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A Grande Arte
Rubem Fonseca Rosa Leitão
"Cila nasceu e foi criada no interior do Maranhão. O pai era alfaiate, alcoólatra - e odiava a filha. Isso acontece, sabe? Alô? A Madame Barki está? Rosa Leitão. Quero marcar hora para limpeza de pele. A mãe ajudava costurando, eles eram muito pobres. Cila era a menina mais bonita - sim, quinta-feira? Está bem, a que horas? Onze horas, quinta-feira, onze horas." Rosa desligou o aparelho. "A menina mais bonita da cidade. Fazia grande sucesso nas festinhas a que comparecia, sem a autorização dos pais, que a castigavam muito por isso. Eles a puniam, aliás, por qualquer motivo, foi o que ela me disse. Pode ser mentira para justificar o que ela fez no dia em que completou treze anos de idade. "Rosa novamente discou o telefone. "Aqui é Rosa Leitão, eu queria marcar hora para hoje, no fim da tarde. Como que não tem? Meu cabelo está horrível, hor-rí-vel! O Jambert está aí? Fala com ele para arranjar hora para mim. Onde é que eu estava mesmo? Ah, bem, ela foi até São Luís, de carona de caminhão, e dali veio descendo até o Rio de Janeiro - cinco horas? cinco horas está bem, obrigada - com a ajuda de motoristas que se condoíam de sua história de orfãzinha cujo único parente no mundo residia no sul distante. E assim, atravessou os milhares de quilômetros que a separavam da cidade dos seus sonhos. Ela nada conhecia do Rio, a não ser a reprodução de uma foto da avenida Rio Branco, tirada em mil novecentos e pouco pelo Malta, aquele fotógrafo antigo, uma foto que ela carregava sempre, junto com a medalhinha de Nossa Senhora do Carmo." Novamente o telefone: "Ângela, querida, estou descendo hoje, não, não, estava na casa de um amigo... bem, tenho o Jambert às cinco horas... então está bem, uma liga para a outra, para combinar... um beijo. Era uma foto engraçada. Homens de chapéus de palha, ternos completos escuros, bengala, ociosos na calçada e no meio da rua. Não se vêem automóveis, as pessoas conversam tranqüilamente, algumas crianças vestidas como adultos, e poucas mulheres, de roupas longas e sombrinhas, o sol naquela época era temido pelas mulheres, com toda razão, eu sei, estragou minha pele. Essa rua era a avenida Rio Branco de hoje, essa loucura engarrafada. Bem, o último caminhão deixou nossa amiga em Benfica (...) Cila conheceu um homem muito rico, que deu a ela apartamento, roupas, jóias e dinheiro para montar uma loja, a Butique Messina, em Ipanema. Eu a conheci na inauguração da butique, há uns seis meses... No final
do volume, Mandrake descobre que Rosa havia matado Cila, por ciúme,
quando a encontra nos braços de outra amante, uma verdadeira butique
Messina.
Camilo
Fuentes
Seu pai fora morto na fronteira porque vacilara ao enfrentar seu assassino. Camilo tinha sete anos quando isso aconteceu, mas seu tio Miguel lhe contara tudo: o homem que matara seu pai era brasileiro, como eram brasileiros os usurpadores de larga parte do território boliviano, um território tão grande que se transformara num dos estados da República do Brasil, o vizinho imperialista, que com a conivência dos governantes bolivianos corruptos, há séculos roubava as riquezas naturais do seu país. Camilo, na infância e na adolescência, sofrera a arrogância dos vizinhos ricos do outro lado da fronteira, aos quais prestava pequenos serviços humilhantes em troca de pagamento miserável. Por esse motivo e outros mais obscuros, odiava os brasileiros. Acredita que para sobreviver num mundo que lhe é totalmente hostil, precisa matar. Por isso, torna-se assassino de profissão. Por acaso, encontra Mateus que o salva da prisão, quando se envolve em um rixa com alguns brasileiros dois anos antes. Mateus percebe o potencial criminoso de Camilo e logo passa a utilizar-se de seus serviços sob o comando de um certo Escritório Central. A polícia, que não demorou a chegar, prendeu Fuentes, mas um homem interferiu a seu favor, fazendo com que os policiais o soltassem. Era Mateus. Depois daquele dia eles se encontraram várias vezes. Tinham as mesmas idéias: o mundo estava cheio de canalhas e parasitas exploradores, sibaritas, ladrões protegidos por autoridades corruptas. Um dia Mateus disse a Fuentes que um amigo estava disposto a pagar bem pela eliminação de um desses canalhas. Ele aceitaria a tarefa? Não era um trabalho difícil, o alvo era um advogado de São Paulo chamado Barreto, com escritório na rua Brigadeiro Luiz Antônio. Mateus disse que deixaria a crédito de Fuentes a forma de agir, "Mas não se esqueça de que a melhor maneira é sempre aquela que permite escapar com mais facilidade." Mateus forneceria a arma que Fuentes julgasse necessária. O boliviano sabia que estava sendo testado. Até achava melhor que isso estivesse acontecendo, pois poderia mostrar sua capacidade. Dispensou qualquer tipo de ajuda ou conselho, dizendo à Mateus que faria tudo sozinho. A partir
daí, começa a carreira de Camilo Fuentes. Algumas vezes executa
serviços em companhia de Rafael, inclusive a tentativa de assassinar
Mandrake, para procurar a fita de vídeo. Na ocasião, alguns
fatos ocorridos servem para acirrar o ódio do advogado: a namorada,
Ada, havia sido seviciada, Mandrake sofrera ferimento a navalha e Camilo
leva dele o cordão de ouro com um unicórnio. Esse cordão
serve para Raul identificá-lo. Como Mandrake está em Pouso
Alto visitando Ada, precisa voltar às pressas para o Rio, daí,
seguindo a pista de Camilo, parte para Corumbá. Camilo está
envolvido com o tráfico de drogas, e deverá ser a isca da
polícia para apreender um carregamento de coca de conexão
internacional. Agentes da polícia estão infiltrados, incluindo
Mercedes, travestida de prostituta, que se torna amante de Mandrake e obtém
informações sobre as atividades do Escritório Central
utilizando para isso, os serviços da prostituta Zélia, amante
de Fuentes.
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