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O Homem
Que Sabia Javanês
Lima Barreto
EM UMA confeitaria,
certa vez, ao meu amigo
Castro,
contava eu as partidas que havia pregado às convicções
e às respeitabilidades, para poder viver.
Houve mesmo,
uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a
esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter
dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro
e adivinho. Contava eu isso.
O meu amigo
ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até
que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:
- Tens levado
uma vida bem engraçada, Castelo !
- Só
assim se pode viver... Isto de uma ocupação única:
sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas?
Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado !
- Cansa-se;
mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é
que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.
- Qual!
Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de
vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!
- Quando?
Aqui, depois que voltaste do consulado?
- Não;
antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.
- Conta
lá como foi. Bebes mais cerveja?
- Bebo.
Mandamos
buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:
- Eu tinha
chegado havia pouco ao Rio estava literalmente na miséria. Vivia
fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde
e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anuncio
seguinte:
"Precisa-se
de um professor de língua javanesa. Cartas, etc." Ora, disse cá
comigo, está ali uma colocação que não terá
muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me.
Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor
de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis
com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca
Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei
o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me
pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo
relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo,
ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago
de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante
do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de
nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.
A Encyclopédie
dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua
malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o
alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei
pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam
hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava
nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem
na memória e habituar a mão a escrevê-los.
À
noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas
perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c"
malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã,
o sabia perfeitamente.
Convenci-me
que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí;
mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado
dos aluguéis dos cômodos:
- Senhor
Castelo, quando salda a sua conta?
Respondi-lhe
então eu, com a mais encantadora esperança:
- Breve...
Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de
javanês, e...
Por aí
o homem interrompeu-me:
- Que diabo
vem a ser isso, Senhor Castelo?
Gostei da
diversão e ataquei o patriotismo do homem:
- É
uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde
é?
Oh! alma
ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com
aquele falar forte dos portugueses:
- Eu cá
por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras
que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor
Castelo?
Animado
com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar
o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me
ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo
Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca
e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos
nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único
saber necessário a um professor de língua malaia ou se por
ter me empenhado mais na bibliografia e história literária
do idioma que ia ensinar.
Ao cabo
de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano
Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim,
não me recordo bem que numero. E preciso não te esqueceres
que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal
javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns
autores, também perguntar e responder "como está o senhor?"
- e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber
com vinte palavras do léxico.
Não
imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos
réis da viagem! É mais fácil - podes ficar certo -
aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo;
e, Com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda
diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram.
Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir
a simpatia da natureza...
Era uma
casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não
sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo
e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não
era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas
vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras
decadentes ou mal cuidadas.
Olhei um
pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho
tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons
continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças.
Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas
barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda
impressão de velhice, doçura e sofrimento.
Na sala,
havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se
perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de
senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos
ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas
velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito,
a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China
ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade,
a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a
mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança,
a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...
Esperei
um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com
o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente
o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade
de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era
sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à
tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas
fiquei.
- Eu sou,
avancei, o professor de javanês, que o senhor disse precisar.
- Sente-se,
respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio?
- Não,
sou de Canavieiras.
- Como?
fez ele. Fale um pouco alto, que sou surdo, - Sou de Canavieiras, na Bahia,
insisti eu. - Onde fez os seus estudos?
- Em São
Salvador.
- Em onde
aprendeu o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos
velhos.
Não
contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe
que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter
à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador,
casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.
- E ele
acreditou? E o físico? perguntou meu amigo, que até então
me ouvira calado.
- Não
sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus
cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me
muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...Tu sabes bem que,
entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos,
malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças
e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.
- Bem, fez
o meu amigo, continua.
- O velho,
emendei eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico,
pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura:
- Então
está disposto a ensinar-me javanês?
- A resposta
saiu-me sem querer: - Pois não.
- O senhor
há de ficar admirado, aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu,
nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...
- Não
tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos...
? .
- O que
eu quero, meu caro senhor....
- Castelo,
adiantei eu.
- O que
eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família.
Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz,
aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe
para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação.
Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento
a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer
meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui,
escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças
e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em
todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio
oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a
nossa raça seja feliz." Meu pai, continuou o velho barão,
não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro.
Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai.
Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o
a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele;
mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas
desgraças têm caído sobre a minha velhice que me 1embrei
do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender,
se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre
da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso
entender o javanês. Eis aí.
Calou-se
e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente
os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim.
Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que
perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada,
cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo
e de saúde frágil e oscilante.
Veio o
livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado
em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava
a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão.
Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês,
onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga,
escritor javanês de muito mérito.
Logo informei
disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado
aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração
o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à
laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço,
até que afinal contratamos as condições de preço
e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio
antes de um ano.
Dentro
em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não
foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir
e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos
um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá
muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia.
A filha
e o genro (penso que até aí nada sabiam da história
do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se
incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo.
Mas com
o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração
que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa Única!
Ele não se cansava de repetir: "É um assombro! Tão
moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava !"
O marido
de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão),
era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava
em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu
javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo.
Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse,
um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo,
disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim
evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.
Sabes bem
que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias
bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele
ouvia aquelas bobagens !...
Ficava
extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia
aos seus olhos !
Fez-me
morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava,
enfim, uma vida regalada.
Contribuiu
muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu
parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao
meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.
Fui perdendo
os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela
frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu
temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao
Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas
as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância,
o meu aspecto tagalo. - "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você
sabe javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros
com diversas recomendações. Foi um sucesso.
O diretor
chamou os chefes de secção: "Vejam só, um homem que
sabe javanês - que portento!"
Os chefes
de secção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um
destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração.
E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil?
Não há quem o saiba aqui!"
O tal amanuense,
que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas
eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à
presença do ministro.
A alta
autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou
o pince-nez no nariz e perguntou: "Então, sabe javanês?" Respondi-lhe
que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a
história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro, o
senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não
se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora,
não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará.
De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e
quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil
no Congresso de Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o Max
Müller, e outros!"
Imagina
tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava
empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.
O velho
barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse
chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no
testamento.
Pus-me
com afã no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas
não havia meio!
Bem jantado,
bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para
fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei
revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic
Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha
fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá
vai o sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos
consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão
das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais
citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de
entenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi,
no Jornal do Comércio um artigo de quatro colunas sobre a literatura
javanesa antiga e moderna...
- Como,
se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro.
- Muito
simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio
de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais
não poder.
- E nunca
duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca.
Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um
sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua
esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia.
Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria
merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já
estava solto, graças à intervenção do cônsul
holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de
palavras holandesas. E o tal marujo era javanês - uf!
Chegou,
enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que
delícia! Assisti à inauguração e às
sessões preparatórias. Inscreveram-me na secção
do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar
no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas.
Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela secção;
não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano
brasileiro, me estava naturalmente indicada a secção do tupi-
guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não
pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme
prometi.
Acabado
o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle,
em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram
um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira,
inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase
toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.
Não
perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional
e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas
as classes sociais e o presidente da república, dias depois, convidava-me
para almoçar em sua companhia.
Dentro de
seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos
e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas
da Malaia, Melanésia e Polinésia.
- É
fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja.
- Olha:
se não fosse estar contente, sabes que ia ser ?
- Que?
- Bacteriologista
eminente. V amos?
- Vamos.
Gazeta da
Tarde, Rio.28-4-1911.
O Analista
de Bagé
Certas cidades
não conseguem se livrar da reputação injusta que,
por alguma
razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos
grossas
que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos
afetadas
são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do
psicanalista
de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o
próprio
analista
de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada)
mas,
pensando
bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz
que o divã no consultório do analista de Bagé é
forrado
com um
pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
- Buenas.
Vá entrando e se abanque, índio velho.
- O senhor
quer que eu deite logo no divã?
- Bom,
se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto.
Mas eu
prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da
fronteira,
pra não perder tempo nem dinheiro.
- Certo,
certo. Eu...
- Aceita
um mate?
- Um quê?
Ah, não. Obrigado.
- Pos desembucha.
- Antes,
eu queria saber. O senhor é freudiano?
- Sou e
sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
- Certo.
Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.
- Outro...
- Outro?
- Complexo
de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
- E o senhor
acha...
- Eu acho
uma pôca vergonha.
- Mas...
- Vai te
metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!
***
Contam que
outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o
analista
de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.
- Quem
gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...
Mas acabou
concordando.
- Se abanquem,
se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê.
Qual é
o causo?
- Bem -
disse o home - é que nós tivemos um desentendimento...
- Mas tu
também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo
novo não
se mete a espora?
- Eu não
meti a espora. Não é, meu bem?
- Não
fala comigo!
- Mas essa
aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.
- Ela tem
um problema de carência afetiva...
- Eu não
sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência
afetiva
é falta de homem.
- Nós
estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento
porque
ela tem procurado experiências extra-conjugais e...
- Epa.
Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de
maquinista?
Tão folgada que qualquer um bota a mão?
- Nós
somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o
verdadeiro
eu, entende?
- Ela tá
procurando o verdadeiro tu nos outros?
- O verdadeiro
eu, não. O verdadeiro eu dela.
- Mais
isto tá ficando mais enrolado que lingüiça de venda.
Te
deita no
pelego.
- Eu?
- Ela.
Tu espera na salinha.
O analista
de Bagé
Outra do
analista de Bagé
O analista
de Bagé se declara "freudiano de colá decalco" e "mais
ortodoxo
que Caximir Buquê", mas isto não o impede de experimentar
com
novas formas
de terapia. Como no caso da mulher do compadre Salustiano.
Contam
que um dia o compadre Salustiano entrou no consultório,
segundo
o analista de Bagé, como mata-mosquito em convento. Causando
alvoroço.
eles há tempo não se viam.
- Guasca
velho!
- Cachorrão!
- Índio
bem loco!
- Seu bosta!
- Animal!
- Desgraçado!
E se atiraram
um nos braços do outro, com tanta força que a
Lindaura
veio ver se não tinha móvel quebrado. Depois o analista de
Bagé
mandou o amigo se deitar no divã e desembuchar, que era de graça.
O Salustiano
reagiu.
- Epa.
Tá me estranhando, compadre? O problema é com a Rosa Flor.
- O que
tem?
- A Rosa
Flor quer ir pro Rio.
- Ir embora
do Rio Grande? Mas enloqueceu.
- Pos é.
Diz que não agüenta mais vê campo. Quer ver o mar.
- Mas ela
não sabe que mar é igual a campo, com a desvantagem que
afunda?
- Sabe,
mas não adianta. Aquela, quando decide ir pra um lugar, é
como cachorro
de cego, só matando.
- Escuta
aqui, tchê. Tu desse um trancaço nela?
- Dei trancaço,
dei laço, cheguei até a pedi. Foi como mijá em
incêndio.
- Côsa,
seu. Tu sabe que mulher que vai pro Rio, já desce na
rodoviária
falada.
- E não
sei?
- Me manda
ela aqui.
A Rosa
Flor, a princípio, não quis dizer nada. Ia para o Rio e
pronto.
O analista de Bagé abriu um volume do Freud para consulta. Era
ali que
guardava, numa folha de caderno de armazém, escritas a toco, as
máximas
do velho Adão, seu pai. Encontrou um precedente: "Pra amarrar
cavalo
no campo e mulher em casa, só carece de um pau firme.". Deitada
no pelego
a Rosa Flor confirmou com a cabeça quando o analista
perguntou,
sutilmente, se o compadre não passava mais a lingüiça
na
farinheira.
Era verdade.
O analista
botou uma mão na cabeça. Aquilo era a pior coisa que
pode acontecer
com um gaúcho, fora cair do cavalo ou a filha casar com
nordestino.
Com a outra mão, começou a desabotoar a braguilha. Fazia
qualquer
coisa por um amigo.
Ficou combinado
que a Rosa Flor teria sessões duas vezes por
semana
e desistiria daquela história de ir para o Rio. O compadre
Salustiano
podia ficar descansado. A honra da Rosa Flor estava salva.
Outras
do analista de Bagé
Bem Capaz
- Amélia
- disse ela.
- Como
a mulher de verdade? - perguntou ele. Ela não entendeu.
- Que mulher?
- A da
música. A que podia passar fome mas não reclamava.
- Bem capaz!
- Ele a
perdoou por não conhecer a música. Afinal, a música
era
mais antiga
do que ele. A perdoaria por qualquer coisa. Ela era linda.
Ela tinha
o queixinho pontudo.
- És
de Porto Alegre mesmo?
- Passo
Fundo.
- Epa.
De faca na bota.
- Bem capaz!
Conversaram
a noite toda. Ou ele conversou. Ela ouvia. de vez em
quando
fazia "hm-hm". quando se despediram, ele perguntou se poderia
vê-la
no dia seguinte.
- Bem capaz!
- Por que
não?
- Eu trabalho,
né?
- Depois
do trabalho.
- Tá.
Viram-se
no dia seguinte e nos dias depois. Encontraram-se todos
os dias
durante a semana. Ele apaixonado. Ela só ouvindo e de vez em
quando
fazendo "hm-hm". Até que um dia ele disse:
- Quero
dar um beijinho bem aqui.
E apontou
para o queixinho pontudo.
- Bem capaz!
- Deixa.
- Bem capaz!
- Por que
não?
- Bem...
- Não
diz "bem capaz".
- Digo
o que eu quiser. Eu, hein?
- Amélia,
eu...
Mas ela
já tinha levantado da mesa. Ele estava pensando o quê? Que
mandava
nela? Só porque tinham saído juntos algumas vezes? Bem capaz!
Ele só
agüentou dois dias. No terceiro, telefonou. Pediu perdão.
Não
sabia o que dera nele, para falar daquele jeito. Adorava o jeito
dela falar.
Poderia vê-la outra vez?
Silêncio.
Ela vai dizer "Bem capaz", pensou ele, e eu vou me
suicidar.
Ah, vou. Vou me atirar de cima do Viaduto. Afinal, sou um
cara antigo.
Mas ela
disse: "Tá".
Reencontraram-se,
casaram-se e ainda ontem ela deu entrada no
Pronto-Socorro
com o queixo fraturado. Foi ele. Até que agüentou muito.
O suicida
e o computador
Caixinhas
Ninguém
jamais ficou sabendo o que, exatamente, o Ramão fez para a
mulher,
mas um dia ela começou a colecionar caixinhas. Nunca fora de
colecionar
nada e, de repente, começou a juntar caixas, caixetas,
potezinhos,
estojos. Em pouco tempo, tinha uma coleção considerável.
O
próprio
Ramão se interessou. Dizia:
- Mostre
a sua coleção de caixas, Santinha.
E a Santinha
mostrava para as visitas a sua coleção de caixas.
- Que beleza!
As caixas,
caixinhas, caixetas, potes, potezinhos, estojos, baús
cobriam
algumas mesas e várias estantes. Era realmente uma beleza. Mas,
estranhamente,
a Santinha era a que menos se entusiasmava com a própria
coleção.
Os outros a admiravam, ela não dizia nada. Ou então fornecia
alguma
informação lacônica.
- Essa
é chinesa.
Ou:
- É
pedra-sabão.
Ninguém
mais tinha problemas sobre o que dar para a Santinha no
seu aniversário
ou no Natal. Caixas. E as amigas competiam, cada uma
querendo
descobrir uma caixa mais exótica para a coleção de
Santinha.
Uma caixinha
tão pequenininha que só cabia uma ervilha. Um baú
laqueado
que, supostamente,
pertencera ao Conde D'Eu. Etc, etc. O Ramão também
contribuía.
quando saía em uma de suas viagens, nunca deixava de trazer
uma caixinha
para a Santinha. Que a Santinha aceitava, sem dizer uma
palavra,
e acrescentava à sua coleção. E a coleção
já cobria a casa
inteira.
Quando
a polícia, alertada pelos vizinhos, entrou na casa, viu o
sangue,
viu a Santinha sentada numa cadeira, muda, folheando a Amiga,
mas não
viu o Ramão. Só o viu quando começou a abrir as caixinhas.
Havia um
pouco do Ramão em cada caixinha. Até na que só cabia
uma
ervilha
tinha um ossinho. Um fêmur estava no baú do Conde. E a Jacira
ficou escandalizada
quando soube que a cabeça do Ramão foi encontrada
numa caixa
de chapéu antiga que ela tinha trazido para a Santinha de
Paris.
Veja só, de Paris!
Ninguém
desculpou a Santinha, mas o consenso geral era de que
alguma
o Ramão tinha feito.
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