Poemas

 

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I

Ó velhas ovelhas!

Ó velhas ovelhas! 
Distantes 
Dos pastos e do pastor 
  /esquecidas 
Onde apascentar 
seus últimos segundos 
se o campo é sáfaro 
e a siringe não soa 
e nem voa o vento 
como dantes soía? 
(PA)
"Menino e Ovelha"
Vicente do Rego Monteiro, 1924
 

II 

A hora dos lobos

Agora 
precisos se fazem 
os altivos gestos 
que dantes fizeram 
os melhores cavaleiros.
  
Se Pã adormecido 
sua flauta ausencia 
aos campos partamos 
em busca dos lobos 
que partidos já foram 
inúteis rebanhos.
(PA) 

III

Poema 1/67

Não é o silêncio  
Que me deixa triste.  
É antes a certeza  
do tempo passando  
entre tanta ausência  
e nenhuma Rosa.  
(PA)  

 IV

Paisagem sonhada

Margaridas em bando
amarelam o campo ontem
de verde banhado todo.
Nem as folhas ousam guardar
a sua cor mesma
porque afora o reflexo da florada
o sol a paisagem salpinta
num ouro só.
(Inédito) 

V

A Rosa, o tempo e o vento

Rosa 
por que escondes os teus gestos? 
passa o tempo vem o vento 
amanhã será chorar. 
  
Rosa 
fazes esconder ternura 
sejas pura, mas não tanto 
sem se dar não há viver. 
  
Rosa faço-te mulher querida 
onde ausência, ponho vida 
o amor onde a dor ida. 
  
Rosa 
o que canto não invento 
não te quero Rosa ao vento 
só teus gestos meu intento. 

VI

Em comtemplação

Venho de uma remota
Hang-Hla.
Por isso
esse meu cismar às vezes distante
como estivera em contemplação
sob um templo em Burma.

VII

Cinquains (*)

1
Segredos 
correm entre 
ontem e hoje acabam 
amanhã dispersos na voz 
do vento. 
2
Tardia 
a primavera 
sem cores ou perfumes 
é pálida recordação 
que se esvai. 
3
Se o tempo 
Lento passasse, 
Assim, como o vento, 
Tocando, leve, as folhas secas 
Do outono? 
4
Meu pobre 
canto triste: 
retrato deste tempo 
de esperança sem fim. 
(Inédito) 
(*) O cinquain é uma estrofe de cinco versos, criação da poetisa Adelaide Crapsey, cada um tendo, respectivamente, duas, quatro, seis, oito e duas sílabas.

VIII

Pastor aprendiz

De pastor aprendiz
Não passa
Quem apascenta palavras

IX

Tempus edax rerum (*)

Na tênue luz 
que meus olhos 
tentam vislumbrar 
repassa uma estação 
a recender flores e frutos. 
Mas a colheita distante 
não me assegura dádivas. 
O Inverno é próximo 
E exíguo se faz o tempo. 
  
(*) O tempo destrói tudo... 

X

Pastoral

Não sei se leva o pastor
as ovelhas ou as ovelhas
pastoreiam o pastor
 
É tão plácida a paisagem
percorrida pela lembrança
que gestos não presenciam
a condução do pascigo.
 
No ar ainda ressoam sons
de uma flauta distante
e acompanhando um lene vento
olor de alfazema se espalha
como graça.

XI

Espelho e imagem

Um dia tu me foges 
como água da fonte. 
Em outro sou o mar 
onde tu me lanças 
sem mistérios ou limites. 
Somos, então, espelho e imagem 
se realizando. 
 

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