CUT: Continuar ou desfiliar?
Debate promovido pela Adufes expõe
divergências em relação à CUT e aponta luta
contra mais uma reforma do governo
"Um descompasso entre a Central Única dos
Trabalhadores (CUT) e a base da categoria". É como a professora
Elizabeth Orletti, do departamento de Serviço Social, justifica
a necessidade do debate "CUT: continuar ou desfiliar?", ocorrido
no dia 15 de dezembro, na sede da Associação dos Docentes
da UFES (Adufes). O debate, que contou com a participação
de estudantes, professores, sindicalistas e servidores, foi promovido
pela ADUFES a fim de subsidiar a discussão que se coloca nacionalmente
sobre a falta de atuação da Central na luta dos trabalhadores
contra as reformas do governo Lula, tanto as que já foram aprovadas,
como a da previdência, quanto as que estão por vir, como
a reforma sindical e trabalhista.
Com a presença de José Maria Almeida, o Zé Maria,
coordenador da Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas);
Jorge Luiz Martins, o Jorginho, membro da Executiva Nacional e militante
da Frente Esquerda Socialista de oposição da CUT e José
Carlos Pigatti, presidente da Central no Espírito Santo, foram
colocadas críticas quanto ao apoio dessa entidade às reformas
neoliberais do governo e de como ela não tem se colocado enquanto
instrumento de luta para os trabalhadores. "A CUT se posicionou
a favor das reformas previdenciária, universitária e agora
da reforma sindical e trabalhista. Ela tem interesses comuns com o governo,
contrários aos interesses dos trabalhadores", declara Zé
Maria. Jorginho também reconhece o apoio da maioria da CUT às
reformas do governo, mas ressalta que há setores de oposição,
dentro da própria entidade que estão contra essas reformas.
"Infelizmente a CUT tem cumprido, sim, um papel de braço
auxiliar do governo. E faço questão de dizer que é
a sua maioria. Há vários setores internos, que são
minoria, mas têm resistido, têm tentado pautar esse debate
no movimento".
Um grande pólo de discussão foi justamente a resposta
ao questionamento "o que fazer diante dessa situação?".
E é nesse ponto que se concentraram as maiores divergências
entre os palestrantes e que representa o conflito da esquerda no país.
"É preciso desfiliar da CUT e compor outra alternativa",
declara Zé Maria. Segundo ele, não é possível
organizar a luta por dentro de uma entidade que ajuda o governo a retirar
os direitos dos trabalhadores. Já para Jorginho, não se
deve desfiliar da CUT, uma vez que é ela quem congrega a base
nesse momento. "Temos que enfrentar as reformas onde a base está.
Essa é a questão e não acumular forças para
montar outra alternativa". Além disso, Jorginho acha que
a criação de uma alternativa nesse momento poderia dividir
ainda mais os trabalhadores. "O que está na ordem do dia
é unir os trabalhadores para derrotar essas reformas e não
montar outra central. Antes de sair, é preciso mudar sua forma
de funcionamento".
Já Zé Maria é descrente de alguma mudança
na entidade, pois percebe a sua burocratização e seu atrelamento
ao governo como um entrave à luta dos trabalhadores. "Se
é preciso unir a classe trabalhadora, é impossível
fazer isso dentro da CUT, porque ela trava a luta do movimento".
Ainda completa dizendo que a unidade se faz com quem quer lutar contra
as reformas e não com quem está a favor delas, como a
maioria se posiciona atualmente.
A polêmica aumenta quando se vislumbra a próxima reforma
do governo, a reforma sindical e trabalhista. Todos os palestrantes
comentaram que essa reforma retira direitos conquistados na constituição
de 1988, como a não intervenção do Estado nos sindicatos,
e desarticula a organização dos trabalhadores com medidas
como a contratação de funcionários substitutos
durante as greves, por exemplo.
Segundo o estudante de Educação Física, Filipe
Firmino, participante do debate, é fundamental acompanhar a luta
dos trabalhadores, pois "o movimento sindical, operário
é o mais importante no país e merece atenção
central da sociedade". O estudante de Letras,, Ruy Barbosa, ressalta
a importância de se discutir todas as reformas do governo. "Essa
integração e esse debate em conjunto é de fundamental
importância pra avançar nas lutas contra as reformas".
Para a professora Elizabeth Orletti, que coordenou a mesa de debates,
essa discussão é necessária para se definir "que
resistência temos que fazer, já que o governo Lula não
responde aos anseios dos trabalhadores".
A Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior-ANDES-,
à qual a Adufes é filiada, deverá decidir sobre
a desfiliação ou não da CUT no seu 24º. Congresso,
em fevereiro. Enquanto isso, diversos debates estão ocorrendo
para subsidiar a discussão na base da categoria.
Leia mais sobre o assunto em www.andes.org.br
Veja
as principais divergências em relação à desfiliação
da CUT.
Veja
os principais pontos da reforma sindical e trabalhista.