Dentro de cada ser vivo, existe uma tendência fundamental para a recuperação do equilíbrio e da harmonia perdidos, chamada Naturae Medicatrix Vie  ou “Força natural para a cura”, uma sabedoria inata do organismo capaz de promover a autocura, que vamos chamar aqui de “Sabedoria do Corpo” (SC). A ”Sabedoria do Corpo” é quem controla nosso bem estar na saúde e na doença.
      A Força Natural para a Cura, Naturae medicatrix vis, foi o princípio que guiou a medicina grega antiga e a  tarefa do médico era estimulá-la durante o tratamento. Na medicina moderna, a força curativa perdeu-se em meio aos processos inespecíficos que se operam na doença. Foi destituída de sua importância, pois a tecnologia trouxe grandes realizações e mudou profundamente a prática médica.
       A SC é um atributo dos organismos vivos, que dirige o crescimento das plantas em direção à luz solar, guia as amebas para evitar ambientes nocivos, determina o comportamento instintivo de insetos como formigas e abelhas e dos animais mais evoluídos.
       Ela contém a experiência e o conhecimento que herdou da evolução das espécies e é imprescindível para a sobrevivência individual; foi moldada pela Seleção Natural. De acordo com a teoria de Darwin, cada espécie que existe sobre a terra, sobreviveu por ser a mais qualificada para viver neste planeta, caso contrário, teria sido substituída por uma mais qualificada. Do ponto de vista médico, desde então os agentes causadores de doença são parte do ambiente que "seleciona os melhores organismos”. Durante a evolução, a SC encontrou e participou de todos os tipos de doença e sabe como curar a si próprio.
       A “Sabedoria do corpo” foi um termo usado pela primeira vez pelo Fisiologista britânico Starling, que nos explicou como a homeostase é mantida.  Nosso corpo é um Self que organiza um complexo sistema de processos e funções que se mantém em Homeostase (equilíbrio) e opera de forma otimizada. Enquanto o embrião cresce, cada novo processo contribui para a sua organização total. Não há nenhuma agência central organizando o crescimento. A organização é distribuída por todas as suas partes e, emerge continuamente. Esta propriedade do corpo que sabe se organizar otimizadamente, é a SC.


Evolução da Sabedoria do Corpo

 
      A existência do nosso corpo físico começa quando o esperma e o óvulo se fundem sob o controle da SC. Os processos corporais originados na fertilização evoluem, multiplicam-se, transmutam-se, e interagem, criando propriedades e novas funções. O resultado é um embrião crescente, independente e auto-suficiente, que cresce ligado à placenta, a qual suprirá suas necessidades até o nascimento. A SC atua incessantemente e o organismo cresce, torna-se mais e mais complexo, e se transforma numa criança e finalmente em um adulto.
       A criança recém-nascida é controlada por uma SC autônoma. Abandona sua relação com a placenta e depende agora de sua mãe. Concomitantemente desenvolve uma nova relação com a mente, que servirá as necessidades da SC no futuro. A criança cresce e a SC evolui com a mente, e suas propriedades emergem. Cada célula contribui com novos processos para o desenvolvimento da SC. A mente evolui numa constante relação entre a SC e o ambiente e, é o local de nossa consciência e vontade, que é transmitida à SC.
 
 
A ação da Sabedoria do Corpo
 
      Imagine uma grande cidade que pretendesse controlar o tráfego de cada carro que transitasse em suas ruas. O computador central controlaria todos os sinais de trânsito e uma câmera comandada por satélite, informaria ao computador as posições dos veículos na rede. Sua tarefa seria ajustar as luzes dos semáforos o mais rapidamente possível, de modo que o curso de cada carro através da rede prosseguisse livremente. Resumindo, sua tarefa seria otimizar a rede de trafego. Nem você nem o computador mais poderoso na terra poderiam realizar esta tarefa.
Imagine agora que essa rede é nosso metabolismo, e os carros são processos no organismo. A SC otimiza continuamente nossa rede metabólica, uma tarefa que está além de nossa compreensão.
       A SC pode ser considerada como um computador com uma entrada e uma saída. A saída informa-nos sobre seus funcionamentos internos, e a entrada é alimentada automaticamente, por programas externos que são aplicados aos processos corporais. É o caso das informações transmitidas durante uma terapia, por exemplo. Precisamos aprender a linguagem da SC para não degradá-la com terapias que interfiram na otimização do organismo.
 
 
Comunicação e Linguagem

      A Sabedoria do Corpo se comunica com a nossa própria consciência de várias maneiras. É ela quem nos faz cientes de que estamos doentes. A dor é sua mensagem mais contundente, mas existem muitas outras: mal-estar, prostração, esgotamento físico, cansaço, fadiga, lassidão e fraqueza.
      Parte do repertório dessa linguagem foi revelado por Freud e Jung. Símbolos, mitos e arquétipos, são interpretações inconscientes das mensagens mandadas pela SC. Sonhos podem conter informações sobre mudanças em nossa saúde, a resistência do organismo e ajustes necessários ao equilíbrio corporal.
       A SC também se comunica com outras formas de vida; as mais simples se comunicam quimicamente enquanto outras formas mais complexas necessitam de um verdadeiro ritual. Nos humanos, esse comportamento é conhecido como comunicação não verbal ou imagem do corpo, que contém informações importantes sobre nossa saúde e resistência geral do organismo.


SEGREDOS DA SABEDORIA DO CORPO


      Enquanto a matéria é feita de átomos, a vida é feita de processos. Um processo é como um córrego, que se origina no passado, dirigindo-se para o futuro. Como um riacho, cuja água flui de uma nascente e alcança finalmente o mar, você pode nunca encontrar a nascente, nem sua desembocadura no mar, mas você sabe que existem e pertencem a historia deste riacho.
      Todos os processos no corpo têm origem no ovo fertilizado e desde então fluem continuamente. Nada no organismo é estático, pois esses córregos são matéria e energia. Ao contrário de um riacho, os processos podem terminar de duas maneiras: transformando-se em um ou mais processos diferentes, ou perdendo sua identidade (estrutura), dissolvendo-se em átomos, e em moléculas.


Instinto e reação instintiva

      A fim de controlar os processos corporais, a SC requer informação de seu desempenho, ou estado. Esta informação é chamada aqui de instinto. Os processos interagem e se intercalam. Alguns são afetados pelo ambiente e induzem uma resposta da SC. Quando o ambiente esfria, o desempenho de alguns processos muda, e a SC pode responder com tremores. Contudo tremer pode ocorrer também devido às causas internas, como por exemplo, durante a febre. Geralmente, quando um estimulo externo induz uma resposta, esta é considerada como  reação instintiva. Aqui nós ampliaremos esta definição para incluir também os estímulos internos. Toda a informação sobre o estado dos processos no corpo é instintiva, e qualquer resultado induzido também é uma reação instintiva. Como a homeostase, a sobrevivência é uma reação instintiva constante.


Ganho máximo com esforço mínimo

      Assim como o controle, o objetivo principal da SC é poupar recursos. Ao responder a um instinto, a SC selecionará sempre um desempenho (ou a solução), que requeira recursos mínimos. Por si só a SC nunca desperdiça recursos. Quando um micróbio invade um corpo, destrói células (necrose), e as células inoperantes sinalizam a SC que uma ameaça ocorreu. Então ela mobiliza os processos defensivos, criando uma inflamação, uma resposta da imunidade, que se eleva gradualmente até que a ameaça seja eliminada. A inflamação é uma reação instintiva às células inoperantes (instinto) e ao micróbio.  A SC nunca criaria uma inflamação por si só. Não a inicia; somente a mantém como resposta. A iniciação é dirigida pelo instinto ou por um desejo consciente, por exemplo, ao tocar em nosso nariz .
Tocar em seu nariz envolve:

1. Uma decisão.
2. Criação de uma tarefa (imaginá-la).
3. Execução pela SC.


Resistência

      A SC não reconhece o perigo, e não iniciará uma resposta a ele. Somente o perigo detectado pelo instinto pode ocasionar esta sensação em nossa consciência. Uma vez que a SC poupa recursos, pode ocasionalmente não responder a uma ameaça, e levar o organismo à morte. Isto pode parecer uma inadequação da SC, mas tem um significado mais profundo. Os organismos são partes dos processos conhecidos como a cadeia alimentar, onde a morte de uma espécie transmuta-se em processos diferentes (uma nova forma de vida). A sobrevivência na cadeia alimentar depende da resistência de um organismo às inconstâncias do ambiente, ou de sua saúde. A maior resistência e uma saúde melhor determinam a sobrevivência de um organismo.
 

Alma

      Os animais e as plantas também têm uma SC. Aristóteles chamou-a de “alma”.  Outros chamaram-na instinto.  Não importa. É uma metáfora para um conhecimento que escapa à nossa compreensão. Precisamos manipular o dispositivo automático de entrada desse computador fantástico, melhorando o tratamento médico.  A Sabedoria do corpo é não-linear e caótica e desafia o raciocínio médico tradicional que é linear.  A medicina considera o organismo como uma máquina e as doenças como maus funcionamentos.
       A SC de uma ameba tem um receptor que a informa sobre o ambiente.  Baseado nesta informação a SC ajusta seus processos para operar de uma forma otimizada. Quando necessário, responderá com uma ação, por exemplo: se a ameba enfrentar a salinidade maior do ambiente, sua SC tentará evitá-la.  A reação da SC é criativa, desde que suas decisões envolvem considerações de otimização. A SC sempre escolherá uma ação cujo resultado seja o mais favorável, baseado nas informações recebidas na entrada do sistema. 


Memória

      A fim de ser criativa, a ameba precisa ter uma memória que lembre sua experiência passada. A memória dos processos é armazenada mantendo a configuração da experiência. Após cada experiência, as configurações são modificadas. A SC é conhecimento e memória, que emergem com sua experiência.        Estes argumentos aplicam-se também aos animais e às plantas. Nos seres que vivem em sociedade, como formigas e abelhas, a SC tem um receptor especial para a comunicação com os seres da sua própria espécie. As formigas têm receptores para os Feromonios que são produzidos somente por formigas. Os receptores nos micróbios, mediam informações vitais entre seus parentes. Se por exemplo um micróbio sobreviver a um tratamento antibiótico, a SC passará este conhecimento a outros micróbios que tornar-se-ão  resistentes aos antibióticos. Os micróbios que resistiram têm que recordar sua experiência de resistência, ilustrando outra vez que a SC funciona à partir de conhecimento e  memória.

 
Consciência e Mente

A consciência é um estado da mente. Estar “consciente” é definido como: “saber o que está acontecendo ao redor” e, o ser humano pode  usar os sentidos corporais para isso.
Esta definição aplica-se também a um ameba, que sente o prazer e a dor. O prazer dirige-a para busca de alimento, e a dor para evitar a salinidade elevada. 
  A mente dirige o paciente para procurar a ajuda médica.  A Sabedoria do corpo ao perder o controle de alguns processos, sinaliza à mente para buscar ajuda.  Quando os recursos de água no organismo se tornam escassos, por exemplo, durante o excesso de transpiração, a SC emite um sinal de sede, significando: “Vai, encontra a água e ao achá-la, bebe-a!’ Somente a mente sabe como e onde encontrar a água. A fome é um outro sinal que é emitido à mente, quando o alimento se torna escasso. Novamente, só a mente sabe o que são alimentos e onde encontrá-los. A dor e ‘ a doença ‘ também são sinalizadas à mente, pela SC, quando ela perde o controle sobre alguns processos, e necessita de auxílio. A mente compreende que tem de chamar o médico, sendo uma fonte importante de informação para a SC.


Cérebro e Sistema nervoso

O cérebro e o sistema nervoso realizam duas tarefas:

1. Processar informação para a mente. 
2. Controlar o metabolismo das células, conhecida como a função tropica. 

      As experiências feitas no começo do último século demonstraram que cada célula do corpo está conectada ao sistema nervoso por sua própria fibra nervosa. Seu metabolismo também é controlado pelo sistema nervoso. Uma experiência simples pode ilustrar o que isso significa. Tente imaginar um suculento bife (particularmente quando você está com fome). Você observará sua boca encher-se de água. A imagem do bife é uma mensagem para a SC de que você pretende comer, capaz de dar início ao processo digestivo.  Esta informação chegou às células pelo sistema nervoso, e é chamada função tropica. A distinção entre a mente e a SC é artificial. A mente é uma parte integral da SC. No paciente inconsciente a SC controla todos os processos.

1. Sonhar: O cérebro e a mente são controlados pela SC.
2. Desmaiar: A SC desliga o cérebro (mente).
3. Coma: O cérebro está desligado, mas o seu tronco está ativo.
4. Morte de cérebro: Não há nenhuma atividade elétrica (potenciais de ação) no cérebro, e a SC controla todos processos restantes.

        Em todas estas circunstâncias (estados), a SC mantém a homeostase (equilíbrio), fazendo o melhor em cada uma dessas circunstâncias. Quando os recursos são esgotados, a SC pede ajuda à mente. Se a mente estiver desligada, as mensagens de fome e sede não são respondidas. Mesmo assim a SC mantém a homeostase. A morte se segue quando a SC perde o controle do equilíbrio.
A configuração de um processo particular que requeira menos energia é chamada um ajuste otimizador, ou solução. A cada instante a SC encara novos desafios, o que requer bastante paciência. De todos os processos praticáveis, a SC escolherá o que requer menos energia. Tais processos podem não ser interessante para o paciente (mente). É o caso da fratura de um osso – a SC juntará as extremidades do osso e reparará os danos. Entretanto, se o osso não for colocado no devido lugar, o reparo feito pela SC pode deformar o fêmur, e o paciente irá necessitar de muletas. A perspectiva da SC para este reparo será sempre o mais adequado para a economia de energia.
       A SC não prevê, nem planeja, ela resolve. Se determinada solução não satisfaz o paciente, é deixada ao critério da mente, que o dirige geralmente ao médico. A SC apóia a complexidade do processo de cura melhor do que o médico. O tratamento tem obrigação de estar de acordo com ela. Infelizmente, a medicina moderna ignora as diretrizes orientadoras de SC, e tenta controlar a cura, o que produz muitos efeitos colaterais, chamados Iatrogenese.


A Doença é um arranjo de processos

      Em vista de sua complexidade, a tentativa de compreender como as funções do corpo são reguladas, falharão. Tudo o que podemos esperar é que a SC modifique alguns processos para o benefício do paciente. Suponha que nosso corpo interage com seu ambiente e se torne danificado. A SC desordena imediatamente processos a fim de recuperar a homeostase. Esta nova organização é percebida pela medicina como doença. O médico procurará então por um modelo que descreva adequadamente este arranjo. Este procedimento é conhecido como”avaliação-diagnóstica”.


A Doença é uma solução dada pela Sabedoria do Corpo para uma determinada situação


      Na realidade cada solução é sempre a melhor para a situação em que o organismo se encontra, e continuamente evolui e envolve suas propriedades emergentes. As doenças requerem procedimentos diferentes e a SC alterna de um para outro, sempre a procura das melhores soluções. Nós nunca saberemos porque foram escolhidos. Simplesmente temos que aceitar a solução dada pela SC como a melhor. Como Goldstein disse: a “doença não é meramente o desaparecimento de uma ordem fisiológica, mas o aparecimento de uma ordem vital nova” ou, “doença não é uma variação na dimensão da saúde; é uma dimensão nova de vida”.


Osso-Quebrado

      Infelizmente a melhor solução adotada pela SC para tratar um paciente, pode não deixá-lo com uma boa qualidade de vida. Imagine um paciente com um pé quebrado. Se deixado sozinho, a SC cura o osso quebrado sem auxílio médico. Contudo o osso pode ficar deformado, deixando o paciente em uma cadeira da rodas. Para a SC o osso deformado é a melhor solução. Para o paciente pode ser inadequado, pois reduz sua qualidade da vida. A SC não se preocupa com a qualidade-de-vida do paciente, que deve interessar ao médico. O médico então coloca a extremidade do osso quebrado em um molde plástico, corrige sua deformidade e o paciente pode andar outra vez. Ele não cura, ajuda meramente a SC a alcançar uma outra solução. Se a SC não juntasse as extremidades do osso, o molde plástico não teria nenhuma utilidade.

 
A doença é a solução de um desafio enfrentado pela Sabedoria do Corpo

      Geralmente, o que nós percebemos como doença, é a solução dada pela sabedoria do corpo a um determinado contexto. Nós nunca saberemos como e porque a SC chegou a essa solução.
Enquanto a SC controlar inteiramente os processos corporais, permanecerá silenciosa. Quando seu controle diminui, sinaliza a mente que necessita de auxílio. Como ao perder o controle sobre os níveis de água ou energia do organismo, por exemplo. O mesmo se aplica a uma dor de dente: “busque a ajuda médica!”
      A SC é uma entidade autônoma que controla processos no corpo. Desde que o organismo é um sistema aberto, ela depende do mundo exterior para obter recursos, como o alimento e a água. Estas tarefas são realizadas com a ajuda de uma parte específica da própria SC, chamada Mente, que serve como intermediária entre a SC e o ambiente.
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Gershom Zajicek - Professor de Medicina Experimental, na Univ. Hebraica de Jerusalém, que estuda há 30 anos, novos tratamentos para o Câncer. Extraído e traduzido do site
www.whatiscancer.com
de autoria desse cientista.
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