares dos Estados Unidos. Como um sonho cuja protagonista fosse a minha vizinha, não eu, optei pela psicoterapia de situações de crise. A mim, por "acaso" também, o tema parecia interessante. E mais, acenava-me com a tentação de disparar a artilharia pesada da psicanálise argentina com a qual tinha me formado, sobre o solo fértil da praticidade e o empirismo americanos. E certamente me foi necessário fazê-lo. Recebia muita informção sobre a "ïntervention", mas muito escassa sobre o que constituía, em definitivo, um processo de crise na vida de um ser humano. As melhores definições da época não avançavam muito além de uma alteração mais ou menos prolongada, ou então, um estado de desequilíbrio dentro de um equilíbrio prévio... Não me proporcionavam maior especificidade que a receita para frango assado que achei no livro de cozinha que minha mãe mandou para a filha recém -casada : "Tome-se um frango de tamanho médio. Tempere-se a gosto. Cozinhe-se em fogo de temperatura moderada, até que esteja pronto". Que alteração, qual desequilíbrio? Como se condimenta o frango, o que é um tamanho médio? Ainda aquelas definições que eram um pouco mais elaboradas, não instrumentavam para fazer nenhuma leitura diferencial: uma crise podia ser tanto uma briga conjugal quanto um surto psicótico, um luto agudo ou o mal humor resultante de ter quebrado a xícara do café da manhã. Sentada um dia em Monterrey, mais ao sul que meu San Francisco hospedeiro, transitei de repente o túnel de Alice. Era julho, um cálido verão, e uma bonita manhã com sol alto. Mesmo assim, nem pensar em cair no mar. O Pacífico de western estava gelado. Finalmente, surpreendida pelo óbvio, constatei que, durante vinte e cinco anos, julho tinha sido sinônimo de muitíssimo frio. Que quando chegava a temporada de ir à praia - e certamente era uma temporada e não o ano inteiro - já era janeiro e me aguardava um Atlântico refrescante, acolhedor. E que, sem dúvida, a hora em que o sol está neste ponto no céu, é à tarde. Sim, isto deixando de lado detalhes que, por muito explícitos, já nem entravam em consideração, como pagar o refrigerante em dólar ou medir a praia em pés e polegadas. No entanto, também não foi nesse dia que burilei a receita do frango. Apenas, caí no espelho e saí do outro lado, onde nenhum chapeleiro nem rainha de copas, poderiam ser mais estranhos para mim do que tudo isto. Anos depois, chamei este lugar, no qual sem dúvida me encontrava, de "Terra de Ninguém ". Lugar este que, quando o habitamos, não nos propicia estar na melhor forma para fazer qualquer receita. Apenas para sobreviver. Porque o que temos em comum com nós mesmos no ontem anterior ao evento que ali nos depositou, é meramente a anatomia. O que sim temos o tempo todo é a alteração radical, o sol no lado oposto, a temperatura que não encaixa com seu nome e que a pele não espera. Aliás, por definição, pouca coisa é previsível ou encaixa com seu nome na terra de ninguém, inefável jardim das proibições onde fomos parar por mero acidente. E este é o drama. (Isn't it, Wittgenstein?) Anos mais tarde, quando batizei este território, apareceram alguns ingredientes da receita. Chegando ao Brasil, trabalhei sobre o tema da crise. Dirigia nesse momento um Centro Assistencial específico para situações de Crise na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e a quantidade de alterações radicais que solicitavam nosso atendimento, foi determinante para poder formular idéias e operacionalizá-las. Porque, que fazer com aquela senhora com quatro filhos que perdeu o marido da noite para o dia, achando-se rica e vivendo como tal, só para acordar não apenas viúva, como sem nenhum recurso econômico e sem saber fazer nada para ganhar a vida? Ou com os dois irmãos de sete e nove anos, cujos pais haviam sido presos pela repressão - corriam os anos setenta - também da noite para o dia, e não se sabia se estavam vivos, se seriam soltos e quando?Ou ainda aquele jovem que estava para casar e que um desastre deixou cego, impedindo-o de retornar a qualquer modalidade de sua vida anterior? Desenvolvi este tema, teórica e clinicamente, por vários anos, como foco central de interesse. Depois, pouco a pouco, outro assunto foi tornando-se protagonista e deixei de lado - assim acreditei - as crises e suas vicissitudes. III O novo assunto era a migração e da mesma forma como tinha acontecido com o fenômeno da crise, encontrei-me com uma questão relativamente inexplorada pela psicologia, com escassa ou nula literatura especializada. Novamente, um campo teórico pouco menos que virgem dentro do pensamento psicológico do momento. Eu mesma migrei, novamente. Outra vez por opcão, fui passar um ano na Cidade de México, na qual, uma década atrás, havia um alto número de exilados latinoamericanos. Principalmente argentinos, sem a menor perspectiva naquela época, de poder voltar ao país. A mim, como migrada-não-exilada, interrogavam avidamente pelos menores e maiores detalhes da nossa terra. Isto motivou, mais tarde, uma série de reflexões sobre o migrar, o ser exilado, a relação e a diferença abissal entre ambos. Estava , sem dúvida , retornando a um antigo ponto de partida. Ovo de Colombo, como podemos perceber, o velho e esquecido tema da crise e a recente novidade da migração, eram um único assunto. Assunto este que obedece em ambos casos ( tanto na crise quanto na migração ) as mesmas leis , se produz como um mesmo processo e leva ao mesmo desenlace: provoca no sujeito que o atravessa, uma mutação. Entendo o território psíquico como esse lugar corpóreo que a semiotização inaugura para cada indivíduo, para fundá-lo primeiramente como sujeito e concomitantemente como cidadão de alguma latitude. Podemos pensar o indivíduo como tendo simultaneamente uma dimensão universal, que o faz parte da raça humana de todos os tempos: uma dimensão única, que lhe pertence exclusivamente tanto quanto suas impressões digitais e sua bagagem genética: e uma dimensão particular pela qual se torna o sujeito de sua história em um momento e um lugar determinado. Como diz H. Maturana: "Os humanos existimos em nosso operar na linguagem e conservamos nossa adaptação no domínio de significados que isto cria". Neste sentido, o evento que desloca o sujeito do seu território psíquico, pode ser considerado uma migração. Migração esta que não atinge nem o universal nem o único que este individuo é, porém atinge o sujeito, o particular que a sua história construiu. Assim, toda crise consiste no estado de desenraizamento proveniente da desterritorialização. Este estado será a maneira que o sujeito tem de sobreviver ao período de trânsito entre um território psíquico já impossível e outro ainda inviável de ser habitado. Como o indivíduo mantém suas dimensões universal e única, ainda que o particular não possa já continuar funcionando, seu nome é Ninguém, morador na Terra de Ninguém, residente fora do tempo e espaço consensual. Estação na qual a existência do sujeito já não é unívoca com o lugar em que o era, e ainda não coincide com o lugar no qual está. Esta migração é determinada sempre pelo Acontecimento, o Acidente. Evento exterior ao sujeito que assume seu potencial desruptor por ser não só imprevisto, como imprevisível, aleatório, irreversível. Simultaneamente, tem como característica essencial, ser de tal magnitude que desloca o sujeito de todos aqueles atributos que o tornavam esse particular, sem atingir sua universalidade e unicidade. O movimento do Acidente instala o primeiro de três mandatos existenciais negativos, que funcionam como axiomas desta configuração. Este mandato reza assim: Não podes ( continuar a ) ser quem és. E assim é vivido por quem se vê subitamente destituído de todas suas referências, em uma virada inesperada dos acontecimentos. A porta para trás está definitivamente fechada. Não apenas como habitualmente o está, quando o fluxo a vida vai nos empurrando sem retorno: o que está fechada neste caso, é a possibilidade de por em jogo aquele capital que conseguimos acumular em todos os anos de semiotização prévios ao deslocamento, e do qual não podemos dispor simplesmente porque sua moeda nada paga neste novo lugar. Por outra parte, perante o Acidente que
o destituiu de si mesmo, o sujeito não tem condições
atuais de funcionar de nenhuma outra maneira que a conhecida e, portanto,
inadequada. Visivelmente, nos referimos a um processo no qual o fator tempo
é absolutamente protagônico de, pelo menos, três maneiras: a
instantaneidade da instalação do Evento, a sua, irreversibilidade
e a distância que separa o indivíduo daquele no qual há de
se tornar. Não podes (ainda ) ser outra pessoa. A porta para adiante ainda não está aberta. O indivíduo é Ninguém e não tem ainda como ser outra coisa. O que sela definitivamente o quadro é a terceira premissa: Não podes (salvo morto ou delirante) deixar de ser. Com certeza, se o indivíduo não pode dar um passo à frente nem um passo atrás, resta-lhe a alternativa do passo ao lado, lugar em que cái na Terra de Ninguém. Se simplesmente pudesse levantar-se e abandonar toda esta configuração, não existiria a crise. Só que esse "abandonar" seria possível apenas pela morte física, na qual acabaria abolindo também o universal e o único: ou então, pelo delírio com o qual tentasse dar continuidade ao determinado particular que foi. É Ninguém quem sobrevive e não enlouquece. Habita uma terra contingente que aloja o universal e o único restantes, depois do impacto que o retirou do seu próprio lugar constitutivo. Nesta terra, ontologicamente, sendo quem é, não é. Temporalmente ancorado no presente, tem como passado seu próprio ser que perdeu vigência e como futuro aquele que ainda não entrou em vigor. Antropologicamente, a Terra de Ninguém é um limiar, no qual a pessoa reside em estado liminar, sem demarcação coletiva ritual que declare o enterro do seu ser anterior e a iniciação do atual, como acontece tradicionalmente nos ritos de passagem. Este indivíduo, ao invés, perambula socialmente anônimo, desprovido das atribuições que lhe dariam pertencimento a grupos respectivos. Anônimo e consequentemente anômico. Desta sorte, sofre organicamente uma alteração sistêmica global: corpo físico que é, atravessa uma modificação radical da significação que seus próprios orgãos tinham anteriormente. Psiquicamente, o sujeito sintetiza em sua consciência o desenraizamento. Deixou atrás de si tudo aquilo que conseguiu revestir de afetos variados. Mergulhado na ambigüidade, mantém vivo seu desejo sem acesso à organização que lhe permita encaminhá-lo. Foi despojado dos seus objetos libidinizados, incluindo a si mesmo neste despojamento. Como então satisfazer suas demandas essenciais? Até que possa reaprender, residirá no espaço do paradoxo, insonhável barriga de si mesmo. Assistirá lúcido e desperto a sua própria e funda regressão. Privilegiado espaço, certamente, da criação possível.... porém, não ainda, não já, quando a tarefa é sobreviver. E ao mesmo tempo, imprescindivelmente já, posto que sem criação constante, a sobrevivência seria impossível. Como bem diz o brasileiro: "o que não mata, engorda". Se a queda na Terra de Ninguém foi por acidente, o desenlace será criado, inventado. Não há saídas coletivas,nem ritualizadas, nem roteiros para os casos únicos. Que fazer na ausência do argumento original da tribo? Mutar. That's the name of the game. E mutar, gente, é poesia pura. IV Patada no miolo do sentido, isto é o que o Acidente produz. A dor psíquica que se gera pela falta de sentido, pela perda dessa ilusão primordial na qual todos nadamos, é inenarrável. No caso das crises, a dor tem, temporariamente, uma conotação muito especial. Trata-se de uma específica confusão entre não estar e não ser. Quem está na Terra de NInguém não habita nenhuma congruência, portanto, se sente não sendo. A reconstrução que emanará desta situação é, de fato, um ato poético. Com a sua linguagem original invalidada, o migrante terá que escrever a poesia que assuma a ruptura, que a sintetize, a recrie. Desde sua marginalidade, precisará escapulir constantemente à ameaça de permanecer girando na órbita periférica do desviante. Desde a sua marginalidade também, poderá ter acesso à visão de algumas margens e de um grau maior de opção para sua segunda fundação. Cair na Terra de Ninguém é descobrir o jardim das proibições, aquilo implicitamente velado a nosso conhecimento por nossas próprias circunstâncias existenciais. Tomamos como verdades primárias aquilo que na estadia na Terra de Ninguém reconhecemos como sendo regras do jogo, regras de interação, atributos de um lugar e de uma época em que viemos ao mundo e crescemos e, mais próximo a nós ainda, atributos de nosso círculo familiar. Tudo o que faz sentido. Estamos apenas impedidos, habitualmente, de lembrar que fazer sentido é um fazer, um confeccionar aquilo que não vem dado. Como diz o poeta: "Caminante son tus huellas / el camino, nada más/ caminante, no hay camino / se hace camino al andar / y al volver la vista atrás / se va la senda que nunca / se ha de volver a pisar / caminante, no hay camino / sino estelas en la mar..." (*) A saída da Terra de Ninguém está marcada, não por um ritual nem pela instalação de outro roteiro preestabelecido, e sim por uma espécie de lucidez "perspectivista", com a qual cicatriza a impregnação, o sofrimento da retirada do território original. Certamente, há novas aprendizagens. Porém, fundamentalmente, há uma nova maneira de aprender, edificada agora sobre a própria consciência da construção de tudo. Certamente também, a pessoa fará novos vínculos significativos, onde quiçá o mais significativo seja a própria redefiniçao do que é um vínculo. Terá capacidade agora de perceber o que somente foi padecido e será este o momento de superar um obstáculo diferente: o de ser estigmaticamente distinto dos nativos locais do grupo em que se encontra agora. Não já por ser um sujeito que vem de "fora" e sim por ter descoberto uma noção perspectivista da existência e do significado dos territórios na vida cotidiana. Essa compreensão lhe dará, como referência e pertencimento, aquele grupo de mutados que, "migrados" originalmente de procedências diferentes da sua, partilham agora o próprio processo de transformação como uma terra a mais, dado que já não se espera nenhuma como aquela prometida. A terra agora, cada uma, é a prometida por ser esta, na qual o homen é cúmplice do raio, gerador do espaço para a aparição do seu desejo. Já não ligado aqui ou lá e sim entre, nas margens, nos seres que o homem foi sendo e os que criou no caminho. V Estamos sobrevoando, inevitavelmente, por sobre questões complexas, muitas das quais podemos aqui meramente enumerar. Mas eu não gostaria de encerrar sem pelo menos fazer menção a algumas outras. A primeira é epistemológica. Anos atrás, escrevi a respeito da carência de paradigma que possibilitasse a teorização dos processos de mudança ocasionados pelo Acidente - quando este força o sujeito à perda de um continente semiotico : "A carência de paradigma mergulha os terapeutas na inevitável limitação de ter de encarar sujeitos psiquicamente migrantes, com hipóteses, no melhor dos casos, parcialmente adequadas. Na clínica trabalha-se com estas pessoas como se fosse exclusiva ou predominantemente a elaboração de um luto, ou uma regressão severa,,ou ainda a ruptura de um vínculo simbiótico. Como se se tratasse desta pessoa em particular que apresenta um estado de confusão,ou essa peculiar configuração narcísica. Enfim, não se possui ainda o instrumento que permita reunir todos estes aspectos - e outros - em um e mesmo quadro. Toda ênfase na iatrogenia desta limitação, que conduz a severos equívocos - ainda que involuntários e inevitáveis - parece-me pouca. Repetidas vezes comprovei : a síndrome alivia-se quase imediatamente quando devidamente reconhecida, e se alastra quando não é localizada como tal. Acredito que as migrações psíquicas constituem um ponto de interseção de uma pluralidade de retas consistentes em diversas disciplinas do homem, todas elas imprescindíveis para dar ao fenômeno a sua verdadeira dimensão. Não se trata mais de nos enriquecermos com reflexões interdisciplinares e sim de usar, articuladamente, um instrumental que nos permita uma leitura transdisciplinar. Do mesmo modo que acontece com os indivíduos, o paradoxo, a imobilidade das velhas identidades teóricas fechadas, a gestação de novas leituras, assim como a visão de várias margens conceituais e a dificuldade de recriar com as palavras, existem também nesta migração teórica ".. Esta migração é justamente o que é necessário empreender contemporaneamente. As propostas atuais de vários campos do conhecimento nos conduzem, como o próprio acidente, a deslocar-nos, às vezes violentamente, do nosso antigo lugar. Do campo da lógica, da física, das matemáticas, da biologia, da própria psicanálise, nos vemos felizmente bombardeados com proposições que alteram radicalmente nossa concepção do tempo, que reescrevem a relação entre a ordem e a desordem. Nos falam da construção e desconstrução do espaço. Da ruptura da simetria, da emergência da flutuação, do comportamento das estruturas longe do equilíbrio, da auto-organização, da eventualidade de uma lógica ternária. Demolem definitivamente qualquer antiga pretensão à objetividade científica, mediante precisos questionamentos sobre a relação entre o observador e o observado. E mais, chegam a declarar-nos que "objetividade é a ilusão de um mundo sem observador". Enfim, o estudo da subjetividade contemporânea ganhou subsídios de uma riqueza evidente, que desenham certas promessas para a emergência de um pensamento, enquanto por agora esbofeteia a não poucos com a destruição de obsoletos castelos. Sobretudo, golpeia mais duro a quem nunca migrou teoricamente passeando por outros territórios, a quem estabeleceu-se considerando seu próprio saber como enraizado no umbigo do mundo. Portanto, já não nos corresponde lamentar a falta de paradigma atual, que está on the making, para poder reconhecer e aprofundar os efeitos da descontinuidade e aproximar-nos de leituras cada vez mais abrangentes. Talvez nossa tarefa tenha agora mais relação com a necessidade de desvincular visões do mundo que pertencem originariamente a vários paradigmas diferentes, de épocas históricas diferentes e que habitualmente são lançadas em um mesmo discurso sem discriminação, produzindo um grau considerável de caos e incoerência indesejáveis. A segunda e última questão se refere à mudança paradigmática, agora sob um ângulo social e clínico. Quando começei a trabalhar nos
casos de crises, vinte anos atrás, um dos pontos centrais da
questão era a sua característica de caso único. Por
sê-lo, passava desapercebido, ou então, se detectado, precisava de
uma rotunda justificativa teórica para ser abordado. Pois bem,
impõe-se a cada dia com mais clareza a idéia que, na atualidade,
não são apenas os paradigmas do conhecimento os que atravessam
períodos de intensas transformações e sim, a totalidade
dos aspectos da vida humana assim como o próprio planeta, Terra de
Todos. Se, anteriormente, podiamos e devíamos considerar que o Evento
era único e imprevisível na vida de um sujeito, agora a sua
atuação é universal: para o ser humano
contemporâneo, a velocidade das alterações
planetárias a todos os níveis, constitui o próprio
Acidente. Hoje fomos todos atingidos pela descontinuidade. Com todos os seus riscos, seus perigos, suas oportunidades. Cabe a nós compreender-nos, pois, caídos nessa brecha, nem cá nem lá. Brecha pela qual pode-se entrever, olhar para a construção das construções, onde até o maravilhoso canta e, sermos cúmplices do raio. Carmen F.
Lent
Publicado originalmente na coletânea
"Transformação",
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