As diretrizes nutricionais para a prevenção do câncer incluem o consumo de cinco ou mais porções de frutas e vegetais por dia que são associados consistentemente com um reduzido risco de câncer(1-2). A World Câncer Research Foundation em associação com o American Institute for Câncer Research publicou um relatório no qual foram analisados 30 anos de pesquisas epidemiológicas sobre alimentação e risco de câncer (3).  As conclusões foram que existem evidências convincentes para uma associação inversa entre o consumo de frutas e vegetais e câncer de pulmão, estômago, boca, faringe, esôfago, colon e reto (3). As recomendações provenientes destas pesquisas são importantes para a população em geral, e para as pessoas com risco aumentado de cânceres específicos, devido à história familiar ou ao hábito de fumar.
      Os vegetais contêm milhares de componentes bioativos, que são ativados uns aos outros pela mastigação, entre os quais vários são inibidores da carcinogênese, exercendo sua função de destruir células com câncer de várias maneiras, como o B caroteno (2-4-5), os indóis, fenóis, isotiocianatos, sterol-beta-sitosterol, inibidores de protease, ditioltione, sulforafane, succinato de alfa-tocoferol e vitamina E (6).
Recentemente, um grupo de compostos químicos encontrados nos grãos (cereais integrais e feijões), legumes, verduras e frutas, denominados flavonóides, demostraram efeitos biológicos positivos em relação a prevenção do câncer, por seus efeitos antimutagênicos, antioxidantes, reguladores dos ciclos celulares, inibindo a proliferação de vários tipos de células cancerosas e estimulando sua destruição (7). São encontrados principalmente nas camadas externas ou cutículas das frutas, vegetais, raízes, folhas e chás.
      Em recente revisão (8), Neuhauser, analisando mais de uma dezena de publicações, encontrou diminuição no risco de câncer de 40% a 58% entre as pessoas que mais ingeriam os alimentos que contêm flavonóides em comparação com as que menos ingeriam, após períodos que variaram de 13 a 30 anos de seguimento.  Os alimentos que contêm flavonóides demonstraram efeito protetor contra câncer de pulmão, estômago, próstata, rim, cólon e reto.
      Outro grupo de alimentos que têm importante papel na prevenção do câncer são os cereais integrais. Em estudo de meta análise, Jacobs (9) em 40 publicações concluiu que os cereais em grãos e os alimentos produzidos com farinhas de cereais integrais diminuíram o risco de adquirir 20 tipos de câncer que são os mais freqüentes. Os cereais e farinhas refinados não demonstraram nenhum efeito protetor.            Em outra publicação (10), analisando 12,763 homens de meia-idade durante 25 anos
em 7 países, 16 pesquisas revelaram que a ingestão de legumes, verduras, frutas e cereais integrais foi inversamente relacionada com a mortalidade por câncer de estômago enquanto a ingestão de gorduras (carnes e lácteos) foi associada com maior mortalidade.  Em uma das pesquisas, onde a associação de frutas e vegetais foi fraca em relação a mortalidade por câncer total, pulmão e cólon-retal, os cereais integrais demonstraram forte associação inversa de diminuição da mortalidade.
Isto significa que para a prevenção do câncer e outras doenças crônicas, como veremos a seguir, deveremos substituir o arroz branco pelo arroz integral. E  todos os produtos compostos de farinha de trigo, como os pães, massas em geral, deverão ser substituídos pelos mesmos alimentos feitos com farinha de trigo 100% integral.
      Está disponível um livrinho ao leitor, intitulado “Culinária para a prevenção do câncer” com 84 receitas fáceis de serem executadas, utilizando-se farinha de trigo integral (ver em “publicações”).

Existem vários motivos que explicam por que os cereais integrais diminuem o risco de câncer.

   1) Eles contêm fibras, as quais aderem nas gorduras diminuindo a sua absorção e eliminando-as com as fezes. As gorduras em excesso, principalmente as saturadas, são promotoras do câncer. O tempo de promoção é longo, podendo demorar 20 anos ou mais para surgir o câncer, com a ingestão diária de gorduras saturadas contidas nas carnes, leite e derivados, sem a ação protetora das fibras contidas principalmente nos cereais integrais.
   2) As proteínas vegetais dos cereais integrais inibem a síntese do I.G.F.-1, fator de crescimento do câncer. O seu consumo induz a diminuição no uso de proteínas animais, as quais aumentam a síntese do I.G.F.-1
   3) O ácido fólico dos cereais integrais seleciona células com lesões nucleares para serem reparadas ou destruídas.  O butirato, produzido na fermentação dos mucopolissacarides dos cereais integrais, bem como o ácido fitico, as isoflavonas, a niacina, contidos no arroz integral e farinha de trigo integral têm efeitos protetores contra o câncer.
      Os cereais refinados, arroz branco e farinha de trigo branca não tiveram nenhum efeito protetor em diminuir o risco de câncer no estudo de meta - análise  de Jacobs englobando 40 publicações (9). 
Outra mudança fundamental na alimentação, para a redução no risco de câncer, é a utilização para “passar no pão” integral ou fazer “sandwiches”  do queijo de soja, conhecido pelo nome de “tofu”, ou a pasta de grão-de-bico, conhecida pelo nome de “homus”.  O seu teor em proteinas é ótimo, mas são proteínas vegetais, que têm efeito inibidor sobre o câncer. O teor em gorduras é pequeno (4% a 8%) e são gorduras com efeito anti-Câncer (ácido linoléico e alfa-linoléico).  São alimentos ricos em fitoquímicos inibidores do câncer, como os flavonóides da soja (genistein e daidzein), as saponinas, vitamina E, isotiocianatos, entre outros. O genistein e daidzein da soja destruíram células cancerosas de modo semelhante à maioria dos quimioterápicos, inibindo a topoisomerase I e II, e de modo diferente, suprimindo o A.T.P. (energia) para as células com câncer.
      O leite e seus derivados como queijos, cremes e manteiga são alimentos nutritivos, mas o seu uso diário e sistemático aumentou o risco de câncer de próstata em 42 países (11). No Japão a mortalidade por câncer de próstata era baixa em relação aos países ocidentais, aumentando significativamente após a Segunda Guerra Mundial, com a ocidentalização da dieta japonesa, quando o leite e derivados foram os itens alimentares que mais aumentaram em relação aos demais (11).  Ficou estabelecido que o leite e derivados são fatores de risco para o câncer de próstata em 11 pesquisas publicadas entre 1984 e 2003”.  Também são fatores de risco para outros tipos de câncer, principalmente o câncer de mama” (11).
As explicações disponíveis para estes fatos são as seguintes: (11)

   1)       As gorduras saturadas do leite e derivados são excessivas e promovem o aparecimento do câncer. O tempo de promoção é longo, podendo passar 20 ou mais anos até surgir o câncer se não for interrompido o uso de leite e seus derivados (11).
   2)       A deficiência em fibras da alimentação, pelo uso sistemático de cereais e farinhas de cereais refinados, facilita a absorção destas gorduras.
   3)       As proteínas animais do leite e derivados e das carnes estimulam a síntese do I.G.F.1 (insulin like growth factor-l), fator de crescimento do câncer.
   4)       O alto teor em cálcio do leite e derivados suprime a conversão da 25 (OH) vitamina D para 1,25 (OH)2 vitamina D. Esta última tem efeito protetor contra o câncer de próstata (12).
   5)       O leite contém hormônios femininos (13-14). Os níveis circulatórios de hormônios femininos aumentam com o consumo de leite (15-16).  O 17-B estradiol do leite é cancerígeno para a próstata (17).
   6)       O leite e derivados contêm altos níveis de I.G.F.-1 (18), para o crescimento do bezerro. Quanto mais leite e derivados consumimos, maiores os nossos níveis sanguíneos de I.G.F.-1.  O I.G.F.-1 é fator de risco para câncer de próstata em seres humanos. Quanto mais elevados os níveis sanguíneos de I.G.F.-1, maior o risco de câncer de próstata (19).
   7)       O alto nível de estrógenos e I.G.F.-1 do leite desnatado promovem o aparecimento de câncer de mama em ratos (11). Portanto, além das gorduras saturadas existem outros fatores promotores do câncer no leite e derivados.
      O leite e seus derivados vêm sendo pesquisados como fatores de risco para o câncer desde 1980, havendo 47 publicações que demonstram esta relação (11).
Os resultados destas pesquisas não foram divulgados à população, possivelmente porque o leite e derivados são uma importante fonte de nutrientes na alimentação atual, que compensam a expoliação em nutrientes dos cereais e farinhas refinados.  Muitas vidas infelizmente estão sendo perdidas em conseqüência destes erros.
      Sem dúvida o leite e seus derivados são alimentos nutritivos, tanto podemos observar que o bezerro, com 60kg ao nascer, pesa cerca de 500kg  aos sete meses, tendo o leite como único alimento. Após esta idade, com dentição completa, este animal não mais irá ingerir leite.
      Comparativamente o ser humano tem aproximadamente 3kg. ao nascer e 9kg. aos sete meses. O leite de vaca não tem composição projetada geneticamente para o nosso organismo. (Burkitt)
Poderá ser utilizado pela facilidade em sua obtenção, industrialização e transporte na ausência do leite materno ou em áreas de fome, transitoriamente.
      O ônus do seu uso sistemático após a dentição completa é o aumento no risco de câncer, doenças cardiovasculares, diabete e obesidade, principais causas de invalidez, má qualidade de vida e morte em nosso país e no mundo industrializado.
      Estas doenças surgiram ou aumentaram muito sua incidência, após a expoliação em nutrientes nos cereais, com o seu refinamento, que ocorreu entre 1850 e 1870, e o aumento compensatório no consumo de lácteos e carnes.
      A O.M.S (20) recomenda a substituição do arroz e farinha de trigo refinados pelos integrais. Esta modificação aumentará o teor nutricional do pão e massas em geral.  Para passar no pão, deveremos utilizar o queijo de soja ou um “patê” de grão-de-bico e para beber, o leite de soja.
Assim, a alimentação será nutritiva sem o uso do leite de vaca e derivados.

As carnes têm efeito iniciador e promotor para o câncer devido aos seguintes fatos:
   1) São geralmente preservados com nitritos, que ao se combinarem com os aminas produzidos no cozimento formam nitrosaminas. No cozimento de suas proteínas a pirolise libera aminas aromáticas heterociclicas. A flora bacteriana do colón produz compostos n-nitrosos com relação dose- resposta ao consumo de carne.
Nitrosaminas, aminas aromáticas heterociclicas e compostos n-nitrosos são iniciadores do câncer causando lesão no DNA.
   2) As gorduras saturadas da carne (e dos lácteos) são promotoras do câncer. O tempo de promoção é longo, podendo transcorrer 20 anos ou mais até o câncer surgir.  
   3) As proteínas da carne, pelo alto teor em aminoácidos essenciais, aumentam a síntese do I.G.F.-1 (fator de crescimento do câncer).
Por estas razões a World Câncer Resecrch Foundation (3), para a prevenção do câncer, recomenda não comer carne. Se o fizer, devemos preferir o peixe, mas em pequena quantidade e esporadicamente.

      Os cereais integrais (arroz, milho, aveia, trigo), os feijões (feijão, ervilha, lentilha, grão-de-bico) legumes, verduras, frutas, nozes e sementes, o queijo e leite de soja diminuem o risco de câncer por vários mecanismos:
   1)       As fibras destes alimentos aderem às gorduras saturadas impedindo sua absorção intestinal e eliminando-as com as fezes.
   2)       O ácido fítico (inositol-hexa-fostato) do arroz integral e farinha de trigo integral adere às aminas aromáticas heterocíclicas produzidas no cozimento das proteínas da carne e também as expulsam com as fezes.
   3)       As proteínas vegetais obtidas da combinação de cereais integrais e feijões são completas eliminando a necessidade de usar carnes.
   4)       A combinação destes alimentos contém associação de fibras com ações complementares e sinérgicas em promover bom trânsito intestinal, com eliminação de cancerígenos. O teor em gorduras é baixo, sendo prevalente poli-não-saturados com ação anticâncer. As proteínas vegetais, por seu menor teor em aminoácidos essenciais, inibem a síntese de I.G.F.-1. Contêm combinação de dezenas de fito-químicos ativados na mastigação, inibidores da caranogênese.
Sugestões para refeições:


Desjejum e lanches

1 prato com aveia, granola, leite de soja, banana e mel.
1 sanduíche com pão de trigo integral, queijo de soja, alface, tomate, cenoura ralada e azeitona.
1 xícara de chá verde.
½ mamão
Almoço e jantar
Arroz integral, trigo ou milho (massas com farinha de trigo integral e leite de soja – ver “Culinária para a prevenção do câncer” em publicações).
Feijão, ervilha, lentilha, grão-de-bico ou feijão de soja (1 opção)
Salada de raízes com folhas verdes com maionese de soja e gergelim moído.
Sopa de legumes com queijo de soja, algas (opcional), cebolinha picada.
Frutas in natura.
Chá com bolo*
* bolo feito com farinha de trigo integral, leite de soja, óleo de gergelim (o mínimo) cacau ou frutas (ver “Culinária para a prevenção do câncer”, em publicações).


Bibliografia:

•  Steinmetz K and Potter JD: Vegetables, fruit and câncer, J.Epidemiology. – Cancer Causes Control 2, 325-357, 1991.
•  Zugler RG, Mayne ST, and Swanson CA: Nutrition and lung câncer, Cancer Causes Control 7, 157-177, 1996.
•  World Cancer Research Found Food, Nutrition and the prevention of Cancer! a global perspective. Washington, DC: American Institute for Cancer Reserarch, 1997.
•  Zuegler, RG: Vegetables, fruits, and carotenoids and the risk of cancer. Am. J. Clin. Nutre 53 Suppl, 2515-2595-1991
•  Mayne ST, Janerich OT. Grunwold P, Chorost S, Tucci C, et al: Dietary beta-carotone and lung câncer risk in U.S. nonsmoker, J.N.C.L. 86, 33-38, 1994.
•  National Research Council – “Diet, Nutrition and Cancer” – National Acadeny Press – Washigton DC 1982.
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