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04/11/02
:::: ric, da gaywatch
Céus! Pasteurizaram a gaiola do Massivo

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Tá no dicionário — e até pouco tempo atrás nas embalagens de leite longa vida —: pasteurizar significa, mais ou menos, ferver alguma coisa até uns 70 graus Célsius e depois congelar a uns 70 graus negativos, só pra ter certeza de que todas as bactérias morreram MESMO. Suponho que se os vírus tivessem vida estariam mortos também depois deste processo. Pois foi exatamente o que fizeram com o Massivo depois da reforma. Tentaram matar as bactérias — ou, melhor dizendo, a sujeira, a frequência nem sempre tão ótima, o banheiro com aquela portinha de madeira caindo aos pedaços e a pista de dança que certamente precisava trocar o piso -, mas acabaram eliminando também os vírus que existiam por ali, simbolizados pela gaiolinha.

Pelo menos para a minha geração, nascida na década de 80, o Massivo sempre foi o símbolo de uma era que tinha passado, mas permanecia meio que como um ideal. Quando eu estava no colégio, ir ao Massivo era o supremo ato da viadagem e da promiscuidade. Tinha uma mística maior, na verdade: era estar em um mundo totalmente à parte, super hype (antes mesmo de a palavra existir) e com um quê de decadência londrina concentrada naquela gaiolinha (que eu tive que imaginar muito antes de conhecer) e nas almôndegas quilométricas.

Nos últimos anos da década de 90, quando eu já tinha idade suficiente para me dizer "liberal" e acompanhar alguns amigos em baladas não tão ortodoxas, foi o Massivo a primeira boate gay onde fui. Fiquei sinceramente chocado. Não pela decoração, que já era decadente, nem pela gaiolinha, que demorei um pouco para reconhecer. Mas sim pelas pessoas que estavam dentro. É clichê, é chavão, é frase-feita, mas eu meio que me senti em casa. Ninguém se levava muito a sério mesmo, o carão era uma coisa de poucos e as barbies sem camisa formavam realmente um espetáculo à parte.

Quando eu assumi, em 98, comecei, porém, a frequentar a noite gay pelo B.A.S.E., até relembrando os meus momentos de mauricinho-adolescente (isto é um capítulo especial). Mas logo depois descobri as noites de terça de Massivo e ficou forte o que eu sempre senti pelo clube: simpatia e a certeza de que lá poderia ser um lugar pra chamar de lá em casa. O fechamento do B.A.S.E., então, fez com que eu adotasse a gaiolinha como lá em casa mesmo e virasse hóspede frequente das terças. Até o menininho lindo que eu sempre paquerei à distância no B.A.S.E. começou a aparecer no Massivo e, enfim, a rotina voltou ao normal: toda terça-feira (ao invés de sábado), eu saía, o encontrava, ficava sem coragem de dizer nada, ficava olhando e esperando que ele olhasse de volta (acho até que ele olhava, mas a insegurança nunca dá certeza) e me prometia que da próxima vez eu iria falar com ele.

A merda é que essa próxima vez não chegou. Um dia, depois de quase um mês sem ir ao Massivo, eu resolvi ir pra balada e falar com o menininho. E dou com a cara na porta, com o clube fechado e com um cara avisando que só em dois meses reabriria. Bom, vão trocar o piso, pensei. E talvez dar uma melhorada no bar, mas duvido que eles mesmos encostem a mão nas poltronas… mas não foi bem isso o que aconteceu.

Na semana retrasada juntei coragem — e paciência, porque a fila estava enorme demais — e fui ao clube numa sexta-feira. Fora o fato de ter que ficar esperando por quase meia hora embaixo de garoa, o que eu vi dentro foi um puta choque (quase pior que ver o B.A.S.E. transformado em EmptyJive). A reforma transformou o antes centro da perversão gay paulistana (e brasileira! E brasileira!) em arremedo de Lov.E.

O que já estava ruim na versão anterior conseguiram piorar: a acústica da pista de dança ficou mais terrível e o jeito de circular, ainda mais claustrofóbico (mesmo com os espaços supostamente mais amplos). O que era bom, fodeu de vez. As pessoas, que antes ou eram feias e simpáticas ou bonitas barbies com carão, devem ter surgido de sabe-lá-Deus-onde. Parece que as pessoas feias simplesmente tingiram os cabelos de loiro, fizeram chapinha, vestiram umas roupinhas de grife by loja de departamento e passaram a se achar muito importantes.

De realmente bonitos, vi um ou dois caras alternativozinhos que estariam bem enquadrados entre os (poucos) lindos d’A Lôca. Nem quero começar a falar do som, uma tentativa estranha de eletrônico / house / alguma coisa assim. O que mais me deixou passado foi ver um grupo de pessoas com o nível alcoólico pra lá do Marrocos acompanhados por senhoras lindas como a faxineira da Praça É Nossa fazendo… ALMÔNDEGAS! Depois do que vi, agradeci muito pela reforma. Pelo menos tiveram a decência de tirar a gaiolinha, porque se eu visse aquele povo dentro dela fazendo o que estava fazendo, eu juro: viraria hétero-homofóbico-lutador-de-jíu-jitsu na hora.

Enfim, como uma livre adaptação do Queen sabiamente diria, mais um come a poeira. Depois do fim do B.A.S.E. e da DiscoFever, da reforma da SoGo e da invasão Patty-Boy que está ameaçando quase todas as noites do Lov.e, foi a vez do Massivo sucumbir à pseudoperversãopasteurizadamedíocremaslimpinha deste novo milênio. Só falta agora A Lôca resolver virar boate mainstream, fechar o dark room e começar a tocar MPB. Ooops… as duas primeiras coisas não aconteceram, mas que tocou Águas de Março no Grind da semana passada, tocou. E não era remix não.

O fim das utopias.

 

 
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