Salvador, 17 de abril de 2008.

Senhores Editores de A Tarde:

Vimos expressar nosso repúdio à carta enviada em 23 de março passado a este jornal pelo médico Eduardo Sampaio que, brandindo seu diploma, tenta transformar suas opiniões preconceituosas em verdades.

De forma bastante limitada, ele esquece que uma pessoa não se limita a sua condição física, mas também ao conjunto de inter-relações sociais que vive em seu dia-a-dia.

Uma pessoa com deficiência encontra barreiras sociais de difícil transposição, por conta de fatores sócio-culturais, principalmente. Mais difícil de transpor que uma rua esburacada é o olhar de pena e a descrença na capacidade do indivíduo; ou alguém tem dúvida de que uma pessoa surda terá muito mais dificuldade de conseguir um emprego do que uma pessoa ouvinte? Não é por acaso que a Organização Mundial de Saúde registra que a imensa maioria das pessoas com deficiência se encontra abaixo da linha de pobreza.

O passe livre é necessário para as pessoas com deficiência se deslocar, acessar serviços de Saúde e Educação, procurar trabalho. Em uma sociedade que valoriza um inatingível ideal de perfeição, ser um diferente limita. Limita na empregabilidade. Limita na busca por tratamento. Limita na busca por educação. O passe livre ajuda a compensar essas limitações.

Mas, vamos além: a Sociedade ganha com esse passe livre. O Brasil não seria a Pátria do Barroco Mineiro se Francisco Manuel Lisboa, o Aleijadinho, não dispusesse de escravos que o carregassem pelas ladeiras de Ouro Preto. O Mundo não poderia usufruir de muitas belas sinfonias se Beethoven tivesse silenciado sua pena ao perder a audição ou Ray Charles, a visão.

Quando a Sociedade compreende que é preciso diminuir a distância que separa seus filhos para igualar-lhes as oportunidades, faz isso em benefício próprio. Não vivemos mais nos tempos bárbaros do Nazismo, quando se excluía - pelo assassinato em série, inclusive - todo aquele que fosse diferente de uma pretensa perfeição, fosse por raça ou por condição física ou mental.

É por isso, senhores editores, que nós, da AFAGA, repudiamos as idéias daquele senhor, diplomado como médico mas que ainda não compreendeu a grandeza do que é a Humanidade. Diplomar-se médico é relativamente fácil. Ser um médico, dedicando sua vida a salvar vidas e melhorar a condição humana, isso pede o crescimento ético.

Primeira carta do Dr. Sampaio, publicada pelo jornal A Tarde em 23 de março de 2008.
Carta de repúdio da COCAS, publicada pelo jornal A Tarde em 2 de abril de 2008.
Fax do Dr. Sampaio, enviado ao jornal A Tarde e à COCAS em 2 de abril de 2008.
Nota da ARCCA em repúdio à carta do Dr. Sampaio, publicada pelo jornal A Tarde em 10 de abril de 2008.
Nota pública de repúdio da COCAS, editada em 10 de abril de 2008.
Nota da AFAGA em repúdio à carta do Dr. Sampaio, enviada ao jornal A Tarde em 17 de abril de 2008.

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