Pelo tratado de 20/04/1859 a ilha de Timor foi definitivamente dividida entre Portugal e a
Holanda - reservada a Portugal a banda oriental (regi�o dos Belos), com um pequeno
enclave, Ambeno (Ocussi), e a ilha Pulo-Cambing numa �rea total de 16.250 km2., e
reconhecida � Holanda a metade ocidental (regi�o de Servi�o), de �rea um pouco menor,
com 16.100 Km2. Essa partilha foi retificada mais tarde, em 1902, por nova linha de
fronteiras que reconheceu a Portugal 16.384 Km2.
Em 1.585, o vice-rei da �ndia, por ordem de
Lisboa, evoca � sua jurisdi��o a fortaleza da ilha de S�lor, constru�da e guarnecida
apenas pelos frades, meio-religiosos, meio-soldados; e por esse fato a ilha de Timor,
depend�ncia mission�ria dos dominicanos de S�lor, ingressou tamb�m no conjunto dos
dom�nios ultramarinos da coroa de Portugal no Extremo-Oriente. Nessa situa��o mau
definida se conservou a ilha durante todo o dom�nio espanhol em Portugal.
Mas em 1.636 um frota da Companhia Holandesa
das �ndias Orientais, que j� desde 1597 tinha estabelecido em Java (Bat�via),
desembarcara em S�lor cerca de 200 arcabuzeiros que ao cabo de algumas semanas ocupavam o
forte dos dominicanos e expulsaram da ilha os frades portugueses. Os fugitivos
acolheram-se a Timor, mas em 1641 a perda de Malaca, ca�da no m�s de Janeiro em poder
dos holandeses, precipitou os acontecimentos. Um rei de Tol�, tio do soberano de Macassar
(Arquip�lago das Celebes), com uma frota de paraus,ap�s ter atacado Larantuca, na ilha
Flores, foi sobre Timor onde desembarcou a sua gente, invadindo e devastando todo o
litoral, e reembarcando na sua frota, carregado de despojos, ao fim de tr�s meses de
chacinas e devasta��es. Ent�o, por instru��es recebidas de Goa, do vice-rei, o
comiss�rio dominicano Frei A. de S. Jacinto recebeu instru��es para empreender a
constru��o de um forte em Timor, tendo sido escolhida a enseada de Cup�o(Cupang) na
extrema ocidental da ilha, para essa primeira obra de ocupa��o militar.
A partir de 1651 come�a a terceira fase da
hist�ria de Timor. Os holandeses da Companhia das �ndias instalavam-se definitivamente
na parte ocidental da ilha, com a cumplicidade de v�rios r�gulos ind�genas, mormente o
de Amory, acabando em 1653 o forte de Cup�o come�ado a construir pelo frade portugu�s.
Uma guerra de guerrilhas se sucedeu, entre holandeses e portugueses, para a ocupa��o
total da ilha. Protelou-se a luta at� 1660, ora em guerra aberta, ora por capta��o dos
r�gulos ind�genas, at� que em 1661 o governo de Portugal entrou em negocia��es com os
dirigentes da Companhia Holandesa, na Europa, para se estabelecerem em bases s�lidas os
direitos de ocupa��o das tr�s ilhas de Flores, S�lor e Timor.
A coroa de Portugal reconheceu ent�o aos
holandeses a posse de Cup�o e do territ�rio ocidental j� ocupado; e os holandeses
abandonaram a ilha de S�lor, reconhecendo a Portugal o direito �s ilhas de Flores e
S�lor e � banda oriental de Timor.
Desde ent�o (1661) os frades portugueses internaram-se na regi�o dos Belos, missionando
e praticamente governando a parte portuguesa da ilha. E a situa��o prolongou-se at�
1702, apesar da autoridade te�rica de um capit�o-mor, delegado da coroa e instalado na
fortaleza de Lif�o.
S� em 1701 foi criado pela coroa de Portugal o cargo de governador de S�lor e Timor,
tendo nomeado para esse long�nquo governo o general Coelho Guerreiro. Para os seus
sucessores, foi sempre acidentado e prec�rio esse governo de Timor, em Lif�o,
assoberbado por cont�nuas e obscuras revoltas do gentio.
Em 1769 foi resolvido transferir a capital do territ�rio portugu�s, de Lif�o para Dili.
E desde ent�o, com o holandeses em Cup�o, como sede administrativa do seu territ�rio, e
com os portugueses instalados em Dili, capital de sua administra��o, a hist�ria de
Timor resume-se � da dram�tica e lenta ocupa��o militar e administrativa de todo o
territ�rio, tando por parte dos portugueses, como dos holandeses, o que mais propriamente
se trata na resenha hist�rica da Prov�ncia Ultramarina de Timor.
Em meados do s�c. XIX s�rios atritos diplom�ticos entre Portugal e a Holanda, por
quest�es de limites, vieram a ser regulados definitivamente pelo tratado de limites de
20/04/1859, depois de se terem perdido para Portugal as ilhas de S�lor e Flores, pela
desastrada e leviana atua��o de um comiss�rio r�gio, Lopes de Lima, que, por in�pcia,
abusivamente, negociou a sua ced�ncia ao Estado Holand�s a troco de uma irris�ria
indeniza��o em dinheiro para o Estado portugu�s. As vicissitudes e tr�gicos lances que
ilustram a lenta e dif�cil ocupa��o e pacifica��o do territ�rio portugu�s de Timor,
ao longo de todo o final do s�c. XIX at� come�os do atual, � mat�ria que mais
desenvolvidamente pertence � hist�ria da administra��o portuguesa na sua banda
oriental.
Como acontecimentos de maior relevo para a hist�ria contempor�nea da ilha de Timor, h�
apenas a assinalar ainda as conseq��ncias pol�ticas da Segunda Grande Guerra Mundial
que se traduziram na invas�o e ocupa��o militar japonesa, de 1942 a 1945, e, depois da
derrota militar do Jap�o pelas Pot�ncias Aliadas, a recupera��o portuguesa do seu
antigo territ�rio, ao passo que em 1948 cessava o dom�nio colonial na parte ocidental da
ilha, pela proclama��o da Rep�blica da Indon�sia, que libertou todas as antigas
possess�es holandesas no extenso Arquip�lago. 1945 a ilha continuava cindida em duas
administra��es - na antiga banda oriental sujeita � soberania de Portugal, e em todo o
territ�rio anteriormente holand�s anexada � nova rep�blica dos Estados Unidos da
Indon�sia.
TIMOR-HISTORIA
J� em 1505, no longo rol de instru��es r�gias dadas em Lisboa ao primeiro vice-rei da
�ndia, figurava, entre outras de primeira urg�ncia, uma expedi��o de reconhecimento
�s ilhas Malucas ou do Cravo.
Mas s� nos fins de 1511, depois de franqueada � navega��o portuguesa, pela ocupa��o
de Malaca, a livre sa�da para os mares da China e da Mal�sia, p�de Albuquerque, como
governador da �ndia, mandar ao reconhecimento das Malucas, uma pequena frota de tr�s
navios, comandada por Ant�nio de Abreu.
Eram os primeiros europeus que devassavam os mares desses confins do Oriente, n�o podendo
todavia afirmar-se que alguns dos navios de Abreu tivesse ent�o tocado ou avistado a ilha
de Timor, no extremo Oriente do Arquip�lago, apesar de bem conhecida dos nativos de
outras ilhas. Timor figurava j� num mapa portugu�s de 1512.
A Suma Oriental de Tom� Pires refere-se � ida, em 1514, de um junco portugu�s �quela
ilha. Numa carta de Rui de Brito ao rei D. Manuel (Cartas de Afonso de Albuquerque,
t.III.p.133-137) faz-se a seguinte descri��o da ilha: "Timor he huma ylha al�m de
jaos, tem muito sandalo, muito mell, muita cera, por nom haver junco nom foram la".
� interessante a refer�ncia a falta de navega��o ind�gena. Por volta de 1516. Duarte
Barbosa refere-se-lhe nos seguintes termos: "Timor - Tem Rey e lingoa sobre sy; nesta
ilha h� muytos sandalos branquos, que hos Mouros muyto estimaom, na �ndia e Persia,
honde se gasta muyta soma deles e tem grande valia no Malabar, Marsyngua, e Cambaya; has
naos de Malaca e Jaos que aqui uem por ela, Leuaom por machados, machadinhas, cotelos,
espadas, panos de Cambaya, e de Paleacate, porcelanas, continhas de cores, estanho,
azougue, chumbo e outras mercadorias com que caregaom ho dito sandalo, de meel, escravos e
dalg�a pimenta que na tera h�".
Mas mais interessante e ampla � a descri��o, por Pigafetta, da visita a Timor da
expedi��o que Fern�o de Magalh�es organizara e chefiara at� �s Filipinas. Pigafetta
acusa os Portugueses de introdu��o do mal ven�reo n�o s� em Timor como em todas as
ilhas do arquip�lago visitadas pela expedi��o. H� que p�r de remissa esta acusa��o
(Mendes Correia, Timor Portugu�s, Lisboa, 1944,p.12) mas h� informes de grande interesse
na narrativa de Pigafetta do que ocorreu naquela visita, de 1522, a Timor. H� no texto
nomes ind�genas de pessoas e de lugares que se consideram suscept�veis de
identifica��o com designa��es modernas.
Deve ter sido, portanto, entre 1512 e 1522 que a ilha de Timor foi acidentalmente
descoberta, em alguma dessas obscuras viagens dos muitos mercadores e aventureiros
portugueses que por esse tempo j� cruzavam livremente os mares da Mal�sia no tr�fico da
especiaria e outras mercadorias para Malaca e para a �ndia.
Meras viagens de neg�cio, por muito corriqueiras j�, n�o mereciam especial interesse a
cronistas, que por isso deixaram no anonimato o descobridor da ilha.
Negociantes portugueses, desejosos de tirar vantagens do j� lucrativo com�rcio de
s�ndalo da ilha, come�aram a visita-la. Negociavam com os l�deres timorenses da costa,
que trocavam s�ndalo trazido do interior montanhoso por armas portuguesas, tecidos e
instrumentos de ferro.
No come�o, essas visitas de portugueses tiveram poucas consequ�ncias sobre os
timorenses. A maioria dos habitantes da ilha morava em vilarejos pequenos, relativamente
isolados, no interior, onde predominavam a agricultura de subsist�ncia e religi�es
animistas.
Nesse costumeiro tr�fico, rolaram anos, sem mais incidente not�vel quanto a Timor,
porque � de 1561 - mais de quarenta anos passados - a primeira not�cia de chegada dos
frades dominicanos da Miss�o de Malaca �s ilhas Flores, S�lor e Timor, no seu fervor de
catequese e cristianiza��o do b�rbaro e feroz malaio e melan�sio. A ordem de S�o
Domingos, tomara desde os primeiros tempos da Conquista, o encargo de missionar tamb�m
para al�m do Cabo da Boa Esperan�a - na �ndia, desde 1548. Chegados os primeiros
dominicanos a Goa, em 1548, � medida que o dom�nio militar-comercial dos portugueses
alastrava para al�m de Ceil�o, foi para Malaca que se transferiu o Vicariato da Ordem e
nas Flores que se instalou o Vig�rio Superior das Miss�es.
Os frades de S. Domingos, militantes e infatig�veis, n�o se limitavam no Oriente a
catequizar. Al�m de fundarem igrejas, capelas, col�gios, tamb�m erguiam tranqueiras e
constru�am fortalezas, como fizeram em Larantuca, quase sem armamento e sem navios de
guerra. A artilharia era-lhes fornecida, a seu pedido, pela capitania-mor de Malaca.
N�o tardaram S�lor e Timor a entrar no martirol�gico crist�o. Os r�gulos mu�ulmanos
insurgem-se contra os frades. Os navios portugueses passam a ser atacados freq�entemente,
o que todavia n�o afetava o com�rcio. Os Dom�nios de S�lor, amea�ados por tantos
inimigos - malaios, javaneses e massacares - transformam ent�o a sua primitiva tranqueira
em mais s�lida fortaleza de pedra e cal.
De S�lor passam ent�o os dominicanos a Timor, na sua tarefa de evangeliza��o
intensiva. Um Fr. Ant�nio Taveira, ido de Larantuca num parau, abriu caminho a outro mais
famoso pioneiro tonsurado, Fr. Ant�nio da Cruz, que tendo convertido ao cristianismo um
grande chefe gent�lico, se instalou no seu reino e por muitos anos exerceu decisiva
influ�ncia espiritual entre o gentio. Desde Fr. Ant�nio da Cruz, a ilha de Timor
conhecia uma autoridade portuguesa.
Agora por�m a influ�ncia portuguesa iriam se tornar invasiva. N�o se motivos o local
escolhido para estabelecerem sua miss�o foi principal porto para o s�ndalo. Pouco
depois, os Topasses, ou portugueses negros - descendentes de soldados, marinheiros e
negociantes portugueses e mulheres das ilhas vizinhas - come�aram a se estabelecer em
Timor. Eles difundiram a cultura e influ�ncia portuguesa e logo passaram a controlar a
redes locais de com�rcio.
Em 1585, por�m, o vice-rei da �ndia, por ordem de Lisboa, evoca � sua jurisdi��o a
s�lida fortaleza de S�lor, embora continuando habitada pelos frades e com uma guarda de
mosqueteiros e seu capit�o. E n�o se declarou logo o inevit�vel conflito entre as duas
autoridades, porque no final do s�culo o aparecimento dos primeiros holandeses nos mares
das �ndias viria criar problemas bem mais graves aos frades, como ao pr�prio governo da
�ndia e a todo o Ultramar portugu�s.
Em 1597 j� holandeses estabeleciam em Java uma feitoria (Bat�via). As expedi��es,
puramente comerciais, sucediam-se; em 1598, em 1599, e esta �ltima j� �s Malucas, onde
a especiaria era mais barata.
Pouco tempo depois, os holandeses come�aram a visitar Timor, para conseguir s�ndalo e
escravos.
Todos os povos malaios, sobretudo mu�ulmanos, se levantaram logo contra os portugueses; e
no Arquip�lago os holandeses valiam a moiros e renegados contra a imp�vida fortaleza de
Larantuca, na ilha das Flores que, de surpresa, foi cercada por 7 naus holandesas, quando
se achava mal guarnecida por terem ido muitos portugueses a Timor, ao neg�cio do
s�ndalo. A resist�ncia de tr�s meses, foi desesperada. Entretanto (1602), constitu�da
em Amsterd�, para mais seguro neg�cio, a Companhia das �ndias Orientais, com poderes
majest�ticos, o assalto dos holandeses aos estabelecimentos e navios portugueses redobrou
de fria e calculada viol�ncia.
Em 1604 eram expulsos os portugueses de Ternate e Amboino, nas Malucas. Em 1615 os
holandeses apossam-se pela primeira vez da fortaleza dos frades de S�lor, e a puseram o
nome de "Forte Henricus"; e em 1616 expulsavam definitivamente das Malucas, ao
Norte, os �ltimos portugueses, tendo previamente abandonado, por in�til, a ilha de
S�lor, onde apenas deixaram uma fraca guarni��o no Forte Henricus, com um major, Van
Raemburch. De Larantuca, de onde n�o tinham sido expulsos, voltaram os frades a S�lor, a
atacar os holandeses do Forte Henricus, que repelem um vigoroso ataque; e por isso, em
1618, a Companhia faz reocupar a ilha de S�lor, para melhor conservar, como conservou por
mais de 10 anos, esse disputado Forte Henricus.
Em Timor, � margem de todo esse fluxo e refluxo de S�lor, j� Fr. Ant�nio da Cruz devia
ter sido substitu�do, como superior da Miss�o, por outro dos grandes pioneiros da
ocupa��o da ilha - Frei Ant�nio de S. Jacinto. Mas em 1629, a ilha de S�lor, por
in�til ou talvez in�spita, � abandonada segunda vez pelos ocupantes holandeses.
No ano seguinte (Abril de 1630) chega a Larantuca, na ilha das Flores, enviado de Malaca,
onde pouco antes de distinguira pela sua bravura, Fr. Miguel Rangel, que vinha como
comiss�rio-visitador do arquip�lago Flores-S�lor-Timor e trazia de Malaca um refor�o
de homens e material de guerra. Verdadeiro frade-soldado, o novo comiss�rio-visitador,
ordena logo a reocupa��o do abandonado Forte Henricus, de S�lor, e que se levante em
Timor uma boa tranqueira; e como Fr. Ant�nio de S. Jacinto, substitu�do por outro Fr.
Rangel (Crist�v�o Rangel) na chefia da Miss�o, tivesse regressado a Larantuca, o
comiss�rio-visitador manda-o voltar � ilha de Timor, a converter a rainha de Mena, no
litoral, enquanto Fr. Cristov�o Rangel convertia o rei de Silav�o, pouco depois
envenenado pelos malaios.
Em Timor se fixou, portanto, em 1631, Frei Ant�nio de S. Jacinto como comiss�rio da
Ordem; e por alguns anos os holandeses, deixaram em paz as cristandades de Flores, S�lor
e Timor. Em Junho de 1636, uma frota de seis navios holandeses, com 200 homens surge de
novo em S�lor, diante do Forte Henricus, guarnecido desde 1630 por frades e bombardeiros
de Malaca, e a quem o capit�o da frota, Tomberger, intimou a rendi��o. Os frades
recusam e preparam-se para resistir; mas semanas depois, falhos de muni��o e de homens
abandonam o forte e a ilha, recolhendo uns a Larantuca e refugiando-se outros em Timor.
Depois de 1641, pela perda de Malaca, em Janeiro, a situa��o mudou radicalmente,
assumindo para os derradeiros estabelecimentos portugueses no Extremo Oriente aspectos
tr�gicos.
S�lor perdera-se e o seu forte continuava abandonado. Em Timor, pelos incans�veis
esfor�os de Frei Ant�nio de S. Jacinto, que por l� se demorara cerca de 13 anos, havia
j� 22 capelas dispersas por reinos cristianizados - Mena, Amarasse, Sival�o, Lif�o e
outros. E nas Flores, onde Larantuca, se mantinha ainda, o vig�rio superior das Miss�es
de tal modo interferira no governo que, de Goa, o vice-rei Conde de Aveiras vira-se
for�ado em 1640 a nomear um capit�o-geral das ilhas, como autoridade r�gia.
Logo que em toda a Mal�sia se tornou conhecido a queda de Malaca, foi geral o
levantamento das ilhas do Sul contra os portugueses, sobretudo nos Estados mu�ulmanos.
Um rei de Tol�, Caniliquio, com uma frota de 150 paraus e cerca de 7.000 homens d� o
primeiro assalto a Timor. Com a sua frota dividida em duas, uma pelo Norte, e outra pelo
Sul, desembarca a sua gente e � uma devasta��o por todo o litoral, de onde os selvagens
timorenses fogem aterrados para as suas montanhas do interior. O reio de Tol�, ao fim de
3 meses de razia e devasta��es, reembarca na sua frota, carregado dos despojos da f�cil
vit�ria.
De Larantuca (Junho de 1641) � logo mandado outra vez a Timor Fr. Ant�nio de S. Jacinto,
com mais dois frades, o capit�o Francisco Fernandes e 80 mosqueteiros.
Renovam-se as convers�es em massa com o arrependimento da maior parte dos reis que se
haviam submetido ao de Tol�.
De Larantuca mandam-lhe em Agosto uma pequena frota com o capit�o-mor do mar Ambr�sio
Dias e mais 150 mosqueteiros que, refor�ados com o gentio dos reis reconvertidos, fazem
uma batida aos dois �nicos reis - o Vejale e o Servi�o - que se mantinham fi�is ao de
Tol�.
Era a primeira opera��o militar dos portugueses com aliados Timores. Depois vieram de
Larantuca mais 20 frades dominicanos e come�ou a valer a cristianiza��o do gentio. Os
capit�es Francisco Fernandes e Ambr�sio Dias voltam com a sua gente a Larantuca, ficando
na ilha o capit�o Mateus Fernandes com 50 mosqueteiros e Fr. Ant�nio de S. Jacinto,
comiss�rio das cristandades de Timor, como primeira autoridade da ilha que, por
instru��es recebidas de Goa, empreende a constru��o de um primeiro forte na ilha, de
que ele pr�prio era o engenheiro, tendo escolhido a ba�a de Cup�o, no extremo ocidente,
como o local de mais valor estrat�gico.
O fato levanta protestos dos mercadores de Larantuca e essa oposi��o empata a
continua��o das obras. Neste momento, em Fevereiro de 1646, os holandeses voltar a
ocupar pela terceira vez, a ilha de S�lor e a guarnecer o Forte Henricus, abandonado
desde 1636. Um grande Tremor de terra na ilha, em 1648, deixa o forte muito avariado; e o
major Verbeck, comandante da ilha, resolvido a procurar algures melhor estabelecimento,
visita em Timor, a pretexto das tr�guas, o forte de Cup�o em constru��o.
Pouco depois, em 1649, � chamado a Goa o comiss�rio Fr. Ant�nio de S. Jacinto. A
continua��o das obras do forte de Cup�o em Timor, fica a cargo do capit�o-mor Siqueira
que, por desaven�as com os frades em Larantuca, volta a Timor. As obras continuam por�m
empatadas. No ano seguinte (1651) os holandeses de S�lor � falsa f�, tendo peitado o
rei de Amory e aproveitando-se dos desleixos do capit�o-mor Siqueira, assaltam e tomam
sem um tiro o forte de Cup�o.
Assim os holandeses se instalavam para sempre em Timor, na ponta ocidental da ilha, pelo
desleixo de um capit�o-mor portugu�s e com a cumplicidade de um rei ind�gena de Amory,
que prometera trazer aos holandeses a cabe�a do capit�o Mateus Fernandes, comandante da
pequena for�a de mosqueteiros larantuquenses que tinham ficado na pra�a.
Uma pequena guerra de guerrilha se acendeu logo na ilha, entre holandeses e portugueses. O
novo forte, cuja constru��o os holandeses acabaram em 1653, foi ent�o por eles
devidamente artilhado e guarnecido, com novos refor�os enviados de Bat�via. E desde
ent�o, entre os holandeses em Cup�o, com os reis seus aliados e os portugueses a monte,
com alguns reis fi�is, n�o houve mais ataques de parte a parte, por nenhum dos
advers�rios se considerar com for�a bastante para expulsar ou aniquilar o outro.
Mutuamente se respeitavam. Cada qual ia captando o mais que podia dos reis ind�genas - os
frades e os capit�es portugueses, na parte oriental da ilha, na regi�o dos Belos e da
rainha Mena, sem que tivessem ainda um fortaleza sua, como os holandeses tinha j� a de
Cup�o, base de a��o militar e pol�tica. Estava tra�ado o futuro da ilha.
De 1653 a 1660 continuou entre portugueses e holandeses essa guerra fria, de ast�cias,
para captar, chamar � sua bandeira, o mais poss�vel de r�gulos timorenses.
Em 1660 um armada de 26 velas surge em Timor, onde havia entendimentos dos holandeses com
r�gulos suspeitos. Descoberta por�m a tempo a trai��o, os holandeses n�o puderam
por�m operar o desembarque e a frota afastou.
No ano seguinte, 1661, o Governo de Reg�ncia em Portugal entra em ajuste com a pr�pria
Companhia das �ndias, fixando mais seguras bases da ocupa��o das tr�s ilhas.
A Companhia, por esse acordo europeu, reconhece
� Coroa portuguesa o direito a S�lor e a Timor, reservando-se a posse de Cup�o e de
Laboiana. Os holandeses abandonam S�lor e toda a parte oriental de Timor. A ilha de
Flores continuava na posse de Portugal.
Em 1662 resolvem ent�o os frades e o capit�o-mor escolher um reino aliado,
cristianizado, sobre o mar, para sede da soberania portuguesa. Fixado o local - Lif�o -
de clima salubre e excelente posi��o facilmente defens�vel, para l� se deslocam os
raros portugueses que habitavam Timor e alguns de Larantuca. Levantou-se uma fortaleza,
que se artilhou com material vindo de Larantuca. E pela sua import�ncia militar assim se
fundava a primeira capital da parte portuguesa da ilha.
Desde ent�o, pacientemente, os frades
dominicanos internaram-se pela regi�o dos Belos, na zona oriental da ilha, evangelizando,
chamando o gentio, pelo palavra e pelo exemplo, � sujei��o portuguesa, representada na
fortaleza pelo capit�o-mor da ilha.
No fundo, por�m, eram os frades, mais que o
capit�o-mor institu�do em 1585, que exerciam verdadeira autoridade. Assim se foi vivendo
at� fins do s�c. XVII, num partilha de autoridade e governa��o que se tornava por
vezes, muito critica. Finalmente, em 1701,
pela soma de conflitos acumulados nesse regime de confus�o jurisdicional, resolveu-se D.
Jo�o V a separar inteiramente os dois poderes, civil e eclesi�stico, criando o cargo de
Governador de Timor e S�lor, com atribui��es expressas de autoridade suprema, delegada
da Coroa. E para seu primeiro governador nomeou por carta-patente o general A, Coelho
Guerreiro.
Em Janeiro de 1702 partia de Macau para
Larantuca, a assumir o novo governo da Prov�ncia, dependente de Goa, o general A, Coelho
Guerreiro. A tal grau de relaxamento e anarquia haviam ent�o chegado aqueles remotos
dom�nios da Cora que o desembarque desse primeiro governador teve de ser for�ada a tiros
de canh�o. Esperava-o em Timor declarada rebeldia, com milhares de nativos armados, na
praia, por conta do Topasi D. Domingos, que mandara entretanto amea�as terr�veis aos
reis ind�genas, aos oficiais militares, aos pr�prios frades, se pactuassem com o
governador. De nada valeram a media��o conciliat�ria de um dos dominicanos mais
respeitados da ilha e as promessas de clem�ncia do governador, a bordo, para que lhe
fosse consentido o desembarque. Foi debaixo de fogo que o governador por fim desembarcou
numa praia afastada de Lif�o, onde teve de se fortificar, para conquistar depois, palmo a
palmo o seu governo.
O governo de Coelho Guerreiro estava condenado
a ser, como foi, de curta dura��o. Mas no seu governo se radicou na ilha a autoridade da
Coroa, se iniciou a norma de se aliarem os r�gulos a essa autoridade r�gia, em p� de
igualdade, sem supremacia de uns sobre outros, como anteriormente no regime dos frades
acontecia; e ent�o se conferiu a primeira patente militar a um r�gulo - o rei de Ocussi,
feito tenente-general - o que era o melhor m�todo de o prender aos interesses da
soberania.
Nessa ordem de id�ias procederam depois, com
�xito, os seus sucessores Mesquita Pimentel, D. Manuel Soto Maior, Faria de Almeida, J.
de Morais Sarmento.
N�o cessavam, por�m, os embara�os de
governo, at� pela permanente amea�a de uma pot�ncia rival a flanco, na inconceb�vel
partilha de territ�rio a que o governo da Metr�pole anu�ra, pelo acordo de 1661.
A Companhia holandesa que em Cup�o se fixara
no �nico prop�sito de, mais tarde ou mais cedo, expulsar os portugueses de Timor, n�o
respeitava a f� dos tratados, fomentando rebeli�es em territ�rio portugu�s. Foi o que
sucedeu com o levantamento de Camenasse, adiado em 1719, mas que em 1722 eclodiu, com o
assalto � trai��o a um arraial portugu�s, logo seguido da chacina de dois pac�ficos
padres e da rebeli�o aberta de mais de 12 r�gulos, que muito custaram a dominar em
Colaico, s� em 1726. O castigo n�o apaziguava os timores, a�ulados por agentes
holandeses. Era permanente nos matos a inquieta��o, agravada pela fome que, por vezes em
virtude das secas, flagelavam as popula��es. E os governantes sucediam-se sem
conseguirem estabelecer um simulacro sequer de normalidade administrativa.
Assim se ia passando o tempo a sufocar
cont�nuas e obscuras subleva��es, at� que em 1751 novas amea�as sobrevieram do
exterior. Pouco depois do desembarque de um novo governador, Figueiredo Sarmento, os
holandeses de Cup�o fizeram vir das ilhas pr�ximas cerca de 4.000 soldados para
assaltarem Lif�o, a pretexto de serem os portugueses que fomentavam guerras nos reinos de
territ�rio holand�s. A amea�a desvaneceu-se pela atitude firme de alguns reis fi�is
aos portugueses, mas atitude dos holandeses continuava provocante e embusteira.
Em 1765 nova amea�a, mais s�ria, se ergueu
contra a soberania portuguesa, por uma conjura interna de elementos mesti�os,
considerados leais. A conjura e o ataque � pra�a abortaram, pela prematura morte do
governador Dion�sio Rebelo, (que entrava no programa) dias antes do fixado para a
eclos�o do movimento. Dois dos traidores foram executados. Mas por falta de socorros
militares de Goa ou de Macau, a agita��o e a amea�a persistiram e a situa��o na
pra�a tornara-se t�o desesperada que alguns dos membros do governo interino, sucessor do
assassinado, pensaram em abandonar a pra�a e tomar o primeiro navio que passasse. Os
cabecilhas Hornay e Costa continuavam rebelados, cometendo toda a sorte de atentados e
cortando as comunica��es de Lif�o com o exterior.
O novo governador Teles de Menezes viu apenas
como rem�dio, para salvar o prest�gio da soberania, transferir a capital e o governo da
col�nia para outro local, a enseada de Dili.
Num navio mercante que providencialmente ali arribara, meteu a bordo toda a artilharia dos
baluartes, muni��es, armas, e embarcou com a sua gente leal, indo aportar a Dili, para
onde transferiu ent�o a capital (Outubro de 1769).
As receitas p�blicas da incipiente e
intranq�ila Prov�ncia eram irris�rias. Pouco ou nada podiam os governadores empreender,
a tal dist�ncia de Goa e da Metr�pole, e sem recursos que de nenhum governo lhes
mandavam, nem da alf�ndega local podiam levantar. Eram, sobretudo, esta car�ncia de
recursos e os expedientes a que tinham de recorrer os governadores, para acudirem aos
encargos do Estado, o que ia desacreditando, desprestigiando e sucessivamente inutilizando
os melhores que a Coroa podia nomear para Timor - Nogueira Lisboa, em 1787. Morais
Sarmento, em 1790.
Desde os governos de Cunha Gusm�o (1812) e do
coronel Alcoforado e Sousa (1814-1819) o poder temporal das Miss�es em Timor come�ou a
decair e a ser coarctado pela fei��o militar que vinha assumindo a a��o dos
governadores, com a categoria de capit�es-generais. Foi tamb�m por esse tempo que a ilha
de S�lor, por muito tempo praticamente abandonada, voltou a ocupa��o efetiva, pelo
expresso desejo da sua rainha ind�gena que confessava considerar-se desde sempre vassala
dos Reis de Portugal. As agita��es ind�genas no entanto n�o cessavam em Timor.
N�o tardaram a surgir novos conflitos
com os holandeses que usurparam Atapupo, na costa, j� zona portuguesa. O governador
apelou em v�o para o Governo-Geral das �ndias Holandesas, e por fim para o Vice-rei de
Goa, que logo organizou um destacamento de refor�o. Mas do Rio de Janeiro, o monarca, j�
D. Jo�o VI, mandava cancelar o assunto e o ultraje � soberania ficou por vingar.
Em Timor, com tal insufici�ncia de meios
militares e financeiros, o segredo da ocupa��o e manuten��o da paz interna estava na
pol�tica adotada de se atra�rem os chefes gent�licos aos interesses da soberania e
administra��o da Col�nia, conferindo-lhes honras e patentes militares, dignificando-os,
integrando-os na unidade nacional. Mas perante os atentados de pot�ncias estrangeiras,
sentiam-se os governadores impotentes, pela impossibilidade de de responderem pelos mesmo
meios. Por manifesta incapacidade do decadente Estado da �ndia para continuar a manter a
velha pros�pia de gerir, por delega��o da Metr�pole, os neg�cios das possess�es
menores do Oriente.
Em 1844, no interesse de Macau, destacadas
Macau e Timor do Governo da �ndia, constituindo uma nova Prov�ncia Ultramarina, com a
capital em Macau e o distrito de Timor - arquip�lago de Timor, S�lor e Flores,
dependente do governo dessa Col�nia da China. Restava pois a via diplom�tica para
resolver esses repetidos e irritantes incidentes com a Holanda, todos resultantes de um
v�cio de origem - a falta nos arquivos nacionais de documento escrito do Acordo de 1661
com a Companhia das �ndias Orientais, sobre o reconhecimento da soberania portuguesa e
dos respectivos limites territoriais nos estabelecimentos desde sempre ocupados pela
Coroa. Em 1844 abriram-se negocia��es nesse sentido com agentes holandeses, em Timor.
Governava a Prov�ncia o coronel Juli�oVieira que in loco, resolveu satisfatoriamente a
quest�o da linha separat�ria. Terminou por um acordo de status quo, aprovado pelo
governo da Metr�pole, que considerava "portugueses todos os territ�rios que � data
tivessem arvorada a bandeira portuguesa e holandeses os que arvorassem a holandesa".
O Problema n�o ficava por�m sanado, dadas as
inten��es reservadas da Holanda sobre outros mais vastos territ�rios. Do conflito
geravam-se novas negocia��es. Um enviado do Governador das �ndias Neerlandesas
apresentou-se em Mar�o de 1848 ao governador Vieira, que n�o estava autorizado a
discutir o assunto. E o governador de Timor nomeou arbitrariamente um comiss�o de estudo,
para sobre as suas conclus�es se pronunciar. A Holanda aceitava os fatos consumados, n�o
disputando a Portugal os reis da ilha de Timor que � data ocupava, e sobre essa base se
abririam negocia��es, dando por assente que a Holanda era soberana de direito em toda a
ilha de Timor e arquip�lago de S�lor.
N�o fechou o governador Vieira in continenti toda e qualquer conversa mais nessa
equ�voca base. Lavrou um en�rgico protesto, apenso �s atas, mas deixou aberta a porta a
novas discuss�es na inaceit�vel base da vers�o holandesa. E n�o tardou, com efeito, a
Holanda (1850) em insistir por novas negocia��es, n�o j� s� apenas sobre os limites
de Timor, mas tamb�m - o que era mat�ria nova e mais grave - sobre os direitos de
soberania holandesa ao arquip�lago de S�lor e Flores.
O governo de ent�o, com S� de Bandeira,
intemerato defensor do Ultramar, tomou a peito o assunto, come�ando por fazer das
possess�es na Oceania (Timor, S�lor e Flores) destacadas de Macau, uma nova Prov�ncia
Ultramarina, e nomeando um comiss�rio r�gio com latos poderes para negociar com os
holandeses em Bat�via(Java) a melindrosa quest�o, ad referendum do governo de Lisboa. O
comiss�rio r�gio Lopes de Lima, chegou a Dili em Junho de 1851 sob o pesadelo de acudir
� Fazenda da Prov�ncia, com dinheiro urgente que sabia n�o poder vir-lhe da Metr�pole.
Nesse estado de esp�rito entrou em negocia��es; e os holandeses n�o deixaram de tirar
do fato o melhor partido. Ao cabo de laboriosas sess�es, de que o negociador sa�a sempre
vencido, acordou-se num projeto do Tratado, em que se fixavam os limites das duas
possess�es em Timor, com os enclaves mais tarde remodelados, e pelo qual Portugal cedia
� Holanda a ilha das Flores e desistia das pretens�es sobre S�lor por 200.000 florins,
pag�veis de 3 presta��es. Arrancadas assim, de fato, S�lor e Flores � Prov�ncia
Ultramarina de Timor, o governo da Col�nia volta a ser anexado, como distrito destacado,
� Prov�ncia de Macau.
Mas em 1856, por insufici�ncia financeira, o
Distrito de Timor volta ainda a ficar na depend�ncia do governo do Estado da �ndia, para
voltar mais uma vez, em 1857, a ser anexado como distrito � Prov�ncia de Macau. A
20/04/1860 assinava-se o infeliz Tratado de 1851, com ligeiras modifica��es, ratificado
em 18/08/1860, do mesmo ano. � data da assinatura do Tratado de 1860, Timor era de fato,
uma ru�na. No territ�rio mandavam os reis (dat�s) que n�o reconheciam as vantagens da
administra��o portuguesa.
A falta de guarni��o militar e de meios
financeiros atavam as m�os aos governadores. Os r�gulos. Praticamente independentes em
seu sucos, era falsos agentes da administra��o, por cobrarem os impostos em seu proveito
e exercerem por sua conta a sua b�rbara justi�a. Rebelavam-se contra o Governo, logo que
lhes era pedida gente para trabalhar; faziam incessantemente guerra uns aos outros; eram
afinal os verdadeiros soberanos.
O novo governador, Afonso de Castro, foi quem
intentou trabalhos de H�rcules e alguma coisa de �til, com certo apoio financeiro da
Metr�pole. Come�ou por uma expedi��o punitiva ao reino da Hera. Depois, com o aux�lio
de alguns reinos submissos e aliados, empreendeu opera��es de maior vulto. Esses �xitos
determinaram a submiss�o espont�nea de outros reinos e um come�o de administra��o
mais regular. O d�ficit diminu�a, sem que a situa��o pudesse considerar-se boa. O seu
sucessor, Pereira de Almeida, viu-se tamb�m for�ado a novas opera��es contra Dabolo e
contra Fotumasse. As receitas iam aumentando. Come�a a desanuviar-se o horizonte.
Por decreto de Setembro de 1865, a pra�a de
Dili era elevada � categoria de cidade e punha-se em execu��o o de 07/11/1863 que
constitu�a a possess�o de Timor e Prov�ncia Ultramarina, como governo aut�nomo.
No ano seguinte (1866), por car�ncia financeira, Timor regressava � condi��o de
Distrito dependente do Governo da Prov�ncia de Macau. Tratou-se ent�o a s�rio do
rearmamento de Timor, recorrendo-se a auxilio substancial de Macau, que enviou dois
destacamentos; e recome�aram as campanhas - a de Maubara em 1878 e a de Laleia em 1879.
Mas era dif�cil de Macau governar Timor. A governa��o de Timor continuava assim
claudicante e cortada de incidentes tr�gicos, como foi o assassinato do governador
Lacerda e Maia (1886) por um conluio de moradores de Dili, que se revoltara contra a
en�rgica a��o disciplinadora do governador. A anarquia tornara-se end�mica na pr�pria
capital - Dili. A insurrei��o dos povos ind�genas n�o cessava. Por toda a parte
rebentavam rebeli�es. De Macau, apesar das boas disposi��es do governo da Prov�ncia,
pouco se podia esperar como aux�lio. Em tal clima n�o era poss�vel prosseguir no
vigoroso impulso que � administra��o e ao fomento econ�mico (cultura do caf�,
prospecc�es mineiras de petr�leo, etc.) viera dar a en�rgica e inteligente governa��o
do governador assassinado. O problema cruciante continuava a ser a constante insurrei��o
ind�gena, em entendimentos poss�veis com agentes holandeses de Cup�o. � sua repress�o
imprimiu ent�o maior energia o novo governador, Ant�nio da Costa. As opera��es, logo
iniciadas, assinalaram-se por v�rios desastres, chacinas de europeus, de timores amigos,
destacamentos perdidos. Apesar dos castigos infligidos n�o se chegava a resultados
positivos. Eram opera��es dispersivas, descoordenadas, sempre muito caras em vidas e
dinheiro. Impunha-se uma a��o militar de maior envergadura. Estava essa miss�o
reservada ao novo governador, tenente-coronel Celestino da Silva, que em 1894 desembarcara
em Dili .
A primeira a��o de Celestino foi contra o
comerciantes chinas, evitando que se internassem pelos matos. As campanhas sucederam-se,
desenvolvidas umas das outras - em Agosto, a do Manufai, a seguinte, em Mar�o, a
feroc�ssima campanha contra os povos do Leste que terminou por uma decisiva vit�ria; a
seguir foi a guerra do Deribate, com que se terminava a campanha de 1896 e toda essa
cruenta guerra de dois anos. Como conseq��ncia imediata, em pr�mio, a possess�o era
definitivamente separada de Macau e constitu�da em Distrito aut�nomo (1897).
S� ent�o o prestigioso governador (1894-1908) p�de votar-se �s tarefas pac�ficas e
fecundas da administra��o, reorganizando administrativamente o distrito, fomentando a
coloniza��o agr�cola, chamando o ind�gena, pelo ensino e pela influ�ncia
mission�ria, � civiliza��o, elevando, em suma por todos os meios, a insubmissa Timor,
de t�o sombrias tradi��es, ao n�vel de col�nia moderna. O novo governador Eduardo
Marques vinha encontrar pol�tica de economia e de obras p�blicas.
Em 1910, j� sob o governo de Soveral Martins,
renascem inquietantes sintomas em certos povos a Oeste. O vizinho holand�s aproveitava-se
do abalo produzido na Prov�ncia pela mudan�a de regime e de bandeira, para promover
novas agita��es ind�genas. E de fato, foi j� no governo de Filomeno da C�mara
(Dezembro de 1911) que se declarou a rebeli�o armada, forcando a novas campanhas, e ao
inevit�vel adiamento do programa de fomento. A campanha, demorada e dura (1912-1913),
rematou brilhantemente com a submiss�o dos povos levantados. O governador podia j�
continuar a obra de Celestino da Silva, com uma administra��o sensata e fecunda, por ter
preparado a long�nqua possess�o para todos os sobressaltos e conting�ncias da Grande
Guerra de 1914.
De 1914 a 1918 viveu a Prov�ncia em constante
sobressalto, pela manifesta simpatia da Holanda pelos Imp�rios Centrais e pela tens�o de
rela��es entre a Holanda e a Inglaterra que em 1917 chegou quase ao casus belli no
Oriente.
A posi��o pol�tica de Timor n�o podia ser mais delicada, dada a participa��o que a
Metr�pole tomara no conflito mundial. E n�o se pode prever que conseq��ncias adviriam
do fato de a Primeira Grande Guerra Mundial ter vindo encontrar Timor ainda em plena
insurrei��o.
Mas a paz chegou em 1918, sem que a Prov�ncia
tivesse sofrido mais que a permanente inquieta��o. Desde ent�o n�o deu mais cuidados
de maior � Metr�pole, em mat�ria de pacifica��o e administra��o.
As reformas de 1933 em nada lhe alteraram a
estrutura administrativa e a rotina dos servi�os. E foi necess�rio que uma Segunda
Grande Guerra Mundial, mais brutal e devastadora, viesse fazer tamb�m do Pac�fico e do
Extremo Oriente um tremendo e feroz campo de batalha, para que a fat�dica terra de Timor
se tornasse novamente um pesadelo para a Metr�pole.
Declarada oficialmente, logo no come�o do
conflito, em Setembro de 1939, a neutralidade de Portugal, a sua long�nqua possess�o de
Timor viveu relativamente em paz os dois anos que se seguiram, mas uma paz j�
sobressaltada pela p�rfida pol�tica externa do Jap�o que n�o ocultava ali�s, as suas
ambi��es e afinidades com as Pot�ncias do Eixo. Mais fazia avolumar suspeitas e receios
ao governo local a capciosa infiltra��o de pretensos comerciantes, industriais e
t�cnicos japoneses que, desde 1936, a pretexto de neg�cios e coloca��o de capitais
aportavam continuamente a Dili, percorriam a ilha e, por fim conseguiram que o governo de
T�quio requeresse a instala��o de uma carreira a�rea que ligasse diretamente Dili com
a capital nip�nica.
Sem fundamentos s�rios para recusar, o governo
portugu�s ao mesmo tempo que autorizava aos japoneses alguns v�os de ensaio e
reconhecimento, consentia tamb�m, para contrabalan�ar a exig�ncia, que os avi�es de
uma companhia australiana fizessem escala por Dili, numa carreira Austr�lia-Singapura, e
que um avi�o fretado, com as cores portuguesas, estabelecesse liga��o de Dili com os
avi�es holandeses da carreira Austr�lia-Jap�o que tocavam em Cup�o.
Muitos foram os irritantes incidentes
suscitados por esta surda competi��o das avia��es comerciais da Austr�lia e do Jap�o
e pelas atividades e pretens�es cada vez mais suspeitas de agentes comerciais japoneses
que � boca pequena se dizia serem oficiais do ex�rcito. A situa��o por�m, agravou-se
subitamente com o inesperado ataque de surpresa e � falsa f� da avia��o japonesa �
base naval americana do Porto das P�rolas (Peor Harbor), a 7/12/1941. A partir de ent�o
n�o mais houve sossego no Timor portugu�s. Dois barcos japoneses que deviam chegar a
Dili com aparelhagem v�rias foram logo afundados, dias depois, por avi�es militares
australianos.
A guerra que ardia j� por todo o Pac�fico,
at� Singapura, come�ava a rondar Timor. Dez dias depois do rompimento de hostilidades do
Jap�o com a Am�rica, Austr�lia, Holanda, China e Filipinas, o Comando Aliado, por uma
s�rie de equ�vocos ainda mal averiguados, enviava de Cup�o, sede do Timor holand�s, �
ba�a de Dili um cruzador, tr�s avi�es e um transporte de tropas holandesas e
australianas, sob o comando de um tenente-coronel holand�s que, de acordo com pr�vias
negocia��es entre os respectivos governos, dizia trazer ordem para efetuar o desembarque
das suas tropas e tomar posi��es em Dili e no seu campo de avia��o.
O governador, sem instru��es de Lisboa nem
for�a bastante para resistir, mesmo simbolicamente convocou um conselho de oficiais que,
perante a critica situa��o criada, foi de parecer un�nime que se consentisse o
desembarque. O corpo expedicion�rio aliado, de cerca de 1.600 homens - 1.280 holandeses e
indon�sios e 380 australianos - desembarcou, aquartelou-se e tomou as suas posi��es no
aer�dromo e nas montanhas vizinhas de Dili.
O c�nsul e os outros japoneses foram logo
reduzidos � situa��o de prisioneiros; o governador portugu�s constituiu-se tamb�m,
por si pr�prio, prisioneiro na sua resid�ncia, ordenando a todas as autoridades e
reparti��es a mais estrita neutralidade e absten��o de qualquer ato de hostilidade ou
colabora��o.
Come�ava praticamente o longo calv�rio de
tr�s anos e meio. A ex�gua guarni��o militar portuguesa - uma companhia ind�gena -
foi destacada para Aileu; as fam�lias dos militares e funcion�rios dispersaram-se pelo
interior; e uma relativa calma, sem incidentes de maior com essas cordatas e corretas
tropas de ocupa��o, se seguiu durante cerca de sete semanas. Pouco durou essa inquieta
situa��o de expectativa.
A 08/11/1942 dava-se o primeiro ataque da
avia��o japonesa �s posi��es holandesas em Dili. Mas como a todo o momento eram
esperadas de Mo�ambique tropas portuguesas, num total de 600 homens, para renderem as
tropas estrangeiras, confiava-se em que a situa��o se esclarecesse muito em breve.
A 19 de Fevereiro, por�m, precedido de um furioso bombardeamento da sua avia��o, os
japoneses operavam por seu turno um desembarque em for�a a 7 km. de Dili. Os breves
assaltos que se lhes seguiram �s fr�geis posi��es aliadas, em poucas horas, em
coroados de �xito e ao fim do dia a ocupa��o militar japonesa era um fato
irremedi�vel.
A partir dessa data e at� Agosto de 1945, toda
a ilha de Timor, sob a brutal ocupa��o nip�nica , era teatro das consabidas atrocidades
da soldadesca japonesa que, ao que parece, chegou a atingir cerca de 40.000 homens.
Os sobreviventes australianos e holandeses,
internando-se nas montanhas que constituem a espinha dorsal da ilha, passaram ent�o a uma
encarni�ada e intr�pida luta de guerrilhas, auxiliados pelas popula��es gent�licas,
que se mantiveram fi�is a Portugal e a que se juntaram muitos civis portugueses.
N�o foi, infelizmente, geral essa atitude da
popula��o nativa, mormente a da fronteira e da Maubisse. V�rios r�gulos, aliciados
pela intensa propaganda nip�nica, rebelaram-se logo contra o dom�nio portugu�s, fato de
que o comando japon�s tirou todo o partido, incitando e armando a organiza��o de
colunas negras que preparavam os assaltos �s povoa��es fi�is ou onde quer que se
suspeitasse de n�cleos de resist�ncias anti - nip�nica.
Em Dili, onde o governador procurava manter um
simulacro de funcionamento de servi�os administrativos, a coberto da declarada
neutralidade, come�aram em meados do ano os raids da avia��o australiana, j�
bombardeando a cidade, j� reabastecendo por p�ra-quedas as guerrilhas nas montanhas.
Resolveu ent�o o governador transferir-se, com
todos os servi�os e funcionalismo para o interior (S. Domingos) ainda ent�o afastado do
teatro da guerra. O comando japon�s, por�m, op�s-se brutalmente, reduzindo-o
praticamente � condi��o de prisioneiro na sua resid�ncia. Perante a funda turba��o
causada pelas popula��es rebeladas, as autoridades portuguesas, invocando a atitude de
neutralidade de Portugal, conseguiram do comando japon�s autoriza��o para que tr�s
colunas portuguesas fossem sufocar essas rebeli�es, mas cedo se desmascarava a hipocrisia
japonesa, pelo ataque noturno de um coluna negra, em fins de setembro, ao aquartelamento
da Companhia ind�gena em Aileu, onde perderam a vida onze oficiais e funcion�rios
portugueses.
Como os australianos n�o afrouxassem na sua
luta de guerrilhas, causando graves danos aos japoneses, em Outubro foi proposto ao
governador pelo comando japon�s a cria��o de uma zona neutral em Liqui�a, onde n�o se
realizariam opera��es militares, a fim de que todos os portugueses neutrais se pudessem
ali refugiar com suas fam�lias, ao abrigo dos ind�genas rebeldes e das conting�ncias da
luta dos japoneses contra os australianos.
As guerrilhas australianas, por�m, � que n�o
se consideraram obrigadas a respeitar essa zona neutral, e, por seu turno, ofereceram
prote��o e aux�lio aos portugueses que quisessem refugiar-se na Austr�lia, embarcando
em praias da costa Sul, onde iriam busc�-los navios australianos ou aliados.
De fato, desde fins de Novembro at�
princ�pios de Fevereiro de 1943, navios de guerra australianos vieram ao porto de Alas
buscar os portugueses e suas fam�lias que preferiram o ref�gio da Austr�lia ao campo de
concentra��o de Liqui�a.
Pouco depois, chegava aos resistentes portugueses a not�cia de que o comando Aliado na
Austr�lia desistira de um projetado desembarque em for�a, por tropas aliadas, para a
liberta��o de Timor.
Uma poderosa ofensiva nip�nica na Nova Guin�
impunha o emprego de todas as for�as dispon�veis do Norte da Austr�lia. A miss�o
militar e as guerrilhas australianas em Timor deviam tamb�m retirar. E assim aconteceu.
Os �ltimos australianos e holandeses
abandonaram a possess�o portuguesa. A essa data (princ�pios de 1943) j� as for�as
japonesas tinham ocupado toda a ilha, e � ent�o que se registra o admir�vel ato de
lealismo do chefe ind�gena D. Aleixo, Nai-Sesso, r�gulo de Suro, que nas montanhas de
Suro-Lau, cercado com o seus s�ditos, por mais de 15.000 homens, de tropas japonesas e
nativos das colunas negras, resistiu durante semanas a todas as intima��es, at� que a
resist�ncia foi esmagada e, aprisionado, o velho r�gulo reuniu os filhos e, dando um
viva a Portugal, preferiu cair varado de balas e de golpes de catana, a submeter-se ao
invasor nip�nico.
Em Agosto conseguiu evadir-se para a Austr�lia
um �ltimo grupo de portugueses que pretendiam treinar-se nos m�todos de ataques dos
famosos "comandos" para voltarem um dia a Timor, com tropas aliadas ou
portuguesas para restaurarem a soberania.
Foi s� em princ�pios de 1944 que puderam
come�ar a ser enviados da Austr�lia a Timor, em arriscadas miss�es de reconhecimento, e
os primeiros "comandos" australianos, de que participavam j� volunt�rios
portugueses convenientemente adestrados.
Eram miss�es arriscadas de que poucos
conseguiam voltar. Cientes desses atos de aud�cia, os japoneses guarneceram ent�o toda a
Costa Sul, com in�meros postos de observa��o e rondas constantes, servidos por tropa
regular e rebeldes ind�genas. Assim a situa��o de Timor se manteve ainda mais onze
meses at� que em Agosto de 1945 as bombas at�micas de Hiroshima e Nagasaqui for�aram o
Jap�o � suspens�o de hostilidades e rendi��o incondicional aos Americanos.
A 11 de Setembro o brigadeiro australiano Dyke recebia a bordo de um
navio de guerra, na ba�a de Cup�o, a rendi��o do general japon�s comandante das
tropas de ocupa��o de Timor. Na manh� de 22, Dili era libertada, com o seu governador e
todas as autoridades sobreviventes, de uma ocupa��o japonesa de mais de tr�s anos e
meio.
SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E DEPOIS (*)
Quando os aliados ocidentais declaram guerra
contra o Jap�o, decidiram usar a ilha de Timor como linha de defesa contra o avan�o
japon�s em dire��o ao sul ( apesar dos protestos de Portugal, que era neutro ). Em
meados de dezembro de 1941, apenas dez dias depois do ataque a Pearl Harbor,
aproximadamente 400 soldados das �ndias Ocidentais Holandesas e da Austr�lia chegaram �
parte ocidental de Dili.
Dois meses mais tarde, o Jap�o atacou a ilha e
rapidamente expulsou os holandeses da metade ocidental. Em Timor Leste, algumas centenas
de comandos australianos e alguns timorenses conseguiram encurralar uns vinte mil soldados
japoneses durante quase um ano. Mas em janeiro de 1943 o Jap�o controlava toda a ilha.
A ocupa��o japonesa foi uma das �pocas mais
sombrias da hist�ria de Timor Leste ( s� ultrapassada em crueldade e devasta��o pelos
indon�sios ). Eis como Iwamura Shouachi, que comandou um pelot�o japon�s em Timor Leste
durante mais de dois anos, descreveu os sofrimentos impostos pelos militares japoneses:
"� doloroso falar hoje dos sacrif�cios e fardos que impusemos ao povo do Timor
Leste... Ordenamos a chefes que mobilizassem pessoas em massa para a constru��o de
estradas...para trabalharem sem receber comida ou compensa��o.
Devido � escassez de alimentos, pessoas
morriam de fome todos os dias. A comida para os soldados japoneses e cavalos para
transportar muni��o eram confiscados do povo e alguns soldados da tropa sob meu comando
estupraram mulheres timorenses."
Se os australianos e aliados tivessem deixado a
ilha em paz, � bem poss�vel que os japoneses tivessem ignorado Timor, ou no m�ximo
mandado um contingente simb�lico de soldados. Em vez disto, uns 60 mil timorenses
orientais perderam suas vidas em conseq��ncia da brutal ocupa��o japonesa e dos
bombardeios aliados que procuravam expuls�-los. A guerra danificou muito Dili e destrui
parcialmente muitas das principais vilas e aldeias do territ�rio.
Com a derrota do Jap�o em agosto de 1945,
Portugal voltou e reafirmou seu controle sobre Timor Leste, que gradualmente voltou ao
estado anterior � guerra. Os portugueses come�aram a reconstruir a infra-estrutura
colonial que tinha sido devastada, empregando muitas vezes os mesmos m�todos brutais de
trabalhos for�ados que tinha usado antes da guerra.
Com exce��o de um revolta s�ria em 1959 (
que foi rapidamente sufocada ), as rela��es entre timorenses e portugueses continuaram
bastante calmas - embora debaixo da superf�cie houvesse muito ressentimento fervendo. A
Igreja Cat�lica, que tinha visto o n�mero de seus fi�is aumentar devido �s dolorosas
experi�ncias da guerra, ajudou a diminuir as tens�es, encorajando o sentimento
pr�-Portugal no culto e na educa��o.
Atrav�s de todo o sudeste asi�tico, a era do
p�s-guerra estava marcada por grandes como��es pol�ticas, j� que os territ�rios
colonizados buscavam a independ�ncia, enquanto os colonizadores voltavam e tentavam
reafirmar seu controle. O povo das �ndias Ocidentais Holandesas declarou que a Indon�sia
era um pa�s livre no dia 17 de agosto de 1945, enquanto ainda estavam sob a ocupa��o
japonesa.
Quando os holandeses voltaram, recusaram-se a
reconhecer esta declara��o de independ�ncia, travando brutal campanha militar para
recuperar sua col�nia. Mas no final de 1949 a resist�ncia em massa do povo for�ou os
holandeses a reconhecerem a independ�ncia da Indon�sia. O governo dos Estados Unidos
pressionou a Holanda para que o fizesse, pois acreditava que uma Indon�sia est�vel e
independente forneceria um melhor ambiente de neg�cios para o capital norte-americano do
que uma col�nia rebelde, dilacerada pela guerra.
No pr�prio Timor Leste, o nacionalismo p�s-guerra veio mais devagar, mas chegou
finalmente(...).
Certos elementos da Igreja Cat�lica
desempenharam papel importante no desenvolvimento do pensamento nacionalista. Embora a
maioria das escolas cat�licas estivessem orientadas para assuntos portugueses, os
jesu�tas muitas vezes criticavam o colonialismo e as condi��es sociais. Em seu
semin�rio nos arredores de Dili, onde muitos dos timorenses orientais que trabalhavam
para a administra��o portuguesa tinham recebido sua educa��o, professores jesu�tas
discutiam movimentos nacionalistas que estavam desabrochando e abordagens progressistas ao
desenvolvimento do Terceiro Mundo, e promoviam um sentido de identidade timorense entre os
estudantes.
Um jornal da Igreja, Seara, que estava livre
das leis de censura, ensinava tetum a seus leitores e muitas vezes servia como animado
f�rum de id�ias progressistas. Algumas das pessoas que contribu�am para ele, que tinha
tido contato com movimentos africanos de liberta��o, come�aram a defender privadamente
a independ�ncia de Timor Leste. As autoridades portuguesas for�aram o Seara a parar de
ser publicado em 1973, mas nesta �poca dissidentes que tinha as mesmas id�ias j�
estavam se reunindo clandestinamente em Dili.
Embora a grande maioria da popula��o ainda
vivesse como tinham vivido durante s�culos, em vilarejos rurais, uma elite pequena,
educada, j� tinha se desenvolvido pelos anos 70. Quando o imp�rio portugu�s finalmente
come�ou a ruir, este grupo de estudantes, professores e at� administradores coloniais
ajudou o pequeno Timor Leste a emergir de sua posi��o de relativo isolamento, penetrando
no mundo turbulento da pol�tica internacional de poder.
(*) texto retido do Livro - TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre, S�lvio L.
SantAnna, Editora Martin Claret , S�o Paulo, SP
A LUTA PELA INDEPEND�NCIA (*)
No final de abril de 1974, grupo de oficiais
militares esquerdistas, estacionados em Lisboa, capital de Portugal, derrubou o governo
fascista do pa�s atrav�s de um golpe de estado, praticamente sem derramamento de sangue.
Havia certo desacordo entre os oficiais ( que se chamavam Movimento das For�as Armadas,
ou MFA) sobre o que fazer com as col�nias de Portugal. O chefe conservador do MFA era a
favor daquilo que chamava de "autonomia progressiva... dentro de uma estrutura
portuguesa", mas outros oficiais, muitos dos quais tinham voltado recentemente da
luta contra movimentos de liberta��o nas col�nias africanas, defendiam "algum tipo
de independ�ncia".
Em junho de 1974, Portugal tinha apresentado
tr�s op��es poss�veis para Timor Leste: continuar associado a Portugal, tornar-se
independente, ou se tornar parte da Indon�sia. Mas o governo portugu�s n�o empreendeu
nenhuma a��o imediata em rela��o a qualquer dessas op��es.
No pr�prio Timor Leste, no entanto, a resposta ao golpe de estado n�o foi t�o lenta.
Dentro de pouco mais de um m�s, tr�s partidos pol�ticos tinha sido formados: a UDT, a
ASDT (que mais tarde se transformou na Fretilin) e a Apodeti.
O primeiro partido a ser fundado, a UDT (Uni�o Democr�tica Timorense), era de modo geral
conservador e a favor de Portugal. No come�o defendia a continua��o da liga��o com
Lisboa, mas com o aumento da oposi��o ao colonialismo passou a apoiar a id�ia de uma
eventual independ�ncia total.
0 segundo partido, ASDT (Associa��o de
Sociais Democratas Timorenses), advogava "as doutrinas universais do socialismo e da
democracia". Totalmente comprometido com a independ�ncia desde o come�o, imaginava
um per�odo de descoloniza��o de oito a dez anos, durante o qual Timor Leste teria a
oportunidade de desenvolver as estruturas pol�ticas e econ�micas necess�rias para a
independ�ncia.
A lideran�a tanto da UDT quanto da ASDT vinha
em grande parte das classes m�dia e alta - timorenses que tinham estudado no col�gio dos
jesu�tas em Soibada e no semin�rio nos arredores de Dili, e que eram administradores
coloniais ou professores. Os cidad�os timorenses mais ricos tendiam a apoiar a UDT.
Inclu�am oficiais administrativos mais graduados, l�deres nativos e importantes donos de
planta��es. Um dos l�deres da UDT - na realidade, seu primeiro presidente - foi mais
tarde nomeado governador de Timor Leste pelos indon�sios, cargo que ocupou de 1981 a
1992.
Um terceiro partido, Apodeti (Associa��o
Popular Democr�tica Timorense) era a favor de uma "integra��o aut�noma" com
a Indon�sia. (Seu nome original - Associa��o para Integra��o de Timor com a
Indon�sia - foi logo mudado devido a rea��es p�blicas).
A Apodeti, que nunca teve mais de umas poucas
centenas de membros, parece ter sido em grande parte um projeto do servi�o de
intelig�ncia militar da Indon�sia. A �ltima coisa que a Indon�sia queria era mais um
pa�s independente nas suas fronteiras, e estava empenhada em garantir que isto nunca
acontecesse.
Tr�s homens que estavam cooperando com os militares indon�sios havia anos se tornaram os
l�deres principais da Apodeti. E logo depois da funda��o da Apodeti, a Indon�sia
come�ou a fornecer apoio financeiro a agentes de Timor Leste.
A UDT no come�o era o grupo maior e mais
popular, mas logo come�ou a perder terreno para ASDT, que estava mais bem organizada e
era mais inovadora. Quando o presidente interino do parlamento da Indon�sia disse que era
favor�vel ao controle de Timor Leste pela Indon�sia, a ASDT mandou um enviado, Jos�
Ramos-Horta, a Jacarta, onde ele recebeu garantias do ministro de Rela��es Exteriores da
Indon�sia de que a Indon�sia defendia, sem d�vida, a autodetermina��o de Timor Leste.
Em seguida Ramos-Horta foi para a Austr�lia,
mas o governo australiano n�o quis se encontrar com ele ou fazer qualquer declara��o
oficial em favor da autodetermina��o de Timor Leste. Ele conseguiu, no entanto, o apoio
de grupos de Igreja, sindicalistas, intelectuais e membros do parlamento.
Como seus membros - e a popula��o de Timor
Leste em geral - estavam se tornando mais radicais, a ASDT mudou seu nome, em setembro de
1974, para Fretilin (Frente Revolucion�ria por um Timor Leste Independente) e exigiu de
Portugal a independ�ncia imediata. Volunt�rios da Fretilin come�aram a sair de Dili,
indo para as �reas rurais, ensinando os habitantes das aldeias a ler e escrever em tetum,
estabelecendo cooperativas agr�colas, ajudando a organizar sindicatos e outros grupos, e
promovendo a cultura local, incentivando a cria��o de poesias, cantos e dan�as
nacionalistas. Gra�as a estas atividades, a Fretilin se tornou, no in�cio de 1975, o
mais popular dos tr�s partidos.
Enquanto o presidente de Portugal dizia que a
independ�ncia total de Timor Leste "n�o era realista", o novo governador de
Timor Leste, que era do MFA, e oficiais locais do MFA queriam ajudar o pa�s a conquistar
sua liberdade. Em dezembro de 1974, convidaram os tr�s partidos a aconselhar Lisboa sobre
a maneira de descolonizar Timor Leste. A UDT e a Fretilin se uniram durante este processo
e formaram uma coaliz�o. A Apodeti se recusou a participar, dizendo que s� reconhecia o
governo indon�sio, e n�o o portugu�s.
Em maio de 1975, a UDT, a Fretilin e o MFA
concordaram que um governo de transi��o seria estabelecido at� outubro e que elei��es
para uma assembl�ia nacional constituinte seriam realizadas no outono de 1976. Mas a
Indon�sia tinha outros planos. Em meados de 1974 tinha sido desenvolvida a Opera��o
Komodo - assim chamada devido aos drag�es Komodo, lagartos gigantes que comem pessoas, e
que vivem em outras ilhas da Indon�sia.
A Opera��o Komodo
tinha o objetivo de fortalecer a Apodeti e enfraquecer a Fretilin, e obteve certo n�mero
de sucessos diplom�ticos. Num encontro com o presidente da Indon�sia, Suharto, em
setembro de 1974, o primeiro-ministro da Austr�lia, Gough Whitlam, declarou que um Timor
Leste independente seria "invi�vel" e "uma amea�a em potencial para
�rea". Ele apresentou seu apoio a uma uni�o volunt�ria entre Timor Leste e
Indon�sia. Embora tenha acrescentado que a Austr�lia n�o aprovaria o uso da for�a em
Timor Leste, seus coment�rios, de maneira geral, foram considerados por Jacarta como
sendo muito favor�veis � sua posi��o.
Quando a Fretilin e UDT come�aram a trabalhar
juntas, a Indon�sia incrementou a Opera��o Komodo. Em meados de fevereiro de 1975, os
militares indon�sios (comumente chamados pela sigla ABRI) realizaram exerc�cios em
Sumatra que simulavam um ataque por ar e mar a Timor Leste. Logo depois disto a Indon�sia
come�ou a divulgar relat�rios falsos de um golpe planejado pela MFA e Fretilin, e uma
suposta persegui��o a membros da Apodeti.
A opera��o Komodo, juntamente com a crescente
popularidade da Fretilin, enfraqueceu a coaliz�o UDT-Fretilin. A Indon�sia conseguiu
convencer os membros mais conservadores da UDT de que, se fosse permitida a perman�ncia
de esquerdistas na coaliz�o, isto resultaria em isolamento internacional. No final de
maio de 1975, a UDT se retirou formalmente da coaliz�o.
L�deres da UDT se encontram com representantes
do governo indon�sio em Jacarta e se convenceram de que a Indon�sia n�o permitiria que
Timor Leste se tornasse independente sob a Fretilin e provavelmente nem mesmo sob a UDT.
Eles achavam que s� limpando o territ�rio da influ�ncia "comunista" poderiam
ter alguma possibilidade de evitar uma invas�o da Indon�sia.
Finalmente, em meados de agosto de 1975, a Indon�sia passou � UDT not�cias falsas do
servi�o secreto sobre uma iminente tomada do poder pela Fretilin, completadas com
informa��es sobre carregamentos clandestinos de armas chineses e a entrada em Timor
Leste de "terroristas vietnamitas" para ajudar a Fretilin. A UDT lan�ou um
golpe, capturando rapidamente a esta��o de comunica��es e o aeroporto de Dili.
Mas a UDT subestimou muito a for�a da
Fretilin, que conseguiu persuadir a maioria das unidades timorenses do ex�rcito
portugu�s a ficar do seu lado. Logo a Fretilin controlava toda Dili e no final de
setembro tinha expulsado 500 soldados da UDT e 2.500 refugiados (na maioria fam�lias de
l�deres e soldados da UDT) para Timor Ocidental. A breve guerra civil tinha terminado.
A Indon�sia s� permitia que os refugiados
entrassem em Timor Ocidental se assinassem uma peti��o em favor da integra��o de Timor
Leste � Indon�sia. Conforme declarou um antigo l�der da UDT: "Era a �ltima coisa
que quer�amos, mas com as for�as da Fretilin se aproximando e sem comida, realmente n�o
t�nhamos outra alternativa a n�o ser concordar".
A Fretilin imediatamente come�ou a estabelecer
um governo de fato para preencher o vazio deixado pelos portugueses, que tinham fugido
durante a guerra civil. O antigo c�nsul da Austr�lia em Dili, James Dunn, assim
descreveu a rea��o do povo:
"Esta estrutura administrativa tinha limita��es evidentes, mas gozava claramente de
amplo apoio e coopera��o da popula��o, inclusive de muitas pessoas que antes apoiavam
a UDT... Na realidade, os l�deres do partido vitorioso foram recebidos de bra�os
abertos, espontaneamente, nos principais centros por multid�es de timorenses. Em minha
longa associa��o com o territ�rio, nunca tinha presenciado tais demonstra��es de
calor e apoio espont�neo por parte das pessoas comuns."
A fim de completar o processo de
descoloniza��o, a Fretilin convocou um confer�ncia de paz entre eles, Portugal e
Indon�sia, mas os cont�nuos adiamentos por parte de Portugal impediram que as
conversa��es se realizassem. Enquanto isto, a ABRI ( for�as militares indon�sias )
estava realizando incurs�es atrav�s da fronteira, a partir de Timor Ocidental, para dar
a impress�o de que a guerra civil continuava. ( A Indon�sia negou estas incurs�es, mas
at� a CIA as confirmou ).
A ABRI logo capturou algumas cidades perto da
fronteira entre Timor Leste e Timor Oeste. Sua campanha culminou num ataque de duas
semanas por terra, ar e mar a uma cidade chamada Atabae, a apenas 56 quil�metros de Dili.
Finalmente, a ABRI tomou Atabae no dia 28 de novembro de 1975.
Confrontada com uma invas�o iminente, global,
a Fretilin declarou a independ�ncia da Rep�blica Democr�tica de Timor Leste nesse mesmo
dia.
A Fretilin esperava que esta declara��o proporcionasse alguma prote��o internacional a
Timor Leste, mas somente quatro antigas col�nias portuguesas da �frica, reconheceram o
novo pa�s imediatamente. As na��es ocidentais, que sabiam tudo sobre os planos de
invas�o da Indon�sia, permaneceram em sil�ncio, ( ou forneceram algumas colabora��o
para esta invas�o).