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jornal da tarde 
Domingo, 6 de agosto de 2000 
A caçadora do elo perdido do Brasil
Historiadora e arqueóloga, Niède Guidon pesquisa há 30 anos a região onde foram encontrados vestígios humanos dos mais antigos das Américas e restos de uma polêmica fogueira 
de 50 mil anos, a Serra da Capivara, no Piauí 

Marcelo da Viá, 
especial para o JT 
Niède Guidon (alto) quer um hotel seis estrelas no Parque Serra da Capivara, com direito a aeroporto, para gerar mais recursos para a Fundação. Abaixo, pinturas rupestres nas rocha
Chegar ao Parque Nacional Serra da Capivara, no sudeste do Piauí, onde existe uma das maiores concentrações de sítios arqueológicos das Américas, não é tarefa fácil. Da capital do Estado, Teresina, são 550 quilômetros, ou dez horas de viagem de ônibus numa estrada cheia de buracos – quase intransponíveis para carros de passeio.

O caminho mais lógico para quem vai de avião ao parque é descer em Petrolina-PE e de lá percorrer 310 quilômetros de estrada (boa parte em condições razoáveis) até São Raimundo Nonato, a cidade mais próxima do parque. É em São Raimundo que fica o “quartel-general” da entidade que movimenta toda a estrutura do parque, a Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), e as explorações arqueológicas nos sítios.

No comando do parque está a arqueóloga e historiadora Niède Guidon, 67 anos, paulista de Jaú que há 30 anos estuda a região onde fica a famosa Pedra Furada, e que há nove vive exclusivamente em São Raimundo Nonato.

Ao todo, o parque possui 130 mil hectares e um perímetro de 214 quilômetros, onde estão cerca de 400 sítios que mostram vestígios humanos dos mais antigos registrados nas Américas, além do Museu do Homem, encravado em plena caatinga, nos arredores da cidade.

Desses registros, a grande atração são as impressionantes pinturas rupestres, cuja mais antiga datação aponta para 17 mil anos. Naquela época, os homens que habitavam a Serra da Capivara conviviam com preguiças e tatus gigantes (do tamanho de um fusca), mastodontes, tigres de dente-de-sabre, e outros animais que o fim da era glacial, há cerca de dez mil anos, ajudou a extinguir, ao transformar o clima úmido e fértil da região no conhecido semi-árido atual, com relevo de cuesta, chapadas, planícies e formações rochosas de arenito.

Mas a reconstrução dessa história continua gerando polêmica: questiona-se a datação daquele que seria o mais antigo registro humano nas três Américas e que ainda não tem unanimidade no meio científico, os vestígios de uma fogueira (carvões e artefatos de rocha lascada) que teriam sido deixados por grupos humanos há 50 mil anos.

Não se questiona a datação dos vestígios; para alguns estudiosos, não haveria comprovação de que eles são de fato registros da ação humana. Ou seja, o que se encontrou poderia ser simplesmente resultado de processos naturais.

Esse assunto irrita, mas não tira o (relativo) bom humor de Niède, que no momento comanda uma complexa operação de captação de recursos para a construção de um hotel seis estrelas dentro do parque, um empreendimento de R$ 90 milhões. Ela fala deste e outros assuntos nesta entrevista ao JT, e também critica uma nova teoria da ocupação da América a partir do fóssil humano “Luzia”:

         Quais as origens pré-históricas dos grupos indígenas brasileiros? Pode-se dizer que as comunidades humanas da Serra da Capivara são ancestrais de parte dos índios que habitavam esta região?

Sim, os índios que foram encontrados aqui pelos colonizadores eram originários de grupos pré-históricos americanos. A nossa hipótese é que o grupo que ocupava todo o nordeste do Brasil, norte de Minas Gerais e Goiás parece ter sido o ancestral dos grupos indígenas de língua Gê, que habitavam o serrado e caatinga até a época da chegada dos portugueses.

         Seus estudos mostram que a ocupação da América se deu não de um único ponto.  Em relação ao Brasil, especificamente, há uma teoria sobre sua ocupação?  
A teoria que existia antigamente dizia que o homem passava da Ásia para América através do Estreito de Bering e depois da América do Norte para a América do Sul, e teria chegado aqui somente há 12 mil anos pelo norte. Hoje, as descobertas de Monte Verde (Chile) e as nossas aqui na Serra da Capivara mostram que existem na América do Sul sítios mais antigos que na América do Norte. Então, nós temos que pensar em uma nova teoria, uma teoria que admita a existência de várias entradas na América de vários grupos procedentes de lugares diferentes e em épocas diferentes.

A senhora acredita que a ocupação da América pode ter começado no Sul?
Acredito que houve povos que migraram para vários pontos da América do Norte e povos que migraram para vários pontos da América do Sul, isso em épocas diferentes, mas a ocupação pode ter sido tão remota num como noutro. O fato é que o homem não apareceu na América, ele chegou até ela de algum lugar. Aqui no Piauí não pode ser o mais antigo registro, porque estamos no centro do continente – é mais provável que à beira-mar haja vestígios mais remotos. Mas, além de conhecimento, é preciso ter sorte para encontrar vestígios importantes.
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Como o homem chegou à América? Já era o homo sapiens?
O homem pode ter chegado navegando. O homo erectus foi o primeiro homo a navegar. Além disso, é preciso lembrar que, durante as glaciações, o mar chegou a estar 150 metros abaixo do nível atual, o que facilitava as deslocações, já que a plataforma continental ia muito mais longe, havia muito mais ilhas do que atualmente. Na América, tudo indica que sua ocupação foi feita pelo homo sapiens (que surgiu há cerca de 200 mil anos) – quer dizer, o mesmo tipo que nós somos hoje.
Os vestígios do Boqueirão da Pedra Furada, na Serra da Capivara, são os mais antigos da América?
Sim, acredito que são. Existem também os sítios mexicanos, os chilenos (Monte Verde) e nos Estados Unidos (Meadowcroft), mas a Pedra Furada é o mais antigo.
Os desenhos feitos nas pedras, conhecidos como pintura rupestre, podem ser considerados como uma das primeiras manifestações artísticas da humanidade?
Seria arte, mas no sentido de técnica. Eles não faziam aquilo como faz um artista hoje, que tem prazer em fazer e entretém outros ao produzi-las. As pinturas seriam o primeiro registro gráfico, uma sociedade que evoluiu e criou suas leis, religiões, mitos, que tinham que ser guardados. E isso é importante, é o que dá coesão a uma sociedade. Conforme esses passos vão sendo dados, a tradição oral já não é mais suficiente para guardar todo esse novo conhecimento. Por isso, no mundo inteiro, num dado momento, o homo sapiens sentiu a necessidade de registrar sua vida, sua cultura. Mas o aspecto artístico é inerente às pinturas, em minha opinião.
A representação humana nas pinturas (sexo, danças, caça), chama a atenção porque é mais numerosa em relação à de outros lugares, como Europa (França, Espanha), em que a maioria dos registros é de animais. Há uma explicação para isso?
No levante espanhol existem cenas de representações de cena de caça, como as daqui, mas são mais limitadas. Talvez as sociedades do paleolítico europeu tivessem um tabu religioso qualquer que impedisse a representação humana, é uma hipótese.
Essas sociedades a que estamos nos referindo, entre 25 mil a 10 mil anos atrás, já tinham constituído uma comunicação formal, com palavras, ainda que não escritas?
Sem dúvida que sim. E não só o homo sapiens, mas o homem de Neanderthal, ambos eram animais que falavam, cada grupo a sua língua.
Como funciona o que é conhecido entre os arqueólogos como bloco testemunho?
A idéia é a seguinte: a tecnologia avança e pode resolver problemas que seriam impensáveis no presente. Por isso, toda descoberta arqueológica possui um bloco testemunho que fica intocado para futuras investigações. Como a escolha do lugar é um tanto aleatória, às vezes deixamos o filé mignon para nossos alunos ou alunos destes. Mas isso só vale para sítios grandes, como o Boqueirão da Pedra Furada, por exemplo.
E a contestação das origens da fogueira que data de 50 mil anos, quanto a não ter sido produzida pelo homem?
Hoje, alguns colegas deixaram de contestar, outros continuam contestando. Temos desenhos de todas as nossas descobertas. Eu encarreguei uma aluna de fazer uma pesquisa em toda a área da Pedra Furada, do sítio para fora, em busca daquelas camadas de carvão que foram encontradas por nós. O resultado foi negativo, ou seja, se os incêndios tivessem sido naturais, ela teria que ter encontrado algo. Infelizmente, por falta de recursos, ainda não publicamos a tese de Fábio Parente que comprova as origens dos vestígios.
Fale um pouco sobre os esqueletos de ‘Zuzu’ encontrados na Serra.
Temos dois esqueletos cujas datações não calibradas estão na faixa de nove mil a dez mil anos. São duas mulheres – uma encontrada na Toca dos Coqueiros e outra na Toca da Barra do Antonião. A primeira é um sepultamento, a segunda foi um acidente: um enorme bloco caiu sobre ela enquanto dormia junto a uma fogueira, e o deslocamento fez estourar o crânio.
Para a senhora, procede a teoria segundo a qual os vestígios humanos de ‘Luzia’ descenderiam de um grupo aparentado dos aborígenes que teriam chegado ao continente americano há cerca de 15 mil anos?
Não acredito em nenhuma teoria baseada em um único exemplo, pois pode se tratar de um indivíduo com anomalias particulares, que ele tem mas outros membros do grupo não têm. Aliás, consultei especialistas (Evelyne Peyre, Claude Guérin e Yves Coppens) e a resposta deles foi a seguinte: “As características das populações chamadas ‘negróides’ são reconhecíveis somente estatisticamente. Um único esqueleto não permite fazer tal declaração. Os aborígenes da Austrália, de pele escura, não são negróides”. Hoje considera-se que a espécie Homo Sapiens apresenta somente os grupos negros, brancos, amarelos e australóides.
Sobre o hotel seis estrelas que vai ser construído, por que algo tão luxuoso e qual o investimento necessário? Quem vai bancar a construção do aeroporto?
Serão 90 milhões de reais, financiados pela Fumdham e pelo Finor Sudene. Estamos colocando 35% das ações em disponibilidade para empresas que desejarem se associar. O hotel terá 67 mil m2 de construção, 178 apartamentos, teatro, shopping center, auditórios, área de lazer, além de um parque de 560 hectares. Os rendimentos deste hotel vão permitir que a fundação tenha mais recursos e garanta a manutenção do parque no futuro. Haverá também um parque temático, Arkeópolis, dentro da reserva, com 1.700 hectares. Quanto ao aeroporto, ele será construído com recursos governamentais.


 

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