
PROSA
A maneira como cada qual se expressa pode assumir um outro estilo, neste link escolhemos a prosa. É o lugar onde pode ter acesso e mergulhar na riqueza e simplicidade da literatura. Pequenos textos de qualidade versando o livre pensar, rumo a uma instância de pura reflexividade, acerca do que a própria vida nos oferece, bem como a busca de sentido para a mesma. A prosa é uma outra excelente faceta que o Clube da Simpatia prestigiou como sendo o elo de ligação de todos os humanos.
(Autora - Gisela Alves Sinfrónio, Sócia n.º1 do Clube da Simpatia e Presidente da Direcção)
“Todos diferentes, mas iguais”
Esta frase que, hoje em dia, se tornou slogan em muitas rádios e canais de televisão, dando origem a cartazes, espectáculos e até a canções, não é assim tão fácil de interpretar como ao princípio se presume e também não me parece que seja muito feliz...
Senão vejamos:
Como é que nós podemos ser todos iguais, se nós próprios não somos iguais ao que desejamos parecer?!...
Se me disserem que ao nascer todos nós deveríamos ter direitos iguais… Aí, concordo. - Direitos a uma vida social digna com tudo o que de bom ela comporta: boa alimentação, assistência na doença (igual para todos); instrução (também igual para todos), aproveitando a vocação de cada um e dando-lhe na vida a oportunidade de se poder realizar como cidadão útil à humanidade. Todos merecem o apoio e a consideração de todos, sem xenofobia e sem intransigências e, por fim, ter direito a uma reforma decente para poder viver com dignidade até ao fim da vida. Até aqui, tudo bem…"Todos (com cores) diferentes, (é de uma falta de gosto espantosa, chamar a atenção para este facto) mas (direitos) iguais", para qualquer raça que exista sobre a Terra. Mas... nós sabemos que isso nunca será possível, pelo menos nas gerações mais próximas… Enquanto os homens sentirem na alma o egoísmo que leva o mundo à divisão social de classes… Enquanto os homens diferenciarem, fotografarem e compararem as diversas cores da tez de cada raça e… enquanto os homens fabricarem armas… isso nunca acontecerá...
Depois de escrever este pequeno trecho estaria concluído o ensaio. Mas… eu quero mesmo é debater a falta de imaginação para esta frase tão pobre e tão ambígua:
“Todos diferentes, mas iguais”
Voltemos ao princípio... e vamos ensaiar uma nova versão e provar que, afinal, nós somos quase sempre desiguais daquilo que queremos parecer e não somos assim tão diferentes, já que, para mim, ter a tez preta, vermelha, amarela ou branca, não tem significado nenhum. Nós somos criaturas humanas e todos merecemos a mesma consideração e o mesmo respeito, independentemente da nossa raça, credo, ou ideal político. E, quanto à forma física, não há diferença nenhuma entre todas as raças. Todos temos cabeça, tronco, membros e vísceras. E, em todos, o sangue é vermelho e a corrente sanguínea processa-se da mesma maneira.
Portanto...
Todos desiguais, mas não diferentes,,,
Todos desiguais na maneira de se expressarem, de sentirem, de quererem, de amarem... Razão tinha o poeta Fernando Pessoa o “mais célebre dos escritores portugueses do século XX e um dos mais célebres de sempre…”, quando decidiu mostrar, através dos heterónimos que inventou, como era tão desigual dentro de si...
Será que dentro de todos nós existem também vários heterónimos?...
Não sofremos, durante a nossa existência, várias mutações e até mesmo durante um só dia, isso não acontece?…Como é que nós podemos ser todos iguais se somos tão desiguais em cada hora, em cada instante?... Se tantas vezes chegamos a duvidar que nos conhecemos e fazemos coisas (tantas vezes disparates), que nunca imaginámos ser capazes de praticar… Chegamos até a duvidar do nosso eu, da nossa capacidade intelectual, da nossa existência…
Numa das suas, “Páginas Íntimas”, diz-nos Fernando Pessoa:
“Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ele julga que eu tenha.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
(…) Sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens…”
Não será um pouco isto que todos nós somos e não sabemos definir, nem explicar?…
Muito mais poderia ser dito sobre este tema apaixonante, mas, como o ensaio tem que ser pequeno, termino afirmando:
Somos todos desiguais, até dentro de nós…
e não somos diferentes…
Para todos, a vida começa ao nascer e termina sempre na morte.
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Tema – A FAMÍLIA
"AUSÊNCIA"
"Num deserto sem água
numa noite sem lua
num país sem nome
ou numa terra nua
por maior que seja o desespero
nenhuma ausência é mais funda do que a tua."
(Sophia de Mello Breyner Andersen)
A AUSÊNCIA PRESENÇA
Concordo em absoluto com o conteúdo desta pequena, grande poesia de Sophia de Mello Breyner Andersen. Realmente, nada, nem o maior desespero, se pode comparar à ausência de quem desejamos a presença. Se aplicarmos este teorema à família, ele assenta quem nem uma luva.
Claro, que não é da "ausência física" que pretendo falar neste pequeno ensaio sobre a Família, porque essa pode, na verdade, causar o "desespero da saudade" mas, mesmo assim, ela é possível de definição e também de superação quando voltamos a encontrar esse alguém que tanto desejamos ver. Se essa ausência física for a da morte, mesmo assim, ela é possível de definir como a "saudade sem remédio" e, para tal, é o tempo o melhor lenitivo.
É da "ausência presença" que pretendo falar, ela é, na verdade, incomparável no desespero que provoca. É tal o seu nefasto poder sobre o nosso sentir que, quanto a mim, é o mais terrível "vírus" que se pode instalar nas famílias, tanto mais que é altamente contagioso, se propaga de pais para filhos e é bem difícil de combater.
De tal maneira a "ausência presença" tem invadido os nossos lares que quase a podemos considerar a causa dos maiores males psíquicos que presentemente assolam as famílias, podendo até, em muitos casos, principalmente nos jovens e em pessoas mais sensíveis e introvertidas, levar à saturação de tudo e de todos e, em consequência disso, ao vício das drogas, ou do álcool e até ao suicídio.
Temos que lutar para que a indiferença e o silêncio não se instalem nos nossos lares. É preferível uma discussão, ou até uma pequena agressão física do que o silêncio, a indiferença, ou seja a "ausência presença".
Temos que estar sempre presentes em todos os cantos da nossa casa, isto é, na alma dos nossos entes queridos. Não podemos deixar que eles se fechem por dentro e fiquem lá sozinhos a pensar que o mundo acabou e não há mais sol no seu jardim. Temos que tentar espreitar, nem que seja só por uma nesga da janela que se está a fechar à nossa beira.
Por favor, famílias de todo o mundo, vamos todos juntos levar mais sol aos corações dos nossos filhos, dos nossos netos, de toda a nossa família.
Vamos abrir a nossa janela e tentar abrir as que se estão a fechar ao nosso lado, dizendo:
- Abre a janela, não estás
"Num deserto sem água"
Eu estou aqui:
- Sou a água do teu deserto>
e quero estar presente para a levar aos teus lábios e dizer-te: - Bebe que assim não morrerás à sede de afecto. Não estás
"numa noite sem lua"
Eu estou aqui para te mostrar que:
- Sou o luar na tua noite/font>
Por isso, não morrerás nas trevas. Eu quero repartir contigo a luz das minhas ideias e ver as tuas. Abre também a porta e vem para rua, não estás
"num país sem nome"
Estás comigo,
num país chamado Amor
onde quero viver contigo. Vem, porque não estás num ermo
“Ou numa terra nua"
Aqui há um jardim,
em que a terra é ternura
e as flores. carícias perfumadas!
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- Há milhões de janelas que estão a fechar-se em todas as famílias por culpa da ausência dos nossos corações e,
"Por maior que seja o desespero
nenhuma ausência é mais funda do que a tua."
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