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{short description of image} Falsíssimo Veríssimo    
{short description of image}  O Olavo de Carvalho    
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Este texto foi extraído parcialmente do site
www.olavodecarvalho.org
   
 

Num recente debate no Fórum Sapientia, aprovei entusiasticamente a indicação do sr. Luís Fernando Veríssimo para o "Prêmio Imbecil Coletivo" de 1999. Para não ser acusado de favorecimento injusto, apresento aqui as razões que, no meu entender, adornam de sobrantes méritos o cronista gaúcho na disputa pelo ambicionado galardão. - O. de C.

O sr. Luís Fernando Veríssimo, que na juventude chegou a ser engraçado, tornou-se na idade madura um exibidor profissional de ódio político paramentado de indignação moral. Não há profissão mais rentável no Brasil de hoje. Em todo caso, o sucesso do tolo não é motivo para que se torne assunto destas crônicas, as quais não têm por objetivo insuflar no leitor a revolta contra aquelas banalidades invencíveis que a sabedoria recomenda aceitar com a mais resignada e indiferente mudez. Eu nunca tocaria no nome do sr. Veríssimo se ele não houvesse tocado num assunto que, por tê-lo lecionado desde 1978, tenho o direito de supor que seja da minha conta. Mais que tocar, ele aí mexeu e remexeu, não só com a inabilidade rombuda de quem soldasse circuitos de HD com um maçarico de funileiro, mas também com aquela desenvoltura presunçosa do palpiteiro que, se imaginando um pregador entre índios, crê poder sem risco de vexame fazer passar por sábia a mais compacta ignorância.

Num de seus recentes sermões à taba, o sr. Veríssimo, apelando a elementos de erudição latina adquiridos na noite anterior entre um bocejo e outro, ensinou à indiada que o problema dela era acreditar no trivium de preferência ao quadrivium. Os silvícolas, diante de diagnóstico tão atemorizante, ficaram preocupadíssimos. Mas, para não ser acusado de abusar da boa-fé popular, o sr. Veríssimo logo explicou aos primitivos do que se tratava. Trivium e quadrivium compunham, na educação medieval, o sistema das Artes Liberais -- o primeiro dedicado à prática da retórica oca e pomposa (gramática, lógica e retórica), o segundo ao estudo dos mistérios sapienciais (aritmética, geometria, música e astronomia). O Brasil, concluia o sr. Veríssimo, estava na pindaíba porque nas afeições nacionais o trivium "superou as artes precisas, tornadas inconseqüentes pela irrelevância política. A gramática, a retórica e a lógica – ou a gramática, a retórica e a lógica a serviço das abstrações e do narcisismo no poder – definem a realidade. As palavras substituem os fatos" (O Globo, 17 set. 99).

Que a comparação do sr. Veríssimo é forçada, é. Mais não poderia ser. O trivium e o quadrivium não tiveram nunca o sentido que ele lhes dá. Ele foi parar tão longe do assunto que se torna difícil explicar onde errou, porque todo erro supõe alguma referência à realidade, e as Artes Liberais do sr. Veríssimo são apenas a imaginação de um caipira cuja distância dos estudos medievais se mede em escala interestelar. A lógica, por exemplo, nunca teve nada a ver com eloqüência -- pelo menos no sentido atual e brasileiro do termo --, e a retórica excluía expressamente do seu domínio a mera arte oratória com que a confunde o sr. Veríssimo, concentrando-se antes na avaliação da credibilidade dos argumentos perante os vários tipos de públicos e correspondendo, mutatis mutandis, ao que hoje é a psicologia da comunicação, uma ciência "de fatos" que, se pode ser acusada de alguma coisa, é de pobreza de abstração. Quem quer que tenha dado ao menos uma lambida na Retórica de Aristóteles sabe disso, donde concluo que o sr. Veríssimo se absteve dessa experiência gustativa, talvez temendo que pudesse lhe ser letal.

Por isto mesmo ele não pode ser acusado sequer de praticar a erística. O argumentador erístico domina seu arsenal de truques e sabe quando trapaceia. Já o sr. Veríssimo age com plena inocência, porque não tem a menor idéia do que está dizendo. Comparando uma coisa que desconhece com outra da qual tem apenas uma vaga idéia, ele chega a conclusões que lembram as de um drogado recém-emerso de uma bad trip a conjeturar em vão onde está e o que foi fazer ali.

Desde logo, imaginar que as artes da linguagem lidem com "abstrações" enquanto as matemáticas se ocupam de "fatos" reflete aquela completa ignorância contra a qual não valem argumentos, melhor convindo, em tais circunstâncias, a chinela da mãe para mandar o sabidinho para a escola.

Alguns dirão, lendo estas linhas, que abusei das minhas forças, que joguei décadas de estudo contra um pobre cronista sem pretensões eruditas. Mas o sr. Veríssimo, como aliás toda a geração de pessoas que hoje dominam o pequeno jornalismo e o show business, não apenas tem pretensões eruditas como se prevalece delas para se tornar uma espécie de maître à penser habilitado a dirigir o curso do destino mental brasileiro, subindo infinitamente acima de suas sandálias de cronista de província nas quais seus rechonchudos pezinhos cabiam com perfeição.

Não há hoje sambista, roqueiro, comentarista esportivo ou apresentador de TV que se abstenha de posar de intelectual e dar lições. A causa disto é patente: uma certa corrente política, desejando exercer sobre o país a hegemonia intelectual, e só dispondo de raríssimos estudiosos sérios em suas fileiras, teve de improvisar "quadros" -- que é como ela denomina as pessoas --, e rodear sujeitos como o sr. Veríssimo de um prestígio e de uma autoridade absolutamente desproporcionais às suas capacidades. O resultado é que hoje a denúncia do verbalismo nacional, tão decisiva para a correção dos nossos costumes, se converteu em imitação simiesca de si própria e se prostituiu em demagogia ornamentada de falsa erudição: o verbalismo criou anticorpos e se alimenta de auto-acusações.

05/10/99

 

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