Quarta-feira, 02/04/08
Fax enviado pelo médico para a Cocas:
Salvador, 02 de abril de 2008.
À Comissão Civil de Acessibilidade de Salvador

Gostaria de informar que solicitei ao jornal A Tarde a publicação da seguinte missiva, enviada nesta data:

"Na última sexta-feira atendi em minha clínica a um garoto de três anos de idade portador de pés planos fisiológicos - aquele pé plano que toda criança tem e que depois corrige-se sozinho - cuja genitora queria que eu desse um relatório médico para que o menor - isso mesmo! - tivesse direito ao passe livre de deficiente físico...Resumo da ópera: não ataquei a honra nem a dignidade de absolutamente ninguém (parece que virou mania agora quando alguém tem opinião diversa ser acusado disso). O que defendi - e defendo - é a adoção de critérios para a liberação do passe livre, já que existem centenas de deficiências e nem todas devem ser premiadas com essa gratuidade - citei aqui o caso de uma pessoa surda sem defeitos físicos aparentes - posto que nem todas geram incapacidade para o trabalho ou mesmo para a locomoção. Na minha visão de cidadão, o passe (não somente o do deficiente) deveria ser fornecido por conta de alguma razão: deslocamento para trabalho, para tratamento médico, mas da forma que hoje está, o indivíduo pode pegar dezenas de ônibus durante o mesmo dia sem que se defina o motivo. Não atribuí o problema do transporte coletivo exclusivamente aos deficientes, apenas citei o fato. Respeito profundamente a todos os portadores de deficiência, estou concluindo um livro sobre as Paraolimpíadas (o qual após publicado terá sua renda totalmente revertida para a Abadef), orientei monitores da área esportiva para o Para-Pan no ano passado, já escrevi cartas para esse periódico falando da falta de adequação dos espaços públicos para cadeirantes e outros deficientes, e, sendo Ortopedista, seria um absoluto contra-senso da minha parte segregar um dos focos do meu trabalho, já que a Ortopedia na sua essência significa "a arte de corrigir e prevenir as deformidades em crianças".

Saliento que o repúdio é um ato que só deve ter lugar quando existe algo grave e que fira princípios e conceitos. Uma opinião é algo que deve ser lida e respeitada nos ditames de uma sociedade livre e democrática, regida pela máxima de Voltaire: "posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de fazê-lo". E como uma tribuna livre aberta ao diálogo, o jornal serve de arauto para que cada um possa se expressar da forma que lhe for conveniente, em defesa de seus argumentos, sem, contudo cair no vão terreno da agressão verbal ou da desmoralização pública. Como se diz no ditado: "opinião e coceira, cada um tem a sua". Infelizmente todos nós sabemos que existe, sim, uma grande "farra" na distribuição de passes livres como um todo (deficientes, militares, idosos), que faltam critérios mais apurados para definir quem de fato teria direito ao benefício, que a própria lei é falha quando deixa margens e brechas, e que a sobrecarga desse tipo de passe - foi a isso que me referi na missiva anterior - penaliza o próprio sistema, pois cepa recursos que poderiam melhorar o transporte coletivo como um todo, inclusive aumentando a frota de veículos para portadores de necessidades especiais. Julgar que uma opinião de um profissional, formado há 17 anos e que trabalha diretamente com isso todos os dias, e que por isso mesmo entende as agruras e os constrangimentos pelas quais passam portadores de deficiência física em nossa "gloriosa" cidade possa ser encarada como preconceito, discriminação, ou que possa ter havido ataque à honra ou à dignidade de alguém é no mínimo um exagero.

Primeira carta do Dr. Sampaio, publicada pelo jornal A Tarde em 23 de março de 2008.
Carta de repúdio da COCAS, publicada pelo jornal A Tarde em 2 de abril de 2008.
Fax do Dr. Sampaio, enviado ao jornal A Tarde e à COCAS em 2 de abril de 2008.
Nota da ARCCA em repúdio à carta do Dr. Sampaio, publicada pelo jornal A Tarde em 10 de abril de 2008.
Nota pública de repúdio da COCAS, editada em 10 de abril de 2008.
Nota da AFAGA em repúdio à carta do Dr. Sampaio, enviada ao jornal A Tarde em 17 de abril de 2008.

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