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Periodização, divisão em períodos
da história, em sentido estrito, ou de qualquer manifestação da
atividade humana (literatura, artes, ciências). Esses períodos tentam
abranger, sob um nome específico, traços comuns e constantes, sejam
estes os de um tipo de governo determinado, uma estética, descobertas
científicas ou importantes mudanças econômicas. Normalmente, o princípio
e o final de um período — seus marcos — coincidem com fatos que
possuem qualidade de ruptura com o tempo anterior e de influência sobre
o seguinte.
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Periodizar implica a tentativa
de dominar o tempo, de obter uma perspectiva que permita criar um quadro
de referência. O poeta Hesíodo, no século VIII a.C., estabeleceu na Theogonia
ou Gênese dos deuses uma cronologia mítica que pretendia
explicar a evolução da sociedade humana através de quatro idades: de
Ouro, de Prata, de Bronze e de Ferro. Os metais indicavam uma decadência
progressiva da humanidade, mas com a certeza de um retorno cíclico.
Cumprido o processo de chegada à última Idade – a de Ferro -, o
ciclo seria reiniciado. Este mito, retomado por Ovídio nas Metamorfoses
e, entre outros, por Virgílio na IV de suas Églogas, serviu de
base a muitas reelaborações literárias e foi uma das fontes do desejo
(ou da utopia nostálgica de um passado melhor) de reconquistar a Idade
de Ouro ou, pelo menos, de seu retorno. O discurso sobre a Idade de Ouro
aparece em textos das épocas seguintes, unindo a tradição clássica
ao mito cristão do paraíso. Don Quixote elabora uma proclama sobre a
felicidade deste tempo e se lamenta sobre as abominações do presente
e, várias décadas mais tarde, John Milton escreve O paraíso
perdido. Em textos mais recentes, a República dos sonhos, de
Nélida Piñon, é também recriação da saudade pelo espaço (Galícia)
e o tempo só recuperáveis no mundo da fantasia, espaço e tempo muitas
vezes identificados com a infância.
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A
RELATIVA HISTÓRIA DAS IDADES
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Christoph Keller (1638-1707),
mais conhecido por Cellarius, foi o criador da divisão da história em
idade antiga, Média e Nova (posteriormente Moderna). O conceito de
Idade Contemporânea surgiu na França para designar os fatos
posteriores à Revolução Francesa.
Nem todos os historiadores
coincidem quando se trata de fixar o final de um período e o começo de
outro. É compreensível e até desejável: dados o dinamismo dos fatos
e a conjunção de multíplices fatores na gênese de um processo histórico,
nem sempre é possível (nem seria aconselhável) fixar uma data como
definitiva, porque sua maior ou menor importância também depende da
perspectiva do historiador, do país que ele estuda e, naturalmente, de
sua posição ideológica frente aos acontecimentos. No caso do Brasil,
certas periodizações escolhem o ponto de vista político para dividir
a historia brasileira: Brasil anterior ao descobrimento, Brasil
colonial, Brasil imperial e Brasil republicano. Outras recorrem à divisão
por ciclos econômicos: ciclo do açúcar, do cacau, do café, da
borracha, do gado. A historiografia não é alheia às correntes filosóficas
e, portanto, pode dominar nas suas análises uma visão idealista — a
história como feita por grandes heróis — ou materialista — a história
como resultado da ação anônima dos povos, das técnicas de trabalho e
até da superação através dos tempos dos índices de pobreza. Ver
Jacques Le Goff.
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ENTRE
O MITO E A HISTÓRIA, A ECONOMIA
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A periodização dominante
(quatro idades, como no mito) tem ainda o limite da visão eurocêntrica.
Por essa razão, algumas tendências historiográficas questionam como
aplicar o conceito de Idade Média, por exemplo, à evolução dos povos
africanos, a algumas sociedades asiáticas e, inclusive, às culturas pré-colombianas
(ver Pré-colombiano). A teoria marxista dos modos de produção
(asiático, antigo, feudal, burguês moderno ou capitalista, socialista
como forma prévia à construção do comunismo) foi a primeira
tentativa de definir períodos que, mais além do sentido restrito do
histórico, incorporavam fenômenos econômicos para explicar a
transformação das sociedades. Marx também contempla a existência, prévia
aos modos de produção enumerados, da comunidade primitiva — o tempo
da sociedade tribal —, em que a terra pertencia a todos e o clã era a
unidade básica. Apesar do avanço que esta teoria representa — por
considerar fatores materiais e não só ideais na evolução da
humanidade — ainda permanece a visão de um tempo onde tudo era de
todos e de um futuro harmonioso, sem luta de classes. Precisamente a
reflexão crítica dos próprios filósofos marxistas chega a assinalar
que o filósofo alemão trouxe à terra o que a religião prometia no céu.
Porém, introduziu na consciência dos seres humanos a possibilidade de
construir a utopia através da luta, o que não impede a lucidez da visão
irônica, como acontece no filme do diretor italiano Elio Petri
(1929-1982) intitulado A classe operária vai ao paraíso (1971).
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DAS
VISÕES IDEALISTAS AOS TOTALITARISMOS
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A periodização histórica
vigente parte de um fato questionável: a separação entre a era cristã
e a anterior a Cristo. Mas o judaísmo e o islamismo, por exemplo, não
têm o mesmo calendário. Qualquer periodização feita a partir de um
critério não universal corre o risco de cair no etnocentrismo, ou
seja, numa visão que deixa fora outras concepções do mundo. Portanto,
a historiografia deve periodizar tentando resgatar as constantes
decisivas na compreensão e interpretação dos fenômenos sociais,
considerando-os como a confluência das leis econômicas, os fatos políticos,
as lutas pelo poder, as revoltas, a coexistência em diferentes espaços
e num tempo concreto de crenças e crendices, formas de alimentação,
costumes indumentários que não se excluem, mas se iluminam na captação
do conjunto.
Para os fundamentalismos
religiosos e/ou políticos, no extremo oposto, não existe a dialética
nem a consciência (pelo menos expressa) da inevitável mudança dos
costumes e das estruturas sociais. Fenômenos como o nazismo, o
fascismo, o franquismo, seus herdeiros pobres (as ditaduras
latino-americanas) e tantas outras tentações messiânicas teimam em
deter o tempo, acreditando ser os representantes de valores ou instituições
imutáveis: a raça dos árias em Hitler e a exaltação do Sacro Império
Romano-Germânico, a glória do império romano em Mussolini, a reserva
espiritual de Ocidente em Franco, os valores ocidentais e cristãos em
muitos ditadores latino-americanos.
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CONCLUSÕES
E INTERROGAÇÕES
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A periodização de Cellarius
continua sendo um guia – só um guia - para ordenar os acontecimentos
e até para compreender o trânsito de um movimento artístico ou literário
para o outro, bem como para abranger descobertas científicas e
relevantes processos históricos: a revolução copernicana (ver
Nicolau Copérnico), o descobrimento de América, a Revolução francesa
e sua conexão com o nascimento do liberalismo, a Revolução russa ou a
cubana como primeiros testes da possibilidade do socialismo, a
descoberta da penicilina (ou a expectativa da descoberta, como no caso
da vacina contra a Aids), as vanguardas artísticas do século XX.
A periodização utilizada
no âmbito artístico ou literário também deve ser considerada um
simples guia. A compreensão de certas tendências na arte é ainda mais
complicada, porque muitas vezes o desejo de estabelecer princípios
gerais enfrenta o valor de criadores que superam e vão mais além da época
em que vivem. Por citar alguns exemplos, artistas como Bosch ou
Arcimboldo têm validez porque, mesmo pertencendo ao século XVI,
antecipam preocupações e buscas do século XX. Muito difícil é, também,
fixar rigidamente os limites que separam o Renascimento do barroco e do
maneirismo. Dilema parecido surge quando se pensa no trânsito do
romantismo ao realismo e ao naturalismo. Na caracterização do
neobarroco coexistem movimentos, estilos e escolas diferentes.
Qualquer periodização
não deveria perder de vista a complexidade dos fenômenos humanos em
cada uma de suas manifestações, a relevância da função das minorias
na sociedade e, com elas, a difusão cada vez maior dos princípios da
tolerância e o respeito à diferença, sem falar dos comportamentos e
da importância dos fatores subjetivos. A periodização não é apenas
um sistema útil para classificar. É também sinal para compreender a
diversidade social e histórica.
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