Como está a CUT?
A Central Única dos Trabalhadores
(CUT) foi fundada em 28 de agosto de 1983, na cidade de São Bernardo
do Campo, na Grande São Paulo. Surgia, então, como uma
entidade de convergência das lutas trabalhistas - algo incomum
durante a Ditadura Militar - e, como resultado de uma ampla mobilização
dos trabalhadores, especialmente dos metalúrgicos do Grande ABC.
Vinte e um anos se passaram e a CUT transformou-se na maior central
sindical do Brasil, isso devido ao acúmulo de vitórias
alcançadas pela central na luta pela melhoria das condições
de vida dos trabalhadores e à sua postura democrática
e autônoma diante do Estado.
Porém, nos últimos dois anos muito se tem debatido em
relação à postura da CUT frente às reformas
do Governo do PT (partido que historicamente influencia os rumos da
Central). Enquanto grande parte da base cutista reivindica mudanças
nos rumos de tais reformas, sua diretoria "reconhece nela alguns
avanços na luta dos trabalhadores", como disse o Presidente
da CUT-ES, José Carlos Pigatti.
A luta em defesa dos direitos do trabalhador encontra-se numa encruzilhada,
na qual cada caminho possível de ser seguido implica uma estratégia
diferente em busca da solução de um mesmo problema. Percorrendo
um caminho, chega-se à desfiliação e à possibilidade
de construção de uma nova organização de
lutas em âmbito nacional (Conlutas); pelo outro caminho, depara-se
com a luta interna pela disputa dos rumos da CUT, resgatando seu histórico
de lutas.
Então o que fazer, CONTINUAR ou DESFILIAR?
CUT: Continuar
"Está na CUT a ampla
maioria dos trabalhadores, que obtiveram, do ponto de vista histórico,
alguns direitos que hoje temos na Constituição."
Esse é um dos argumentos utilizados pelo sindicalista "Jorginho"
para justificar sua posição de que a CUT não deve
ser abandonada a fim de se criar uma nova central sindical. "Abandonar
a CUT significaria abandonar a ampla maioria dos trabalhadores do país
e, por não ser possível encontrar essa massa de trabalhadores
e de representações fora da central, é que devemos
debater os dilemas da vacilação da maioria da direção
da entidade nesse momento", afirma Jorginho.
O sindicalista aponta a marcha contra as reformas sindical, trabalhista
e universitária, realizada no dia 25 de novembro, uma mostra
do potencial de reação e de mobilização,
tanto da esquerda da CUT, como da esquerda do PT. O que tornaria possível
a luta pelos rumos "cutistas".
O posicionamento de Jorginho, deixa clara a pluralidade de pensamentos
existentes dentro da CUT. Desde sua criação, objetivava-se
a construção de uma central sindical de massas, democrática,
que englobasse diversos grupos políticos. "Achamos que a
central sindical, os sindicatos, têm que ser plurais do ponto
de vista político ideológico e organizacional. Central
e sindicato têm que ser independentes e autônomos, quer
seja do PT, do PMDB, do PSDB, do PC do B, do P-SOL ou do PSTU. Justificando,
assim, sua determinação em lutar pelos rumos da CUT, ao
invés de abandoná-la criando uma nova entidade".
Para "Jorginho", não faz sentido dispender forças
para a criação de uma nova central sindical no momento
em que se faz necessária a união da oposição
para barrar a proposta de reforma sindical do Governo. Com relação
à Conlutas, alternativa proposta pelos defensores da ruptura
com a CUT , ele afirma que ela já "nasce com um problema
de origem, que é o aparelhamento por um partido político,
no caso o PSTU". Ele afirma ainda que "o Conlutas está
fadado a não avançar, pois já nasce com esse vício
de origem".
Ainda segundo "Jorginho", a campanha de construção
da Conlutas, encampada principalmente pelo PSTU, "é uma
política consciente de auto-isolamento". Jorginho concorda
que há uma crise política, uma crise de instrumento, mas
a opção da Frente Esquerda Socialista é de enfrentar
os dilemas dentro da CUT.
"A lógica é a mesma: a CUT não fala em nosso
nome, a UNE não fala em nosso nome. A lógica é:
os únicos que falam em nome da classe trabalhadora é o
PSTU. Essa é a lógica, os demais são todos traidores",
ironiza Jorginho, fazendo alusão à Coordenação
Nacional de Lutas Estudantis (Conlute), também proposta pelo
PSTU como alternativa à UNE (União Nacional dos Estudantes).
CUT: Desfiliar
Zé Maria analisou a questão
da CUT no contexto econômico e político em que vive o país.
Ele comentou que num momento em que o neoliberalismo se aprofunda cada
vez mais nas práticas imperialistas, como a Guerra no Iraque,
Planos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e na implantação
da Área de Livre Comércio da Américas (ALCA), Lula
é eleito presidente do país como a expressão de
um projeto alternativo que a esquerda construiu e apostou nos últimos
30 anos. Entretanto, esse governo no poder teve a opção
política por aprofundar cada vez mais o neoliberalismo, "aumentando
os privilégios de um pequeno grupo, por um lado; e aprofundando
os sacrifícios dos trabalhadores por outro". Nesse contexto,
as reformas que Lula vem implementando são a expressão
dessa opção política do governo.
Diante disso, a central sindical que deveria representar a luta dos
trabalhadores, compõe a base de sustentação desse
governo, juntamente com banqueiros e setores empresariais do país.
A CUT, atualmente, tem interesses econômicos comuns aos do governo,
que são contrários aos interesses dos trabalhadores. Um
exemplo claro disso, é o apoio da CUT às reformas previdenciária,
universitária e agora trabalhista.
Sendo assim, no momento em que os trabalhadores recorrem a seu sindicato
na luta contra as reformas, eles se deparam com a sua central sindical
apoiando justamente a retirada de seus direitos. Dessa forma, não
é possível construir a luta contra as reformas na central
que as apóia. Mesmo que existam setores da esquerda da CUT que
sejam contra a sua cúpula, isso não possibilita a mudança
de rumo da entidade, até pelo seu excesso de burocratização.
E são justamente esses setores, que não têm espaço
na central, é que acabam defendendo a CUT que contribui para
retirar direitos; afinal, não existem duas CUT's.
Portanto, o que se coloca como horizonte é desfiliar da CUT e
compor outra alternativa. E isso não significa ser divisionista,
pois significa construir a luta com quem quer, de fato, lutar contra
as reformas. "Permanecer na CUT é buscar unidade com quem?
Com quem apóia as reformas?", questiona Zé Maria.
"É preciso canalizar a ruptura pela base, numa alternativa
de luta. A Conlutas é um esforço para essa organização,
que precisa ser construída pela base". É interessante
destacar que a Conlutas não representa uma alternativa pronta;
tanto é, que não se sabe ao certo se será uma central
sindical como a CUT. Seu objetivo é congregar as entidades a
fim de construir uma alternativa de luta. Zé Maria ainda reforça
que é preciso romper com a CUT no momento em que ainda é
possível organizar os trabalhadores contra a reforma sindical
e trabalhista, já que ela não irá encampar essa
luta. "Não há como esperar a reforma passar para
sair da CUT".
Por fim, ele convida à reflexão dizendo: "Romper
com a CUT não é somente idéia do PSTU (Partido
Socialista dos Trabalhadores Unificado).Basta perguntar a cada professor,
a cada servidor o que pensa da CUT hoje".
Leia mais em www.conlutas.org.br
e www.cut.org.br