por Carlos Drummond de Andrade
Rio, 10 de setembro de 1975.
Prezado C. Harrison,
Sou grato ao seu pensamento de ofertar-me o
volume de “Pastor Aprendiz”, em que a poesia encontra expressão
concisa e delicada. E grato, ainda, pela generosidade
com que me associou ao seu livro, mencionando no colofão um
aniversário pessoal ainda não ocorrido. Mais velho por antecipação,
mais sensibilizado, abraço-o cordialmente,
Carlos Drummond de Andrade
|
por Marco Lucchesi
C. Harrison é um poeta de leve e cristalina
expressão. Atento ao saber e ao sabor do verbo, compõe delicadas
aquarelas, vacilando en-tre a luz e a sombra, entre o enigma e o ato de
velar, desvelar, na imi-nência de uma indecisa aurora se-mântica.
Daí a sóbria ebriedade de Umbria, transida por tanta melan-colia
e esperança. O poeta está em paz consigo próprio.
O conflito é administrado pelo entrechoque dos signos, testando-lhes
o valor, di-luindo-os em pura melodia. Harri-son encontra-se no arco da
sapien-tia, de que nos fala Barthes em sua Aula. Por isso mesmo, embora
to-cante a menção a Essênin (Até lo-go, amigo
- da svidania dmg moi), Harrison não teme a noite transitó-ria
- justamente pela transitorie-dade de tudo - e nem mesmo as vozes interiores.
A sua poesia, por elaborada e consciente, aspirando a uma dicção
clássica, aproxima-se, com as devidas diferenças, de notá-veis
poetas da modernidade, que também se aprimoram no vetor sen-timento/forma.
Destaque-se, nesse sentido, o poema Pré-visão, pela extrema
eficácia, entre outros.
Terá sido fácil a conversão do homem e do poeta
para chegar a Umbria? Parece que não. Talvez o termo de uma longa
jornada. Lon-ga e penosa, sob o sentimento das temíveis parcas (An
die Parzen), do devir, da caducidade das coisas. Quantos saberão
arrancar de seus desvãos o mesmo apelo de luz e de sombra? E todo
termo sofre a latência de um início. Harrison pode afirmar
encontrar-se no meio do ca-minho de sua vida, ultrapassada a selva escura,
repassando tudo que ficou para trás, na luz do agora. Dai-lhe a
paz. Uma palavra insis-tente? A que C. Harrison esperança.
Está na hom da Psicanálise do Fogo.
(em Perugia, Assis, Chile, Nordeste) em sua Umbria possa levar sempre
alto seu canto e repetir, na abertura do Tu, como já se disse em
umbro: fammi strumento della tua pace. |
por Amelia Sparano
Rio, 13 de novembro de l989
Prezado Colega,
Com algum atraso, inevitável, agradeço
seu inspirado livro, Umbria, que me proporcionou uma meditativa leitura.
Estava eu correndo na Umbria geográfica, pela Autostrada
del Sole, e passando pertinho de Fabro, Orvieto e Attigliano, quando seus
poemas chegaram em minha casa. Encontrei-os à
minha espera, há poucos dias. Voltando da minha viagem à
Itália, breve mergulho num passado já longínquo. Complexo
de andorinha... Seus versos mencionam verde, nardos e açucenas.
Mas o título Umbria evoca as oliveiras de meu Mediterrâneo,
testumunhas de guerras e lutas, que continuam e serão sempre, símbolo
de paz. Poética visão de serenidade, sublimando paixões.
Aplaudo ao canto – e o cantor – que anda “de mão dadas com os devotos
da luz”.
Desejo-lhe a merecida divulgação, que significa sucesso.
Retribuindo seu fraterno abraço.
Amelia Sparano
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por Heloísa Maranhão
Caro poeta,
Li seu belo livro de poemas, Umbria, preocupado
com o “homem e sua circunstância”. Versos, aparentemente
simples mas com imaginação e sensibilidade que tocam o leitor
pela fluidez encantatória de sua música. Foi bom ler você.
Heloisa Maranhão
Rio, Primavera 89
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por Silvio Meira
Rio de Janeiro, 2 de outubro de 1989
Meu caro C.Harrison,
É com prazer que acuso o recebimento
de seu novo livro, intitulado UMBRIA: Li-o todo, aproveitando momentos
noturnos de silêncio, quando "o silêncio é necessário
como pausa lúcida.”
Poesia sutil, extremamente delicada, deve ser saboreada gota a gota,
como certos vinhos raros. Agradeço-lhe a oferta e o felicito
pelas mensagens que transmite nesta época de tanta violência
e insensibilidade. Repousei na sua leitura.
Receba um cordial abraço do
Silvio Meira
|
por Nair Lacerda
Na poesia, a paz
Os últimos dias deste nosso tempo tèm.
sido cheios de apreensões, dúvidas, e até revol-tas.
Há muita gente caindo em depressão, sem indagar
de si própria se há realmente motivo ara isso. Criou-se
uma atmosfera anormal, de medo e nervo-sismo, convivendo,
por outro la-do, com afirmações de
certezas e esperanças. Infelizmente, a de-pressão é
mais contagiosa do que a euforia. Não querendo deixar-me
absorver por uma ou outra corrente de opiniões
e sentimen-tos, não gostando de apreensões doentias nem de
alegrias exage-ra das, tenho procurado o auxílio e a companhia
em meu amigo de todas as horas: o livro. De-bruçada
sobre aquelas páginas, desligo-me das profecias pessi-mistas e das
sedutoras expecta-tivas. Espero, apenas, que esperar é uma das coisas
úteis que o tempo nos ensina. E eu tive muito, muito
tempo para apren-der vivendo. Assim, leio e releio, enquanto espero.
Seja por estar interes-sada pelo que ainda é inédito
pa-ra mim, seja o prazer da releitura, consigo guardar a serenidade que.sempre
procuro manter, embora concorde com Amado Nervo, o mexicano, poe-ta
e amigo (que eu jamais vi e ele. nunca soube se eu existia) mas é
um dos preferi dos no meu elenco de amizades unilaterais, quando diz que"toda
a sereni-dade é um pouco melancólica".
Hoje, recorri ao meu remédio habitual, e dele recebi a dose
exata, e sedativa: um pequeno livro de pequenos poemas, como um
desses cofres pequeninos que guardam principalmente anéis,
preciosos anéis com uma. histórìa. A capa diz que
o livro é de C. Harrison, e o título é Umbria. Autor
que não conhe-ço, mas que teve, talvez, a intui-çâo
tão própria dos poetas, de que eu estava precisando de um
livro assim. Na página de abertura a o poeta cita o autor daquele
delicioso Plarero y yo, Juan Ramón Jime-nez: "Forjadores de espadas/
aqui. está/ a palavra!"Sim, ali estava a dócil, flexível
palavra, que cria universos e explica o Criador à sua criatura.
E eis que ela nos diz, pela voz do autor de Umbria, em "Lembrete
2": "Companheiros, o pão e a
água/ dividamos./ Dividamos as ale-grias e as dores/ as tarefas
e os lazeres/ e não esqueçamos: não somos os únicos,
sobre a face da Terra". Para mim,.que fiz do silêncio uma das coisas
indispensáveis à mente e ao coração do
ser huma-no, como foi bom vê-lo descrito, em toda a grandeza do seu
efeito criativo, nas sábias quatro linhas de Silêncio
Necessário: "O silêncio é necessário/ como pausa
lú-cida/ O silëncio é necessário/ se, como vento,
semear". Mais adiante, em Post me, as pala-vras, que
tudo dizem, que tudo explicam, falam de
tranqüila aceitação, quando murmuram: "Um
dia seremos lembrança / imagem se apagando/ Passando
c omo se fora nuvem./ E de re-pente/ nem lembrança nem ima-gem/
seremos apenas um nome / nos documentos dos descenden-tes./
Um dia seremos somente/ pó e silèncio pousados/ no tempo
do nunca mais.
Não faço, nunca fui crítica, no
sentido dos que praticam essa difícil e delicada
atividade intelec-tual. Não estando preparada pa-ra isso comento
apenas o que me desperta atençáo, o que me traz um
momento bom, o que me emociona, e, em julgamento muito
íntimo, muito meu, me enriquece. Umbria,. que,
talvez pela sugestão do título levou-me
a recordar o Cântico de Sáo Francisco, filho amado daquele
retalho de chão italiano, pare-ceu-me trazer consigo o tom do-cemente
melancólico que Ama-do Nervo observava na sereni-dade. Melancólico,
sim, mas su-gerindo paz, a esquiva paz, única forma de aceitar e
dar sentido à vida.
Nair Lacerda
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por Stella Leonardo
Rio, 27/IX/89
Meu caro C. Harrison, Poeta, muita grata pelo
envio de “Umbria”. Tudo o que o Lucchesi diz é verdadeiro.
Gosto de e louvo seu cristal solombrado.
Certa vez mestre Drummond me disse: “Só é hermético
quem não consegue ser claro”. Ora, sua lucidez, Harrison, não
turva nunca a poesia, mesmo a que se ensombra.
Um abraço fraterno da
Stella Leonardo
|
por Angelo Longo
Umbria também franciscana de Harrison
C. Harrison estreou com Pastor Aprendiz, edição
da Livra-ria São José, coletânea de poemas de altíssimo
quilate estéti-co, cuja plasticidade romântica o genial Luís
Antonio Pímen-tel aferiu em valioso prefácio, afirmando a
certa altura: "Diz-se aprendiz, mas seu rebanho é manso. Disciplinado.
&m tratado. Suas palavras são pele vestindo um corpo. Música
vestindo na canção". E acrescenta, definitivo, definindo
o poeta: "Sua poesia é um rebanho lírico de palavras. Sintagmas
de contornos momos e redondos de lã macia".
Ainda sobre seu primeiro livro, Carlos Drummond de An-drade, hoje
na companhia de outros pássaros e anjos, afirmou, convencido: "Sua
poesia encontra expressão concisa e delica-da". E note-se a raridade
dos encontros verbais de Drummond sobre outros artistas.
Neste Umbria, C. Harrison não mais "aprendiz", mas se-nhor
de uma poética adulta e mestre de uma arte superior, refaz o itinerário
de seus caminhos e reafirma o rumo de suas andanças, justificando
posições e militâncias.
Político, aristotelicamente político, homem de seu
tempo e ser humano consciente de seu espaço solidário, C.
Harrison é profeta e guerreiro, armando-se de estrofes de protesto
e espe-rança. Apóstolo, toma-se por testemunha de uma idade
medievalizada, neste fim de milênio, e proclama-se mártir
em agonia de modernidade.
Há momentos outonais na poesia de C. Harrison. O poema
Parco Barco atesta a sensibilidade de sua lírica, servida por um
artesão seguro de seu ofício: Breve Posse é vitalidade
ontológica do ser puro, em essência e substância, marcando
instantes de altíssimo estágio na atual poesia do país.
Harrison, na linha transcendental da imagística, assume têmperas
de um metal superior. Todo o estro de C. Harrison é uma sinfonia,
encadeada em tons seqüenciais de três unidades: a primeira,
servida pela epígrafe drummoniana; a segunda, pela de Hôlderlin
e a última pela de Vinícius. Compassadas harmonias vivenciadas
sob a proteção de três querubins da solidão
e da esperança. Harrison pluraliza cânticos em códigos-irmãos
como nos poemas articulados na imortal língua de Cervantes e Lorca,
Neruda e Dario. Há, muitas vezes, neste transplantar lingüístico,
mesclas de sons íntimos e já anunciados como o caso do Poema
II, lembrando as pegadas de Gabriela Mistral. 0 universo vocabular dos
poemas de C. Harrison está perto da linguagem mística dos
santos e junto aos cânticos e as preces dos justos e dos heróis.
A casa, o porto, o rio, a estrada, o jardim, a janela, a infância,
o quintal, a flor, a estrela, o tempo, o templo, a noite, a terra, a ausência,
o mistério, a imagem, a vida, a morte, o mar, a rota, o outono,
o silêncio são as pedras signais, que servem à construção
da catedral poética de C. Harrison toma vocábulo para si
como uma apropriação intimista para signiocados heterodoxos.
Dai a permanente de forma de rasgar o pano de fundo de seus poemas
para mostrar-se por inteiro, sem gambiarras falsas e coxias alienantes.
Dotado de uma clareza verbal excelente, Umbria posiciona-se como um livro
que possibilita o ingresso de seu autor no patamar dos verdadeiros eleitos,
enriquecendo o atual panorama literário a Velha Província.
Os processos criativos, a mensagem extremamente lúcida, os temas
alto grau de solidariamente humanos/humaníssimos, a construção
sintética das estrofes, o sensibilidade, tudo concorre para o êxito
de Umbria e o aplauso a C. Harrison. O canto deste poeta maior é
estrela brilhando a indicar caminhos e árvore amiga a agasalhar
sombras; é água de riacho a romper itinerários e estrada
de barro a encurtar distâncias; é bandeira de paz traduzindo
fraternidade e missário.
Angelo Longo
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