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André
STAR TREK: DISCOVERY
Livro 1 — A Tripulação
CAPÍTULO 1 — A CADEIRA
USS Discovery, Órbita da Terra
Cinco dias antes da partida
A nave estava quase vazia.
Saru preferia assim. Sem o ruído constante de uma tripulação em operação, sem chamadas cruzando corredores, sem o movimento silencioso de pessoas que sempre pareciam saber exatamente para onde ir. Apenas o som baixo e contínuo dos sistemas em funcionamento — o que ele já aprendera a reconhecer como a respiração de uma nave da Frota Estelar.
Subiu à ponte sozinho pela primeira vez.
As portas se abriram.
Saru permaneceu no limiar por alguns segundos.
Não havia testemunhas. Nenhum protocolo. Nenhum registro oficial daquele instante. Ainda assim, ele o percebeu com a clareza de algo que mudava de forma irreversível.
A ponte da Discovery era compacta, funcional. As estações dispostas em semicírculo, os consoles ainda inativos, e a ampla janela frontal exibindo a Terra abaixo — azul, calma, indiferente — e, além dela, o vazio do espaço.
No centro, levemente elevada, estava a cadeira do capitão.
Ele caminhou até ela em silêncio.
Não havia cerimônia. Capitães assumiam seus postos de maneiras diferentes: alguns com formalidade, outros como se sempre tivessem pertencido àquele lugar. Saru não se encaixava em nenhum dos dois.
Parou diante da cadeira.
Observou-a.
Era apenas um assento — couro escuro, estrutura sólida, braços largos. Mas também era o ponto onde decisões eram tomadas sem garantia de estarem certas.
Pensou em Kaminar.
Em um mundo onde sua espécie crescia com o instinto de ser caçada. Onde o medo não era aprendido — era biológico. Onde liderar não era apenas improvável, mas inconcebível.
E, ainda assim, ele estava ali.
Sentou-se.
O material cedeu sob seu peso. A ponte mudou de perspectiva. As estações à sua frente deixaram de ser apenas instrumentos e passaram a ser responsabilidades.
Saru ficou em silêncio.
— Sistemas da nave em standby — disse uma voz suave. — Bem-vindo a bordo, capitão Saru.
Ele olhou para o alto por um instante, como se a voz tivesse uma origem física.
— Obrigado, Zora.
— É a primeira vez que está na ponte sozinho — observou a inteligência da nave.
— Sim.
— Registros indicam que o capitão Jean-Luc Picard costumava fazer o mesmo ao assumir novos comandos. Permanecia sozinho na ponte antes do início das operações.
Saru considerou a informação.
— Não sabia disso.
— Os registros são provenientes de diários pessoais previamente desclassificados.
— Entendo — disse ele. Após uma pausa, completou: — Foi útil. Obrigado.
O silêncio voltou a preencher a ponte.
Saru voltou o olhar para a Terra.
Aquele mundo não era seu de nascimento. Nunca seria. Mas, ao longo dos anos, havia deixado de ser apenas um lugar de passagem. Tornara-se algo mais próximo de lar — não por origem, mas por escolha.
Ele abriu o PADD que a almirante Philippa Georgiou havia lhe entregado.
A lista de nomes surgiu na tela.
Sua tripulação.
Saru começou a ler.