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A B R U X A
Autor: Zé do Caixão
Cristina era uma socióloga
respeitada. Especializou-se no estudo da época da inquisição,
quando, sob o manto da igreja, pessoas eram queimadas sob acusação
de bruxaria. Através de suas pesquisas concluiu que, na maioria
das vezes a perseguição era política, os acusados
nunca haviam se envolvido com satanismo. Alguns casos pareciam típicos
de doentes mentais, que mais deveriam ir para o sanatório que para
fogueira.
Um caso, contudo, chamou-lhe
a atenção: Catarina, uma mulher do século XVII, queimada
num povoado do interior, conhecida como a maior das feiticeiras. As lendas
que dela se contavam perduravam até os dias atuais, sobre seu poder
e maldade. Morrera queimada, jurando vingança.
Cristina viajara para a cidade
que se desenvolvera perto do antigo povoado onde a bruxa teve seu fim.
Verificou que ,apesar dos séculos, as pessoas conheciam histórias
sobre ela, havendo inclusive aqueles que jurassem ter visto reunião
de demônios comandados por Catarina em um vale próximo. Cristina
ia assim juntando material para uma nova tese, sobre o imaginário
popular.
Algumas coincidências,
porém, logo chamaram-lhe a atenção. De tempos em tempos
sumiam crianças na região, que nunca eram encontradas. Assim
como começavam, os desaparecimentos terminavam. Catarina era considerada
culpada, mesmo séculos após ter morrido. O fato é
que nunca qualquer pista foi encontrada. Justamente após sua chegada
na cidade, crianças começam a sumir, sem deixar vestígios.
Havia mais de cinqüenta anos que aquilo não acontecia, portanto
não poderia ser a mesma pessoa. Três garotos estavam desaparecidos.
Não havia pista alguma, uma testemunha que fosse.
Cristina envolveu-se com as
investigações. Sentia que, se desvenda-se aquele crime, poderia
explicar a estranha influência que aquela lenda exercia sobre a população
daquele lugar.
Passado algumas semanas nada
de novo havia sido descoberto. Das outras crianças não mais
foram vistas. O delegado local pensava até em pedir ajuda federal.
Cristina não dormia direito, procurando, pela lógica, encontrar
uma solução.
Um dia a socióloga aparece
na delegacia. Não havia dormido a noite anterior. Apesar de cientista
tinha uma intuição. Visivelmente alterada, pediu ao delegado
que a acompanhasse com alguns policiais. Foram ao local onde, pelos relatos
que descobrira, Catarina havia cumprido pena. Era um pequeno vale. Movida
por uma força estranha, Cristina, com as mãos escava o sopé
de um morro próximo. A terra estava fofa. Os pequenos ossos não
demoraram a aparecer.
Ao ver tudo aquilo, o rosto
de Cristina se transformou. À vista incrédula dos policiais,
ela começava a gritar palavras incompreensíveis. Era como
se duas almas lutassem por um só corpo. Suas feições
iam, aos poucos, se transformando. Ela despiu-se até que, completamente
nua começou a dançar freneticamente, num ritmo cada vez mais
rápido, começou a levitar. De seus olhos, emanava o próprio
mal. Cristina havia sacrificado aquelas crianças. Sem saber, seu
corpo fora apossado por Catarina, que assim executava a sua vingança.
O CORVO
Edgar Allan Poe
Numa meia-noite agreste, quando
eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências
ancestrais,
E já quase adormecia,
ouvi o que parecia
O som de alguém que batia
levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está
batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada
mais."
Ah, que bem disso me lembro!
Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia
sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada,
toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!)
a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes
celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo,
cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos
terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo
força, eu ia repetindo:
"É uma visita pedindo
entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada
em meus umbrais.
É só isto, e nada
mais."
E, mais forte num instante,
já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora,
de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando
viestes batendo
Tão levemente, batendo,
batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos,
franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei
perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando
que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a
paz profunda e maldita,
E a única palavra dita
foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o
eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.
Para dentro então volvendo,
toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse
novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela
bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está
nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se
distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça,
e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo
dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento,
não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou
sobre os meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura
fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus
ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado",
disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado
lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá
nas trevas infernais."
Disse o Corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro
falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem
palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém
terá havido
Que uma ave tenha tido pousada
nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que
há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o Corvo, sobre o busto,
nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela
a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez,
e eu, em meu pensamento,
Perdido murmurei lento. "Amigos,
sonhos - mortais
Todos - todos já se foram.
Amanhã também te vais."
Disse o Corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida
por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são
estas suas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que
a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entorno
da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança
de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura
sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do
alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei
de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira
dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos
maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas
nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma
cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça
reclinando
No veludo onde a luz punha vagas
sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre
as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais
denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves
passos soam musicais.
"Maldito", a mim disse, "deu-te
Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o,
esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces,
e que faz esses teus ais!"
Disse o Corvo, "nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta
- ou demônio ou ave preta! -
Fosse diabo ou tempestade quem
te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo,
e esta noite e este segredo
A esta casa de ânsia e
medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo
longínquo para esta alma a quem atrais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta
- ou demônio ou ave preta! -
Pelo Deus ante quem ambos somos
fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida,
se no Éden de outra vida,
Verá essa hoje perdida
entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes
celestiais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte,
ave ou diabo", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à
tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste
a mentira que disseste!
Minha solidão me reste!
Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e
a sombra de meus umbrais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".
E o Corvo, na noite infinda,
está ainda, está ainda,
No alvo busto de Atena que há
por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor
de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha
sombra no chão mais e mais.
E a minh’alma dessa sombra que
no chão há de mais e mais,
Libertar-se-á... nunca
mais!
Tradução de Fernando
Pessoa - 1924
AO MESTRE Edgar Allan Poe Contos
O Poço e o Pêndulo
Aqui a multidão ímpia
dos carrascos, insaciada, alimentou sua sede violenta de sangue inocente.
Agora, salva a pátria, destruído o antro do crime, reinam
a vida e salvação onde reinava a cruel morte.
(Quadra composta para um mercado
que devia ser
construído no sítio
onde existiu o Clube dos Jacobinos, em Paris.)
Estava exausto, mortalmente exausto
com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me,
senti que perdia os sentidos. A sentença - a terrível sentença
de morte - foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos.
Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido
indefinido de sonho. O ruído despertava em minha alma a idéia
de rotação, talvez devido à sua associação,
em minha mente, com o ruído característico de uma roda de
moinho. Mas isso durou pouco, pois, logo depois, nada mais ouvi. Não
obstante, durante alguns momentos, pude ver, mas com que terrível
exagero! Via os lábios dos juízes vestidos de preto. Pareciam-me
brancos, mais brancos do que a folha de papel em que traço estas
palavras, e grotescamente finos - finos pela intensidade de sua expressão
de firmeza, pela sua inflexível resolução, pelo severo
desprezo ao sofrimento humano. Via que os decretos daquilo que para mim
representava o destino saíam ainda daqueles lábios. Vi-os
contorcerem-se numa frase mortal; vi-os pronunciarem as sílabas
de meu nome - e estremeci, pois nenhum som lhes acompanhava os movimentos.
Vi, também, durante alguns momentos de delírio e terror,
a suave e quase imperceptível. ondulação das negras
tapeçarias que cobriam as paredes da sala, e o meu olhar caiu então
sobre as sete grandes velas que estavam em cima da mesa. A princípio,
tiveram para mim o aspecto de uma claridade, e pareceram-me anjos brancos
e esguios que deveriam salvar-me. Mas, de repente, uma náusea mortal
invadiu-me a alma, e senti que cada fibra de meu corpo estremecia como
se houvesse tocado os fios de uma bateria galvânica. As formas angélicas
se converteram em inexpressivos espectros com cabeças de chama,
e vi que não poderia esperar delas auxílio algum. Então,
como magnífica nota musical, insinuou-se em minha imaginação
a idéia do doce repouso que me aguardava no túmulo. Chegou
suave, furtivamente - e penso que precisei de muito tempo para apreciá-la
devidamente. Mas, no instante preciso em que meu espírito começava
a sentir e alimentar essa idéia, as figuras dos juízes se
dissiparam, como por arte de mágica, ante os meus olhos. As grandes
velas reduziram-se a nada; suas chamas se apagaram por completo e sobreveio
o negror das trevas; todas as sensações pareceram desaparecer
como numa queda louca da alma até o Hades. E o universo transformou-se
em noite, silêncio, imobilidade.
Eu desmaiara; mas, não
obstante, não posso dizer que houvesse perdido de todo a consciência.
Não procurarei definir, nem descrever sequer, o que dela me restava.
Nem tudo, porém, estava perdido. Em meio do mais profundo sono...
não! Em meio do delírio... não! Em meio do desfalecimento.
. . não! Em meio da morte... não! Nem mesmo na morte tudo
está perdido. Do contrário, não haveria imortalidade
para o homem. Quando despertamos do mais profundo sono, desfazemos as teias
de aranha de algum sonho. E, não obstante, um segundo depois não
nos lembramos de haver sonhado, por mais delicada que tenha sido a teia.
Na volta a vida, depois do desmaio, há duas fases: o sentimento
da existência moral ou espiritual e o da existência física.
Parece provável que, se ao chegar à segunda fase tivéssemos
de evocar as impressões da primeira, tornaríamos a encontrar
todas as lembranças eloqüentes do abismo do outro mundo. E
qual é esse abismo? Como, ao menos, poderemos distinguir suas sombras
das do túmulo?
Mas, se as impressões
do que chamamos primeira fase não nos acodem de novo ao chamado
da vontade, acaso não nos aparecem depois de longo intervalo, sem
ser solicitadas, enquanto, maravilhados, perguntamos a nós mesmos
de onde provêm? Quem nunca perdeu os sentidos não descobrirá
jamais estranhos palácios e rostos singularmente familiares entre
as chamas ardentes; não contemplará, flutuante no ar, as
melancólicas visões que muitos talvez jamais contemplem;
não meditará nunca sobre o perfume de alguma flor desconhecida,
nem mergulhará no mistério de alguma melodia que jamais lhe
chamou antes a atenção.
Em meio de meus freqüentes
e profundos esforços para recordar, em meio de minha luta tenaz
para apreender algum vestígio desse estado de vácuo aparente
em que minha alma mergulhara, houve breves, brevíssimos instan-tes
em que julguei triunfar, momentos fugidios em que cheguei a reunir lembranças
que, em ocasiões posteriores, meu raciocínio, lúcido,
me afirmou não poderem referir-se senão a esse estado em
que a consciência parece aniquilada. Essas sombras de lembranças
apresentavam, indistintamente, grandes figuras que me carregavam, transportando-me,
silenciosamente, para baixo... para baixo... ainda mais para baixo... até
que uma vertigem horrível me oprimia, ante a idéia de que
não tinha mais fim tal descida. Também me lembro de que despertavam
um vago horror no fundo de meu coração, devido precisamente
à tranqüilidade sobrenatural desse mesmo coração.
Depois, o sentimento de uma súbita imobilidade em tudo o que me
cercava, como se aqueles que me carregavam (espantosa comitiva!) ultrapassassem,
em sua descida, os limites do ilimitado, e fizessem uma pausa, vencidos
pelo cansaço de seu esforço. Depois disso, lembro-me de uma
sensação de monotonia e de umidade. Depois, tudo é
loucura - a loucura da memória que se agita entre coisas proibidas.
Súbito, voltam à
minha alma o movimento e o som - o movimento tumultuoso do coração
e, em meus ouvidos, o som de suas batidas. Em seguida, uma pausa, em que
tudo é vazio. Depois, de novo, o som, o movimento e o tato, como
uma sensação vibrante que penetra em meu ser. Logo após,
a simples consciência da minha existência, sem pensamento -
estado que durou muito tempo. Depois, de maneira extremamente súbita,
o pensamento, e um trêmulo terror - o esforço enorme para
compreender o meu verdadeiro estado. Logo após, vivo desejo de mergulhar
na insensibilidade. Depois, um brusco renascer da alma e um esforço
bem sucedido para mover-me. E, então, a lembrança completa
do que acontecera, dos juízes, das tapeçarias negras, da
sentença, da fraqueza, do desmaio. Esquecimento completo de tudo
o que acontecera - e que somente mais tarde, graças aos mais vivos
esforços, consegui recordar vagamente.
Até então, não
abrira ainda os olhos. Sentia que me achava deitado de costas, sem que
estivesse atado. Estendi a mão e ela caiu pesadamente sobre alguma
coisa úmida e dura. Deixei que ela lá ficasse durante muitos
minutos, enquanto me esforçava por imaginar onde é que eu
estava e o que é que poderia ter acontecido comigo. Desejava, mas
não me atrevia a fazer uso dos olhos. Receava o primeiro olhar sobre
as coisas que me cercavam. Não que me aterrorizasse contemplar coisas
terríveis, mas tinha medo de que não houvesse nada para ver.
Por fim, experimentando horrível desespero em meu coração,
abri rapi-damente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então,
confirmados. Envolviam-me as trevas da noite eterna. Esforcei-me por respirar.
A intensidade da escuridão parecia oprimir-me, asfixiar-me. O ar
era intoleravelmente pesado. Continuei ainda imóvel, e esforcei-me
por fazer uso da razão. Lembrei-me dos procedimentos inquisitoriais
e, partindo daí, procurei deduzir qual a minha situação
real.
A sentença fora proferida,
e parecia-me que, desde então, transcorrera longo espaço
de tempo. Não obstante, não imaginei um momento sequer que
estivesse realmente morto. Tal suposição, pese o que lemos
nos livros de fic-ção, é absolutamente incompatível
com a existência real. Mas onde me encontrava e qual era o meu estado?
Sabia que os condenados à morte pereciam, com freqüência,
nos autos-de-fé - e um desses autos havia-se realizado na noite
do dia em que eu fora julgado. Teria eu permanecido em meu calabouço,
à espera do sacrifício seguinte, que não se realizaria
senão dentro de muitos meses? Vi, imediatamente, que isso não
poderia ser. As vítimas eram exigidas sem cessar. Além disso,
meu calabouço, bem como as celas de todos os candenados, em Toledo,
tinha piso de pedra e a luz não era inteiramente excluída.
De repente, uma idéia
terrível acelerou violentamente o sangue em meu coração
e, durante breve espaço, mergulhei de novo na insensibilidade. Ao
recobrar os sentidos, pus-me logo de pé, a tremer convulsivamente.
Alucinado, estendi os braços para o alto e em torno de mim, em todas
as direções. Não senti nada. Não obstante,
receava dar um passo, com medo de ver os meus movimentos impedidos pelos
muros de um túmulo. O suor brotava-me de todos os poros e grossas
gotas frias me salpicavam a testa. A angústia da incerteza tornou-se,
por fim, insuportável e avancei com cautela, os braços estendidos,
os olhos a saltar-me das órbitas, na esperança de descobrir
algum tênue raio de luz. Dei muitos passos, mas, não obstante,
tudo era treva e vácuo. Sentia a respiração mais livre.
Parecia-me evidente que o meu destino não era, afinal de contas,
o mais espantoso de todos.
Continuei a avançar cautelosamente
e, enquanto isso, me vieram à memória mil vagos rumores dos
horrores de Toledo. Sobre calabouços, contavam-se coisas estranhas
- fábulas, como eu sempre as considerara; coisas, contudo, estranhas,
e demasiado horríveis para que a gente as narrasse a não
ser num sussurro. Acaso fora eu ali deixado para morrer de fome naquele
subterrâneo mundo de trevas, ou quem sabe um destino ainda mais terrível
me aguardava? Conhecia demasiado bem o caráter de meus juízes
para duvidar de que o resultado de tudo aquilo seria a morte, e uma morte
mais amarga do que a habitual. Como seria ela e a hora de sua execução
eram os únicos pensa-mentos que me ocupavam o espírito, causando-me
angústia.
Minhas mãos estendidas
encontraram, afinal, um obstáculo sólido. Era uma parede
que parecia de pedra, muito lisa, úmida e fria. Segui junto a ela,
caminhando com a cautelosa desconfiança que certas narrações
antigas me haviam inspirado. Porém, essa operação
não me proporcionava meio algum de averiguar as dimensões
de meu calabouço; podia dar a volta e tornar ao ponto de partida
sem perceber exatamente o lugar em que me encontrava, pois a parede me
parecia perfeitamente uniforme. Por isso, procurei um canivete que tinha
num dos bolsos quando fui levado ao tribunal, mas havia desaparecido. Minhas
roupas tinham sido substituídas por uma vestimenta de sarja grosseira.
A fim de identificar o ponto de partida, pensara em enfiar a lâmina
em alguma minúscula fenda da parede. A dificuldade, apesar de tudo,
não era insuperável, embora, em meio à desordem de
meus pensamentos, me parecesse, a princípio, uma coisa insuperável.
Rasguei uma tira da barra de minha roupa e coloquei-a ao comprido no chão.
formando um ângulo reto com a parede. Percorrendo as palpadelas o
caminho em torno de meu calabouço, ao terminar o circuito teria
de encontrar o pedaço de fazenda. Foi, pelo menos, o que pensei;
mas não levara em conta as dimensões do calabouço,
nem a minha fraqueza. O chão era úmido e escorregadio. Cambaleante,
dei alguns passos, quando, de repente, tropecei e caí. Meu grande
cansaço fez com que permanecesse caído e, naquela posição,
o sono não tardou em apoderar-se de mim.
Ao acordar e estender o braço,
encontrei ao meu lado um pedaço de pão e um púcaro
com água. Estava demasiado exausto para pensar em tais circunstâncias,
e bebi e comi avidamente. Pouco depois, reiniciei minha viagem em torno
do calabouço e, com muito esforço, consegui chegar ao pedaço
de sarja. Até o momento em que caí, já havia contado
cinqüenta e dois passos e, ao recomeçar a andar até
chegar ao pedaço de pano, mais quarenta e oito. Portanto, havia
ao todo cem passos e, supondo que dois deles fossem uma jarda, calculei
em cerca de cinqüenta jardas a circunferência de meu calabouço.
No entanto, deparara com numerosos ângulos na parede, e isso me impedia
de conjeturar qual a forma da caverna, pois não havia dúvida
alguma de que se tratava de uma caverna.
Tais pesquisas não tinham
objetivo algum e, certamente, eu não alimentava nenhuma esperança;
mas uma vaga curiosidade me Ievava a continuá-las. Deixando a parede,
resolvi atravessar a área de minha prisão. A princípio,
procedi com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente revestido
de material sólido, era traiçoeiro, devido ao limo. Por fim,
ganhei coragem e não hesitei em pisar com firmeza, procurando seguir
cm linha tão reta quanto possível. Avancei, dessa maneira,
uns dez ou doze passos, quando o que restava da barra de minhas vestes
se emaranhou em minhas pernas. Pisei num pedaço da fazenda e caí
violentamente de bruços.
Na confusão causada pela
minha queda, não reparei imediatamente numa circunstância
um tanto surpreendente, a qual, no entanto, decorridos alguns instantes,
enquanto me encontrava ainda estirado, me chamou a atenção.
Era que o meu queixo estava apoiado sobre o chão da prisão,
mas os meus lábios e a parte superior de minha cabeça, embora
me parecessem colocados numa posição menos elevada do que
o queixo, não tocavam em nada. Por outro lado, minha testa parecia
banhada por um vapor pegajoso, e um cheiro característico de cogumelos
em decomposição me chegou às narinas. Estendi o braço
para a frente e tive um estremecimento, ao verificar que caíra bem
junto às bordas de um poço circular cuja circunferência,
naturalmente, não me era possível verificar no momento. Apalpando
os tijolos, pouco abaixo da boca do poço, consegui deslocar um pequeno
fragmento e deixei-o cair no abismo. Durante alguns segundos, fiquei atento
aos seus ruídos, enquanto, na queda, batia de encontro às
paredes do poço; por fim, ouvi um mergulho surdo na água,
seguido de ecos fortes. No mesmo momento, ouvi um som que se assemelhava
a um abrir e fechar de porta. acima de minha cabeça, enquanto um
débil raio de luz irrompeu subitamente através da escuridão
e se extinguiu de pronto.
Percebi claramente a armadilha
que me estava prepa-rada, e congratulei-me comigo mesmo pelo oportuno acidente
que me fizera escapar de tal destino. Outro passo antes de minha queda,
e o mundo jamais me veria de novo. E a morte de que escapara por pouco
era daquelas que eu sempre considerara como fabulosas e frívolas
nas narrações que diziam respeito à Inquisição.
Para as vítimas de sua tirania, havia a escolha entre a morte com
as suas angústias físicas imediatas e a morte com os seus
espantosos horrores morais. Eu estava destinado a esta última. Devido
aos longos sofrimentos, meus nervos estavam à flor da pele, a ponto
de tremer ao som de minha própria voz, de modo que era, sob todos
os aspectos, uma vítima adequada para a espécie de tortura
que me aguardava.
Tremendo dos pés à
cabeça, voltei, às apalpadelas, até a parede, resolvido
antes a ali perecer do que a arrostar os terrores dos poços, que
a minha imaginação agora pintava. em vários lugares
do calabouço. Em outras condições de espírito,
poderia ter tido a coragem de acabar de vez com a minha miséria,
mergulhando num daqueles poços; mas eu era, então, o maior
dos covardes. Tampouco podia esquecer o que lera a respeito daqueles poços:
que a súbita extinção da vida não fazia parte
dos planos de meus algozes.
A agitação em que
se debatia o meu espírito fez-me permanecer acordado durante longas
horas; contudo, acabei por adormecer de novo. Ao acordar, encontrei ao
meu lado, como antes, um pão e um púcaro com água.
Consumia-me uma sede abrasadora, e esvaziei o recipiente de um gole só.
A água devia conter alguma droga, pois, mal acabara de beber, tornei-me
irresistivelmente sonolento. Invadiu-me profundo sono - um sono como o
da morte. Quanto tempo aquilo durou, certamente, não posso dizer;
mas, quando tornei a abrir os olhos, os objetos em torno eram visíveis.
Um forte clarão cor de enxofre, cuja origem não pude a princípio
determinar, permitia-me ver a extensão e o aspecto da prisão.
Quanto ao seu tamanho, enganara-me
completamente. A extensão das paredes, em toda a sua. volta, não
passava. de vinte e cinco jardas. Durante alguns minutos, tal fato me causou
um mundo de preocupações inúteis. Inúteis,
de fato, pois o que poderia ser menos importante, nas circunstâncias
em que me encontrava, do que as simples dimensões de minha cela?
Mas minha alma se interessava vivamente por coisas insignificantes, e eu
me empenhava em explicar a mim mesmo o erro cometido em meus cálculos.
Por fim, a verdade fez-se-me subitamente clara. Em minha primeira tentativa
de exploração, eu contara cinqüenta e dois passos até
o momento em que caí; devia estar, então, a um ou dois passos
do pedaço de sarja; na verdade, havia quase completado toda a volta
do calabouço. Nessa altura, adormeci e, ao despertar, devo ter voltado
sobre meus próprios passos - supondo, assim, que o circuito do calabouço
era quase o dobro do que realmente era. A confusão de espírito
em que me encontrava impediu-me de notar que começara a volta seguindo
a parede pela esquerda, e que a terminara seguindo-a para a direita.
Enganara-me, também, quanto
ao formato da cela. Ao seguir o meu caminho, deparara com muitos ângulos,
o que me deu idéia de grande irregularidade, tão poderoso
é o efeito da escuridão total sobre alguém que desperta
do sono ou de um estado de torpor! Os ângulos não passavam
de umas poucas reentrâncias, ou nichos, situadas em intervalos iguais.
A forma geral da prisão era retangular. O que me parecera alvenaria,
parecia-me, agora, ferro, ou algum outro metal, disposto em enormes pranchas,
cujas suturas ou juntas produziam as depressões. Toda a superfície
daquela construção metálica era revestida grosseiramente
de vários emblemas horrorosos e repulsivos nascidos das superstições
sepulcrais dos monges. Figuras de demônios de aspectos ameaçadores,
com formas de esqueleto, bem como outras imagens ainda mais terríveis,
enchiam e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos de tais monstruosidades
eram bastante nítidos, mas que as cores pareciam desbotadas e apagadas,
como por efeito da umidade. Notei, então, que o piso era de pedra.
Ao centro, abria-se o poço circular de cujas fauces eu escapara
- mas era o único existente no calabouço.
Vi tudo isso confusamente e com
muito esforço, pois minha condição física mudara
bastante durante o sono. Estava agora estendido de costas numa espécie
de andaime de madeira muito baixo, ao qual me achava fortemente atado por
uma longa tira de couro. Esta dava muitas voltas em torno de meus membros
e de meu corpo, deixando apenas livre a minha cabeça e o meu braço
esquerdo, de modo a permitir que eu, com muito esforço, me servisse
do aumento que se achava sobre um prato de barro, colocado no chão.
Vi, horrorizado, que o púcaro havia sido retirado, pois uma sede
intolerável me consumia. Pareceu-me que a intenção
de meus verdugos era exasperar essa sede, já que o alimento que
o prato continha consistia de carne muita salgada.
Levantei os olhos e examinei
o teto de minha prisão. Tinha de nove a doze metros de altura e
o material de sua construção assemelhava-se ao das paredes
laterais. Chamou-me a atenção uma de suas figuras, bastante
singular. Era a figura do Tempo, tal como é comumente representado,
salvo que, em lugar da foice, segurava algo que me pareceu ser, ao primeiro
olhar, um imenso pêndulo, como esses que vemos nos relógios
antigos. Havia alguma coisa, porém, na aparência desse objeto,
que me fez olhá-lo com mais atenção.
Enquanto a observava diretamente,
olhando para cima, pois se achava colocada exatamente sobre minha cabeça,
tive a impressão de que o pêndulo se movia. Um instante depois,
vi que minha impressão se confirmava. Seu oscilar era curto e, por
conseguinte, lento. Observei-o, durante alguns minutos, com certo receio,
mas, principalmente, com espanto. Cansado, por fim, de observar o seu monótono
movimento, voltei o olhar para outros objetos existentes na cela.
Um ligeiro ruído atraiu-me
a atenção e, olhando para o chão, vi que enormes ratos
o atravessavam. Tinham saído do poço, que ficava a direita.
bem diante de meus olhos. Enquanto os olhava, saíam do poço
em grande número, apressadamente, com olhos vorazes, atraídos
pelo cheiro da carne. Foi preciso muito esforço e atenção
de minha parte para afugentá-los.
Talvez houvesse transcorrido
meia hora, ou mesmo uma hora - pois não me era possível perceber
bem a passa-gem do tempo -, quando levantei de novo os olhos para o teto.
O que então vi me deixou atônito, perplexo. O oscilar do pêndulo
havia aumentado muito, chegando quase a uma jarda. Como conseqüência
natural, sua velocidade era também muito maior. Mas o que me perturbou,
principal-mente, foi a idéia de que havia, imperceptivelmente, descido.
Observei, então - tomado de um horror que bem se pode imaginar -,
que a sua extremidade inferior era formada de uma lua crescente feita de
aço brilhante, de cerca de um pé de comprimento de ponta
a ponta. As pontas estavam voltadas pura cima e o fio inferior era, evidentemente,
afiado como uma navalha. Também como uma navalha, parecia pesada
e maciça, alargando-se, desde o fio, numa estrutura larga e sólida.
Presa a cela havia um grosso cano de cobre, e tudo isso assobiava, ao mover-se
no ar.
Já não me era possível
alimentar qualquer dúvida quanto à sorte que me reservara
o terrível engenho monacal de torturas. Os agentes da Inquisição
tinham conhecimento de que eu descobrira o poço - o poço
cujos horrores haviam sido destinados a um herege tão temerário
quanto eu -, o poço, imagem do inferno, considerado como a Última
Tule de todos os seus castigos. Um simples acaso me impedira de cair no
poço, e eu sabia que a surpresa, ou uma armadilha que levasse ao
suplício constituíam uma parte importante de tudo o que havia
de grotesco naqueles calabouços de morte. Ao que parecia, tendo
fracassado a minha queda no poço, não fazia parte do plano
demoníaco o meu lançamento no abismo e, assim, não
havendo outra alternativa, aguardava-me uma forma mais suave de destruição.
Mais suave! Em minha angústia, esbocei um sorriso ao pensar no emprego
dessas palavras.
Para que falar das longas, longas
horas de horror mais do que mortal, durante as quais contei as rápidas
oscilações do aço? Polegada a polegada, linha a linha,
descia aos poucos, de um modo só perceptível a intervalos
que para mim pareciam séculos. E cada vez descia mais, descia mais!...
Passaram-se dias, talvez muitos
dias, antes que chegasse a oscilar tão perto de mim a ponto de me
ser possível sentir o ar acre que deslocava. Penetrava-me as narinas
o cheiro do aço afiado. Rezei - cansando o céu com as minhas
preces - para que a sua descida fosse mais rápida. Tomado de frenética
loucura, esforcei-me para erguer o corpo e ir ao encontro daquela espantosa
e oscilante cimitarra. Depois, de repente, apoderou-se de mim uma grande
calma e permaneci sorrindo diante daquela morte cintilante, como uma criança
diante de um brinquedo raro.
Seguiu-se outro intervalo de
completa insensibilidade -um intervalo muito curto, pois, ao voltar de
novo à vida, não me pareceu que o pêndulo houvesse
descido de maneira perceptível. Mas é possível que
haja decorrido muito tempo; sabia que existiam seres infernais que tomavam
nota de meus desfalecimentos e podiam deter, à vontade, o movimento
do pêndulo. Ao voltar a mim, senti um mal-estar é uma fraqueza
indescritíveis, como se estivesse a morrer de inanição.
Mesmo entre todas as angústias por que esta-va passando, a natureza
humana ansiava por alimento. Com penoso esforço, estendi o braço
esquerdo tanto quanto me permitiam as ataduras e apanhei um resto de comida
que conseguira evitar que os ratos comessem. Ao levar um bocado à
boca, passou-me pelo espírito um vago pensamento de alegria... de
esperança. Não obstante, .que é que tinha com a ver
com a esperança? Era, como digo, um pensamento vago - desses que
ocorrem a todos com freqüência, mas que não se completam.
Mas senti que era de alegria, de esperança. Como senti, também,
que se extinguira antes de formar-se. Esforcei-me em vão por completá-lo...
por reconquistá-lo. Meus longos sofrimentos haviam quase aniquilado
todas as Faculdades de meu espírito. Eu era um imbecil, um idiota.
A oscilação do
pêndulo se processava num plano que tormava um ângulo reto
com o meu corpo. Vi que a lâmina fora colocada de modo a atravessar-me
a região do coração. Rasgaria a ininha roupa, voltaria
e repetiria a operação... de novo, de novo. Apesar da grande
extensâo do espaço percorrido - uns trinta pés, mais
ou menos - e da sibilante energia de sua oscilação, suficiente
para partir ao meio aquelas próprias paredes de ferro, tudo o que
podia fazer, durante vários minutos, seria apenas rasgar as minhas
roupas. E, ao pensar nisso, detive-me. Não ousava ir além
de tal reflexão. Insisti sobre ela com toda atenção,
como se com essa insistência pudesse parar ali a descida da lâmina.
Comecei a pensar no som que produziria ao passar pelas minhas róupas,
bem como na estranha e arrepiante sensação que o rasgar de
uma fazenda produz sobre os nervos. Pensei em todas essas coisas fazendo
os dentes rangerem, de tão contraídos.
Descia... cada vez descia mais
a lâmina. Sentia um prazer frenético ao comparar sua velocidade
de cima a baixo com a sua velocidade lateral. Para a direita... para a
esquerda... num amplo oscilar... com o grito agudo de uma alma penada;
para o meu coração, com o passo furtivo de um tigre! Eu ora
ria, ora uivava, quando esta ou aquela idéia se tornava predominante.
Sempre para baixo... certa e
inevitavelmente! Movia-se, agora, a três polegadas do meu peito!
Eu lutava violentamente, furiosamente. para livrar o braço esquerdo.
Este estava livre apenas desde o cotovelo até a mão. Podia
mover a mão, com grande esforço, apenas desde o prato, que
haviam colocado ao meu lado, até a boca. Nada mais. Se houvesse
podido romper as ligaduras acima do cotovelo, teria apanhado o pêndulo
e tentado detê-lo. Mas isso seria o mesmo que tentar deter uma avalancha!
Sempre mais baixo, incessantemente,
inevitavelmente mais baixo! Arquejava e me debatia a cada vibração.
Encolhia-me convulsivamente a cada oscilação. Meus olhos
seguiam as subidas e descidas da lâmina com a ansiedade do mais completo
desespero; fechavam-se espasmodicamente a cada descida, como se a morte
houvesse sido um alívio... oh, que alívio indizível!
Não obstante, todos os meus nervos tremiam. à idéia
de que bastaria que a máquina descesse um pouco mais para que aquele
machado afiado e reluzente se precipitasse sobre o meu peito. Era a esperança
que fazia com que meus nervos estremecessem, com que todo o meu corpo se
encolhesse. Era a esperança - a esperança que triunfa mesmo
sobre o suplício -, a que sussurrava aos ouvidos dos condenados
à morte, mesmo nos calabouços da Inquisição.
Vi que mais umas dez ou doze
oscilações poriam o aço em contato imediato com as
minhas roupas e, com essa observação, invadiu-me o espírito
toda a calma condensada e viva do desespero. Pela primeira vez durante
muitas horas - ou, talvez dias - consegui pensar. Ocorreu-me, então,
que a tira ou correia que me envolvia o corpo era inteiriça. Não
estava amarrada por meio de cordas isoladas.
O primeiro golpe da lâmina
em forma. de meia lua sobre qualquer lugar da correia a desataria, de modo
a permitir que minha mão a desenrolasse de meu corpo. Mas como era
terrível, nesse caso, a sua proximidade. O resultado do mais leve
movimento, de minha parte, seria mortal! Por outro lado, acaso os sequazes
do verdugo não teriam previsto e impedido tal possibilidade? E seria
provável que a correia que me atava atravessasse o meu peito justamente
no lugar em. que o pêndulo passaria? Temendo ver frustrada essa minha
fraca e, ao que parecia, última esperança, levantei a cabeça
o bastante par ver bem o meu peito. A correia, envolvia-me os membros e
o corpo fortemente em todas as direções, menos no lugar em
que deveria passar a lâmina assassina.
Mal deixei cair a cabeça
em sua posição anterior, quando senti brilhar em meu espírito
algo que só poderia descrever proximadamente, dizendo que era como
que a metade não formada da idéia de liberdade a que aludi
anteriormente, e da qual apenas uma parte flutuou vaga-mente em meu espírito
quando levei o alimento aos meus lábios febris. Agora, todo o pensamento
estava ali presente - débil, quase insensato, quase indefinido -,
mas, de qualquer maneira, completo. Procurei imediatamente, com toda a
energia nervosa do desespero, pô-lo em execução.
Havia várias horas, um
número enorme de ratos se agitava junto do catre em que me achava
estendido. Eram temerários, ousados, vorazes; fitavam sobre mim
os olhos vermelhos, como se esperassem apenas minha imobilidade para fazer-me
sua presa. "A que espécie de alimento", pensei, "estão eles
habituados no poço?" Haviam devorado, apesar de todos os meus esforços
para o impedir, quase tudo o alimento que se encontrava no prato, salvo
uma pequena parte. Minha mão se acostumara a um movimento oscilatório
sobre o prato e, no fim, a uniformidade inconsciente de tal movimento deixou
de produzir efeito. Em sua veracidade, cravavam freqüentemente em
meus dedos os dentes agudos. Com o resto da carne oleosa e picante que
ainda sobrava. esfreguei fortemente, até o ponto em que podia alcançá-la,
a correia com que me haviam atado. Depois, erguendo a mão do chão,
permaneci imóvel, quase sem respirar.
A princípio, os vorazes
animais ficaram surpresos c aterrorizados com a mudança verificada
- com a cessação de qualquer movimento. Mas isso apenas durante
um momento. Não fora em vão que eu contara com a sua voracidade.
Vendo que eu permanecia imóvel, dois ou três dos mais ousados
soltaram sobre o catre e puseram-se a cheirar a correia. Dir-se-ia que
isso foi o sinal para a investida geral. Vindos da parede, arremeteram
em novos bandos. Agarraram-se ao estrado, galgaram-no e pularam. as centenas
sobre o meu corpo. O movimento rítmico do pêndulo não
os perturbava de maneira alguma. Evitando seus golpes, atiraram-se à
correia besuntada. Apertavam-se, amontoavam-se sobre mim. Contorciam-se
sobre meu pescoço; seus focinhos, frios. procuravam meus lábios.
Sentia-me quase sufocado sob o seu peso. Um asco espantoso, para o qual
não existe nome, enchia-me o peito e gelava-me, com pegajosa umidade,
o coração. Mais um minuto, e percebia que a operação
estaria terminada. Sentia claramente que a correia afrouxava. Sabia que,
em mais de um lugar, já devia estar completamente partida. Com uma
determinação sobre-humana continuei imóvel.
Não errei em meus cálculos;
todos esses sofrimentos não foram em vão. Senti, afinal,
que estava livre. A correia pendia, em pedaços, de meu corpo. Mas
o movimento do pêndulo já se realizava sobre o meu peito.
Tanto a sarja da minha roupa, como a camisa que vestia já haviam
sido cortadas. O pêndulo oscilou ainda por duas vezes, e uma dor
aguda me penetrou todos os nervos. Mas chegara o momento da salvação.
A um gesto de minha mão, meus libertadores fugiram tumultuosamente.
Com um movimento decidido, mas cauteloso, deslizei encolhido, lentamente,
para o lado, livrando-me das correias e da lâmina da cimi-tarra.
Pelo menos naquele momento, estava livre.
Livre! E nas garras da Inquisição!
Mal havia escapado daquele meu leito de horror e dado uns passos pelo piso
de pedra da prisão, quando cessou o movimento da má-quina
infernal e eu a vi subir, como que atraída por alguma força
invisível, para o teto. Aquela foi uma lição que guardei
desesperadamente no coração. Não havia dúvida
de que os meus menores gestos eram observados. Livre! Escapara por pouco
à morte numa determinada forma de agonia, apenas para ser entregue
a uma outra, pior do que a morte. Com este pensamento, volvi os olhos,
nervosamente, para as paredes de ferro que me cercavam. Algo estranho -
uma mudança que, a princípio, não pude apreciar claramente
- havia ocorrido, evidentemente, em minha cela. Durante muitos minutos
de trêmula abstração, perdi-me em conjeturas vãs
e incoerentes. Pela primeira vez percebi a origem da luz sulfurosa que
alumiava a cela. Procedia de uma fenda, de cerca de meia polegada de largura,
que se estendia em torno do calabouço, junto a base das paredes,
que pareciam, assim, e, na verdade estavam, completamente separadas do
solo. Procurei, inutilmente, olhar através dessa abertura.
Ao levantar-me, depois dessa
tentativa, o mistério da modificação verificada tornou-se-me,
subitamente, claro. Já observara que, embora os contornos dos desenhos
das paredes fossem bastante nítidos, suas cores, não obstante,
pareciam apagadas e indefinidas. Essas cores, agora, haviam adquirido,
e estavam ainda adquirindo, um brilho intenso e surpreendente, que dava
às imagens fantásticas e diabólicas um aspecto que
teria arrepiado nervos mais firmes do que os meus. Olhos demoníacos,
de uma vivacidade sinistra e feroz, cravavam-se em mim de todos os lados,
de lugares onde antes nenhum deles era visível, com um brilho ameaçador
que eu, em vão, procurei considerar como irreal.
Irreal! Bastava-me respirar para
que me chegasse às narinas o vapor de ferros em brasa! Um cheiro
sufocante invadia a prisão! Um brilho cada vez mais profundo se
fixava nos olhos cravados em minha agonia! Um vermelho mais vivo estendia-se
sobre aquelas pinturas horrorosas e sangrentas. Eu arquejava. Respirava
com dificuldade. Não poderia haver dúvida quanto à
intenção de meus verdugos, os mais implacáveis, os
mais demoníacos de todos os ho-mens! Afastei-me do metal incandescente,colocando-me
ao centro da cela. Ante a perspectiva da morte pelo fogo,que me aguardava,
a idéia da frescura do poço chegou à minha alma como
um bálsamo. Precipitei-me para as suas bordas mortais. Lancei o
olhar para o fundo. O resplendor da abóbada iluminava as suas cavidades
mais profundas. Não obstante, durante um minuto de desvario, meu
espírito se recusou a compreender o significado daquilo que eu via.
Por fim, aquilo penetrou, à força, em minha alma, gravando-se
a fogo em minha trêmula razão. Oh, indescritível! Oh,
horror dos horrores! Com um grito, afastei-me do poço e afundei
o rosto nas mãos, a soluçar amargamente.
O calor aumentava rapidamente
e, mais uma vez, olhei para cima, sentindo um calafrio. Operara-se uma
grande mudança na cela - e, dessa vez, a mudança era, evidentemente,
de forma. Como acontecera antes, procurei inutilmente apreciar ou compreender
o que ocorria. Mas não me deixaram muito tempo em dúvida.
A vingança da Inquisição se exacerbara por eu a haver
frustrado por duas vezes - e não mais permitiria que zombasse dela!
A cela, antes, era quadrada. Notava, agora, que dois de seus ângulos
de ferro eram agudos, sendo os dois outros, por conseguinte, obtusos. Com
um ruído surdo, gemente, aumentava rapidamente o terrível
contraste. Num instante, a cela adquirira a forma de um losango. Mas a
modificação não parou aí - nem eu esperava
ou desejava que parasse. Poderia haver apertado as paredes incandescentes
de encontro ao peito, como se fossem uma vestimenta de eterna paz. "A morte",
disse de mim para comigo. "Qualquer morte, menos a do poço!" Insensato!
Como não pude compreender que era para o poço que o ferro
em brasa me conduzia? Resistiria eu ao seu calor? E, mesmo que resistisse,
suporturia sua pressão? E cada vez o losango se aproximava mais,
com uma rapidez que não me deixava tempo para pensar. Seu centro
e, naturalmente, a sua parte mais larga chegaram até bem junto do
abismo aberto. Recuei, mas as paredes, que avançavam, me empurravam,
irresistivelmente, para a frente. Por fim, já não existia,
para o meu corpo chamuscado e contorcido, senão um exíguo
lugar para firmar os pés, no solo da prisão. Deixei de lutar,
mas a angústia de minha alma se extravasou em forte e prolongado
grito de desespero. Senti que vacilava à boca do poço, e
desviei os olhos... Mas ouvi, então, um ruído confuso de
vozes humanas! O som vibrante de muitas trombetas! E um rugido poderoso,
como de mil trovões, atroou os ares! As paredes de fogo recuaram
precipitadamente! Um braço estendido agarrou o meu, quando eu, já
quase desfalecido, caía no abismo. Era o braço do General
Lassalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição
estava nas mãos de seus inimigos.
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