TRILHOS DA MISSÃO

 

UMA ENTREVISTA COM UM SEMINARISTA II

“Lutei contra tudo e contra todos para seguir minha vocação”

 

Durante o mês de janeiro a Paroquia de São Brás recebeu a visita de cerca de seis missionários da Consolata ainda em formação. Entre eles o jovem queniano Job Masyula Mbutu, 28 anos, cursando Teologia em São Paulo. Confira abaixo uma entrevista com o seminarista falando de Vocação, Globalização e dificuldades de um vocacionado 

dentro da própria família.

TREM DA MISSÃO – Como você define a palavra VOCAÇÃO?

JOB - É uma força interior, uma força que desafia a pessoa a partir do seu interior levando-a a optar por um estilo especifico de vida, serviço, um seguimento dedicando a vida toda sem interesses. Esta força, então na vida religiosa, é chamada forca Divina.

TREM DA MISSÃO – Como você descobriu a sua vocação religiosa?

 

JOB - Criei-me numa família bem católica e a gente rezava muito em casa. Depois fiz os meus estudos (segundo grau) numa escola religiosa. É ali, vivendo junto com os padres e rezando a missa todos os dias que descobri concretamente o desejo de ser sacerdote. Admirava muito também os missionários que trabalhavam na minha paróquia. Queria ser uma pessoa humilde, inteligente e rezar a missa como eles.

 

TREM DA MISSÃO – Por qual razão você escolheu os Missionários da Consolata para tornar o seu sonho em realidade?

 

JOB - São eles que trabalham na minha paróquia até hoje. Naquela época não havia missionários das outras congregações. Assim, a única congregação que existia no meu mundo era a Consolata. Lia muitas revistas e artigos que falavam sobre as experiências dos missionários da Consolata no mundo e participava nos encontros vocacionais.

 

TREM DA MISSÃO – Para você é difícil ser missionário num mundo globalizado como o nosso?

 

JOB - O “ser missionário” num mundo globalizado é difícil. É difícil porque não se sabe mais o lugar do Sagrado. O Sagrado tornou-se outra coisa: Dinheiro, consumismo, poder econômico e político, luxuria, passeios, etc. E o Templo (igreja) tornou-se, por exemplo, o shopping center. Assim, em síntese é difícil devido às próprias características de globalização, modernidade e pós-modernidade: Individualismo, busca de prazer e satisfaze-lo, consumismo, comodismo etc. Mesmo assim, o ser missionário e a evangelização são mais importantes mais do que nunca.

 

TREM DA MISSÃO – Você falou do “ser missionário” num mundo de globalização. Mas quais os aspectos destas revoluções sociais que mais dificulta a sua vocação religiosa?

 

JOB - Acho que já mencionei estes aspectos na reflexão anterior: As próprias características da globalização, modernidade, e pós-modernidade. Os candidatos para a vida missionária nascem e crescem nesta situação/ambiente, assim a vida religiosa que insiste em renúncia de muitas coisas deste tipo, fica difícil.

 

TREM DA MISSÃO – Muitos seminaristas enfrentam a família, os amigos e a sociedade em geral quando decidem seguir este caminho. Qual foi o maior desafio da sua vida quando chegou para seus pais e disse: Quero ser padre!?

 

 

JOB - Primeiro era e ainda é a minha cultura que proíbe o homem viver sem uma mulher, ou melhor, sem filhos. Uma pessoa desta é considerada maldita. Assim, até hoje a maioria dos meus parentes não são de acordo com a minha escolha. Outro problema era de escolher a congregação que tinha a carisma próprio da minha personalidade. Conhecia muitas congregações religiosas, e cada uma tinha o seu carisma assim era difícil saber qual carisma seria melhor para mim.

 

 

TREM DA MISSÃO – Sua família é católica. Mesmo depois de alguns anos de estudo eles aceitaram ou ainda resistem?

 

 

JOB - Apesar do fato da minha família ser católica, houve muita resistência no lado dos meus pais quando decidi ser um missionário, sem falar sobre os outros parentes (tios, tias, avô, avó, primos, etc) poucos me apoiaram, mas só por respeito a minha decisão, não porque gostaram.

 

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