A relação espacial do morador japonês, no Bairro Oriental.
por: Wladimir Favro Linares
O Bairro Oriental, é um bairro central da capital paulistana modelado dentro do Bairro da Liberdade, em
cuja área centraliza grande número de festividades folclóricas, manifestações culturais e religiosas da
colônia japonesa, onde também já foi o bairro de maior concentração de moradores de origem japonesa
da Cidade de São Paulo.Ao considerarmos a respeito do morador japonês no Bairro Oriental, necessariamente nos vimos
impelidos a refletir em relação a conflitualidade das vizinhanças, as formas de convivência nos dias atuais,
o fim das facções unitárias e a emergência dos localismos, ou seja, vimo-nos obrigados a refletir sobre a
necessidade que certos grupos possuem em identificar-se com o local e esse com eles.Cremos que cada cultura encerra em si as suas próprias vias de desenvolvimento, seu projeto de
emancipação particular frente ao grupo nacional e étnico a que pertence. Não faz parte de nosso trabalho
nos preocuparmos com uma utopia universal, mas estamos cientes das diferenças entre todas elas, não
estamos negligenciando essas diferenças nem os preconceitos existentes entre as etnias no Bairro Oriental,
mas apenas nos ateremos as particulares e peculiaridades do ponto de vista cultural e histórico do morador
japonês.As marcas de presença dos japoneses no Bairro Oriental, parece-nos que não mais tem o mesmo
significado para os descendentes daqueles que o transformaram, construíram e viveram ali. No entanto, é
justamente para esses antigos moradores que aqueles marcos deixados no bairro parecem fazer sentido, e
estão vivos. Para Tuan, "os objetos seguram o tempo" e segue "podemos reconstruir nosso passado com
breves visitas ao nosso velho bairro e ao local de nascimento de nossos pais. Podemos, também, recordar
nossa história pessoal através do contato com pessoas que nos conheceram quando éramos moços. Os
haveres pessoais são mais importantes para os velhos". Neste labirinto e nesta babel de idéias que parece
contrapor-se entre os velhos e os novos moradores, remete-nos ao tempo em que os primeiros japoneses
foram habitar os porões, das velhas casas edificadas pelos italianos no áureo tempo do café, no Bairro da
Liberdade. Este bairro para eles era ainda era um espaço desconhecido.Nas palavras de M. Santos, "quanto mais instável e surpreendedor for o espaço, tanto mais surpreendido
será o indivíduo, e tanto mais eficaz a operação da descoberta. A consciência pelos 'lugares' se superpõe à
consciência nos 'lugares'. A noção de espaço desconhecido perde a conotação negativa e ganha um acento
positivo, que vem do seu papel na produção da nova história".Os imigrantes recém chegados do Japão, e outros que, posteriormente vindos das fazendas de café do
interior paulista, no Bairro da Liberdade se fixaram como sendo seu local, não só de refúgio e conforto,
mas também de atuação e transform\ação nesse novo palco de conflitos e de transformação.Evidente que não devemos perder de vista as dificuldades que esses novos habitantes tiveram em relação
a sua adaptação, mas tendo em vista também que eles, a sua maneira, traziam consigo uma gama de
experiência e vivência adquiridas.Cada lugar é, à sua maneira, o mundo, considerando o Bairro da Liberdade, essa afirmação é ainda mais
verdadeira, frente a enorme diferenciação cultural ali presente. Mas, esses lugares, onde há uma
diferenciação cultural grande, tornam-se quando vivificados, diferentes dos demais, nesse lugar existirá
uma maior individualização. E foi assim que ocorreu com o morador japonês, que constituía-se ali no
Bairro como um novo componente cultural.A presença mais marcante dos japoneses e sua fixação no Bairro da Liberdade, deu-se no inicio de 1939,
quando os primeiros japoneses recém-imigrados começaram a se instalar na rua Tabatingüera.Com a eclosão da Segunda Guerra, o Governo proibiu que os mesmos vivessem fechados em
comunidades estanques, e o Bairro Oriental, naquela época estava bem próximo disso, a "especialização"
era tamanha que, os imigrantes, tanto da capital como do interior, costumavam se encontrar no Cine
Niterói, que era especializada em produções cinematográficas japonesas. Essa distinção cultural e étnica
era tamanha que causou "receios no seio do Estado". As autoridades estatais promoveram uma dispersão
desses moradores de origem japonesa do bairro.No entanto, a auo-detrminação dessa comunidade fez com que voltassem a se reagrupar ali alguns anos
depois. Mas essa aproximação não foi meramente motivada pelas feições ou laços culturais, pois eles não
possuíam apenas relações de proximidade, que segundo Santos, M. essas relações " não devem ser
apreendidas numa análise da situação de vizinhança, mas a totalidade das relações" E ainda "é assim que a
proximidade, diz J.-L. Guigou pode criar a solidariedade, laços culturais e desse modo a identidade'. O
papel da vizinhança na produção da consciência é mostrado por J. Duvignaud (1977, p.20), quando
identifica na 'densidade social' produzida pela fermentação dos homens em um mesmo espaço fechado,
uma 'acumulação que provoca uma mudança surpreendente' movida pela afetividade e pela paixão, e
levando a uma percepção global de sua localização e importância para a totalidade, para o conjunto de sua
consciência em quanto grupo social" .Os moradores de origem japonesa reagruparam-se no Bairro e transformou-o segundo suas preferências
para uma melhor identificação com a comunidade oriental que emergia ali. Muitos eram os
estabelecimentos voltados ao moradores japoneses: comidas, utensílios, artefatos etc.E em todos esses
lugares já haviam indicativos e alguns cartazes escritos em ideogramas japonês, cuja a mesma língua
também era a primeira utilizada na comunicação.Escreveu Santos, M, que "nessa ótica e partindo dessa fenômeno técnico, é possível estabelecer
parâmetros com o que G. Simondon já havia proposto, distinguir entre, de um lado, uma ação humana
sobre o meio e, de outro, uma ação simbólica sobre o ser humano". Ainda segundo Santos, M ..."B.
Stiegler aproxima essas duas propostas, quando analisa Gehlen e Habermas, onde estes ao realçar a
oposição entre as técnicas e sua racionalidade e uma interação mediada pelos símbolos e pela ação
comunicacional. Não seria correto afirmarmos, o caráter concreto da objetividade, se excluirmos as
relações intersubjetivas, no dado presente que as caracterizam".Com o passar do tempo as características peculiares aos moradores de origem japonesa, viram-se
na necessidade de uma auto-afirmação, é por isso, constituíu-se no Bairro inúmeros clubes integrados por
nisseis, como o Clube da Turma e A Mocidade da Galvão Bueno, aos quais se incorporaram os filhos de
imigrantes de Okinawa, que inicialmente tinham se fixado nas proximidades do mercado central. Muitos
desses clubes e associações de Províncias japonesas perduram no Bairro até os dias atuais.Essas, como diversas outras associações, tem como principal objetivo a difusão de sua cultura e curtumes
para seus associados e para a sociedade que a norteia, e dessa forma seus membros tenha condições de
estabelecerem parâmetros étnicos e culturais distintos.Mas, pelo menos a principio, essa comunidade e suas associações provinciais não tinham o objetivo de
difundir sua cultura, língua e costumes. Essas manifestações eram apreciadas somente em festivais
folclóricos e religiosos podendo então ser presenciado pelo restante do bairro e pela cidade como um todo.
Os moradores de origem japonesa possuíam uma cultura mais ou menos hermética, fechada, de onde eles
poderiam se comunicar de fato com os seus afiliados sem que com isso os demais, não japoneses, os
compreendessem. Eles mantinham um "dialogo" com o local, estavam fixos ali, faziam parte da
comunidade, e ainda assim não passavam informações culturais que para eles, naquele momento, era
imprescindível a sua auto-proteção e também, porque não dizer, a manutenção de seus laços afetivos com
a terra distante. Seguindo pelos caminhos de M. Santos, onde ele faz uma leitura a esse respeito, para
tanto cita A.D. Rodrigues, uma vez que esse autor em seu aprofundamento na temática "faz uma
distinção entre informação e comunicação. Onde afirma que ‘podemos nos comunicar com o mundo que
nos rodeia, com os outros, e até mesmo conosco, sem procedermos à transmissão de quaisquer
informações, tal como podemos transmitir informações sem criarmos ou alimentarmos quaisquer laços
sociais’. Segue dissertando, que segundo o autor, "na experiência comunicacional que vêm de processos
de interlocução e de interação que criam, alimentam e restabelecem os laços sociais e a sociabilidade entre
os indivíduos e grupos sociais que partilham os mesmos quadros de experiência e identificam as mesmasressonâncias históricas de um passado comum".
Essas ressonâncias, em um posterior momento, acreditamos nós, estão evidenciadas no tocante as
iniciativas de uma fixação e aceitação de sua cultura e modo de vida no bairro e na cidade como um todo,
para tanto esses imigrantes tingiram o bairro com novos estilos arquitetónicos, novos modelos e
referencial de beleza e de bem-estar, num demonstrativo de integração com o lugar.O Bairro Oriental, está inserido no Bairro da Liberdade, cujas ruas são identificadas pela presença de
lustres orientais que a adornam. Além desse fato, o Bairro Oriental apresenta hoje típicos jardins
japoneses, por trás de velhos portões de ferro trabalhados por artesões italianos. Antigas ruas do Bairro da
Liberdade, como a Conselheiro Furtado, Conde de Sarzedas, Galvão Bueno, e Fagundes, estão
totalmente transfiguradas em relação as suas origens. Exemplo típico é o Toori , as fachadas das lojas e
de estabelecimentos comerciais ou não, escritos em ideogramas orientais, dando assim a impressão de
estarmos de fato em um bairro no oriente.Os moradores de origem japonesa transformaram o bairro, até porque não dizer criaram um novo bairro,
esse a sua imagem e semelhança, e nesse novo, distinto, e incomum lugar, eles puderam afirmar sua
identidade, ainda que esse propósito não tenha sido apenas cultural, mas comercial e até folclórico. Os
marcos por eles inseridos no lugar faz do Bairro Oriental um ponto referencial indiscutível em relação a
cultura japonesa na cidade de São Paulo tendo sido difundido pelo Brasil e pelo mundo, a exemplo da
"Chinatown" na cidade de San Francisco-E.U.A.Embora tenhamos consciência de que esses marcos tenham sido colocados ali como um atrativo turístico
e mesmo com finalidades comerciais, estes marcos resistem e tornaram-se mais um componente do
imaginário da cidade.É conhecida a tipologia da ação social proposta por Weber, segundo a qual se podem distinguir uma
atividade racional visando a um fim prático e uma atividade comunicacional, mediada por símbolos.Nesse sentido, o Bairro Oriental já não era mais um Bairro qualquer, tornava-se um lugares para toda
aquela comunidade de orientais, que o reconheciam como seu, e que por sua simples presença e atuação
no Bairro davam ao lugar um elemento diferencial do resto da cidade. Aproveitando uma referência de M.
Santos, achamos cabível citar "que Tran-Duc-Thao, demostra os ‘esboços simbólicos’, providos pelo
movimento de cooperação, prolongam a atividade própria do sujeito e abarcam a totalidade da tarefa
comum, levando cada sujeito a tomar consciência de que a universalidade é o verdadeiro sentido de sua
existência singular. ‘A práxis se revela também como totalidade’ diz H. Lefebvre, e por isso ‘a análise da
vida cotidiana envolve concepções e apreciações na escala da experiência social em geral".Posteriormente, ao ultrapassarem esse primeiro momento de adaptação e fixação do morador japonês, sua
expectativa em relação ao novo se refez, reformulando a idéia de futuro a partir do entendimento da nova
realidade que o cercava. O entorno vivido tornava-se um lugares de troca, indo além a um mero processo
intelectual. No pensamento de M. Santos "O homem busca reaprender o que nunca lhe foi ensinado, e
pouco a pouco vai substituindo a sua ignorância do entorno por um conhecimento, ainda que
fragmentário".Nos dias atuais, os descendentes possuem as mais diversas histórias de vida, sendo a população de origem
japonesa hoje integrante da sociedade, e se a integração dos elementos culturais japoneses já foi
questionada, hoje se constitui num fato consumado.Muito se passou, e com o passar do tempo também foram ficando para traz as concepções e identificação
com o Bairro, principalmente para as seguintes gerações, e muitos desses descendentes desprenderam-se
do Bairro tornando-se para esses, simples ponto turístico, ou ainda um lugar místico, capaz de tornar-se o
elo de ligação entre suas lembranças infantis e as histórias narradas por seus avós sobre o seu Japão natal.Voltando nosso foco a realidade do Bairro Oriental como ele se encontra atualmente, e deixando de lado
todo o folclore e moldura que parece embeleza-lo, chegamos a conclusão que não somente o Bairro
Oriental, mas o Bairro da Liberdade como um todo, tornou-se um lugar exótico, um produtoda propaganda e da divulgação em relação a seus produtos orientais, mais que isso, por uma busca
inconsciente do oriente ideal, aquele cujos mistérios e idealismo parecem estar longe de ser aquele lugar
dos produtos vendidos e empacotados em embalagens escritas em ideogramas de origem asiática.O Bairro Oriental hoje, está muito diferente do bairro em que agruparam-se os primeiros moradores
japoneses, onde seus idealizados buscavam uma identificação com o local, ou ainda, uma "recriação de
sua identidade", onde no Bairro Oriental instalaram-se, e a princípio, esse lhes apresentava inóspito e
desafiador, e mesmo frente a toda a diversidade superaram-se, fixaram-se e deixaram suas marcas.
Aquele morador do Bairro Oriental compreendeu que seu destino era, com toda contradição que isso
possa transparecer, construir seu espaço habitado...Nas palavras de Scarlato, F. C. "se o homem se liberta quando é capaz de romper com a limitação
imposta pela escassez na satisfação de suas necessidades, essa liberdade passa também pela satisfação do
homem em realizar da forma mais bela possível, o que vale dizer: criar um espaço condizente com a
condição humana; quando for capaz de criar e sentir o espaço como sua parte integrante onde a
diversidade seja unidade e a sensação do vivido permita resgatar o belo na paisagem"Referencias bibliográficas:
BUDRILLARD, Jean; Sombra das maiorias silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas. São
Paulo: Brasiliense, 1985.CADERNOS DO IGEPAC SP 2: Inventário geral do patrimônio cultural e ambiental: Liberdade/ Leila
Regina Diegoli, coord. et alii. São Paulo, Departamento do Patrimônio Histórico, 1987.MELLO, João Baptista Ferreira de. Geografia Humanística: A Perspectiva da Experiência Vivida e uma
Crítica Radical ao Positivismo. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro: IBGE, 52, (4), p. 91-115,
1990.Tuan, Yi-Fu; Espaço e lugar :a perspectiva da experiência. São Paulo : Difel, 1983.
Santos, Milton Almeida dos; A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção.; São Paulo :
Hucitec, 1996.Scarlato, Francisco Capuano; Real e o imaginario no bexiga: autofagia e renovação urbana no bairro.
São Paulo, 1988. Tese (Doutorado) Seabra, Manoel Fernando Gonçalves, orient;
TESE;19.06.89.FFLCH.SOUZA, Marcelo José Lopes de, O Bairro contemporâneo: Um ensaio de abordagem política. Revista
Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, 51 (2) : 139-172 Abril/Junho 1989.