UNIDADE 3: A Reflexão das Ciências Humanas sobre o Fenômeno Religioso
Home Page
Marx
Durkheim
Weber
L. Boff
Os Críticos
O FENÔMENO RELIGIOSO E AS CIÊNCIAS SOCIAIS OS CRÍTICOS DA RELIGIÃO
"Hoje nos encontramos numa fase nova na humanidade. Todos estamos regressando à Casa Comum, à Terra: os povos, as sociedades, as culturas e as religiões. Todos trocamos experiências e valores. Todos nos enriquecemos e nos completamos mutuamente. (...) (...) Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos, como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta Terra." (BOFF, Leonardo. Casamento entre o céu e a terra. Salamandra: Rio de Janeiro, 2001, p.9 ).

Iniciaremos nossa segunda unidade com uma reflexão sobre um fato recente da história brasileira que mescla aspectos religiosos e políticos. Durante a unidade 02, com a ajuda de vários teóricos da modernidade, buscaremos compreender o fenômeno religioso e suas interfaces com as outras dimensões da nossa vida. 
Frei Tito, 30 anos do martírio: "Quando secar o rio de minha infância, secará toda dor" (Tito de Alencar Lima). No dia 10 de agosto de 2004 completou-se trinta anos da trágica morte de Frei Tito de Alencar Lima, em L'Arbresle, no Sul da França. Em sua dor gravou-se o que de mais hediondo produziu o militarismo brasileiro e, nele, reflete-se a venerável indignação de quantos acreditam na política como expressão coletiva de princípios éticos. No sofrimento de Tito, tornado símbolo das vítimas de torturas elencadas no livro Brasil, Nunca Mais (Vozes), inscreve-se a esperança de quantos acreditam na política como mediação de utopias libertárias. Preso em novembro de 1969, em São Paulo, acusado de oferecer infra-estrutura a Carlos Marighella, Tito é submetido à palmatória e choques elétricos, no DOPS, em companhia de seus confrades. Em fevereiro do ano seguinte, quando já se encontra em mãos da Justiça Militar, é retirado do Presídio Tiradentes e levado para a Operação Bandeirantes, mais tarde conhecida como DOI-CODI, na rua Tutóia. Durante três dias, batem sua cabeça na parede, queimam sua pele com brasa de cigarros e dão-lhe choques por todo o corpo, em especial na boca, "para receber a hóstia", gritam os algozes. Fernando Gabeira, preso ao lado, tudo acompanha. Querem que Tito denuncie quem o ajudou a conseguir o sítio de Ibiúna para o congresso da UNE, em 1968, e assine depoimento atestando que dominicanos participaram de assaltos a bancos. No limite de sua resistência, Tito corta, com a gilete que lhe emprestam para fazer a barba, a artéria interna do cotovelo esquerdo. É socorrido a tempo no hospital militar, no Cambuci. As incessantes torturas não abrem a boca do frade dominicano de 28 anos, mas lhe cindem a alma. Cumpre-se a profecia do capitão Albernaz, da Oban: ?se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de seu silêncio?.Em dezembro de 1970, incluído na lista de presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, seqüestrado pela VPR de Lamarca, Tito é banido do Brasil pelo governo Médici. De Santiago do Chile ruma para Paris, sem jamais recuperar sua harmonia interior. Nas ruas da capital francesa, ele ?vê? o espectro de seus torturadores. Transferido para L'Arbresle, próximo a Lyon, em seu estreito quarto no convento construído por Le Corbusier, Tito estremece aos gritos do pai espancado no DOPS, geme aos berros da mãe dependurada no pau-de-arara, arrepia-se de pavor aos espasmos de seus irmãos eletrocutados, contorce-se em calafrios sob o fantasma do delegado Fleury. Sua mente naufraga em delírios.Tito não recupera, no exílio, a paz que lhe fora seqüestrada. No dia 10 de agosto de 1974, um estranho silêncio paira sob o céu azul do verão francês, envolvendo folhas, ventos, flores e pássaros. Nada se move. Entre o céu e a terra, sob a copa de um álamo, balança o corpo de Frei Tito, dependurado numa corda. O suicídio foi o seu gesto de protesto e de reencontro, do outro lado da vida, da unidade perdida. Deixara registrado nas páginas de sua Bíblia que ?é melhor morrer do que perder a vida?. De retorno ao Brasil, em março de 1983, os restos mortais de Frei Tito tiveram solene acolhida na catedral da Sé, em celebração presidida pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns. Repousam agora em Fortaleza. Não se apagou, todavia, a luz de seu exemplo. A criatividade artística captou o rastro de sangue que se faz caminho. O curta-metragem Frei Tito, dirigido por Marlene França, recebeu aplausos em festivais do exterior, conquistou em Cuba o prêmio de melhor curta-metragem, no Festival Latino-Americano de Cinema, e, no Brasil, o prêmio Margarida de Prata, da CNBB. Premiada pelo Serviço Nacional de Teatro, a peça de Licínio Rios Neto, Não Seria o Arco do Triunfo um Monumento ao Pau de Arara?, em memória de Tito, foi proibida pela Censura Federal durante o regime militar, impedindo Ricardo Guilherme de montá-la para percorrer o país. Adélia Prado homenageou-o num comovente poema. Oriana Fallaci dedicou a ele o livro - Um Homem - em que narra a paixão dela por Panagoulis, líder da resistência à ditadura grega. O senador italiano Raniero La Valle escreveu, sobre Tito, Fora do Campo, editado no Brasil pela Civilização Brasileira. Clara de Góes encontrou em Tito a força de inspiração para um de seus livros de poesia. Frei Tito é venerado por muitas pessoas de fé, que recorrem à sua intercessão em busca de graças. Recordá-lo é resgatar o sacrifício de todos que, no Brasil, lutaram pela restauração da ordem democrática. Ela ainda é frágil, porém promissora, considerando que a sociedade civil prossegue se organizando e mobilizando na conquista de cidadania e na consolidação da democracia. Celebrar neste ano a memória de Frei Tito é homenagear o sacrifício de todos que, no Brasil, viveram na bem-aventurança da sede de justiça e da fome de liberdade. E não temeram dar a vida para que todos tivessem vida, e vida em plenitude (João 10, 10). Autor: Frei Betto "Artigo retirado da página do Correio da Cidadania (
www.correiocidadania.com.br ), edição nº 407, de 24 a 31 de julho de 2004.
1.Tanto o autor (Frei Betto) como o protagonista do artigo (Frei Tito) recorreram a argumentos/motivações religiosos para referendar sua prática política. Como você percebe esse tipo de relação? 
2.Por várias vezes encontramos pessoas que modificam suas vidas a partir de uma opção religiosa. A adesão a uma religião nos ajuda a compreender melhor a realidade (ou dimensões da realidade) em que vivemos?
3.Religião: fonte de alienação ou de esclarecimento?
4.Prepare a sua reflexão para o debate que faremos
Unidade 3 O FENÔMENO RELIGIOSO E AS CIÊNCIAS SOCIAIS
Objetivo: Compreender a crítica feita ao fenômeno religioso pelas ciências sociais na modernidade e sua relevância para os dias atuais.
Conteúdos:
- A Alienação e o Fenômeno Religioso na Modernidade
- Religião e Coesão Social
- Religião e Capitalismo a partir de Max Weber
- Religião e consciência 



A Alienação e o Fenômeno Religioso na Modernidade

Trataremos neste tópico, a partir do posicionamento de Marx e Freud, sobre uma questão central para o estudo do fenômeno religioso no ocidente: a relação entre alienação e religião. O que você pensa sobre a questão? A alienação e a experiência religiosa já caminharam de mãos dadas? As críticas reflexões construídas por Marx e Freud ainda são sustentáveis nos dias atuais? Marx e a questão da alienação e o fenômeno religioso A questão da alienação é uma temática muito presente em nossos dias. Cotidianamente escutamos frases que incluem o aspecto da alienação, geralmente vinculadas a uma impressão equivocada de alguma coisa, a um olhar nebuloso sobre algum acontecimento. Para refletir a questão da alienação ligada ao fenômeno religioso e aprofundarmos a questão para além das impressões cotidianas, estaremos dialogando com três pensadores: Marx, Engels e Freud. O sentido usual mais forte do termo alienação vem da tradição marxista. Ou seja, ?falsa consciência? sobre o mundo, a vida, tendo como função principal, justificar as relações de dominação e exploração entre as classes sociais. Assenta-se na idéia de falsas crenças. De maneira semelhante, também no que toca às distintas interpretações sobre a religião na modernidade, a concepção mais conhecida é a de  Marx, de que esta seria o ópio do povo, ou seja, uma falsa e ilusória representação do mundo.  A angustia religiosa é, por um lado, a ?expressão? da angustia real e, por outro, o ?protesto? contra a angustia real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, tal como é o espírito de condições sociais de que o espírito está excluído. Ela é o "opium" do povo (MARX - 1976, p. 40). Para ele, era óbvio, como escreveu em 1842, que A religião não vive no céu, mas sim na terra .( MARX - 1976 p. 27).São inúmeras as citações que são encontradas nos escritos de Marx e Engels criticando duramente a religião: ...(o cristianismo) ensina, como compete à religião: sejam submissos à autoridade, porque "toda a autoridade" emana de Deus ( MARX - 1976. p. 41).

Considerando a crítica da religião como a condição preliminar de todo posicionamento crítico, Marx insistia na possibilidade da humanidade libertar-se de todas as condições de submissão. Conseqüentemente, o homem deveria procurar, necessariamente, a sua verdadeira realidade , em lugar de buscar no céu um super-homem, apenas reflexo de si mesmo. O fundamento de sua crítica a respeito da questão religiosa naquele contexto está baseado na seguinte questão: "foi o homem quem fez a religião", não foi a religião que fez o homem. Realmente, a religião é a consciência de si e o sentimento de si que possui o homem que ainda se não encontrou ou que se tornou a perder. Mas o "homem" não é um ser abstrato escondido algures fora do mundo. O homem é o "mundo do homem", o Estado, a sociedade. Este Estado, esta sociedade, produzem a religião, "consciência invertida do mundo"... A abolição da religião enquanto felicidade "ilusória" do povo é uma exigência que a felicidade "real" formula...A critica da religião destruiu as ilusões do homem para que ele pense, aja, construa a sua realidade como homem sem ilusões chegado à idade da razão, para que gravite em volta de si mesmo, isto é, do seu sol real. A religião não passa do sol ilusório que gravita em volta do homem enquanto o homem não gravita em volta de si próprio. ( MARX e ENGELS - 1976, p. 79).Caberia então à filosofia, que estaria a serviço da história, segundo Marx, denunciar a auto-alienação radical do homem, estabelecendo, portanto, a verdade "deste mundo". E ser radical seria tomar as coisas em sua raiz. E para o homem, sua raiz seria o próprio homem. Daí a necessidade de abolição da religião. Como o homem seria o ser supremo para o homem , ele teria que transformar todas as relações sociais para que não seja um ser humilhado, servil e abandonado. Segundo Ivo Lesaupin, sociólogo e professor da UFRJ, no livro "Sociologia da religião" (TEXEIRA, 2003), a questão religiosa ocupa dois momentos distintos dentro da produção intelectual de Marx. Num primeiro momento percebendo a religião como uma projeção do homem, daquilo que lhe falta. Marx, ainda segundo o mesmo autor, analisa que a religião não é uma projeção isolada do homem, mas cumpre um papel dentro da estrutura de organização dos homens através do Estado e da sociedade. A religião seria resultado da estrutura da sociedade e de alguma forma tende a reforçá-la. "É o mundo, o homem alienado que gera a necessidade da religião. O homem busca a religião como um ópio de que precisa para suportar a divisão, a miséria real..." ( TEXEIRA - 2003).

Numa segunda fase, ainda segundo Ivo Lesaupin, Marx faz a passagem da religião sendo tratada como alienação para tratá-la como ideologia. Marx, com a ajuda de Engels, utiliza a imagem da câmara invertida de uma ?máquina fotográfica? para sinalizar que a ideologia inverte a imagem do real. Lesaupin busca sintetizar esta questão da seguinte forma: ?a religião é então o refluxo ilusório, fantástico, das relações de dominação de classe, de exploração: as idéias religiosas exprimem, justificam e escondem a realidade da dominação. A religião é ideologia, falsa consciência? (TEXEIRA, 2003). 

A relação do marxismo e as religiões no ocidente, especialmente as cristãs, no decorrer dos anos foi ganhando outros contornos. Em determinados momentos históricos marxistas ateus e cristãos se encontram do mesmo lado na luta contra injustiças sociais, onde as igrejas cristãs cumpriram um papel importante no processo de luta por libertação com os oprimidos. Perceberemos esta questão com mais calma quando estudarmos a Teologia da Libertação. 


Freud e a questão da alienação e o fenômeno religioso

Freud foi outro autor que desenvolveu uma perspectiva crítica com relação à religião. Se Marx a batizou como ópio do povo, Freud a batizou como uma ilusão. Afirmou sempre sua condição de ateu. Sendo judeu, e perseguido pelo nazismo, escreveu, entre 1934 e 1938, Moisés e o monoteísmo , que segundo Filoramo e Prandi, ...é a extrema tentativa de Freud de acertar contas, em anos trágicos para o judaísmo, com o problema da própria identidade judaica . ( FILORAMO e PRANDI - 1999, P.173).Apesar de crítico com relação à religião, seus aportes, a partir da psicanálise, contribuíram muito para a Ciência da Religião. Nesta área destacam-se suas obras Totem e Tabu ( FREUD - 1974) , escrita entre 1912 e 1913, e O futuro de uma ilusão (FREUD - 1974) , escrita em 1927. Um dos elementos fundamentais de sua análise se centra em torno das correspondências entre religião e neurose e, sobretudo, entre as semelhanças do pensamento neurótico com as representações dos povos primitivos. Assim, afirma: Porque para os pacientes neuróticos - sua ...conduta, bem como as superstições que pratica na vida comum, revela a semelhança dele com os selvagens que acreditam poderem alterar o mundo externo pelo simples pensamento. Os atos obsessivos primários desses neuróticos são de um caráter inteiramente mágico. Se não são encantamentos, são, no mínimo, contra-encantamentos, destinados a manter afastadas as expectativas de desgraça com que a neurose geralmente começa . ...Também as fórmulas protetoras das neuroses obsessivas encontram sua contrapartida nas fórmulas da magia. (FREUD - 1974, p. 110). Elaborando uma análise histórica, evolutiva, sobre a maneira de a humanidade visualizar o universo, Freud sugere que nos primórdios do totemismo, na horda primitiva de Darwin, há um pai violento e ciumento que guardas as fêmeas para si próprio e expulsa os filhos quando crescidos. Os irmãos expulsos retornam certo dia e juntos matam e devoram o pai - a celebração totêmica - dando fim à ordem e à horda patriarcal. Que eles o tenham devorado, seria óbvio, porque eram selvagens canibais. Ao devorá-lo, identificam-se com ele, cada um adquirindo parte de sua força. Alude que u m animal poderoso, a princípio, talvez, sempre algum que fosse temido, teria sido escolhido como substituto do pai.


O totem é identificado como seu ancestral comum e pai primeiro. Este aspecto, segundo Freud, não era enfatizado pelos antropólogos. As duas primeiras ordenanças do totemismo ou as duas proibições de tabu ? não matar o totem e não ter relações sexuais com a mãe -, seriam iguais aos desejos primários das crianças. E analisando as festividades, com o sacrifício de animais totêmicos, sugere que o alimento totêmico talvez tenha sido a primeira festa da humanidade, repetindo e comemorando a ação criminosa que teria marcado o início das organizações sociais, das restrições morais e da religião. Centraliza, portanto, em suas análises, a complexidade da relação da humanidade com o pai, o complexo de Édipo. Depois de morto, o pai ficou mais poderoso do que quando vivo. A história da humanidade estará marcada pela culpa dos filhos. Portanto, Deus não seria mais do que um pai glorificado. Pois o Deus dos seres humanos, ... é formado à semelhança do pai, que a relação pessoal com Deus depende da relação com o pai em carne e osso e oscila e se modifica de acordo com essa relação e que, no fundo, Deus nada mais é que um pai glorificado?. (FREUD - 1974, p. 175). Daí que o ato de sacrifício sempre teria sido o mesmo: trata-se do que é adorado como um Deus, o que seria, na realidade, o pai. E Freud parte da hipótese de que os dois elementos propulsores das religiões posteriores, o sentimento de culpa do filho e sua rebeldia, nunca se tenham extinguido. Depois do totetismo, teria se dado uma humanização do ser que era adorado. Conclui, então que a religião seria a neurose obsessiva universal dos homens. Fazendo a analogia entre neurose obsessiva e religião, pensa que os devotos estariam salvaguardados do risco de certas enfermidades neuróticas, pois a aceitação da neurose universal lhes pouparia o trabalho de elaborar uma neurose pessoal. E, em sua obra Atos obsessivos e práticas religiosas, escrita em 1907, acrescenta: "Diante desses paralelos e analogias podemos atrever-nos a considerar a neurose obsessiva como o correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal" . ( FREUD - 1974, p. 116).O autor reconhece que a religião contribuiu para civilização humana, mas sua crítica à religião é reafirmada quando caracteriza como uma ilusão as idéias religiosas proclamadas como ensinamentos. 


Dentre as várias contribuições de Freud à Ciência da Religião, destaca-se a inclusão da dimensão psicológica ou psicanalítica a estes estudos. Ele não partiu da desqualificação da religião como o fizeram os iluministas. Ao contrário, admite a importância da mesma na história da humanidade. E trata de compreendê-la, ancorado na necessidade histórica da mesma. Porque reconhece que, ... em tempos passados, as idéias religiosas, a despeito de sua incontrovertível falta de autenticidade, exerceram a mais forte influência possível sobre a humanidade. Trata-se de um novo problema psicológico. Devemos perguntar onde reside a força interior dessas doutrinas e a que devem sua eficácia, independente, como é, do reconhecimento pela razão. (FREUD - 1974, P. 111).

Site Católico: Nesta página você vai ler um artigo no qual a igreja faz um contraponto dos elementos teológicos sobre as idéias iluministas.   Na atualidade, ainda há muitos cientistas sociais que estudam a religião a partir desta linha ?alienante? de compreensão. Entretanto, no século XX surgiram, com força, leituras e práticas conscientizadoras da religião. Ou seja, compreensões contrárias à alienante. Ademais, o crescimento da busca por novos movimentos religiosos e novas formas de religiosidade fez com que a perspectiva alienante deixasse de ser dominante nas Ciências Sociais. A aproximação entre fé e ciência, por exemplo, é um dos indicadores de novas leituras sobre a questão. 


Reflita sobre as seguintes questões:  O que Marx e Freud buscaram criticar na experiência religiosa de seu tempo e na estrutura das religiões? Com base no nosso contexto atual, você considera que há sustentabilidade na crítica ou em parte da crítica de Marx e Freud? Em que dimensão? 


Religião e Coesão Social

Continuaremos nesta aula nosso diálogo com alguns pensadores da modernidade que refletiram o fenômeno religioso sob vários aspectos. Agora faremos um mergulho sobre parte do pensamento de Durkheim, especialmente nos aproximaremos de sua reflexão sobre a religião como fenômeno de coesão social. Como seria o mundo sem religião? Pense um pouco e verifique o que o pensamento de Durkheim tem a nos dizer.

Durkheim e a sociologia

O termo "sociologia" foi utilizado, por primeira vez por Augusto Comte (1789-1857), considerado o fundador oficial desta ciência. A Sociologia constituiria uma nova ciência, a "física social". Esta teria a função de analisar as estruturas e os mecanismos da sociedade com os mesmos critérios e procedimentos das ciências da natureza. Postura que caracteriza o positivismo. Para Comte, a fórmula sagrada do positivismo seria o amor como princípio, a ordem como fundamento e o progresso como fim. Diretrizes que se encontram na bandeira brasileira.Segundo Comte, a religião seria uma unidade completa constituída por motores internos coordenados entre si, e submetida, em seu conjunto, à fatalidade exterior. Seu papel principal seria de integradora do sistema social, funcionando no sentido de consolidação e estabilização da relação homem-sociedade. Afinal, ela coordenaria cada uma das partes deste sistema e, simultaneamente, consolidaria as relações interpessoais. Por um lado, Comte admite que a dimensão religiosa possibilitou a primeira representação que os homens fizeram sobre os significados do cosmo, tendo sido a saída segura para a humanidade em seus primórdios. Por outro lado, este estágio seria passageiro. As religiões tradicionais estariam se esgotando. Elas não teriam nenhum lugar importante nas sociedades modernas, fundadas no progresso técnico-científico.  Já  Durkheim (1853-1917) é considerado o pai da Sociologia, porque, desenvolvendo algumas idéias de Comte, a organizou como disciplina. Ele fez uma Sociologia que pode ser lida como uma ciência da ordem social, centralizando a questão: o que mantém a sociedade unida? Em linhas gerais, ele acreditava que a sociedade é determinante sobre o indivíduo. O fato chave para Durkheim seria as relações estruturais existentes entre as pessoas e não os indivíduos mesmos. Portanto, ele deu particular importância aos fatos sociais e suas funções como condições necessárias da vida social.Desse modo, as instituições religiosas funcionariam dentro da estrutura da sociedade. As crenças e práticas serviriam como meios culturalmente determinados de manter e regular relações e ajustes humanos, propiciando estabilidade às sociedades. 

A coesão social e o fenômeno religioso Durkheim publicou, em 1912, o livro "As formas elementares da vida religiosa", que se tornou um clássico da Sociologia. Neste, busca identificar a reciprocidade entre religião e sociedade. Fazer sociologia da religião implica examiná-la como uma coisa, ou um fato social. Reafirmando sua percepção da determinação do social sobre os indivíduos, ele pensa a religião como um fato social que tem o poder de exercer coação externa sobre os mesmos.A religião tomaria conta das pessoas, sendo estas submissas (a oração e o rito , por exemplo, seriam expressões desta submissão). A ênfase de sua análise recai sobre o coletivo, a sociedade, a força religiosa. Ainda que admita um componente psicológico na experiência religiosa, a religião seria algo eminentemente social e corresponderia a determinadas condições históricas das sociedades. Como a sociedade seria a fonte única do sagrado, a religiosidade individual seria marcada por movimentos originados nas relações estabelecidas entre as pessoas e com o ambiente envolvente. Daí que o autor enfatize o aspecto consensual da religião, e a igreja como o espaço onde as crenças, as práticas religiosas se articulam, formando uma comunidade moral.O autor reconhece que a existência e a importância da religião é um universo simbólico rico e que esteve sempre presente na história da humanidade. Também admite que as grandes instituições se originaram da religião, que esta teria gerado, historicamente, tudo o que há de essencial na sociedade. Mas afirma que se isto é verdade, é porque a idéia de sociedade é a alma da religião. Portanto, a concepção de religião como submissão à sociedade é central em suas análises.A religião deixa de ser inexplicável alucinação qualquer, para fundar-se na realidade...o fiel não se engana quando acredita na existência de força moral da qual depende e da qual lhe vem o melhor de si mesmo; essa força existe: é a sociedade...ela é, antes de mais nada, um sistema de noções através das quais os indivíduos compreendem a sociedade de que são membros, e as relações, obscuras mais íntimas que mantêm com ela ( DURKHEIM - 1989, p. 281).Neste sentido, se pode dizer que Durkheim, de alguma maneira, pensa que a sociedade se autodiviniza:...as práticas do culto...já pelo simples fato de terem por função evidente estreitar os laços que unem o fiel ao seu Deus, elas estreitam realmente os laços que unem o individuo à sociedade de que é membro, já que o deus é apenas a expressão figurada da sociedade. ( DURKHEIM - 1989, 2ª ed. p. 282). Em sua análise sobre religião, Durkheim toma como elemento fundamental de análise, a distinção entre profano e sagrado. Partindo de que haveria entre eles uma espécie de vazio lógico, afirma a existência de uma  ... dualidade essencial dos dois reinos... o sagrado e o profano foram sempre e por toda parte concebidos pelo espírito humano como gêneros separados, como dois mundos entre os quais não há nada em comum (DURKHEIM - 1989, p. 70). E esta referência teórica constitutiva vai ser incorporada pela maioria dos estudos e pesquisas que se seguiram, até o momento. 

Segundo o autor, todas as crenças religiosas têm algo em comum: organizar as coisas, os fenômenos em dois tipos opostos, ou seja, como sagradas ou profanas: A divisão do mundo em dois domínios, compreendendo, um tudo o que é sagrado, outro tudo que é profano, tal é o traço distintivo do pensamento religioso... (DURKHEIM - 1989, p. 68). As coisas sagradas são especiais, protegidas, separadas, e devem ficar longe das profanas. As crenças religiosas seriam representações que dizem respeito às coisas sagradas, assim como às relações que as conectam entre si e com as coisas profanas. Esta divisão, por sua vez, é constituinte de sua definição de religião: ...um sistema solidário de crenças seguintes e de práticas relativas a coisas sagradas, ou seja, separadas, proibidas; crenças e práticas que unem na mesma comunidade moral, chamada igreja, todos os que a ela aderem (DURKHEIM - 1989, p.79).Mas o sagrado não seria algo intrínseco às coisas sagradas. A qualquer coisa pode ser acrescentado este valor, este lugar, esta reverência. Porque, a força religiosa seria apenas o sentimento que a coletividade inspira a seus membros, projetando-o para fora das consciências individuais, objetivando-o. Para ser objetivado, elegem-se objetos que então se tornam sagrados. Podemos resumir, na concepção durkheimiana, alguns componentes fundamentais para se pensar a religião. Primeiro, o conjunto de crenças e práticas capazes de aglutinar um número de pessoas, que cria, a partir de então, uma solidariedade em virtude de práticas e crenças comuns. Segundo, a separação entre sagrado e profano. O crente deve ter noção relativamente clara, e mais ou menos precisa, das coisas que lhes são permitidas, bem como daquelas que lhes são proibidas. Ignorar o que é sagrado e profano constitui-se numa forte ofensa ao divino ou à divindade cultuada. Por fim, o aspecto relacional é um elemento muito forte, ou seja, a fidelidade do crente à sua igreja constitui-se um elemento identitário e orientador de conduta. Produz-se uma ética, verificada no comportamento do indivíduo, capaz de vinculá-lo ao grupo religioso. Uma das principais críticas que se faz a este autor é por sua exagerada ênfase no coletivo, no social, em sua dimensão de coação, não criando espaço analítico para a dimensão do indivíduo ou da religiosidade individual, reduzindo, em boa medida, a análise da religião em sua função integradora da sociedade. Também a dualidade essencial entre profano e sagrado seria exagerada. 

Mas, em concordância com Comte, seu inspirador intelectual, as crenças religiosas deixariam de ter importância nas sociedades modernas, devido ao progresso do pensamento científico.

1. Após o estudo desta aula, reflita sobre as seguintes questões:
a. Você compreendeu o papel de coesão social atribuído à religião por Durkheim?
b. Você considera a posição do autor sustentável? E em que dimensão? Reflita levando em conta o nosso contexto atual. 


Religião e Capitalismo a partir de Max Weber


Já verificamos a relação de dois importantes conceitos com o fenômeno religioso: a alienação e a coesão social. Nesta terceira aula, com a ajuda de Max Weber, faremos uma reflexão sobre o fenômeno religioso e o "espírito capitalista". Que relações podem haver entre essas duas questões? As religiões favorecem o "espírito capitalista"? Max Weber (1864-1920), a partir de sua análise, enfatizará a sociedade moderna, destacando a fragmentação das visões de mundo, onde o secular havia tomado o lugar dos deuses e dos profetas. Continue seu estudo e lembre-se que é muito importante que você sistematize seu aprendizado a respeito de cada assunto abordado. Reflita: o que você tem a dizer sobre cada temática, sobre cada autor estudado até o momento? Max Weber e o processo de racionalização na vida moderna  Weber percebe a presença de ordens plurais de valores e de éticas competindo entre si, gerando uma situação onde se tornava cada vez mais difícil para o homem encontrar um significado para a vida. Cabendo a cada um, crescentemente, a escolha e a combinação destas. Weber deu um grande peso à ação e ao indivíduo, à diferença de Marx (ênfase nas categorias estruturais) e Durkheim (independência dos fatos sociais em relação ao indivíduo). Assim, indica o direcionamento da religião para a vida privada, aspecto que é central na reflexão posterior, na segunda metade do século XX. A ação religiosa magicamente orientada, para Weber, seria um produto histórico, como um mecanismo para se viver melhor neste mundo. Porque também afirma que a vida não tem sentido.Identifica, portanto, uma tensão constante entre o pensamento religioso e a racionalidade instrumental da ciência, entre o domínio da crença na ciência e o domínio da salvação religiosa. Em seu livro A ciência como vocação , referindo-se à crescente intelectualização e racionalização, Weber afirma: ...significa que sabemos ou acreditamos que, a qualquer instante, poderíamos, bastando que o quiséssemos, provar que não existe, em princípio, nenhum poder misterioso e imprevisível no decurso de nossa vida, ou, em outras palavras, que podemos dominar tudo por meio de cálculo. Isto significa que o mundo foi desencantado. Já não precisamos recorrer aos meios mágicos para dominar os espíritos ou exorcizá-los, como fazia o selvagem que acreditava na existência de poderes misteriosos. Podemos recorrer à técnica e ao cálculo. Isto, acima de tudo, é o que significa a intelectualização. (WEBER - 1992, p. 439)

Este desencantamento, na modernidade, implica que o homem não pode se sentir pleno, porque, nesta, ele só pode captar o provisório e nunca o definitivo. E porque a morte não tem sentido, também a vida do civilizado não a tem: o despojamento de significado faz da vida, também, um acontecimento sem significado.A centralidade de sua reflexão em torno do processo de racionalização, intelectualização da vida moderna o leva a questionar-se: " A ciência não tem sentido porque não responde à nossa pergunta, à única pergunta importante para nós: o que devemos fazer e como devemos viver" (WEBER - 1992, P. 443). E a racionalização da vida, no crescente processo de burocratização, estaria criando uma gaiola de aço , restringindo, progressivamente, a liberdade dos indivíduos.Weber sugere que o destino de nosso tempo, caracterizado pela racionalização, pela intelectualização e, sobretudo pelo desencantamento do mundo, levou os homens a banirem de suas vidas públicas os valores supremos e mais sublimes. Portanto, conclui... tais valores encontram refúgio na transcendência da vida mística ou na fraternidade das relações diretas ou recíprocas entre indivíduos isolados. (WEBER - 1992, p. 451).O "espírito capitalista" e o fenômeno religiosoUma das obras que tem maior destaque em seus estudos sociológicos sobre o fenômeno religioso na sociedade capitalista, é A ética protestante e o espírito do capitalismo , publicado em 1905. Nesse livro, o autor analisa o papel desenvolvido pelo protestantismo, no desenvolvimento do capitalismo, baseando-se em conceitos como predestinação, vocação, ascese e ética.Seu objetivo foi compreender as implicações das orientações religiosas, sobretudo a protestante-calvinista na conduta econômica das pessoas. O capitalismo foi fruto, também, ainda que não apenas, de uma nova mentalidade diante da dimensão econômica. Nenhuma ética econômica é determinada só pela religião. Outros fatores intervêm." 

Podemos fazer uma análise crítica sobre a relação entre o protestantismos e a exaltação do trabalho. A formação puritana (valores rígidos de vida) de muitos dos pioneiros do capitalismo e o fato de eles considerarem o êxito econômico como indicador da benção de Deus, teria contribuído para o seu desenvolvimento, sobretudo em termos de acumulação. Afinal, a avaliação religiosa do trabalho, incansável, contínuo, sistemático (reconhecido e valorizado como o mais importante caminho ascético), seria a maior alavanca para o que foi definido como espírito do capitalismo.  

Religião e consciência
Nosso objetivo aqui foi o de estudarmos os vários aspectos do fenômeno religioso, segundo a análise de alguns dos mais importantes pensadores do mundo moderno ocidental. Em nossa quarta aula estudaremos a questão da religião e a consciência a partir de um fenômeno vivido e construído a partir de países como o Brasil. Você encontrará nesta aula elementos sobre a teologia da libertação e da possível relação entre o fenômeno religioso e o processo de tomada de consciência da realidade que nos cerca. Você já ouviu falar em Teologia da Libertação? O que pensa sobre o assunto? As religiões podem contribuir na melhoria concreta das condições de vida das pessoas, especialmente das mais empobrecidas? O que você pensa sobre a relação entre religião e política? Aproveite este fechamento de mais uma unidade do nosso curso para aprofundar suas reflexões sobre tudo o que foi estudado. Vamos em frente!  A questão da consciência e o fenômeno religioso  Como foi visto, a importância histórica da religião foi reconhecida pelos vários teóricos. Não obstante, ela foi criticada por todos esses expoentes das Ciências Sociais, que ressaltaram seus vários aspectos (alienante, uma construção puramente social, neurose, ópio, ilusória). Uma leitura crítica destes autores e uma postura, em certa medida, positivada da religião, podem ser encontradas em alguns outros autores e movimentos sociais mais recentes.A  Teologia da Libertação é um dos exemplos mais evidentes da religião tomada sob o ponto de vista da consciência da realidade que nos cerca. Ela nasce e se desenvolve a partir de uma problematização da realidade social latino-americana e objetiva à construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Trata-se de uma nova visão do papel da igreja, da prática cristã e da reflexão teológica, enquanto potencialmente libertária para nossos países.Ancorada em uma leitura científica do mundo e na luz da fé cristã, esta teologia buscou uma interpretação que denunciasse as estruturas de dependência e de dominação, tendo como referência a libertação de Jesus Cristo. Ela construiu uma leitura prática da ideologia cristã, buscando harmonizar a teoria e a prática. E escapar das manipulações ideológicas feitas pelas elites da fé cristã. Como movimento, partiu da América Latina e se difundiu por amplos setores da igreja católica no terceiro mundo. 



Teologia da Libertação

Segundo Ilse Scherer-Warren, os princípios básicos da Teologia da Libertação seriam os seguintes:
- Valorizando-se o compromisso com a realidade histórica presente, a igreja pode exercer sua missão. Como no nosso caso, a maioria da população se encontrava e se encontra em situação de opressão e de miséria, a meta fundamental desta teologia seria a busca de mecanismos que possibilitassem a libertação das diversas formas de opressão. Portanto, a Teologia da Libertação, partindo de sua opção pelos pobres, poderia desencadear um processo de libertação dos povos latino-americanos;
- O homem deve ser o sujeito de seu destino pessoal e da história. O cristão, assim, engajado nos movimentos sociais, pode reconstruir sua dignidade humana. A libertação histórica, através destes movimentos, seria condição necessária para que os oprimidos latino-americanos caminhem em direção a uma libertação integral (cristã). Com a Teologia da Libertação, a velha aliança entre a igreja católica e elites latino-americanas, foi desafiada. Pelo menos, por parte de um grande número de padres, freiras e leigos, a partir de sua orientação teológica e de suas práticas pastorais direcionadas aos pobres, às mulheres, às crianças, aos índios. Ou seja, os oprimidos em termos econômicos, étnicos, sexuais, geracionais, de gênero (a opressão feminina).
Estas práticas deveriam facilitar a esses segmentos da população seus processos de organização, a partir de conscientização e de luta (movimentos sociais). Em termos espirituais, estas orientações possibilitariam a libertação das pessoas nas dimensões da alienação, da falsa consciência, na busca de auto-determinação e da dignidade humana. A fé em Deus funcionaria como apoio para transformar oprimidos em agentes da própria história. Seus fundamentos se alinham, de alguma forma, tanto com o movimento feminista, quanto com o ecopacifismo. Assim, o frade dominicano, Frei Betto, escreveu Física, cosmologia, teologia e espiritualidade (2001) , onde tenta rearticular a fé e a espiritualidade cristãs a algumas cosmovisões atuais, provenientes de teorias físicas sobre o universo. Nesta mesma direção de recuperação da religião, pode ser lembrado Rubem Alves. Ao se perguntar o que é religião, centraliza a lealdade das pessoas envolvidas: A condenação do sagrado era exigida pelos interesses da burguesia e o avanço da secularização. Este conflito ressurge e se mantém vivo nas fronteiras da expansão do capitalismo e onde quer que a dinâmica da produção dos lucros colida com os mundos sacrais. Basta abrir os nossos jornais e tomar ciência das tensões entre Igreja e Estado, Igreja e interesses econômicos. As idéias se repetem. Que a religião cuide das realidades espirituais, que das coisas materiais a espada e o dinheiro se encarregam!  

Além do que, este autor resgata o papel fundamental da religião: atribuição de sentido à vida. E isto é algo que se experimenta emocionalmente, não demanda explicações, justificativas, comprovações, experiências em laboratório. Segundo ele, o sentido da vida é um sentimento. E para a religião o universo faz sentido. A ciência, incomodada, retruca: as pessoas que são religiosas pensam que o universo faz sentido. Voltamos à ilusão, à falsa consciência.Para Rubem Alves, no entanto, a firmar que a vida tem sentido é propor a fantástica hipótese de que o universo vibra com os nossos sentimentos...Tudo está ligado . E termina seu livro com as seguintes palavras: "Mas, e Deus existe? A vida tem sentido? O universo tem uma face? A morte é minha irmã?" Ao que a alma religiosa só poderia responder: "Não sei. Mas eu desejo ardentemente que assim seja. E me lanço inteira. Porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido. (ALVES - 1984, p. 128).Há momentos históricos em que a religião é tomada, por alguns autores, como falsa consciência, ou negação da realidade. A Teologia da Libertação busca, dentro do contexto em que foi constituída, ser uma prática de tomada de consciência. Aqui cabe fazer uma ressalva sobre a delicada questão da consciência. Consciência é um termo que se usa cotidianamente. Parece ser consensual, mas, definitivamente, não se identifica uma harmonia no que toca à compreensão do mesmo. Na perspectiva dos clássicos das Ciências Sociais trabalhados, o conceito de consciência instiga perguntas centradas em torno de quais são os mecanismos sociais, culturais, psicanalíticos, políticos, que justificam as dificuldades, a exploração, a dominação, a submissão que é exercida por parte de alguns homens sobre muitos outros homens e mulheres (elites, classes sociais, relações de gênero, étnicas e raciais). E a consciência pode ser adquirida, desenvolvida, a depender de situações históricas, culturais, ora mais propícias, ora menos. Para os clássicos trabalhados, a consciência seria, sobretudo, aquisição, esclarecimento, discernimento, quer seja das origens dos mitos de origem da humanidade, quer seja dos mecanismos sociais, ideológicos, religiosos, de dominação e de exploração de alguns sobre outros. Adquirir consciência seria, então, segundo Marx, Engels, Freud, dentre outros, romper com as explicações religiosas do mundo e "racionalizar", "tomar ciência", das várias "ilusões", das "falsas crenças e valores" que nos envolvem, que nos formam, para nos aproximarmos da "verdadeira consciência" de nosso "mundo real".

Site Idéias Religiosas . Neste site existem diversos artigos que ajudarão você a apurar seus conhecimentos. 


Por outro lado, consciência pode significar, também, o sentimento interior que impele cada um de nós a ter um julgamento de valor sobre nossos atos. Seria algo equivalente a uma "voz interior", ou mesmo a um "instinto divino", que poderia ser inato, nos incitando a que nos perguntemos qual é a compreensão individual, qual é o conceito, que cada um de nós tem sobre as relações sociais, sobre o mundo, sobre a vida, sobre a morte. Desde esta perspectiva mais religiosa ou de conexão com o mundo transcendental, consciência se remete, sobretudo, à escuta da "voz interior". O encontro do indivíduo com o seu "Ser" seria o ponto fundamental de busca. Está posto o dilema, por um lado, entre a "tomada de consciência" sobre as inúmeras formas de exploração, dominação, de uns sobre outros, que são sociais, culturais, históricas, e, conseqüentemente, nosso papel, como atores sociais e políticos que somos, na sociedade, nas instituições, em nosso cotidiano e, por outro lado, nossa "escuta da voz interior", que seria mais religiosa, transcendental, mais individual. Como agregar estas duas dimensões? O crescimento da busca por religiosidade no final do século passado está indicando um caminho de integração entre ambas. Mas esta ainda não é muito legível, cabendo a cada um de nós, que vivemos a crise da rigidez da leitura dos clássicos trabalhados, buscar, individualmente, a conexão entre a tomada de consciência da dimensão exploradora, dominadora, preconceituosa, da sociedade em que vivemos e, simultaneamente, "escutar a voz interior", a "voz divina" que carregamos.


1.  No site oficial do teólogo Leonardo Boff (
www.leonardoboff.com ), encontramos a seguinte afirmação:
"Entre as muitas funções da teologia, hoje em dia, duas são mais urgentes: como a teologia colabora na libertação dos oprimidos, que são nossos "cristos crucificados" hoje; e como a teologia ajuda a preservar a memória de Deus para que não se perca o sentido e a sacralidade da vida humana, ameaçada por uma cultura da superficialidade, do consumo e do entretenimento. Devemos unir sempre fé com justiça, donde nasce a perspectiva de libertação, e importa manter a chama da lamparina sagrada sempre acesa, donde se alimenta a esperança humana de um futuro bom para a Terra e a humanidade".
2.  Na leitura complementar: "Religião de consumo"de Frei Betto, o autor reflete a possibilidade de um deslocamento da dimensão sagrada ao campo do mercado (o mercado seria um deus).
3. Sendo assim:
a. É possível afirmar que tanto a reflexão de Leonardo Boff, como a análise de Frei Betto estão sustentadas numa forma semelhante de ver o mundo e o fenômeno religioso? Justifique, por favor, a sua resposta. 
b.Como você percebe a questão do consumo atualmente? Poderíamos afirmar que ele funciona como um ordenador de sentindo da sociedade atual (ou seja, possuímos a tendência de fazer e nos posicionar em sociedade a partir da lógica do consumo)? Partindo de suas posições sobre a questão e da reflexão construída por Frei Betto, elabore uma reflexão sobre o tema e envie para seu professor e colegas. 

Considerando os autores estudados, as tarefas e os momentos de partilha com os colegas e o professor, imagine a seguinte situação: você será presenteado com o poder de participar de uma conversa a-temporal, onde estarão presente os autores estudados durante a segunda unidade. Nessa conversa, em torno de uma mesa, você e os teóricos estarão discutindo o fenômeno religioso e seu papel na sociedade ocidental.

1.Resgate, através das leituras feitas, as principais posições dos teóricos estudados; 
2.Construa um texto relatando o diálogo entre os autores sobre a questão do fenômeno religioso e seu papel na sociedade ocidental. Lembre-se que o relato deverá ser o mais detalhado possível, pois não estaremos na mesa partilhando desse encontro inusitado. Mergulhe nos textos e solte sua imaginação!
3.Finalize seu texto nos contando suas impressões sobre o encontro, sobre a posição em especial de um ou outro teórico e, finalmente, como você percebe a questão levantada.


Ascetismo - Vem de ascese, que é o exercício prático que leva à realização da virtude e à plenitude moral. Em todas as grandes religiões a procura de perfeição moral sugere, muitas vezes, a adoção de práticas ascéticas de desapego das coisas do mundo e da vida profana, cotidiana. Weber enfatiza a idéia de renúncia do mundo. Iluminismo - Movimento de idéias difundido no século XVIII, e que, por isto, ficou conhecido como O século das Luzes, ainda que tenha se originado no século anterior. O ponto principal deste movimento foi desenvolver uma luta da razão contra a autoridade, ou das "luzes" contra as "trevas": luta contra a tradição cultural e institucional, sobretudo, à Igreja Católica. Tratava de se utilizar a razão para dirigir o progresso da vida para todos e em todos os seus aspectos. Hermetismo - doutrina que reunia, no mundo greco-romano, as mais diversas correntes filosóficas e religiosas. É atribuída à inspiração do Deus Thot, ou Hermes Trimegisto, e associa elementos doutrinários orientais e neoplatônicos. O termo nasce da análise das doutrinas presentes nas revelações de Hermes Trismegisto. Ele teria iniciado os humanos nas práticas das Ciências Ocultas, através da correspondência e conexão existente entre os números e a física, a medicina, a alquimia. A literatura hermética é vasta, podendo-se localizar, por exemplo, os sete tratados do Corpus Hermeticum, redigidos em grego, nos século II e III e traduzido em Florença, em 1460. Posteriormente, seu sentido se ampliou, tendendo a se confundir com o esoterismo. Trata-se da revelação da unidade do cosmo e da harmonia existente entre suas dimensões, através das quais emanam energias divinas até o microcosmo, onde habita o ser humano inconsciente. Acabou se transformando em um ensinamento secreto onde se misturam filosofia e alquimia. A este respeito, consultar LAURANT, 1995, op. cit. Islamismo - religião fundada por Maomé, nascido em Meca (Arábia Saudita), no século VI d. C. O "Corão" é o livro que conteria as revelações feitas pelo Arcanjo Gabriel a este profeta. Ensina preceitos religiosos, morais e dogmas. Assenta-se em um monoteísmo rígido: "Alá" (Deus) é único. Islã significa submissão à vontade de Deus que criou todas as coisas. Mitos - Palavra originária do grego mythos . Forma simbólica de expressão, presente em todas as civilizações, em geral explicando a "criação" de algo. Tem um caráter cósmico para explicar o mundo, sobretudo sua origem, a origem da humanidade e os fatos importantes de sua história. Ele sempre é colocado fora do tempo (meta-histórico). Pode explicar a origem do todo (o Cosmo), ou partes dele: como se originou uma ilha, um comportamento humano. O pensamento religioso está estritamente marcado pelos mitos, ou pelo mítico. Porque se comunicam, sempre, com a dimensão sagrada ou sobrenatural; é a irrupção do sagrado que funda o mundo. Daí a presença de seres poderosos, Deuses, na origem dos mitos. Muitos autores o consideraram como a fase infantil do pensamento humano, sobretudo no início do século XX. Mas na atualidade, sua importância vem sendo redimensionada e valorizada. Afinal, o mito tende a explicar e a conhecer aquilo que é incognoscível à condição humana. Narcisimo - preocupação excessiva consigo mesmo, com sua aparência física e seus próprios interesses.

Todas as religiões, religiosidades, implicam em ritos, ou seja, uma série de práticas, comportamentos, posturas (orações, sacrifícios, purificações, oferendas, cultos, danças). No geral, em sentido amplo, é identificado com culto, e abrange o conjunto de práticas, de regras, de cerimônias, existentes presentes nas religiões e em outras formas de religiosidade. Ocultismo - Não há muito consenso em torno a uma definição precisa, que diferencie esoterismo de ocultismo, até a atualidade. Segundo LAURANT, Jean Pierre (O esoterismo . São Paulo: Paulus, 1995, P. 12) encontra-se a definição de ocultismo como uma doutrina esotérica. Ou do esoterismo lido como ocultismo ocidental, como uma ramificação do ocultismo universal. Mas há suspeitas sobre o ocultismo. Assim, René Guénon (1886-1951), tratou de dissociar o verdadeiro esoterismo, que comportaria uma verdadeira dimensão espiritual, de práticas duvidosas das Ciências Ocultas. Estas buscariam poderes e heranças da antiga magia. Segundo o autor acima citado, esta postura diferencial seria a que prevalece em nossos dias. Sagrado - misterioso, fascinante, divino, religioso. Remete-se, normalmente, a coisas proibidas, separadas do cotidiano (profano). Daí que sua interpretação está diretamente relacionada, quase sempre em oposição, a profano. Sincretismo Religioso - fusão, interpenetração, de religiões, de ritos, de crenças, de personagens cultuados ou referenciados. Teologia - Ciência ou estudo de Deus, das questões relativas à existência, à natureza e à ação de Deus no mundo. Na classificação realizada pelo CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, está classificada como uma das ciências que compõem as Ciências Humanas. Transcendente -Aquilo que vai além da histórica, das evidências empíricas, que rompe com a realidade material. 
Hosted by www.Geocities.ws

1