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Publicado originalmente em Relíquias de casa
velha, 1906
FIM de Umas férias
Machado de Assis
Vieram dizer ao mestre-escola que alguém lhe
queria falar.
— Quem é?
— Diz que meu senhor não o conhece, respondeu
o preto.
— Que entre.
Houve um movimento geral de cabeças na direção
da porta do corredor, por onde devia entrar a pessoa desconhecida. Éramos
não sei quantos meninos na escola. Não tardou que aparecesse
uma figura rude, tez queimada, cabelos compridos, sem sinal de pente, a
roupa amarrotada, não me lembra bem a cor nem a fazenda, mas provavelmente
era brim pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o homem, eu mais
que ninguém, porque ele era meu tio, roceiro, morador em Guaratiba.
Chamava-se tio Zeca.
Tio Zeca foi ao mestre e falou-lhe baixo. O mestre
fê-lo sentar, olhou para mim, e creio que lhe perguntou alguma coisa,
porque tio Zeca entrou a falar demorado, muito explicativo. O mestre insistiu,
ele respondeu, até que o mestre, voltando-se para mim, disse alto:
— Sr. José Martins, pode sair.
A minha sensação de prazer foi tal que
venceu a de espanto. Tinha dez anos apenas, gostava de folgar, não
gostava de aprender. Um chamado de casa, o próprio tio, irmão
de meu pai, que chegara na véspera de Guaratiba, era naturalmente
alguma festa, passeio, qualquer coisa. Corri a buscar o chapéu,
meti o livro de leitura no bolso e desci as escadas da escola, um sobradinho
da Rua do Senado. No corredor beijei a mão a tio Zeca. Na rua fui
andando ao pé dele, amiudando os passos, e levantando a cara. Ele
não me dizia nada, eu não me atrevia a nenhuma pergunta.
Pouco depois chegávamos ao colégio de minha irmã Felícia;
disse-me que esperasse, entrou, subiu, desceram, e fomos os três
caminho de casa. A minha alegria agora era maior. Certamente havia festa
em casa, pois que íamos os dois, ela e eu; íamos na frente,
trocando as nossas perguntas e conjecturas. Talvez anos de tio Zeca. Voltei
a cara para ele; vinha com os olhos no chão, provavelmente para
não cair.
Fomos andando. Felícia era mais velha que eu
um ano. Calçava sapato raso, atado ao peito do pé por duas
fitas cruzadas, vindo acabar acima do tornozelo com laço. Eu, botins
de cordovão, já gastos. As calcinhas dela pegavam com a fita
dos sapatos, as minhas calças, largas, caíam sobre o peito
do pé; eram de chita. Uma ou outra vez parávamos, ela para
admirar as bonecas à porta dos armarinhos, eu para ver, à
porta das vendas, algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro
atada ao pé. Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio não
cansa em tal idade. Tio Zeca é que nos tirava do espetáculo
industrial ou natural. — Andem, dizia ele em voz sumida. E nós andávamos,
até que outra curiosidade nos fazia deter o passo. Entretanto, o
principal era a festa que nos esperava em casa.
— Não creio que sejam anos de tio Zeca, disse-me
Felícia.
— Por quê?
— Parece meio triste.
— Triste, não, parece carrancudo.
— Ou carrancudo. Quem faz anos tem a cara alegre.
— Então serão anos de meu padrinho...
— Ou de minha madrinha...
— Mas por que é que mamãe nos mandou
para a escola?
— Talvez não soubesse.
— Há de haver jantar grande...
— Com doce...
— Talvez dancemos.
Fizemos um acordo: podia ser festa, sem aniversário
de ninguém. A sorte grande, por exemplo. Ocorreu-me também
que podiam ser eleições. Meu padrinho era candidato a vereador;
embora eu não soubesse bem o que era candidatura nem vereação,
tanto ouvira falar em vitória próxima que a achei certa e
ganha. Não sabia que a eleição era ao domingo, e o
dia era sexta-feira. Imaginei bandas de música, vivas e palmas,
e nós, meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse
espetáculo à noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez
ao teatro, e voltei dormindo, mas no dia seguinte estava tão contente
que morria por lá tornar, posto não houvesse entendido nada
do que ouvira. Vira muita coisa, isto sim, cadeiras ricas, tronos, lanças
compridas, cenas que mudavam à vista, passando de uma sala a um
bosque, e do bosque a uma rua. Depois, os personagens, todos príncipes.
Era assim que chamávamos aos que vestiam calção de
seda, sapato de fivela ou botas, espada, capa de veludo, gorra com pluma.
Também houve bailado. As bailarinas e os bailarinos falavam com
os pés e as mãos, trocando de posição e um
sorriso constante na boca. Depois os gritos do público e as palmas...
Já duas vezes escrevi palmas; é que as
conhecia bem. Felícia, a quem comuniquei a possibilidade do espetáculo,
não me pareceu gostar muito, mas também não recusou
nada. Iria ao teatro. E quem sabe se não seria em casa, teatrinho
de bonecos? Íamos nessas conjecturas, quando tio Zeca nos disse
que esperássemos; tinha parado a conversar com um sujeito.
Paramos, à espera. A idéia da festa,
qualquer que fosse, continuou a agitar-nos, mais a mim que a ela. Imaginei
trinta mil coisas, sem acabar nenhuma, tão precipitadas vinham,
e tão confusas que não as distinguia; pode ser até
que se repetissem. Felícia chamou a minha atenção
para dois moleques de carapuça encarnada, que passavam carregando
canas — o que nos lembrou as noites de Santo Antônio e S. João,
já lá idas. Então falei-lhe das fogueiras do nosso
quintal, das bichas que queimamos, das rodinhas, das pistolas e das danças
com outros meninos. Se houvesse agora a mesma coisa... Ah! lembrou-me que
era ocasião de deitar à fogueira o livro da escola, e o dela
também, com os pontos de costura que estava aprendendo.
— Isso não, acudiu Felícia.
— Eu queimava o meu livro.
— Papai comprava outro.
— Enquanto comprasse, eu ficava brincando em casa;
aprender é muito aborrecido.
Nisto estávamos, quando vimos tio Zeca e o desconhecido
ao pé de nós. O desconhecido pegou-nos nos queixos e levantou-nos
a cara para ele, fitou-nos com seriedade, deixou-nos e despediu-se.
— Nove horas? Lá estarei, disse ele.
— Vamos, disse-nos tio Zeca.
Quis perguntar-lhe quem era aquele homem, e até
me pareceu conhecê-lo vagamente. Felícia também. Nenhum
de nós acertava com a pessoa: mas a promessa de lá estar
às nove horas dominou o resto. Era festa, algum baile, conquanto
às nove horas costumássemos ir para a cama. Naturalmente,
por exceção, estaríamos acordados. Como chegássemos
a um rego de lama, peguei da mão de Felícia, e transpusemo-lo
de um salto, tão violento que quase me caiu o livro. Olhei para
tio Zeca, a ver o efeito do gesto; vi-o abanar a cabeça com reprovação.
Ri, ela sorriu, e fomos pela calçada adiante.
Era o dia dos desconhecidos. Desta vez estavam em burros,
e um dos dois era mulher. Vinham da roça. Tio Zeca foi ter com eles
ao meio da rua, depois de dizer que esperássemos. Os animais pararam,
creio que de si mesmos, por também conhecerem a tio Zeca, idéia
que Felícia reprovou com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria
apenas meia convicção; tudo era folgar. Fosse como fosse,
esperamos os dois, examinando o casal de roceiros. Eram ambos magros, a
mulher mais que o marido, e também mais moça; ele tinha os
cabelos grisalhos. Não ouvimos o que disseram, ele e tio Zeca; vimo-lo,
sim, o marido olhar para nós com ar de curiosidade, e falar à
mulher, que também nos deitou os olhos, agora com pena ou coisa
parecida. Enfim apartaram-se, tio Zeca veio ter conosco e enfiamos para
casa.
A casa ficava na rua próxima, perto da esquina.
Ao dobrarmos esta, vimos os portais da casa forrados de preto — o que nos
encheu de espanto. Instintivamente paramos e voltamos a cabeça para
tio Zeca. Este veio a nós, deu a mão a cada um e ia dizer
alguma palavra que lhe ficou na garganta; andou, levando-nos consigo. Quando
chegamos, as portas estavam meio cerradas. Não sei se lhes disse
que era um armarinho. Na rua, curiosos. Nas janelas fronteiras e laterais,
cabeças aglomeradas. Houve certo rebuliço quando chegamos.
É natural que eu tivesse a boca aberta, como Felícia. Tio
Zeca empurrou uma das meias-portas, entramos os três, ele tornou
a cerrá-la, meteu-se pelo corredor e fomos à sala de jantar
e à alcova.
Dentro, ao pé da cama, estava minha mãe
com a cabeça entre as mãos. Sabendo da nossa chegada, ergueu-se
de salto, veio abraçar-nos entre lágrimas, bradando:
— Meus filhos, vosso pai morreu!
A comoção foi grande, por mais que o
confuso e o vago entorpecessem a consciência da notícia. Não
tive forças para andar, e teria medo de o fazer. Morto como? morto
por quê? Estas duas perguntas, se as meto aqui, é para dar
seguimento à ação; naquele momento não perguntei
nada a mim nem a ninguém. Ouvi as palavras de minha mãe,
que se repetiam em mim,1 e os seus soluços que eram grandes. Ela
pegou em nós e arrastou-nos para a cama, onde jazia o cadáver
do marido; e fez-nos beijar-lhe a mão. Tão longe estava eu
daquilo que, apesar de tudo, não entendera nada a princípio;
a tristeza e o silêncio das pessoas que rodeavam a cama ajudaram
a explicar que meu pai morrera deveras. Não se tratava de um dia
santo, com a sua folga e recreio, não era festa, não eram
as horas breves ou longas, para a gente desfiar em casa, arredada dos castigos
da escola. Que essa queda de um sonho tão bonito fizesse crescer
a minha dor de filho não é coisa que possa afirmar ou negar;
melhor é calar. O pai ali estava defunto, sem pulos, nem danças,
nem risadas, nem bandas de música, coisas todas também defuntas.
Se me houvessem dito à saída da escola por que é que
me iam lá buscar, é claro que a alegria não houvera
penetrado o coração, de onde era agora expelida a punhadas.
O enterro foi no dia seguinte às nove horas
da manhã, e provavelmente lá estava aquele amigo de tio Zeca
que se despediu na rua, com a promessa de ir às nove horas. Não
vi as cerimônias; alguns vultos, poucos, vestidos de preto, lembra-me
que vi. Meu padrinho, dono de um trapiche, lá estava, e a mulher
também, que me levou a uma alcova dos fundos para me mostrar gravuras.
Na ocasião da saída, ouvi os gritos de minha mãe,
o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas que pegavam nas
alças do caixão, creio eu: — “vire de lado — mais à
esquerda — assim, segure bem...” Depois, ao longe, o coche andando e as
seges atrás dele...
Lá iam meu pai e as férias! Um dia de
folga sem folguedo! Não, não foi um dia, mas oito, oito dias
de nojo, durante os quais alguma vez me lembrei do colégio. Minha
mãe chorava, cosendo o luto, entre duas visitas de pêsames.
Eu também chorava; não via meu pai às horas do costume,
não lhe ouvia as palavras à mesa ou ao balcão, nem
as carícias que dizia aos pássaros. Que ele era muito amigo
de pássaros, e tinha três ou quatro, em gaiolas. Minha mãe
vivia calada. Quase que só falava às pessoas de fora. Foi
assim que eu soube que meu pai morrera de apoplexia. Ouvi esta notícia
muitas vezes; as visitas perguntavam pela causa da morte, e ela referia
tudo, a hora, o gesto, a ocasião: tinha ido beber água, e
enchia um copo, à janela da área. Tudo decorei, à
força de ouvi-lo contar.
Nem por isso os meninos do colégio deixavam
de vir espiar para dentro da minha memória. Um deles chegou a perguntar-me
quando é que eu voltaria.
— Sábado, meu filho, disse minha mãe,
quando lhe repeti a pergunta imaginada; a missa é sexta-feira. Talvez
seja melhor voltar na segunda.
— Antes sábado, emendei.
— Pois sim, concordou.
Não sorria; se pudesse, sorriria de gosto ao
ver que eu queria voltar mais cedo à escola. Mas, sabendo que eu
não gostava de aprender, como entenderia a emenda? Provavelmente,
deu-lhe algum sentido superior, conselho do céu ou do marido. Em
verdade, eu não folgava, se lerdes isto com o sentido de rir. Com
o de descansar também não cabe, porque minha mãe fazia-me
estudar, e, tanto como o estudo, aborrecia-me a atitude. Obrigado a estar
sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou à mesa, dava
ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava um recurso que recomendo aos
preguiçosos: deixava os olhos na página e abria a porta à
imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir
os realejos, a bailar com meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira
ou de brincadeira, como for mais claro.
Uma vez, como desse por mim a andar na sala sem ler,
minha mãe repreendeu-me, e eu respondi que estava pensando em meu
pai. A explicação fê-la chorar, e, para dizer tudo,
não era totalmente mentira; tinha-me lembrado o último presentinho
que ele me dera, e entrei a vê-lo com o mimo na mão.
Felícia vivia tão triste como eu, mas
confesso a minha verdade, a causa principal não era a mesma. Gostava
de brincar, mas não sentia a ausência do brinco, não
se lhe dava de acompanhar a mãe, coser com ela, e uma vez fui achá-la
a enxugar-lhe os olhos. Meio vexado, pensei em imitá-la, e meti
a mão no bolso para tirar o lenço. A mão entrou sem
ternura, e, não achando o lenço, saiu sem pesar. Creio que
ao gesto não faltava só originalidade, mas sinceridade também.
Não me censurem. Sincero fui longos dias calados
e reclusos. Quis uma vez ir para o armarinho, que se abriu depois do enterro,
onde o caixeiro continuou a servir. Conversaria com este, assistiria à
venda de linhas e agulhas, à medição de fitas, iria
à porta, à calçada, à esquina da rua... Minha
mãe sufocou este sonho pouco depois de ele2 nascer. Mal chegara
ao balcão, mandou-me buscar pela escrava; lá fui para o interior
da casa e para o estudo. Arrepelei-me, apertei os dedos à guisa
de quem quer dar murro; não me lembra se chorei de raiva.
O livro lembrou-me a escola, e a imagem da escola consolou-me.
Já então lhe tinha grandes saudades. Via de longe as caras
dos meninos, os nossos gestos de troça nos bancos, e os saltos à
saída. Senti cair-me na cara uma daquelas bolinhas de papel com
que nos espertávamos uns aos outros, e fiz a minha e atirei-a ao
meu suposto espertador. A bolinha, como acontecia às vezes, foi
cair na cabeça de terceiro, que se desforrou depressa. Alguns, mais
tímidos, limitavam-se a fazer caretas. Não era folguedo franco,
mas já me valia por ele. Aquele degredo que eu deixei tão
alegremente com tio Zeca, parecia-me agora um céu remoto, e tinha
medo de o perder. Nenhuma festa em casa, poucas palavras, raro movimento.
Foi por esse tempo que eu desenhei a lápis maior número de
gatos nas margens do livro de leitura; gatos e porcos. Não alegrava,
mas distraía.
A missa do sétimo dia restituiu-me à
rua; no sábado não fui à escola, fui à casa
de meu padrinho, onde pude falar um pouco mais, e no domingo estive à
porta da loja. Não era alegria completa. A total alegria foi segunda-feira,
na escola. Entrei vestido de preto, fui mirado com curiosidade, mas tão
outro ao pé dos meus condiscípulos, que me esqueceram as
férias sem gosto, e achei uma grande alegria sem férias.
FIM de Umas férias
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