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À Noite
Paula Faraone
Entardeceu.
Saiu cauteloso. Pé ante
pé.
Havia ainda movimento. Pessoas
passavam apressadas.
Esgueirou-se pelas sombras rápido,
para não ser visto. Entrou num beco. Tão mais escuro! Escondeu-se
nuns caixotes no canto esperando que a noite finalmente abraçasse
a rua.
Ficou lá, atento, um tempo
infinito…
Por fim o breu. Saiu então
dos caixotes e ganhou a rua. Agora, confiante e mais seguro, andava perto
do meio-fio com seu passo ligeiro.
Parou um pouco, para tomar a
direção correta.
Passou pela porta e foi direto
para o fundo da casa. Lá estava a razão por que se arriscara
pelas ruas.
Subiu em uns tijolos ali do lado.
Subiu por estranhos caminhos. Chegou finalmente à altura da janela.
Arremessou-se no ar num vôo incerto. A custo agarrou-se à
janela. Aos poucos, com enorme esforço, conseguiu se equilibrar.
Felizmente a janela não estava toda fechada.
Entrou.
Estava lá. Estava mesmo
tudo lá.
Pegou ali mesmo tudo o que pôde.
A lua estava alta; tinha tempo
agora.
Fartou-se de seu desejo.
Agora era preciso voltar, antes
que amanhecesse.
Pegou mais um grande pedaço
com os dentes.
Saiu correndo por um buraco que
encontrou no fundo do armazém quando escutou um barulho.
Deparou com a luz do dia.
Entrou num boeiro e voltou para
casa.
O MAR
Quando acordou estava disposto.
Lavou o rosto, escolheu bem uma roupa, bonita e confortável, separou
muitas coisas para levar.
Não se despediu de ninguém.
Não beijou ninguém.
Ele ia ver o mar. Não
importava se os outros diziam que não havia mar do lado de lá…
ele sabia. Ele iria lavar o corpo de todo o sofrimento na água infinita.
Partiu.
Percorreu uma enorme distância
em um dia.
Dormiu ali mesmo, na areia.
No dia seguinte olhou aquele
deserto e gritou vivas à vitória certeira de sua jornada.
Partiu.
Dormiu.
Partiu.
Dormiu.
Partiu… e se fosse verdade? E
se ele não tivesse fim?
Dormiu.
Partiu, devagar.
Mal dormiu.
Partiu com fome, com sede.
Dormiu com frio.
Partiu.
A roupa já gasta rasgou
no joelho quando caiu.
Dormiu com medo.
Partiu já pensando em
ficar.
O sol ficava mais quente a cada
dia.
A esperança ficava mais
fria.
Dormiu.
Sonhou com a lavoura, a casa
pobre e o beijo que não deu.
Partiu porque já não
havia alternativa e dormiu porque já não suportava mais.
Acordou mas não partiu.
A comida acabou, a água acabou e a esperança congelou, derreteu
e sumiu na areia.
Era, afinal, o fim; o seu fim.
Decidiu morrer no alto, perto
do céu. Queria morrer no topo da duna mais alta contemplando sua
estupidez: o deserto por todos os lados.
Partiu.
Subiu com os pés pesados.
Chegou lá em cima com
o queixo no peito.
Olhou para trás. Suspirou.
Olhou para frente… Ficou sem
ar, com o coração calado até!
Era ele!
Sentiu o cheiro da água
salgada…
Ficou tonto. Não podia
se mover.
Anoiteceu.
Amanheceu.
Ele lá, de pé,
vendo o mar do alto da duna.
Respirou fundo. Sorriu. Decidiu
descer.
Com os olhos fixos em seu sonho,
começou a descer.
Tropeçou.
Caiu.
Rolou duna abaixo.
Esticou o mais que pôde
o braço.
Sentiu a areia úmida na
ponta dos dedos e um respingo da onda que, exaurida, fez sua sua última
evolução logo ali… tão perto!
Morreu a um palmo do mar.
A BEATA
Que era beata, todo mundo sabia.
Ia à igreja com mantilha e tudo. Era solteira. Quando os pais morreram,
as irmãs a deixaram na casa. Acho que era para ficar longe dela.
Vivia dando sermão. As irmãs nunca vinham. Ninguém
falava com ela porque ela vinha logo falando dos pecados, principalmente
do sexo.
Que ela tinha um gosto muito
especial por garotos – lá pelos 14, 15 anos – todo mundo sabia também.
As mães ficavam loucas. Chamavam-na de devassa e outras coisas na
rua. A garotada gostava. Ela era bonitona, não cobrava e não
namorava. O único problema é que ela escolhia quem e quando.
Os que tinham barba estavam automaticamente descartados. Ela fazia os garotos
irem à casa dela e pedia para tirarem a roupa no banheiro. Olhava
e dizia: “Quarta, às 15h. Não se atrase!”.
Fechava a porta com o sinal da
cruz e mandava o garoto embora chamando-o de capeta.
Os garotos todos sabiam do que
ela gostava. Não gostava de pêlos, mas adorava o cabelo mais
comprido, não muito, mas não rente. Não fazia diferença
a cor da pele, mas ela queria lábios rosados e carnudos. Teve até
um, o Tonico, que depilou tudo quanto foi pêlo. Ele diz que valeu
a pena. Sempre que alguém falava dela ele dizia: “Aquilo nem mulher
é!! Se o diabo visse o que eu fiz naquele dia, fazia o sinal da
cruz!!”. Depois sorria meio de lado e não falava mais nada.
Os pais achavam que ela era uma
coitada, “doidinha”. Brigavam com as mães quando elas falavam aquelas
coisas. “Ela não sabe o que faz. Você não vê,
mulher, que a pobre não bate bem?” As mães resmungavam, mas
não adiantava. No fundo os pais queriam poder ir também.
Mas ela só gostava dos bem novinhos.
Como todo mundo sabia de tudo,
ninguém entendeu.
Um dia ela apareceu com um homem
mais velho, mais de 30, de braço dado. Era um homem bem vestido,
de rosto redondo e óculos.
Ela deixou de ir tanto à
igreja e começou a usar umas roupas sensuais que deixavam as mães
definitivamente despeitadas.
“Pobre homem! Se soubesse que
tipo de vagabunda ele arranjou!”
E os garotos voltaram para as
meninas da rua. Frustrados, muito.
O casal foi a grande novidade
do bairro. Depois passou. O povo foi esquecendo. Só umas poucas
velhotas comentavam quando os dois passavam.
Ficaram juntos cinco anos.
Um belo dia, logo cedo, ela colocou
as malas dele na porta e botou ele para correr.
A razão ninguém
sabia. Falava-se muita coisa, muitas maldades, mas ninguém sabia.
Uns quatro meses depois ele ainda
ligava para ela. A vizinha escutava ela atendendo o telefone e falando
que não era para ele voltar. Desligava e chorava o dia todo.
O povo foi ficando com pena dela.
Aí teve aquela tarde que
ele apareceu com as flores. Um monte! Ela deixou ele entrar. O pessoal
já foi apostando: “Hoje isso se acerta!” “Ele engordou, né?”
“É… e como!” “Tá gordo mesmo!” “Deixa que logo, logo ela
emagrece ele!”
O Tonico é que ganhou
a aposta: “Ele só sai de manhã para comprar pão!”.
Enfim, tudo voltou ao normal.
Ela reformou uma parte da casa, vivia cheia de sacolas, toda tagarela e
simpática. Ele só engordava.
A mulherada começou a
falar: “Estranha essa barriga…”
Naquela noite, quando ele entrou
na ambulância da maternidade todo mundo entendeu. Até hoje
falam que foi coração. Só o Tonico não fala
nada.
Machado de Assis
Uns braços
Inácio estremeceu, ouvindo
os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou
de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabeça de
vento, estúpido, maluco.
— Onde anda que nunca ouve o
que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguiça
do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar,
não pense que não. Estúpido! maluco!
— Olhe que lá fora é
isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se para D.
Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, há anos. Confunde-me
os papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez
de ir a outro, troca os advogados: é o diabo! É o tal sono
pesado e contínuo. De manhã é o que se vê; primeiro
que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos... Deixe; amanhã
hei de acordá-lo a pau de vassoura!
D. Severina tocou-lhe no pé,
como pedindo que acabasse. Borges espeitorou ainda alguns impropérios,
e ficou em paz com Deus e os homens.
Não digo que ficou em
paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era propriamente
menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabeça inculta, mas
bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber
e não acaba de saber nada. Tudo isto posto sobre um corpo não
destituído de graça, ainda que mal vestido. O pai é
barbeiro na Cidade Nova, e pô-lo de agente, escrevente, ou que quer
que era, do solicitador Borges, com esperança de vê-lo no
foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam muito.
Passava-se isso na rua da Lapa, em 1870.
Durante alguns minutos não
se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da mastigação.
Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se para virgular a oração
com um golpe de vinho e continuava logo calado.
Inácio ia comendo devagarinho,
não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los
onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs.
Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os
olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de
si e de tudo.
Também a culpa era antes
de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente. Usava mangas
curtas em todos os vestidos de casa, meio palmo abaixo do ombro; dali em
diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na verdade, eram belos
e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e não
perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas é justo explicar
que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já
gastara todos os vestidos de mangas compridas. De pé, era muito
vistosa; andando, tinha meneios engraçados; ele, entretanto, quase
que só a via à mesa, onde, além dos braços,
mal poderia mirar-lhe o busto. Não se pode dizer que era bonita;
mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio
penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e
fixou-os no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe
lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro; nas orelhas, nada.
Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.
Acabaram de jantar. Borges, vindo
o café, tirou quatro charutos da algibeira, comparou-os entre os
dedos, escolheu um e guardou os restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos
na mesa e falou a D. Severina de trinta mil cousas que não interessavam
nada a nosso Inácio; mas enquanto falava, não o descompunha
e ele podia devanear à larga.
Inácio demorou o café
o mais que pôde. Entre um e outro gole, alisava a toalha, arrancava
dos dedos pedacinhos de pele imaginários, ou passava os olhos pelos
quadros da sala e jantar, que eram dois, um S. Pedro e um S. João,
registros trazidos de festas e encaixilhados em casa. Vá que disfarçasse
com S. João, cuja cabeça moça alegra as imaginações
católicas; mas com o austero S. Pedro era demais. A única
defesa do moço Inácio é que ele não via nem
um nem outro; passava os olhos por ali como por nada. Via só os
braços de D. Severina, — ou porque sorrateiramente olhasse para
eles, ou porque andasse com eles impressos na memória.
— Homem, você não
acaba mais? bradou de repente o solicitador.
Não havia remédio;
Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se,
como de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entretanto, fez
um gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas
que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas
e das montanhas ao longe restituía-lhe o sentimento confuso, vago,
inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma cousa que deve sentir
a planta, quando abotoa a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de
ficar. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a mesma,
sair de manhã com o Borges, andar por audiências, correndo,
levando papéis ao selo, ao distribuidor, aos escrivães, aos
oficiais de justiça. Voltava à tarde, jantava e recolhia-se
ao quarto, até a hora da ceia; ceiava e ia dormir. Borges não
lhe dava intimidade na família, que se compunha apenas de D. Severina,
nem Inácio a via mais de três vezes por dia durante as refeições.
Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe
e das irmãs; cinco semanas de silêncio, porque ele só
falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.
— Deixe estar, — pensou ele um
dia — fujo daqui e não volto mais.
Não foi; sentiu-se agarrado
e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão
bonitos e tão frescos. A educação que tivera não
lhe permitia encará-los logo abertamente, parece até que
a princípio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco,
ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo,
mirando e amando. No fim de três semanas eram eles, moralmente falando,
as suas tendas de repouso. Aguentava toda a trabalheira de fora, toda a
melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão,
pela única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de
braços.
Naquele dia, enquanto a noite
ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha ali outra
cama), D. Severina, na sala de frente, recapitulava o episódio do
jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma cousa. Rejeitou a idéia
logo, uma criança! Mas há idéias que são da
família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas
tornam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que
entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de
buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela
bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada, antes afagada
e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as
distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram
sintomas, e concluiu que sim.
— Que é que você
tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de alguns
minutos de pausa.
— Não tenho nada.
— Nada? Parece que cá
em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um bom remédio
para tirar o sono aos dorminhocos...
E foi por ali, no mesmo tom zangado,
fuzilando ameaças, mas realmente incapaz de as cumprir, pois era
antes grosseiro que mau. D. Severina interrompia-o que não, que
era engano, não estava dormindo, estava pensando na comadre Fortunata.
Não a visitavam desde o Natal; por que não iriam lá
uma daquelas noites? Borges redarguia que andava cansado, trabalhava como
um negro, não estava para a visita de parola; e descompôs
a comadre; decompôs o comadre, descompôs o afilhado, que não
ia ao colégio, com dez anos! Ele, Borges, com dez anos, já
sabia ler, escrever e contar, não muito bem, é certo, mas
sabia. Dez anos! Havia de ter um bonito fim: — vadio, e o côvado
e meio nas costas. A tarimba é que viria ensiná-lo.
D. Severina apaziguava-o com
desculpas, a pobreza da comadre, o caiporismo do compadre, e fazia-lhe
carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais. A noite caíra
de todo; ela ouviu o tlic do lampeão do gás da rua, que acabavam
de acender, e viu o clarão dele nas janelas da casa fronteira. Borges,
cansado do dia, pois era realmente um trabalhador de primeira ordem, foi
fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a só na sala, às
escuras, consigo e com a descoberta que acaba de fazer.
Tudo parecia dizer à dama
que era verdade; mas essa verdade, desfeita a impressão do assombro,
trouxe-lhe uma complicação moral, que ela só conheceu
pelos efeitos, não achando meio de discernir o que era. Não
podia entender-se nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao solicitador,
e ele que mandasse embora o fedelho. Mas que era tudo? Aqui estacou: realmente,
não havia mais que suposição, coincidência e
possivelmente ilusão. Não, não, ilusão não
era. E logo recolhia os indícios vagos, as atitudes do mocinho,
o acanhamento, as distrações, para rejeitar a idéia
de estar enganada. Daí a pouco (capciosa natureza!) refletindo que
seria mau acusá-lo sem fundamento, admitiu que se iludisse, para
o único fim de observá-lo melhor e averiguar bem a realidade
das cousas.
Já nessa noite, D. Severina
mirava por baixo dos olhos os gestos de Inácio; não chegou
a achar nada, porque o tempo do chá era curto e o rapazinho não
tirou os olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar melhor,
e nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e temida, amor
adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de
inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D. Severina compreendeu
que não havia receiar nenhum desacato, e concluiu que o melhor era
não dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e outro
à pobre criança. Já se persuadia bem que ele era criança,
e assentou de o tratar tão secamente como até ali, ou ainda
mais. E assim fez; Inácio começou a sentir que ela fugia
com os olhos, ou falava áspero, quase tanto como o próprio
Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz saía
brando e até meigo, muito meigo; assim como o olhar, geralmente
esquivo, tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar
na cabeça dele; mas tudo isso era curto.
— Vou-me embora, repetia ele
na rua como nos primeiros dias.
Chegava a casa e não se
ia embora. Os braços de D. Severina fechavam-lhe um parêntesis
no meio do longo e fastidioso período da vida que levava, e essa
oração intercalada trazia uma idéia original e profunda,
inventada pelo céu unicamente para ele. Deixava-se estar e ia andando.
Afinal, porém, teve de sair, e para nunca mais; eis aqui como e
porquê.
D. Severina tratava-o desde alguns
dias com benignidade. A rudeza da voz parecia acabada, e havia mais do
que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia recomendava-lhe que não
apanhasse ar, outro que não bebesse água fria depois do café
quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe, que
lhe lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão.
Inácio chegou ao extremo de confiança de rir um dia à
mesa, cousa que jamais fizera; e o solicitador não o tratou mal
dessa vez, porque era ele que contava um caso engraçado, e ninguém
pune a outro pelo aplauso que recebe. Foi então que D. Severina
viu que a boca do mocinho, graciosa estando calada, não o era menos
quando ria.
A agitação de Inácio
ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se. Não
estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite, pensando em D. Severina.
Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dantes, e
não via mulher, ao longe ou ao perto, que lha não trouxesse
à memória. Ao entrar no corredor da casa, voltando do trabalho,
sentia sempre algum alvoroço, às vezes grande, quando dava
com ela no topo da escada, olhando através das grades de pau da
cancela, como tendo acudido a ver quem era.
Um domingo, — nunca ele esqueceu
esse domingo, — estava só no quarto, à janela, virado para
o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina.
Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no ar,
ou pairavam em cima d’água, ou avoaçavam somente. O dia estava
lindíssimo. Não era só um domingo cristão;
era um imenso domingo universal.
Inácio passava-os todos
ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos
que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão,
debaixo do passadiço do largo do Paço. Eram duas horas da
tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito
na véspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa
Magalona, e começou a ler. Nunca pôde entender porque é
que todas as heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma
cara e talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo
de meia hora, deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde,
cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era
que se espantasse; mas não se espantou. Embora com as pálpebras
cerradas, viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede.
Era ela mesma; eram os seus mesmos braços.
É certo, porém,
que D. Severina, tanto não podia sair da parede, dado que houvesse
ali porta ou rasgão, que estava justamente na sala da frente ouvindo
os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi à
janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao
longe, no caminho da rua das Mangueiras. Então entrou e foi sentar-se
no canapé. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se,
foi pegar na jarra que estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar;
depois caminhou até à porta, deteve-se e voltou, ao que parece,
sem plano. Sentou-se outra vez, cinco ou dez minutos. De repente, lembrou-se
que Inácio comera pouco ao almoço e tinha o ar abatido, e
advertiu que podia estar doente; podia ser até que estivesse muito
mal.
Saiu da sala, atravessou rasgadamente
o corredor e foi até o quarto do mocinho, cuja porta achou escancarada.
D. Severina parou, espiou, deu com ele na rede, dormindo, com o braço
para fora e o folheto caído no chão. A cabeça inclinava-se
um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos fechados, os cabelos revoltos
e um grande ar de riso e de beatitude.
D. Severina sentiu-lhe bater-lhe
o coração com veemência e recuou. Sonhara de noite
com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde madrugada que
a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma tentação
diabólica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dois, três,
cinco minutos, ou mais. Parece que o sono dava à adolescência
de Inácio uma expressão mais acentuada, quase feminina, quase
pueril. Uma criança! disse ela a si mesma, naquela língua
sem palavras que todos trazemos conosco. E esta idéia abateu-lhe
o alvoroço do sangue e dissipou-lhe em parte a turvação
dos sentidos.
— Uma criança!
E mirou-o lentamente, fartou-se
de vê-lo, com a cabeça inclinada, o braço caído;
mas, ao mesmo tempo que o achava criança, achava-o bonito, muito
mais bonito que acordado, e uma dessas idéias corrigia ou corrompia
a outra. De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um ruído
ao pé, na saleta do engomado; foi ver, era um gato que deitara uma
tigela ao chão. Voltando devagarinho a espiá-lo, viu que
dormia profundamente. Tinha o sono duro a criança! O rumor que a
abalara tanto, não o fez sequer mudar de posição.
E ela continuou a vê-lo dormir, — dormir e talvez sonhar.
Que não possamos ver os
sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imaginação
do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se,
pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito, cruzando ali os braços,
os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia
as palavras dela, que eram lindas, cálidas, principalmente novas,
— ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia,
posto que o entendesse. Duas, três e quatro vezes a figura esvaía-se,
para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando
o corredor, com toda a graça robusta de que era capaz. E tornando,
inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os
braços, até que, inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou
os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.
Aqui o sonho coincidiu com a
realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora
dela. A diferença é que a visão não recuou,
e a pessoa real tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até
à porta, vexada e medrosa. Dali passou à sala da frente,
aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido,
ia até o fim do corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe
dissesse que ele acordara: e só depois de muito tempo é que
o medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro: nada
lha abria os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os beijos de
verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina
não acabava de crer que fizesse aquilo; parece que embrulhara os
seus desejos na idéia de que era uma criança namorada que
ali estava sem consciência nem imputação; e, meia mãe,
meia amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa,
irritada, aborrecida, mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia
estar fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calefrio.
Mas a verdade é que dormiu
ainda muito, e só acordou para jantar. Sentou-se à mesa lépido.
Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o solicitador tão
ríspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a severidade
da outra podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda trazia consigo,
ou amortecer-lhe a sensação do beijo. Não reparou
que D. Severina tinha um xale que lhe cobria os braços; reparou
depois, na segunda-feira, e na terça-feira, também, e até
sábado, que foi o dia em que Borges mandou dizer ao pai que não
podia ficar com ele; e não o fez zangado, porque o tratou relativamente
bem e ainda lhe disse à saída:
— Quando precisar de mim para
alguma cousa, procure-me.
— Sim, senhor. A Sra. D. Severina...
— Está lá para
o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois
despedir-se dela.
Inácio saiu sem entender
nada. Não entendia a despedida, nem a completa mudança de
D. Severina, em relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava
tão bem! Falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente...
Tanto pensou que acabou supondo de sua parte algum olhar indiscreto, alguma
distração que a ofendera; não era outra cousa; e daqui
a cara fechada e o xale que cobria os braços tão bonitos...
Não importa; levava consigo o sabor do sonho. E através dos
anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação
achou nunca igual à daquele domingo, na rua da Lapa, quando ele
tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se
engana.
— E foi um sonho! um simples
sonho
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