17/12/2004

Danilo Bicalho
e
Luciana Silvestre

 

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Como está a CUT?

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) foi fundada em 28 de agosto de 1983, na cidade de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Surgia, então, como uma entidade de convergência das lutas trabalhistas - algo incomum durante a Ditadura Militar - e, como resultado de uma ampla mobilização dos trabalhadores, especialmente dos metalúrgicos do Grande ABC.

Vinte e um anos se passaram e a CUT transformou-se na maior central sindical do Brasil, isso devido ao acúmulo de vitórias alcançadas pela central na luta pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores e à sua postura democrática e autônoma diante do Estado.

Porém, nos últimos dois anos muito se tem debatido em relação à postura da CUT frente às reformas do Governo do PT (partido que historicamente influencia os rumos da Central). Enquanto grande parte da base cutista reivindica mudanças nos rumos de tais reformas, sua diretoria "reconhece nela alguns avanços na luta dos trabalhadores", como disse o Presidente da CUT-ES, José Carlos Pigatti.

A luta em defesa dos direitos do trabalhador encontra-se numa encruzilhada, na qual cada caminho possível de ser seguido implica uma estratégia diferente em busca da solução de um mesmo problema. Percorrendo um caminho, chega-se à desfiliação e à possibilidade de construção de uma nova organização de lutas em âmbito nacional (Conlutas); pelo outro caminho, depara-se com a luta interna pela disputa dos rumos da CUT, resgatando seu histórico de lutas.
Então o que fazer, CONTINUAR ou DESFILIAR?


CUT: Continuar

"Está na CUT a ampla maioria dos trabalhadores, que obtiveram, do ponto de vista histórico, alguns direitos que hoje temos na Constituição." Esse é um dos argumentos utilizados pelo sindicalista "Jorginho" para justificar sua posição de que a CUT não deve ser abandonada a fim de se criar uma nova central sindical. "Abandonar a CUT significaria abandonar a ampla maioria dos trabalhadores do país e, por não ser possível encontrar essa massa de trabalhadores e de representações fora da central, é que devemos debater os dilemas da vacilação da maioria da direção da entidade nesse momento", afirma Jorginho.

O sindicalista aponta a marcha contra as reformas sindical, trabalhista e universitária, realizada no dia 25 de novembro, uma mostra do potencial de reação e de mobilização, tanto da esquerda da CUT, como da esquerda do PT. O que tornaria possível a luta pelos rumos "cutistas".

O posicionamento de Jorginho, deixa clara a pluralidade de pensamentos existentes dentro da CUT. Desde sua criação, objetivava-se a construção de uma central sindical de massas, democrática, que englobasse diversos grupos políticos. "Achamos que a central sindical, os sindicatos, têm que ser plurais do ponto de vista político ideológico e organizacional. Central e sindicato têm que ser independentes e autônomos, quer seja do PT, do PMDB, do PSDB, do PC do B, do P-SOL ou do PSTU. Justificando, assim, sua determinação em lutar pelos rumos da CUT, ao invés de abandoná-la criando uma nova entidade".

Para "Jorginho", não faz sentido dispender forças para a criação de uma nova central sindical no momento em que se faz necessária a união da oposição para barrar a proposta de reforma sindical do Governo. Com relação à Conlutas, alternativa proposta pelos defensores da ruptura com a CUT , ele afirma que ela já "nasce com um problema de origem, que é o aparelhamento por um partido político, no caso o PSTU". Ele afirma ainda que "o Conlutas está fadado a não avançar, pois já nasce com esse vício de origem".

Ainda segundo "Jorginho", a campanha de construção da Conlutas, encampada principalmente pelo PSTU, "é uma política consciente de auto-isolamento". Jorginho concorda que há uma crise política, uma crise de instrumento, mas a opção da Frente Esquerda Socialista é de enfrentar os dilemas dentro da CUT.

"A lógica é a mesma: a CUT não fala em nosso nome, a UNE não fala em nosso nome. A lógica é: os únicos que falam em nome da classe trabalhadora é o PSTU. Essa é a lógica, os demais são todos traidores", ironiza Jorginho, fazendo alusão à Coordenação Nacional de Lutas Estudantis (Conlute), também proposta pelo PSTU como alternativa à UNE (União Nacional dos Estudantes).

CUT: Desfiliar

Zé Maria analisou a questão da CUT no contexto econômico e político em que vive o país. Ele comentou que num momento em que o neoliberalismo se aprofunda cada vez mais nas práticas imperialistas, como a Guerra no Iraque, Planos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e na implantação da Área de Livre Comércio da Américas (ALCA), Lula é eleito presidente do país como a expressão de um projeto alternativo que a esquerda construiu e apostou nos últimos 30 anos. Entretanto, esse governo no poder teve a opção política por aprofundar cada vez mais o neoliberalismo, "aumentando os privilégios de um pequeno grupo, por um lado; e aprofundando os sacrifícios dos trabalhadores por outro". Nesse contexto, as reformas que Lula vem implementando são a expressão dessa opção política do governo.

Diante disso, a central sindical que deveria representar a luta dos trabalhadores, compõe a base de sustentação desse governo, juntamente com banqueiros e setores empresariais do país. A CUT, atualmente, tem interesses econômicos comuns aos do governo, que são contrários aos interesses dos trabalhadores. Um exemplo claro disso, é o apoio da CUT às reformas previdenciária, universitária e agora trabalhista.

Sendo assim, no momento em que os trabalhadores recorrem a seu sindicato na luta contra as reformas, eles se deparam com a sua central sindical apoiando justamente a retirada de seus direitos. Dessa forma, não é possível construir a luta contra as reformas na central que as apóia. Mesmo que existam setores da esquerda da CUT que sejam contra a sua cúpula, isso não possibilita a mudança de rumo da entidade, até pelo seu excesso de burocratização. E são justamente esses setores, que não têm espaço na central, é que acabam defendendo a CUT que contribui para retirar direitos; afinal, não existem duas CUT's.

Portanto, o que se coloca como horizonte é desfiliar da CUT e compor outra alternativa. E isso não significa ser divisionista, pois significa construir a luta com quem quer, de fato, lutar contra as reformas. "Permanecer na CUT é buscar unidade com quem? Com quem apóia as reformas?", questiona Zé Maria.

"É preciso canalizar a ruptura pela base, numa alternativa de luta. A Conlutas é um esforço para essa organização, que precisa ser construída pela base". É interessante destacar que a Conlutas não representa uma alternativa pronta; tanto é, que não se sabe ao certo se será uma central sindical como a CUT. Seu objetivo é congregar as entidades a fim de construir uma alternativa de luta. Zé Maria ainda reforça que é preciso romper com a CUT no momento em que ainda é possível organizar os trabalhadores contra a reforma sindical e trabalhista, já que ela não irá encampar essa luta. "Não há como esperar a reforma passar para sair da CUT".

Por fim, ele convida à reflexão dizendo: "Romper com a CUT não é somente idéia do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado).Basta perguntar a cada professor, a cada servidor o que pensa da CUT hoje".

Leia mais em www.conlutas.org.br e www.cut.org.br

 

 
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