17/12/2004

Danilo Bicalho
e
Luciana Silvestre

 

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CUT: Continuar ou desfiliar?

Debate promovido pela Adufes expõe divergências em relação à CUT e aponta luta contra mais uma reforma do governo

"Um descompasso entre a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a base da categoria". É como a professora Elizabeth Orletti, do departamento de Serviço Social, justifica a necessidade do debate "CUT: continuar ou desfiliar?", ocorrido no dia 15 de dezembro, na sede da Associação dos Docentes da UFES (Adufes). O debate, que contou com a participação de estudantes, professores, sindicalistas e servidores, foi promovido pela ADUFES a fim de subsidiar a discussão que se coloca nacionalmente sobre a falta de atuação da Central na luta dos trabalhadores contra as reformas do governo Lula, tanto as que já foram aprovadas, como a da previdência, quanto as que estão por vir, como a reforma sindical e trabalhista.

Com a presença de José Maria Almeida, o Zé Maria, coordenador da Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas); Jorge Luiz Martins, o Jorginho, membro da Executiva Nacional e militante da Frente Esquerda Socialista de oposição da CUT e José Carlos Pigatti, presidente da Central no Espírito Santo, foram colocadas críticas quanto ao apoio dessa entidade às reformas neoliberais do governo e de como ela não tem se colocado enquanto instrumento de luta para os trabalhadores. "A CUT se posicionou a favor das reformas previdenciária, universitária e agora da reforma sindical e trabalhista. Ela tem interesses comuns com o governo, contrários aos interesses dos trabalhadores", declara Zé Maria. Jorginho também reconhece o apoio da maioria da CUT às reformas do governo, mas ressalta que há setores de oposição, dentro da própria entidade que estão contra essas reformas. "Infelizmente a CUT tem cumprido, sim, um papel de braço auxiliar do governo. E faço questão de dizer que é a sua maioria. Há vários setores internos, que são minoria, mas têm resistido, têm tentado pautar esse debate no movimento".

Um grande pólo de discussão foi justamente a resposta ao questionamento "o que fazer diante dessa situação?". E é nesse ponto que se concentraram as maiores divergências entre os palestrantes e que representa o conflito da esquerda no país. "É preciso desfiliar da CUT e compor outra alternativa", declara Zé Maria. Segundo ele, não é possível organizar a luta por dentro de uma entidade que ajuda o governo a retirar os direitos dos trabalhadores. Já para Jorginho, não se deve desfiliar da CUT, uma vez que é ela quem congrega a base nesse momento. "Temos que enfrentar as reformas onde a base está. Essa é a questão e não acumular forças para montar outra alternativa". Além disso, Jorginho acha que a criação de uma alternativa nesse momento poderia dividir ainda mais os trabalhadores. "O que está na ordem do dia é unir os trabalhadores para derrotar essas reformas e não montar outra central. Antes de sair, é preciso mudar sua forma de funcionamento".

Já Zé Maria é descrente de alguma mudança na entidade, pois percebe a sua burocratização e seu atrelamento ao governo como um entrave à luta dos trabalhadores. "Se é preciso unir a classe trabalhadora, é impossível fazer isso dentro da CUT, porque ela trava a luta do movimento". Ainda completa dizendo que a unidade se faz com quem quer lutar contra as reformas e não com quem está a favor delas, como a maioria se posiciona atualmente.

A polêmica aumenta quando se vislumbra a próxima reforma do governo, a reforma sindical e trabalhista. Todos os palestrantes comentaram que essa reforma retira direitos conquistados na constituição de 1988, como a não intervenção do Estado nos sindicatos, e desarticula a organização dos trabalhadores com medidas como a contratação de funcionários substitutos durante as greves, por exemplo.

Segundo o estudante de Educação Física, Filipe Firmino, participante do debate, é fundamental acompanhar a luta dos trabalhadores, pois "o movimento sindical, operário é o mais importante no país e merece atenção central da sociedade". O estudante de Letras,, Ruy Barbosa, ressalta a importância de se discutir todas as reformas do governo. "Essa integração e esse debate em conjunto é de fundamental importância pra avançar nas lutas contra as reformas". Para a professora Elizabeth Orletti, que coordenou a mesa de debates, essa discussão é necessária para se definir "que resistência temos que fazer, já que o governo Lula não responde aos anseios dos trabalhadores".

A Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior-ANDES-, à qual a Adufes é filiada, deverá decidir sobre a desfiliação ou não da CUT no seu 24º. Congresso, em fevereiro. Enquanto isso, diversos debates estão ocorrendo para subsidiar a discussão na base da categoria.

Leia mais sobre o assunto em www.andes.org.br

Veja as principais divergências em relação à desfiliação da CUT.

Veja os principais pontos da reforma sindical e trabalhista.


Da esquerda para a direita: Jorginho (Frente Esquerda Socialista), Beth (Adufes), Pigatti (CUT-ES), Zé Maria (Conlutas e PSTU) e Vânia (Adufes)
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