Toni Marins

Jornalista, Escritor e Poeta


 

Home
Fotos
Contos
Hino
Arquivo
Links
.Poesias
Livros
Contato

 


Contos





- A Viúva ;

- O mordomo inglês ;

- Tsunami carioca .


A viúva

“Deixo-me levar em desejo ardente insaciável. Meus olhos buscam formas indizíveis que se desenvolvem na mente de mulher em permanente estado de paixão. Meu objetivo é encontrar alguém que carregue no peito a força de um vulcão, e consiga sussurrar aos meus ouvidos a sonora canção do vento. Alguém que me submeta e aprisione em anseios tantos, e possa apaziguar o fogo que me consome o corpo, mantendo meus poros e minhas partes dispostas na expectativa da festa continuada dos sentidos” (trecho do diário da viúva).
Dia dos Mortos. Quem saberia dizer o que se passava na cabeça de uma mulher que perdera, em série, três maridos?
Casada oficialmente na igreja e no cartório, ela pressentia o burburinho da vizinhança enquanto caminhava muito aprumada em cima de um salto alto de sete centímetros. Rosto bem maquiado, roupas levemente transparentes, cabelos soltos ao vento, deixando ao passar um rastro de exótico perfume que despertava os homens abrigados no recesso do boteco, jogando conversa fora, tomando cerveja.
Suburbana assumida e sacudida, ela não pretendia esconder os atributos físicos pra lá de vantajosos que a mãe natureza lhe havia concedido.
O desejo dos circundantes era tão escancarado que não havia recato nos seus comentários. Tão logo avistavam o vulto de mulher dobrando a esquina para passar calculadamente na calçada do bar do Seu Domingos, seus olhares ávidos se voltavam como que realizados diante de tamanha formosura.
Entre os garçons e os clientes – alguns bêbados, outros sóbrios - alguém conseguia sussurrar entre lábios:
- É ela.
De certa maneira despertava medo, apesar da determinação firme de alguns freqüentadores que demonstravam coragem acima da medida, jurando que topariam qualquer tipo de pacto em troca de algumas carícias. Porém, ninguém assinava em baixo, temendo o destino igual dos amantes levados para o outro lado do mundo, “com um baita sorriso na cara” - segundo comentários mais detalhados que descreviam a expressão dos defuntos estirados nos caixões enfeitados de flores.
Daí, a imaginação rolava solta e não havia quem não concordasse com a profecia:
- Pedaço de mulher! Quem sabe, parente do demo, incorporação da pomba-gira, sorriso diabólico que paralisava quantos ousassem alguma intimidade...
Era assim que tocava a banda quando a viúva desfilava todo santo dia pela rua bucólica de muitas árvores e pouco trânsito, que mais parecia uma vila napolitana, onde todos se conheciam e entravam em polvorosa diante da figura:
- Lá vem ela!
Ninguém questionava para onde estaria seguindo.
- Vai perturbar a cabeça do turco! - alguém ironizava, referindo-se ao Yussef, o árabe dono da lojinha de frutas, sempre desmanchado em gentilezas, o linguajar arrastado tentando fazer entender que ela poderia levar a loja inteira sem pagar.
Tudo em troca de nada, pago com o sorriso singelo e algum desdém...
Com esse jeitinho, ela despertava uma dezena de olhares inquisidores, indiferente ao que eventualmente pudesse ouvir, seguindo firme para lugar ignorado. Parando curiosa diante da vitrine onde havia um vestido vermelho exposto, como se fosse carinhosamente arrumado para a ocasião; ela retirava uma pequena dobra do tecido, alisando a textura delicada, acalentando sonhos de consumo e prazer.
Parte do seu cotidiano transcorria longe dos olhares vigilantes de quem não havia conseguido impressioná-la, mas sonhava com o fardo delicado, um projeto de mulher perfeita.
A curiosidade era o mote de sempre. A partir da passagem dela o mistério ganhava contornos inesperados. Como teria sido o convívio com os companheiros mortos que freqüentaram o leito da casa onde co-habitava uma única testemunha: o gato rajado de olhos azuis e nome exato - Tominho? O felino só fortalecia a inveja alheia, quando ela escancarava a janela da casa, colocando-o no parapeito de mármore para tomar sol, os dedos longos de unhas vermelhas, acariciando com sofreguidão o bichinho de estimação.
- Provavelmente ele dorme enroscado nas pernas dela - alguém sugeria, quase babando de inveja.
Mas, ninguém sabia sobre algo que se passasse para além da soleira da porta que não havia sido cruzada, nem mesmo pelo entregador da lojinha de frutas - um nordestino curioso que exaltava as próprias qualidades. Eles não conseguiam despertar alguma insinuação, menos ainda um olhar direto com o qual sonhavam os garanhões da rua baldia.
O turco Yussef, que fazia entregas eventualmente, já havia desistido de algo além de um agradecimento discreto, quando a porta se fechava sem outra palavra adicional; nenhuma demonstração de atenção explícita, apenas o trivial, quase uma reiterada melodia:
- Muito obrigada.
Estivera casada três vezes e a cada tentativa de felicidade, tão logo o falecido partia para o cemitério, ela reaparecia bem disposta e rejuvenescida.
Esse era o foco do mistério nas rodas de fofoca da comunidade - aparecer renovada após cada relação, fomentando a determinação do comentário habitual:
- Os maridos morrem e ela fica cada vez melhor!
Parecia mais apetitosa após um relacionamento que durava em média um ano, porém, não amenizava a distância com os moradores locais. Os maridos anteriores vinham de outro estado, eram homens bem postos na vida e nos negócios, donos de alguma fortuna que, obviamente, ganhava destino certo após a morte: a conta bancária da viúva contumaz.
Assim como existem algumas funções que se transformam em profissões, a de síndico, por exemplo, a maioria dos vizinhos acreditava que a viúva era uma profissional com direitos trabalhistas garantidos – férias, décimo terceiro, fundo de garantia.
Porém, apesar do entusiasmo generalizado, ninguém se arriscava a tentar o contato direto ou mesmo um pedido de compromisso. Qualquer atitude pareceria demais para a cabeça de uns suburbanos, no fundo, extremamente bem comportados, vigiados de perto pelos familiares.
Certo mesmo era aquele ritual de passagem, todo santo dia, estimulando o desejo escancarado que acometia os velhos e os moços diante da visão de um espetáculo de mulher. Havia até uma preparação prévia, uma disposição das cadeiras voltadas para o mesmo ângulo da esquina que ela dobraria olhando em frente, balançando o corpo de formas exatas com desenvoltura, despertando a súcia de sonhadores e o comentário de algum observador mais exaltado:
- Eu pagava pra ver!
Assim, os dias se passavam na rua arborizada da pequena comunidade suburbana, diante das mangueiras vigorosas que davam frutos e projetavam sombra nas calçadas mal cuidadas.
Enquanto algum menino estivesse atento à pipa colorida que bailava no fundo azul do céu impecável, outros jogavam bola de borracha no quadrado de terra que ficava diante da casa dos negros, segunda geração de africanos, chegados há muito tempo na comunidade. O sobrado estava em péssimo estado, com as paredes desbotadas, porém, havia um quintal repleto de fantásticas árvores frutíferas que faziam a alegria da criançada: cajás, tamarindos, carambolas e até um raríssimo pé de groselha, uma frutinha muito azeda, capaz de fazer sucos ardidos e um delicioso licor que pontificava nas festas juninas, quando os moradores mais renitentes se reuniam em torno da fogueira e de enormes panelas de milho cosido e quentão.
O único açougue da rua era do Seu Artur, um guapo lusitano de Trás-os-Montes. Ele seria o único desinteressado nas formosuras de Dalva Maria (esse era o nome da viúva). Tudo por conta do olhar vigilante da mulher, uma portuguesa que lhe dera três filhas e, após muitas frustrações, um varão, bendito fruto masculino, herdeiro do clã formado por mulheres.
Mais abaixo, ficava o botequim do Seu Domingos, com cadeiras da Brahma espalhadas na calçada, uma escultura bem feita do Chico - jogador do Vasco, bola na mão, reclamando com o juiz - dominava o ambiente de carteado e muita bebida. A imagem de gesso ficava sobre um oratório de madeira, onde só faltavam o vaso de flores e a vela acesa para festejar o fanatismo explícito ao time do Vasco da Gama, orgulho da colônia portuguesa numerosa e festeira.
Na metade da rua, ficava a badalada “esquina do pecado”, onde se reuniam os malandros e a polícia, nessa ordem. Havia sempre por perto um moleque de plantão, pronto para anunciar o imprevisível carro da polícia, alertando, no grito, os apontadores do jogo do bicho: - Olha o Flamenguinho, gente! - era esse o apelido da viatura em vermelho e preto.
Na esquina oposta, ficava a Padaria Tivoly, onde filas matinais se formavam para pegar o pão quentinho, alegria do café da manhã de todos os dias. Mais a Leda Maria, filha do dono, que tomava conta da caixa, cabelos ruivos e pernas grossas dispostas atrás de um biombo, por onde o olhar excitado de algum menino vigiava, sonhando ultrapassar a madeira divisória. Quem sabe, em busca do detalhe pecaminoso que desencadearia a masturbação coletiva que rolava debaixo da ponte do rio. Ali, nas horas de lazer, um bando de meninos conferia as medidas íntimas. Ocorriam as brincadeiras típicas dos garotos suburbanos daquele tempo de mangas pintadas, balões coloridos e muita bonança.

As meninas, ao contrário, levavam uma vida sem interesse, controladas de perto por parentes determinados que presumiam o pecado, sob disfarces sutis. As gordas senhoras e os sisudos senhores tinham malícia própria aos meninos afoitos, envolvidos com figurinhas eróticas e revistas de baixíssimo nível que propunham posições amorosas e bobagens iguais.
Uma festa para os olhos daqueles que não tinham qualquer experiência amorosa. Os pêlos das pernas invadindo a área sexual, os órgãos se desenvolvendo, os mamilos estufados, velados com curiosidade por todos, como se fossem imagens de santos de barro, preservados no recesso mofado das sacristias...
Daí, estimulados pelo que fosse – uma imagem mais ousada, o texto de uma revista que divulgava a intimidade de artistas que se mostravam do joelho para baixo – a Revista do Rádio e a Fon-Fon eram fontes de prazer e estímulo visual de meninos e meninas. Olhos cerrados caçando o gozo espontâneo que se abrigava nas partes pudendas do corpo que os mais velhos exorcizavam, propondo excomunhão e pecado.
Quanta mentira!
Nada impedia o vulcão que entrava em erupção na intimidade do banheiro, debaixo dos lençóis na hora de dormir, nos travesseiros com cheiro de sabonete Eucalol, na imaginação solta, viajando por caminhos nunca dantes navegados. Um frisson que parecia não ter fim, a sensação de alcançar um orgasmo que ninguém conhecia, porque os jornais da época não publicavam nada sobre o assunto. Nos diários coloridos que circulavam de mão em mão nas escolas, apenas pontificavam perguntas inocentes:
- Quem você levaria para uma ilha deserta?
- O Alain Delon - a jovem desavisada respondia, e era penalizada com novenas intermináveis...

Parece estranho que os fatos ocorressem na mesma época em que uma apetitosa viúva desfilava atributos físicos invejáveis nas calçadas de um bairro da Leopoldina, semeando desejo e excitação entre os homens.
Enquanto isso, umas meninas mais curiosas segredavam:
- Quem é essa cegonha que carrega crianças presas ao bico?
Havia quem guardasse na memória as diferenças e os contornos de órgãos sexuais tão escondidos; os bicos estufados dos seios sensíveis ao toque; o clitóris enrijecido despertando aquele prazer que mantinha o hábito da masturbação entre meninos e meninas.
Neste cenário de proibições ditadas por escolas e igrejas, bem poucos supunham a intimidade da viúva vestida em lingerie cor-de-rosa, imagem refletida no espelho colocado estrategicamente diante da cama, onde a visão privilegiada dos antigos amantes havia se fartado.
Quantos momentos passados ali, com diferentes parceiros ensandecidos diante do corpo da bela mulher, afogados nos seios adocicados, respirando o hálito da boca sensual insaciável. Quiçá, sufocados no emaranhado de pêlos cor-de-ébano, o suor misturando-se à saliva, as mãos deslizando os contornos da pele morna, os dedos tocando na intimidade escondida, invadindo o caminho orvalhado, órgãos intumescidos, inundados com o mel continuado...
Para alguns afortunados, agora em permanente estado de repouso, que tiveram o privilégio de partilhar da alcova ardente, como teria sido?
Que tipo de prazer revelador eles desfrutaram na suavidade dos lençóis macios, onde um corpo mais que perfeito se esparramava, miando feito uma gata, pedindo sempre mais?
A imaginação rolava solta no papo de botequim onde a imagem efervescente da viúva fora eleita rainha – como se não existissem outras mulheres na rua, despeitadas diante da preferência que alcançava nível comunitário desregrado.

No decorrer do poente, quando grossas nuvens desenhavam o céu de vermelhidão intensa, já não pairavam dúvidas. A presença da deusa suburbana não aconteceria mais naquele dia, salvo na janela da casa - braços morenos apoiados no batente da janela, o gato peludo agasalhado no colo exuberante, olhar perdido despedindo-se da rua, no aguardo da noite de segredos e silêncios que qualquer um pagaria para desvendar.
Após fechar a janela cuidadosamente, ela adentrava aquele mundo somente seu. Despindo-se mansamente, ia largando as roupas preservadas em perfume sobre a cômoda do quarto, caminhando nua até o espelho, examinando-se de corpo inteiro, conferindo o formato dos seios, as mãos em concha, acariciando-os. Caminhando dolente até o banheiro cor-de-rosa, os dedos verificando a temperatura da banheira espaçosa onde depositava sais de alfazema e mirra importada, mergulhando até o pescoço, suspirando como se gemesse de prazer.
A bucha cor-de-rosa percorria a textura do corpo farto em movimentos suaves, tocando os mamilos rosados, enquanto os dedos vasculhavam as partes, ensaboando-as com delicadeza e generosidade. O olhar morno acompanhava as mãos deslizando no corpo febril estimulado por caricias exatas. O pensamento ébrio viajava, buscando lembranças de um passado povoado pelos vultos que a desejaram tanto...
- Até quando esta saudade renitente de todos os dias? - ela lamentava.
Dizer que aquela mulher desejada na comunidade de homens ávidos passava as noites em solidão, esparramada no leito espaçoso abraçada aos travesseiros, ouvindo novelas da Rádio Nacional.
Quase em orgasmo, ela se deixava conduzir nos braços do galã de voz macia, imaginando-o travestido de espadachim, levando-a nos braços fortes ao recesso do campo florido onde se deitariam, entregues ao torpor dos amantes, empenhados no prazer, lábios nos lábios, corpos ajustados ao desejo mais que perfeito.Assim, ela adormecia, entregando-se de corpo e alma aos sussurros da noite longa, levada nos braços de Morfeu para um mundo de sonhos até ao despertar e à rotina de um novo dia – o gato sonolento enroscado nos lençóis amarfanhados de cetim, ronronando entre perfumes e carícias.



O Mordomo INGLÊS

O MORDOMO REAL*
CONTO SURREAL ESCRITO POR UM ELEITOR OTÁRIO

INSPIRADO EM QUEM SUBTRAI CONTOS REAIS DO ERÁRIO
* Qualquer semelhança com fatos e pessoas reais não será mera coincidência...

Ele nasceu onde ninguém desejaria nascer – em Karuaru City, zona do agreste, lugar com fama de forjar homens valentes e destemperados. Logo tomaria o rumo da capital industrial do Reino, como faziam seus pares, buscando maiores oportunidades e trabalho.
Desnecessário dizer da penúria em que vivia; porém, havia determinação naquele homem que desejava formar família e quiçá, brilhar de algum modo na multidão de iguais que sonhavam com a profissão de Mordomo Real. Oriundo de um povoado com tantas desigualdades sociais, ele antevia que nada seria fácil...
Após tantas investidas frustradas, onde o fracasso parecia parte do sonho e ninguém acreditava na vitória - nem mesmo os companheiros radicais forjados no trabalho vigiado dos sindicatos, ele conseguiria emprego no castelo feudal. Ali, onde Sir e Lady Birmingham, conselheiros do Castelo de Buckingang, súditos da intimidade da Coroa reinavam sem gostar de reinar. Tanto ele quanto ela, delegariam ao novo mordomo o controle do cotidiano do castelo meio que alvoroçado, por conta da incompetência de serviçais anteriores.
Diante da visão imponente do castelo iluminado e imponente, a cena parecia um sonho. Ele percebia que conviver com algo tão grandioso, no centro de tanto poder, seria tarefa difícil. Porém, logo empossado no cargo, demonstrava jeito e gênio eloqüente, promovendo sabatinas cansativas com a criadagem mais habituada a ficar quietinha no seu canto fazendo tudo que seu mestre mandar.
No púlpito das reuniões maçantes, Louis Ignation descobria capacidade para o discurso, o dom da prosa e da ironia verbal - para desgosto da criadagem que passara a viver em reboliço e apreensão. As crianças seriam as primeiras vitimas, com destaque para os meninos de cabeça ruiva e cara pintada privados, subitamente, do prazer da gula: nada de tortas de chocolate nem hot dogs; nem um copinho do xarope diluído mundo afora, cuja receita contém o sumo daquelas folhas que os famintos da Cordilheira dos Andes mascam para ludibriar a fome crônica que é comum aos oprimidos que vivem na linha que fica abaixo do Equador.
Logo seria a hora e a vez das camareiras e cavalariços menos refinados, muito hábeis no manejo indevido das finanças de quem paga a ração do Reino, comprada, por motivos óbvios, no câmbio negro.
O castelo passou a ser administrado por medidas provisórias e discursos, muitos discursos. Sempre que alguém acenava com um chapéu, o Mordomo Real, incontinenti, testava-o na própria cabeça para ver se lhe caía bem, exibindo aquela simplicidade filha da mãe, típica dos tiranos que conduzem os miseráveis na rédea curta da demagogia. Apesar dos cargos distribuídos ao bel-prazer para companheiros e companheiras, das mordomias denunciadas na imprensa alternativa que não recebia verba da Coroa, de alforrias que estimulavam a impunidade reinante com objetivo claro de esvaziar denúncias de malversação do Erário que começavam a vazar, o Mordomo não alcançava qualquer unanimidade nem mesmo entre os comandados. Os complôs em torno da administração ganhavam força: a passadeira queimava a borda dos lençóis de fino linho egípcio, com brasões reais bordados a ouro. O encanador afrouxava as juntas do bidê da intimidade do casal, criando constrangimento real. As selas, onde se assentavam os traseiros mais requintados do Reino, viviam ensebadas. A própria Lady Birminghan passara pelo desconforto de irritar as partes íntimas no galope. Enquanto outras raparigas virgens temiam por sua rara condição - ainda em uso na época - ameaçada pelo desleixo da criadagem. Um jovem cavalariço foi despedido, flagrado, por assim dizer, deslizando a mão no pudor alheio.
Em suma, todos pareciam sofrer com reuniões e discursos enfadonhos, onde o Mordomo Real tecia comentários jocosos sobre tudo, intrometendo-se em tudo, ditando regras para tudo:
- “Não é bem assim, companheiros vassalos. Nenhuma estatística descreve quem tem fome. Quem tem fome não diz que sente fome, porque tem vergonha de dizer que está com fome”, enfatizava, batendo na barriga protuberante.
Mais além, diante da platéia interiorana das origens modestas, ele enfatizava que a elite não conseguiria apeá-lo do cavalo: “os corruptos do Reino serão punidos, doa a quem doer; vou cortar na própria carne se preciso for”, berrava em ato de pura verborragia, objetivando manter o cargo privilegiado.
O castelo, outrora um paraíso, se transformara num inferno! Os súditos que comungavam com o mordomo – a maioria espertamente, em benefício próprio ou em troca de favores pessoais inconfessáveis – sobreviviam com alguma paz. Alguns, surpreendidos no delito do ofício, iguais ao tesoureiro Dilúvius nos Ares, mais o agente Malérius Maléficus, por exemplo, eram mantidos na impunidade, acobertados pelo longo véu da camaradagem pessoal e partidária.
Assim, o castelo foi ficando mais silencioso. Enquanto o mordomo discursava com maior competência e apurado domínio das palavras, uma oposição radical e raivosa estava se formando. Os donos reais, Sir e Lady Birmingham ausentes como sempre da cena feudal, mantinham a ilusão de que tudo estava como antes no castelo de Abrantes, cultivando vastos campos de chá no sul da Índia colonizada.
A criadagem fingia que se revoltava, enchendo o bolso com a grana verde despachada em malas pretas, recebendo reais de procedência duvidosa, inclusive vistosos dólares foram descobertos na cueca de um simplório vassalo. Enquanto outros, do escalão superior, sacavam na boca do caixa do Banco Feudal para depositar nas contas fantasmas de paraísos fiscais.
Apesar dos índices de aprovação divulgados por estatísticos reais, eles próprios colocavam em xeque os palpites do Mordomo - oh, pecado inominável! – contestando até mesmo os percentuais financeiros ministeriais. Porém, o jocoso Louis Ignation jurava que aqueles índices não revelavam a realidade que ocorria no íntimo mais profundo de quem tinha fome e não declarava: os sem terra, os sem-teto, os sem grana e, mais recentemente, os sem sexo!
Mais uma vez o Mordomo Real se imiscuía na seara do conhecimento alheio, criticando estatísticos a serviço da Coroa, garantindo que ninguém entendia mais de fome que ele próprio. Intempestivamente, tocava a administração sem qualquer currículo, na base do discurso demagógico, da incompreensão dos métodos do Castelo de Buckingang que mais parecia uma construção de periferia, distante daquele charme poliglota deixado pelo antecessor Lord Ferdinand Henriques, o Impávido, embarcado, como os demais (que não constavam nas listas de benesses nem do chamado “Mensalão”) na oposição mais ferrenha, patrulhando as intempéries discursivas do Mordomo Real.
A partir das evidências, alguns sentiam na pele os efeitos dos discursos exaltados, da mudança nas regras por conta de medidas provisórias ditadas ao prazer do Mordomo. Segundo a criadagem mais antiga, por falta de habilidade e pura impertinência, o Castelo de Buckingang entrava em processo de degradação. Rachaduras pipocavam aqui e acolá, produzidas pelas denúncias surpreendentes de Sir Bob Jeff, cavaleiro feudal dos mais antigos, destemperado representante da Câmara dos Lordes, vinte e tantos anos de participação no tilintar mais íntimo da Corte. Enquanto parte da criadagem permanecia fiel ao Mordomo, a vassalagem indignada assaltava os cômodos do castelo, criando problemas ao discurso intermitente que não resolvia as dificuldades essenciais dos servidores reais: baixos salários, falta de assistência médica e moradia, aperto fiscal, aumento de impostos, impunidade generalizada. Em nome da ordem, o discurso demagógico tentava dizer à massa que tudo estava azul, no caminho da redenção e do progresso.
Por outro lado, a maledicência rolava impiedosa nos porões mofados da corrupção que emanava do castelo. Porém, o Mordomo sabia que as festas natalinas chegariam, mais o carnaval, as festas juninas, os feriadões que fazem a alegria da turba e o desespero das finanças reais, combalidas por conta da malversação do Erário e dos homens públicos. O Mordomo não percebia que a impunidade de Sir Wald Niz, especializado em achacar contraventores, colocara a administração em xeque, por conta do alvará de soltura expedido pela Eminência Parda que absolveu os companheiros acusados de incursões aos reais da Coroa. Daí brotou a denúncia do Correio Real e o mundo veio abaixo. Sir Bob Jeff flagrou o agente Mau Marinho com a mão no pacotinho e abriu o bico largo. Enfático e teatral, porém certeiro, ele desferiu socos e pontapés na vassalagem, derrubando mitos, apeando poderosos da montaria. Até que alguém jogou um armário nele, provocando um olho preto daqueles. Justo em cima de quem, igual a tantos cavaleiros do passado, alardeava ter aquilo roxo...
As denúncias lançariam notáveis ao limbo: Joseph Tesseu, Jão Talo Tunha, Joseph Genuinus, Buda Nem Dança e outros. Um time completo com oito reservas!
Neste carrossel de revelações, acabou sobrando para figuras do primeiro escalão que renunciaram espertamente, visando imunidade e direitos políticos. Outros foram forçados a renunciar, enquanto a Corte reunida extraordinariamente pensava em cassações e masmorra, desencadeando um escândalo digno do Reino!
Porém, logo rolariam a bola e os campeonatos de futebol, mais a tradicional queima de fogos na passagem de ano, e tudo voltaria ao marasmo de sempre no castelo do faz de conta. Os súditos continuariam vivendo em paz, graças aos céus, pagando juros antecipados ao FIM, é verdade, porém, salvos do pandemônio das guerras, do terrorismo e da poluição global que rola no restante do Planeta. Todos saboreando uma cerveja estupidamente gelada, às margens do grande lago Pára-noar!
Deus é brasileiro e os súditos já sabiam. Ninguém é de ferro nem honesto o suficiente para se manter acima de qualquer auditoria. Breve, aconteceriam a CPI dos Correios, o “Mensalão”, os dólares na cueca, as malas do Reino de Deus, o “apagão”...
O Castelo dos sonhos ruía diante dos olhos pasmos de quem ainda sonhava com a ordem e a eqüidade nas cavalariças do Reino. Aliás, lotada de vassalos ansiosos - desde o tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça - para botar os beiços na ração privilegiada dos situacionistas da Corte.
Após 25 anos de ostracismo e muito cassetete nas costas, a oposição tomava assento no poder para alegria de uns e desespero de outros que arrumavam malas negras estufadas de grana verde, no rumo do Exterior - ameaçando quebra na Bolsa e naufrágio das finanças reais que, apesar dos pesares, navegavam em mar de almirante, controladas por Lord Pallocius – o incorruptível que terminou cassado!
Daí, não deu outra. Os fiéis depositários da velhíssima democracia, visceralmente atentos ao exercício do novo poder, se empenhavam em subjugar hostes palacianas dominantes, flagrando a equipe do Mordomo Real com a mão no feno transgênico, na massa, propriamente dita, manipulando cargos e finanças, praticando expediente escuso para desfrutar das mordomias da Coroa. Arrancando impostos aos torcedores do esporte bretão criado para deleite da massa oprimida de operários, sem-terra e sem-nada, sempre às turras com algum protesto popular.
A invenção do futebol virou epidemia e solução para amenizar dificuldades com habitação, saúde, transportes, justiça e malversação de fundos oficiais, dilapidados pelos próprios agentes da Coroa, eleitos pelo voto democrático sem vergonha, popular e obrigatório, que reelegeu toda a súcia por mais quatro anos!
Salvo o controle da inflação, mantida com olhar seminarista e mão de ferro por Lord Paloccius, o chefão da “Casa do Lago”, a administração do Castelo de Buckingang ardia em chamas, tão graves as descobertas de malversação e roubo propriamente dito.
As denúncias de Sir Bob Jeff implodiram o Castelo! Mallérius Maléficus, Vernanda Carabina, Semnome Vai Com Celos e Buda Nem Dança, se transformaram em alvo da mídia poderosa, habitualmente controlada por verbas polpudas da Coroa que paga os anúncios de página inteira em jornais e revistas, mais a propaganda televisiva em horário nobre - caríssima!
Evidente que a mídia se revoltava contra os mantenedores oficiais, residentes do suntuoso e iluminado Castelo de Buckingang, contra a própria regência de Sir Louis Ignation – o Destemido, agora chamado de “último a saber”. Segundo a oposição mais encastelada e empedernida, ele seria “um corrupto, quiçá, um idiota”...
Tantas denúncias lançadas ao vento, mais a titica atirada sem dó nem piedade no ventilador real, uns e outros ainda se esforçam para retirar a lama do castelo, visando as eleições que dependeriam do resultado das CPIs em curso. Porém, os súditos que aguardavam justiça desde os tempos do Império e os anos de chumbo grosso, votou desastradamente, pela manutenção do Estado corrupto.
E tudo se transformou numa pizza do tamanho de um bonde, como tantas outras arquivadas no limbo da história nacional por excesso de denúncias, imunidade parlamentar e excesso absoluto de provas...

Toni Marins, jornalista


Tsunami carioca

Vivo com esse pensamento na cabeça, quase um medo crônico.
Abro as janelas e, de repente, estou diante do cataclisma: ondas gigantes vindas da praia do Flamengo, varrem a extensão da rua Almirante Tamandaré, levando de roldão os automóveis estacionados e os flanelinhas do prefeito, as barracas de camelôs e o lixo da civilização que rola agitado num redemoinho imenso – garrafas plásticas e toda sorte de sujeira civilizada que se possa imaginar!
Aconteceu ontem, em plena Quarta-feira de Cinzas, logo após o final das festividades de carnaval (com exceção de Salvador, Recife e Olinda, cidades medievais, onde o período é prolongado, independente dos protestos de uma certa cantora baiana que pede aos berros, em cima do trio elétrico e debaixo de chuva torrencial, “mais uma semana de carnaval – pelo amor de Deus!”
Na praça José de Alencar, ainda se esparramava o lixo resultante da passagem do “cachorro cansado”, um desses blocos de bairro que sobe a rua Marques de Abrantes para descer pela rua Senador Vergueiro, estacionando com a língua de fora na praça, perturbando o sono secular das figuras feudais, exarcebando a ira do marques e a empáfia do senador.
Mais adiante, na confluência com a rua do Catete, o trânsito pesado já empacava e carros trepavam uns sobre os outros, enquanto passageiros desesperados pulavam dos coletivos pela janela, escapando da prisão do ônibus para se debaterem nas águas poluídas, tentando alcançar um porto seguro que não existia.
Alguns já se acomodavam no topo das árvores frondosas, cortadas sistematicamente no verão e com a ajuda epistolar da vereadora local (uma senhora do Rio Grande do Norte que insiste dizer que é do Flamengo), para que os galhos frondosos não atrapalhem a visão dos letreiros comerciais. Uma mulher se agarrava com unhas e dentes num galho, deixando aparecer a calcinha cor-de-rosa que focou a atenção de um bacana, metido num caiaque amarelo, tentando tirar proveito da situação de calamidade pública:
- Vamos lá, gatinha, desce daí! Cabe mais um no caiaque...
Enquanto a jovem mulher com o traseiro de fora esperneava:
- Só saio daqui com ajuda dos Bombeiros!
Em algum lugar do aguaceiro que entupia as ruas abaixo, alguém comentava ter visto um enorme volume se debatendo na fúria de um redemoinho. Segundo garantiam as más linguas de plantão era o síndico do prédio que despertava risos, se não fosse trágico. Persona non grata, por conta das altas taxas do condomínio, acusado de manter na pauta das votações algumas procurações de proprietários falecidos, o pesado cidadão rodopiava na corrente sem que alguém ousasse lhe prestar socorro.
Uma temeridade!
Por mero acaso, retirei o fone do gancho e ouvi o ruído de discar. Estranhamente o aparelho funcionava, apesar das circunstâncias. Decidi ligar para Araruama, onde era o infeliz proprietário de um daqueles imóveis que nos dão duas alegrias na vida: a hora de comprar e o momento de vender. Situado num condomínio “de luxo”, na confluência das praias dos Amores e do Hospício – local onde me sentia inteiramente a vontade por força de meter-me nas encóspias - comprara o imóvel de uma senhora rabugenta que me negava, inclusive, uma procuração com plenos poderes, enquanto não passava o imóvel para o meu nome. Afora tantas irregularidades na documentação que me foi apresentada, pelo advogado dela, somente após a compra.
Disquei para a casa do síndico e me identifiquei, indagando se não estava acontecendo uma tragédia com a lagoa conhecida que se transformara em esgoto a céu aberto. Ele gargalhou, pensando que eu estava gozando a sua ilustre pessoa.
- Tô falando sério, meu! O Rio está debaixo de um tsunami que deve ter vindo de mares vulcânicos do Pacífico. Está tudo alagado, uma tragédia. E aí?

O cara não estava nem aí e não parava de gargalhar. A felicidade devia ocorrer por conta do dízimo elevado do condomínio, cobrado de alguém, como eu, que não abria a porta da casa há mais de um ano!
- Filho da mãe! pensei alto e ele escutou. E eu desliguei.
O tsunami carioca ainda não havia chegado na lagoa poluída que recebe o esgoto de toda a região bacana dos Lagos. Cabo Frio e Búzios, incluídas. Apodrecida em vida, nenhum peixe, nem um pitu para enfeitar a mesa dos pescadores do lugar.
Do nono andar onde desfrutava da visão privilegiada de uma tragédia que, desgraçadamente, acontecia debaixo da minha janela, pensei que não podia fazer nada além de ligar para os Bombeiros e a Polícia, porém, ninguém atendia ao meu chamado. Ademais, tudo deveria estar debaixo da água do mar que já ultrapassava uns três metros de altura, ganhando as marquises das lojas comerciais, as ondas chicoteando de encontro aos muros dos edifícios, invadindo garagens onde carros de luxo boiavam.
No quinto andar, um vizinho mais afoito, visivelmente embriagado e gozador, lançava o anzol dentro das águas, munido de vara de pescar e molinete.
Alguns meninos da rua, infratores incluídos, munidos de coloridas pranchas de surf, faziam algazarra, muito longe da compreensão dos fatos pouco ortodoxos. Uma senhora do terceiro andar, animada com a subida das águas, enchia o parapeito da janela com uma dezena de vasos e plantas. Enquanto um dos mais estranhos moradores da comunidade despejava pães velhos na torrente, quem sabe, para atrair as tainhas que habitualmente circulam na beira da rebentação da praia distante.
No mínimo, poucos se davam conta da tragédia. A diversão prevalecia na cabeça de alguns, animados com o fenômeno fora de hora. Afinal, tomar banho de mar na porta de casa parecia uma grande novidade e merecia alguma comemoração.

Enfim, um bando de loucos estava à solta sem se dar conta da extensão da tragédia de conseqüências imprevisíveis. Nem custava tentar o elementar, ligar a tevê, quem sabe...
Estava no ar!
Em todos os canais se noticiava o óbvio com fotos espetaculares tiradas de helicóptero, inclusive um vídeo amador cheio de detalhes, porque no exato instante da ocorrência algum maluco estava por ali, com o celular maldito dotado de filmadora e o escambau! fotografando o bondinho ou caminhando pelo aterro do Flamengo e, záz!
Filmou tudo ao vivo e a cores...
Mas, que cena chocante, gente fina: o Pão de Açúcar – aquela montanha imensa que de certa forma é um símbolo da cidade dita “maravilhosa”, implodindo e mergulhando nas águas calmas da Baía de Guanabara, provocando um abalo tamanho e ondas gigantes que devem ter gerado o tsunami carioca!
Técnicos, experts e toda sorte de gente que se acredita entendida no assunto, defendia suas teorias cada qual com o palpite inarredável: atentado dos xiítas do Irã, por conta do Brasil ter assinado embaixo na condenação à fabricação de armas nucleares. Vingança da turma do Bin Laden, pra sacanear os judeus que insistem em manter cordialidade e até laços familiares com os árabes da rua da Alfândega – e vice versa. Quem sabe, vibrações descomunais do próprio carnaval, todo aquele baticuntum mais as mulatas e as caçadoras de fama e do BB sacudindo o traseiro freneticamente ao som de baterias enfurecidas – afora os blocos de bairro, trezentos ao todo, segundo as estatísticas. Todo mundo bombando!
O cara que defendia essa teoria em particular era o mais inflamado e garantia por a + b que o presidente Lula deveria baixar medida provisória imediata, para tentar conter a sodomia do evento, promotor de vibrações espetaculares, capazes de fazer desmoronar o belo monumento rochoso.
Nossa, coisa de louco sô!
Quanta perversidade nas afirmações....
Alguns exaltados puristas garantiam que o carnaval não é mais aquele, que precisava existir uma lei específica para controlar aquilo que ele chamava de grande orgia sexual e suruba!
Outros que ficavam de canto nas rodas de entrevista, acusavam o produto que é propagado no programa da Luciana - aquelas barras e sopas que juram emagrecer e estariam anorexando e bulímilando mulheres casadas e caçadoras siliconadas de dotes.
Ao fundo, a turma das religiões, Bíblia apertada nas mãos, propondo o sinal da chegada do segundo dilúvio bíblico, agora representado por tsunamis colossais que afogariam a cidade nas águas do inferno e por culpa do carnaval – ave!
Neste ponto da narrativa, nas páginas subseqüentes e em branco, o leitor está convidado para colocar um epílogo nessa estória difícil de acabar.
Escrevi a metade do conteúdo e deixo a outra metade por conta da imaginação de cada um. Quem sabe, não exista um escritor talentoso guardado no mais íntimo do leitor?
Mãos a obra! Pode ser uma experiência bastante divertida.

 

O autor – Toni Marins



Copyright © 2008
Criação : Artista Plástica Ana Cláudia
Hosted by www.Geocities.ws

1