GUERREIRAS   ESPACIAIS

 

PARTE 8

 

 

 

        Marla despertou duas horas mais tarde  e o medo que tudo não havia passado de um sonho foi logo desfeito, ao ver a Pantera adormecida em seus braços. Fitou-a com carinho. Adormecida, parecia mais uma mocinha desprotegida e inocente.

        Marla sorriu à esse pensamento. Jana podia ser tudo, menos inocente e desprotegida. Era uma mulher corajosa, forte e que evidentemente sabia cuidar-se, senão já estaria morta pelos seus inimigos. Aliás, Jana não existia. A Pantera que havia adotado essa identidade. Como conhecia pouco a mulher que amava! Precisava saber tudo sobre ela.

        A Pantera abriu os olhos e a fitou. Um sorriso amoroso se estirou em seus lábios.

        -Olá, amor...

        Marla sorriu para ela.

        -Olá...

        -Despertou há muito tempo?

        -Não, somente há alguns minutos. Sabe, estava pensando que não sei siquer seu verdadeiro nome. Porque Pantera Negra é um codinome, e Jana é um nome que encobria sua verdadeira identidade.

        A Pantera a fitou séria, deixando de sorrir. Suspirou, sentando-se. Marla não pôde deixar de olhar para os seios perfeitos e o estômago bem delineado.

        -Realmente, Marla, precisamos conversar. Você precisa conhecer muita coisa sobre mim.

        -Para começar, diga-me se seu casamento com o general Thor é mesmo real.

        Ela a encarou gravemente.

        -Sim, nos casamos em Wolrdsea. Foi a forma de eu ser uma cidadã com direitos como os outros cidadãos. E ter uma nova identidade.

        -Então, você pertenceu à aquele odioso homem! Diga-me, você teve sexo com ele depois que conheceu-me?

        A Pantera percebeu o ciúme no olhar de Marla. Mas optou por ser sincera.

        -Sim, uma vez. E odiei cada momento.

        Marla cerrou os punhos, sentindo a ira e o desespero dominá-la.

        -Oh, maldição! Tenho vontade de matá-lo! Mas ele tem direito a ter você! Como vou suportar isso? Diga-me que não vai mais pertencer à ele!

        A Pantera a abraçou com força, fitando-a nos olhos.

        -Ele não me possui como pensa, Marla. É completamente diferente. Ele não me toca.

        Marla a fitou confusa.

        -Não a toca? O que ele faz?

        A Pantera enrubesceu, mas revelou com certo constrangimento:

        -Ele só gosta de olhar para uma mulher nua, enquanto se masturba.

        Marla a fitou abismada.

        -Como?! Está me dizendo que ele não a beija, não a abraça, somente a olha? E o que você faz?

        -Isso é tão íntimo... mas estou contando essas intimidades para você ficar mais tranquila. Ele fica mandando-me fazer poses nua e se masturba. Eu sinto-me mal em estar sendo observada por aquele olhar devasso. Ele chega a babar, Marla! E as contorções que faz com a boca...não sei se fico com nojo ou acho graça. Sinto-me ridícula e ansiosa para ele acabar - Revelou a Pantera com expressão de nojo.

        Marla percebeu a sinceridade naqueles olhos. Abraçou-a fortemente contra seu peito, também sentando-se.

        -Oh, querida... deve ser horrível. Como pôde casar-se com um homem como ele? E ele sabe que você é lésbica, quando tomei conhecimento da missão isso foi revelado.

        -Marla, casei-me com ele visando a vitória da nossa luta. É um preço alto a pagar, mas valeu à pena. Eu sabia que ele nos ajudaria, movido pela ambição e seu desejo por mim.

        -Como o conheceu?

        -Em uma das viagens que ele fez à nossa cidade. Meu irmão ainda não havia rompido relações com Worldsea. Eu era apenas uma geóloga cheia de entusiasmo pela minha profissão. Meu nome verdadeiro é Jade. Eu amava Ryda, uma oficial do exército da cidade de Pólux, que frequentemente viajava à nossa cidade. O governador de Pólux, Kan, era louco para ter Ryda, mas ela não gostava mesmo de homens. E um dia, o governador descobriu nosso relacionamento. E deu um ultimato à Ryda. Se ela não terminasse sua relação comigo e fosse dele, ela seria eliminada. Ryda fugiu de Pólux e se refugiou em Castor, sob a proteção de meu irmão. O governador Kan sentiu-se provocado e nos atacou. Meu irmão e Ryda morreram durante o ataque. Para justificar seu ataque   ao governo de Worldsea, o governador  inventou que meu irmão havia se rebelado e estava querendo decretar independência. Foi o erro dele. Eu estava devastada de dor e essa mentira despertou minha consciência para os problemas de minha cidade. Inteirei-me da devastação que Worldsea fazia às calotas polares de Marte e as necessidades de nosso povo, encontrando um novo motivo para viver. E iniciei nossa luta, como Pantera Negra. 

        -Você se apossou do governo de Castor com a aprovação do povo?

        -Nós realizamos uma eleição interna, sem a aprovação de Worldsea. Concorri com um general do exército e ganhei com uma maioria esmagadora de oitenta por cento.      Não sou uma ditadora!

        -Worldsea não nos informou sobre essa eleição. Mas, onde o general Thor entra nessa história?

        -Ele veio à nossa cidade negociar o final da rebelião. Mas na verdade, ele fez-me uma outra proposta. Ele se aliaria à minha luta fornecendo-me armas modernas, uma nave, além de infiltrar-me em seu governo, se eu me entregasse à ele e quando eu vencesse a guerra contra Pólux, o nomeasse governador dessa cidade. Ele disse estar insatisfeito com sua posição em Worldsea, que preferia prestigiar o general Blandy.

        Marla fez uma expressão de nojo.

        -Ah, ele é um homem sedento de poder e um invejoso. E deve ter se encantado com sua beleza, Pantera... ou melhor, Jade.

        -Eu aceitei a proposta dele, Marla. Era uma ajuda muito necessária. Não dispomos de armas modernas como Worldsea. Para vencer a guerra contra Pólux, precisava dessa aliança. Mas nunca pensei em dar a cidade de Pólux para ele governar. Ele é um traidor sem escrúpulo. Eu o descartarei no devido tempo.

        -Espero que possa detê-lo em suas ambições, Jade.

        -Vou usá-lo até vencer. Então, o general terá o fim que merece. Ele é um megalomaníaco, Marla. Os planos dele são ser governador de Pólux e depois guerrear contra Worldsea, para tomar o governo da principal potência. É um homem que não pode continuar vivendo, para o bem da paz.

        -Eu entendo seu jogo, Jade. Tenha cuidado.

        Jade, codinome Pantera Negra, sorriu, acariciando o rosto de Marla.

        -Adoro você dizendo meu verdadeiro nome.

        -Por que não o usa em sua luta? E por que esconde o rosto?

        -Porque meus inimigos não conhecem meu verdadeiro rosto. Logo que eu iniciei minha luta, eu comecei a disfarçar-me. O governador Kan nunca me viu e seus homens só me conhecem mascarada. Com essa vantagem, já estive na cidade de Pólux duas vezes espionando e não fui reconhecida. E o nome Pantera Negra vem de uma lenda marciana, que diz ser a pantera um animal invencível.Isso motiva o povo a lutar.

        -Jade, você só amou à Ryda, ou houve outras mulheres em sua vida?

        -Ryda foi o meu primeiro amor. Quando ela morreu, pensei que ninguém mais conseguiria fazer-me amar novamente. Tive algumas mulheres por uma noite, sem envolvimento emocional. Então, eu a conheci, Marla. E estou novamente amando e apaixonada, como nunca estive.

        Marla a beijou profundamente, emocionada. Quando afastou-se, perguntou com curiosidade:

        -Aquele encontro no Centro Sexual foi por acaso?

        -Não - Revelou Jade, sem hesitação - Quando você saiu do alto comando, o general Thor avisou-me que você havia sido escolhida para a missão. Você foi rastreada e ele viu que você havia ido para o Centro Sexual. Eu fui para lá, para tentar conhecê-la. Eu estava curiosa. O general sabia que quatro capitãs estavam selecionadas para a missão. Ele mostrou-me os hologramas de todas e o currículo. Eu achei você a mais atraente.Todas foram entrevistadas e você foi a aprovada. Eu somente pretendia conversar com você, mas quando a vi pessoalmente, apaixonei-me no mesmo instante. E quis ser sua.

        Marla sorriu, fitando-a apaixonadamente.

        -Eu também apaixonei-me, Jade. E agora não há segredos entre nós. Vou ajudar sua causa e quando tudo acabar, quero viver com você.

        Jade pegou seu rosto entre as mãos, fitando-a com paixão.

        -Amo-a, Marla. Não posso mais ficar sem você. Mas trate-me por Jade apenas quando estivermos a sós. Para minha segurança.

        -Não vou esquecer, meu amor.

        -Agora tenho que ir - Disse Jade, levantando-se da cama - A realidade nos chama. Hoje mesmo vamos começar a nos preparar para a batalha decisiva. Você ficará encarregada de transportar as tropas terrestres. A nave Titã é a maior nave que dispomos para isso.

        -Quantas naves de ataque você possui?

        -Cento e setenta. Essas naves são bem menores e mais ágeis que a Titã, que é basicamente uma nave de carga.

        -Realmente, em uma batalha a Titã é lenta e um alvo fácil, devido ao seu tamanho. Mas eu gostaria também de participar da batalha.

        Jade a fitou com preocupação.

        -Participar da batalha? Não, isso não. Já estou preocupada por você transportar as tropas! Odeio expor você ao perigo, Marla. Tenho medo que seja ferida ou morra.

        -Jade, sei cuidar-me! Já participei de batalhas em naves de ataque, antes de comandar naves de carga! Não vou ficar inerte, enquanto você for participar das batalhas!

        -Depois conversaremos sobre isso, querida. Agora tenho que ir - Disse Jade, vestindo-se - Vou para meus aposentos tomar um banho e trocar de roupa.

        Marla levantou-se e a abraçou pela cintura.

        -Vou tomar um banho e vestir-me. O que vamos fazer hoje?

        -Vá para a Titã. Nos encontraremos lá, mais tarde. Colocarei você à par de nossas decisões.

        Jade acabou de vestir-se e colocou a máscara. Beijou Marla profundamente e se foi.

*************

 

        Marla desceu da nave de transporte interno e subiu a rampa da nave Titã, que foi baixada quando chegou. Um nervoso Soogh a recebeu logo que entrou.

        -Marla, que bom ver você novamente! Eu e a tripulação restante estávamos  nervosos com sua ausência, sem saber notícias!

        Marla circundou o ombro de seu amigo num abraço, olhando-o com culpa.

        -Desculpe-me, Soogh. Esqueci de comunicar-me com você. É que os acontecimentos transtornaram minha mente.

        -Que acontecimentos?

        -Vou falar, deixe-me primeiro ir para nossa cabine. Alguma novidade por aqui?

        -O general Thor está na nave. Ele chegou há pouco tempo, com a Pantera Negra.

        Marla o fitou surpresa.

        -A Pantera Negra está com ele? Ela disse-me que só viria mais tarde! Não estou gostando disso. Vou procurá-los.

        Soogh a fitou com preocupação.

        -Tenha cuidado, capitã. Esse homem é muito perigoso.

        -Não precisa procurar-me, capitã! Vim poupar esse trabalho!

        Marla voltou-se ao ouvir a voz do general atrás dela. Ele estava com uma arma na mão, sorrindo debochadamente, acompanhado com uma mulher vestida como a Pantera Negra. Marla percebeu logo que a mulher não era a Pantera, apesar do disfarce. Os olhos eram verdes, mas Marla sabia que os olhos de Jade estavam azuis até a pigmentação voltar ao normal. E ela não possuía a boca perfeita da Pantera, os lábios eram bem mais finos.

        -Por que está apontando-me essa arma, general? - Perguntou Marla, fitando-o com frieza - E quem é essa mulher que está vestida como a Pantera Negra? Se pensa que vai enganar alguém , perde seu tempo!

        A mulher riu, olhando-a.

        -Oh, ela é muito esperta! Querido, diga à ela que a tripulação não notou a diferença, nem esse piloto imbecil. Ela só notou porque está muito íntima da Pantera - Declarou, com ironia.

        Marla a fitou friamente, mas intimamente assustada que a mulher sabia de sua relação com a Pantera. Como ela havia descoberto?

        -Quem é você, sua farsante?

        -Não me reconhece? Oh, que falta de percepção!

        Marla teve um lampejo de reconhecimento. Aquele sorriso de mulher fácil, aquela voz aguda...

        -Noelle! - Exclamou Marla - Noelle, a médica geneticista!

        Noelle riu.

        -Que dedução brilhante! Retiro o que disse antes!

        Marla fitou o general, que ria debochadamente.

        -Onde está a Pantera Negra? O que fez a ela?

        Ele avançou, com um olhar cruel.

        -Está fora de ação, capitã... e vocês serão os próximos!

        Marla tentou investir contra ele, mas o general disparou a arma e a atingiu no peito. Marla sentiu seu corpo enrigecer e caiu no chão. Soogh tentou sacar sua arma, mas também foi atingido. Caiu ao lado de Marla.

        No chão, Marla ouviu a gargalhada do general. Ele não estava em seu campo de visão e não podia mover os olhos. O raio paralizante felizmente era altamente seletivo na musculatura e não paralizava os músculos responsáveis pela respiração e coração. Mas todos os outros estavam inertes. Sabia que o efeito do raio durava duas horas e com isso, estava ali à mercê do general, sem poder fazer nada!

        O general debruçou-se diante de seu campo de visão, com um sorriso que mais se assemelhava a uma careta.

        -Aí está a orgulhosa capitã, indefesa como um bebê...deve estar cheia de medo, imaginando o que vamos fazer com ela... -Debochou ele.

        O sorriso morreu. Seu olhar adquiriu uma expressão de louco. Pegou Marla pelo colarinho do uniforme e puxou-a, quase encostando o rosto no seu.

        -Você e a sua amante pensaram que iam passar-me para trás? - Rosnou- Acharam que estavam levando a melhor sobre mim? Idiotas! Eu sou o general Thor! Sou muito mais inteligente que vocês, estou sempre   um passo à frente! Tolas! Pensaram que estavam enganando-me porque estavam trepando! Eu vi e ouvi tudo, capitã! Por uma simples câmara escondida!  Vocês quem foram enganadas, eu programei uma cyborgh para colocar câmaras em seu aposento e no da Pantera! Então, descobri as intenções da Pantera para mim!

        Ele a esbofeteou. Marla não sentiu as pancadas, mas isso a enfureceu. Maldito! Se pudesse, o mataria! O que ele havia feito à Jade?

        -Não adianta bater nela, querido... - Marla ouviu Noelle dizer - Ela está insensível, como o piloto e a Pantera.

        Ele soltou Marla e ergueu-se, saindo de seu campo de visão.

        -Imbecil! - Gritou ele - Por que falou isso? Eu queria que ela se torturasse, pensando se a Pantera estava viva ou não!

        -Desculpe-me, querido... foi sem querer...

        -Tudo bem! Depois elas vão sofrer mesmo... eu vou fazê-las sofrer tanto em minhas mãos, que elas vão desejar a morte. Elas não pesdem por esperar. Chame dois cyborghs para tirar os dois daqui. Mande-os levarem eles para o laboratório.

        Marla ouviu Noelle afastar-se e minutos depois voltar com cyborghs que  a levantaram e levaram para o laboratório da nave.

        Marla foi colocada numa mesa do laboratório e amarrada pelos pulsos a duas hastes metálicas laterais. Noelle inclinou-se sobre ela, fitando-a com um sorriso cínico.

        -Sei que pode ouvir-me, capitã. Saiba que lamento que tudo acabe assim para você. É uma mulher muito desejável. Eu a desejei assim que a vi. Mas você nunca deu-me atenção. Preferiu se envolver com a Pantera, a mulher do general.

        Noelle inclinou-se mais e a fitou bem de perto. Agora estava séria, com uma expressão de desejo no olhar.

        -Por que nunca me quis, Marla? - Sussurrou - Sou tão bela quanto a Pantera! Eu dei a você tanta demonstração de interesse e você não correspondeu nem um pouco! Preferiu aquela loura imbecil! E agora, está aí à mercê da vingança do general.

        Ela esmagou a boca ávida nos lábios imóveis de Marla. Beijou-a sugando os lábios e depois afastou-se ofegante. Marla  pensou ter transmitido em seus olhos o desprezo que sentia, porque Noelle a olhou com raiva e a esbofeteou.

        -Imbecil! Despreza-me? Saiba que não terá muito tempo de vida! Você e a Pantera morrerão e eu vou tomar o lugar da Pantera! Governarei com o general Thor! Os homens que conhecem o rosto da Pantera são poucos e serão eliminados após a vitória! Não é um plano de gênio, o do general?

        Ela afastou-se e olhou para Soogh, preso à uma mesa ao lado de Marla.

        -E você, piloto? Está com muito medo? Não se preocupe, será eliminado rapidamente, ao contrário de Marla e a Pantera. Você não tem nenhum interesse para o general. Como você é feio! Será que alguma mulher gostaria de trepar com um tipo como você? Parece um primata!

        Ela riu e tornou a olhar para Marla.

        -Já você... é tão linda... não sente mesmo nenhum desejo por mim? Está tão apaixonada pela Pantera que não sente nada por outra mulher? Tenho minhas dúvidas...

        Ela tornou a inclinar-se,  procurando o olhar de Marla.

        -Você não pode responder. Está aí imóvel, sem poder corresponder à um simples beijo. Mas pode pensar. Pense, Marla. Pense se não seria melhor ficar comigo. Escapar da morte e ter poder ao meu lado. Vou governar Castor e Pólux e você seria meu braço direito. Eu a desejo muito, Marla. Com o general, não sinto nada. Ele apenas pode alçar-me ao poder. Fora disso, ele é uma nulidade como amante. Ele não sabe satisfazer uma mulher. Jana já deve ter contado a você. Ele é um "voyeur" que não toca na mulher. E eu sou uma mulher quente, Marla, que quer sentir outro corpo vibrar junto ao meu. E você despertou o meu desejo. Desde que a vi, só penso em você possuindo-me.

        O intercomunicador de pulso de Noelle zumbiu. Ela afastou-se de Marla e atendeu.

        -Pantera na escuta.

        -Pantera,os oficiais estão na sala de conferência. Vamos repassar as suas decisões. Amanhã iniciaremos o ataque e precisamos traçar a estratégia. Pode vir aqui agora?

        -Já estou indo - Noelle falou, imitando a voz da Pantera. Ela desligou o intercomunicador e debruçou-se para Marla.

        -Mais tarde voltarei . Pense bem, Marla. Viver ao meu lado, ou a morte.

        E sem mais, ela se retirou.

*************************

        Marla sentiu seu corpo começar a formigar.Sabia que isso era o indício que o efeito do raio paralizante estava passando. Então, já havia se passado quase duas horas desde que havia sido atingida.

        Estava desesperada de preocupação com Jade. E também sua mente traçava planos desesperados para escapar da vingança do general. Tinha que ser libertada, para salvar Jade. Para libertar seu amigo Soogh. Se isso dependesse de aceitar o oferecimento de Noelle, não hesitaria.

        Dez minutos depois pôde movimentar as pernas e flexionar os dedos das mãos atadas. Flexionou as pernas várias vezes, ativando a circulação do sangue e reativando os músculos . Sua cabeça e olhos puderam se movimentar novamente e ela olhou em volta. Viu Soogh ao seu lado, olhando-a cheio de medo.

        -Soogh... - Disse, com voz ainda trêmula - Coragem, homem. Ainda temos chance de escapar disso.

        -Marla... esses miseráveis nos pegaram...o que pensa fazer? Não tenho muita esperança de sair vivo disso.

        Uma outra voz se fez ouvir. A inconfundível voz de Jade.

        -Marla! Você está bem?

        Marla olhou em volta, ansiosa e aliviada.

        -Pantera! Onde está? Não a estou vendo!

        -Estou atrás de um biombo! Estou amarrada à uma mesa, não posso levantar-me. O general descobriu sobre nós! Ele invadiu meus aposentos e dominou-me com o raio paralizante.

        -Jade, você está bem? Não está ferida?

        -Não, meu amor. Por enquanto, estou bem. O general deu-me algumas bofetadas e ameaçou-me com mil torturas, mas ele não podia torturar-me no palácio, pois  corria o risco de ser  descoberto.Então ele trouxe-me para a nave Titã dentro de um caixote, dizendo que era um carregamento de medicamentos.

        -Aquele miserável! Vou matá-lo, quando puder! - Gritou Marla, desesperada.

        -Mantenha a calma, Marla. Não deixe que eles consigam desesperá-la. Por mais que tenha medo e raiva, não demonstre. Não dê essa satisfação à eles.

        Marla respirou fundo.

        -Vou fazer isso, Jade. Ainda tenho uma cartada para jogar. Resta uma chance de nos salvarmos.

        -Refere-se à proposta de Noelle? Eu ouvi tudo. Não pode confiar nessa mulher, Marla.

        -Eu não confio nela, mas tenho que tentar. Por você, por Soogh e por mim. Vou tentar fazê-la libertar-me para salvar vocês, mesmo que tenha de fazer o jogo dela. Você entende isso?

        -Entendo, Marla. Faça o que tiver que ser feito.Eu paguei um preço alto para ter a ajuda do maldito general. Agora é sua vez de pagar pela sua vida.

        A porta da sala do laboratório abriu e elas se calaram. Noelle aproximou-se de Marla, com um sorriso.

        -Olá, capitã! Deve dar-me parabéns. Consegui enganar todos os homens da Pantera! É claro que fui uma atriz. Imitei a voz dela e falei pouco.Mas consegui enganá-los!  Sabe o que isso significa? Que possuo o lugar dela, definitivamente!

        Marla a fitou sorrindo,  procurando ser convincente em seu jogo.

        -Não sabia que era tão inteligente, Noelle.

        Noelle sorriu com o elogio.

        -Vejo que o efeito do raio paralizante já passou. Isso é ótimo. Por isso vim aqui, enquanto o general está supervisionando a esquadrilha de naves, preparando o ataque de amanhã. Ele vai estar muito ocupado essa noite e eu posso divertir-me com você. Então, o que decidiu sobre minha proposta?

        -É uma proposta fácil de escolher, Noelle. Gosto muito de viver, e ao seu lado não seria tão mal assim.

        -Escolha inteligente, capitã. Eu não confio no general. Ele tem muita sede de poder, quem garante que ele vai manter-me governando Castor e Pólux? Ele pode planejar desfazer-se de mim, eliminando-me. Já você, não tem essa sede de poder imensa. Você seria minha general , unidas pelo prazer de uma boa vida.

        -Vejo que é mais inteligente do que eu pensava, Noelle. Sabe bem o terreno que pisa.  A Pantera não teve essa lucidez, ela confiou no general. E perdeu.

        Noelle riu, acariciando o rosto de Marla.

        -Você também é inteligente o bastante para aliar-se a quem está por cima. A Pantera é uma perdedora. Eu serei uma vencedora, com o poder nas mãos.

        -Você fala muito, Noelle...beije-me.

        Empolgada, Noelle inclinou-se e a beijou com fúria pelo desejo reprimido.Marla correspondeu, tentando não pensar na sua amada Jade que devia estar ouvindo tudo.

Momentos depois, Noelle afastou-se ofegante, suas mãos correndo pelo corpo de Marla.

        -Você tem uma boca deliciosa... - ofegou - quero ser posuída por você, Marla...mas tenho medo que esteja enganando-me para ser libertada.

        Marla a fitou nos olhos, sorrindo.

        -Acha isso? Não confia em seu poder de sedução? Seu beijo fez meu corpo entrar em febre, Noelle. Nunca senti tanto desejo.

        -Nem pela Pantera?

        -Oh, ela é boa em uma cama... mas acho que você vai ser espetacular.

        Noelle a fitou em dúvida. Mas o ego da mulher se inflou com as palavras de Marla. E o desejo a atormentava. Ela tomou sua decisão.

        -Muito bem, vou soltá-la... estou confiando no que diz, Marla...

        -Depressa... quero abraçá-la, passar minhas mãos em todo seu corpo...

        -Oh, Marla! Já estou molhada só em pensar nisso! Ok, confiar em você!

        Noelle apertou um botão ao lado da cama e as hastes se retraíram, libertando Marla. Noelle abraçou Marla apertadamente, esmagando os lábios nos seus, em um beijo violento.

        Calculadamente, Marla ergueu-se, acariciando as costas de Noelle, descendo para a cintura. Ainda estava fraca pela ação do raio e não queria precipitar-se. Ficou finalmente de pé e afastou a boca, fitando Noelle com um sorriso.

        -Seu beijo é um vulcão de paixões, Noelle... tire essa roupa e se deite, para eu possuí-la como quero.

        Noelle olhou-a com desejo e a abraçou, rodeando seu pescoço, apertando-se contra Marla.

        -Dispa-me...

        Marla a despiu depressa, impaciente para aquele jogo acabar. Noelle a beijava no queixo, no pescoço, gemendo, e  isso a fazia sentir apenas desejo de empurrá-la longe. Não sentia nenhuma excitação por aquela mulher sem nenhum escrúpulo.

        Quando ela ficou nua, Marla a beijou asperamente, pegando-a pela cintura e a deitando na mesa. Deitou sobre ela e a imobilizou com seu peso. Acariciou os braços dela, descendo até os pulsos. Noelle gemia, movendo os quadris contra ela.

        E sem Noelle perceber, pegou-a pelos pulsos e os fixou nas hastes, apertando o botão. As hastes fecharam e Marla saltou de cima do corpo de Noelle.

        Noelle estava tão excitada, que precisou de uns segundos para perceber a situação. Ela abriu os olhos com surpresa e raiva.

        -Sua maldita! Enganou-me! - Ela gritou, enfurecida.

        Marla a fitou com frieza.

        -Sim, eu a enganei, sem nenhum remorso! Você é uma mulher asquerosa, Noelle! Jamais possuiria uma mulher como você!

        -Nós fizemos um acordo, maldita! Não tem palavra?

        -Não foi um acordo, foi uma coerção! Sinto muito Noelle,  mas você jogou e perdeu.

        -Miserável! Solte-me, ou vai se dar mal! O general vai caçá-la e vai matar você como um verme!

        Marla sorriu friamente.

        -Chame o seu amante! Ele vai adorar saber que você queria traí-lo comigo!

        Noelle soltou uma enxurrada de palavrões que faria um estivador ficar invejoso. Marla pegou  um rolo de gaze no armário do laboratório e amordaçou Noelle.  Depois, libertou Soogh e correu até atrás do biombo que Jade estava. Ela estava deitada com as mãos atadas nas hastes e a fitou com alívio, os olhos cheios de lágrimas. Estava somente vestindo roupas íntimas.

        -Marla! Você conseguiu, meu amor! Como estou feliz em vê-la!

        Marla a libertou e a abraçou com força, beijando-a nos cabelos.

        -Você está bem, querida?

        Ela afastou-se delicadamente, fitando-a com o cenho franzido.

        -Estou ótima, Marla. Com excessão de saber que você teve de beijar e abraçar a serpente   Noelle. O cheiro dela está em seu corpo.

        Marla enrubesceu, embaraçada.

        -Perdoe-me, Jade. Mas eu tinha que fazer isso.

        Jade sorriu.

        -Eu entendo, Marla. Foi um preço a pagar pela nossa liberdade. Quem sou eu para criticá-la? Eu também paguei meu preço com o general. Vamos sair daqui depressa!

        Jade pegou Marla pela mão e foi até onde Noelle estava. Olhou-a com desprezo.

        -Mulherzinha ridícula e baixa! - Disse, com voz irada - Ousou passar-se por mim, roubou  minhas roupas e ainda tentou chantagear minha mulher!Sabe o que merece por isso? A morte!

        Jade pegou suas roupas, que estavam   no chão. Vestiu-as e colocou o cinturão com a arma. Calçou as botas e Marla deu-lhe o capacete e a máscara. Quando ficou pronta, pegou sua arma e apontou para Noelle, vendo o terror nos olhos dela. Disparou e a mulher ficou imóvel. Jade olhou para Marla, que a fitava com olhos assustados, e sorriu.

        -Apenas raio paralizante, Marla. Quis dar um susto nela, pela angústia que nos fez passar.

        Marla suspirou aliviada.

        -Por um momento, pensei que a havia eliminado à sangue frio, Pantera.

        -Não sou tão fria assim, Marla, se bem que ela merecia. Sabe, você usou uma frase com ela que até achei graça.

        -Qual? - Perguntou Marla, curiosa.

        -"Seu beijo é um vulcão de paixões". Que frase antiga! É um clichê!

        Marla riu.

        -Ela não conseguiu inspirar-me nada melhor.

        -Ainda bem! Se fosse para mim, ficaria decepcionada!

 

 

 

 

Continua na parte 9  ( conclusão)

 

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