Abordagens Alternativas
Biodança nas Empresas

"Não podemos negar, e muito menos frear, o progresso tecnológico, mas a preocupação com a qualidade de vida do ser humano deve ser primordial. É neste contexto que a Biodança pode dar a sua contribuição."

              "Tempos Modernos" - Chaplin - 1936

Quem não teve a sensação constrangedora de entrar em um elevador cheio, sem conhecer ninguém, ou se defrontou com a frieza de uma secretária eletrônica? A impessoalidade e o individualismo nos grandes centros estão se tornando cada vez maiores, chegando ao extremo de vizinhos de um mesmo andar não se conhecerem durante anos. Este panorama reflete-se também nas empresas, pois, se até no ambiente familiar as pessoas estão cada vez mais distantes, imagine então no ambiente de trabalho?
Neste aspecto, vale ressaltar a genialidade de Chaplin no seu fabuloso Tempos Modernos, onde fazia uma bem humorada paródia de como seria o trabalho no fututro, se não fosse levado em conta o aspecto humano de cada cidadão em sua essência.
E o que a Biodança tem a ver com isso? Biodança é um sistema de desenvolvimento humano no qual a música e o movimento formam uma unidade coerente com a emoção. É sentir a música,   transformando esta sensação em gestos e movimentos, criando uma dança própria, e dançar a alegria de viver, de vincular-se consigo mesmo e com o outro, realizando trocas de afeto e energia positiva em vivências integradoras.

Tudo começou em meados dos anos 60, no Chile. Um professor de Antropologia Médica da Universidade Católica de Santiago, o psicólogo Rolando Toro de Arañeda, resolveu promover uma experiência inédita: realizar bailes para doentes mentais em hospitais psiquiátricos. O trabalho foi feliz: produziu melhoras sensíveis na capacidade de comunicação e motricidade dos pacientes. À partir desses resultados, Toro pensou em aplicar o mesmo método em pessoas comuns, sem problemas graves. O resultado foi animador,pois o número de adeptos cresceu e a prática difundiu-se em vários países da America Latina, da América do Norte e por toda a Europa.

Assim nasceu a Biodança, que chegou ao Brasil em 1976. Segundo Toro,  mais que uma técnica terapêutica e profilática, a Biodança é uma filosofia de vida. Na verdade, Toro baseou a técnica de Biodança na síntese de diversas linhas de pensamento e formas de expressão, como, por exemplo, os rituais dos povos chamados "primitivos": a dança que celebra a colheita ou os fenômenos da natureza. Toro baseou-se, ainda, nos movimentos do Tai-Chi-Chuan e nos conceitos de "couraça muscular de caráter" do psicanalista alemão Wilhelm Reich, no qual as tensões reprimidas manifestam-se no corpo em forma de anéis de tensão. Só que, enquanto Reich propunha quebrar as couraças , a Biodança prefere dissolvê-las gradativamente. A música, claro, é um dos elementos-chave do método. Baseado num julgamento criterioso, podem ser usados quase todos os estilos e ritmos, considerando-se o que a música desperta emocionalmente nas pessoas.

Outra preocupação da técnica, é sem dúvida, resgatar o lado natural e saudável da existência. A Biodança parte do chamado Príncipio Biocêntrico, que significa usar os métodos da natureza para recriar a vida, já que, decididamente, os modelos da cultura e o estilo de vida da nossa civilização se revelam completamente inadequados às portas do terceiro milênio.

Segundo o Modelo Teórico da Biodança, existem cinco Linhas de Vivência que representam os potenciais genéticos de todas as pessoas: vitalidade, sexualidade, criatividade, afetividade e transcendência. Estes potenciais, acabam perdidos ou simplesmente esquecidos, em função dos condicionamentos e repressões culturais. Quando um desses potenciais se torna deficiente, todo o resto fica comprometido. A estrutura de uma vivência de Biodança pode variar de um facilitador para outro, todos, porém, sempre levam em conta as cinco linhas de vivência. Além disso, colocam em evidência dois pólos entre os quais nossas sensações variam: regressão e identidade.

"No decorrer das vivências, o praticante
de Biodança, desenvolve, sem perceber a
criatividade e isso se traduz em boas idéias,
soluções inovadoras e até mesmo em
manifestações artísticas".

1. Vitalidade: o trabalho aqui busca regular o organismo, resolvendo a dissociação entre partes e funções do corpo. Os problemas mais comuns  que afetam esta linha são, por exemplo, irritabilidade, insônia e apatia.

2. Sexualidade: uma das propostas é a redescoberta da pele como limite com o mundo e fonte de prazer. Dessa maneira, podemos superar o condicionamento que recebemos e que nos faz ver o sexo como algo essencialmente genital.

3. Criatividade: trata-se de liberar os movimentos e recuperar os gestos perdidos ou esquecidos. Há ainda estudos de movimentos que visam uma tomada de consciência individual do corpo, para que os gestos não sejam mecânicos.

4. Afetividade: desenvolve a capacidade de dar e receber carinho e faz com que as pessoas se sintam parte do grupo, melhorando os seus relacionamentos em todos os níveis. A afetividade não se restringe ao amor entre as pessoas com determinados vínculos,   mas ao amor da espécie pela espécie, do respeito à vida numa atitude ecológica.
5. Transcendência: é a mais reprimida de todas a linhas de vivência pois as religiões impõe mitos e divindades que estão sempre fora do alcance. Mas a experiência do transe pode ser vivenciada por qualquer pessoa pois, de acordo com a postura holística da Biodança, a pessoa é considerada como um todo e não uma mera soma de partes. 

Segundo a postura holística da Biodança, o ser humano deve ser tratado como um todo e não uma mera soma de partes. A proposta básica, então, é harmonizar o homem consigo mesmo, com o semelhante e com o mundo.Desse modo  o homem não será apenas componente de uma estrutura industrial ou comercial, com ações repetitivas, mas sim o patrimônio maior da empresa. Ele terá assim, sensibilidade para tomar decisões acertadas e expor suas idéias de forma adequada e oportuna. A empresa será, então,  a maior beneficiada com a valorização dos indivíduos.

Texto baseado em entrevista com Edgard Spitaletti
concedida à Inês Cozzo Olivares e publicada na
Revista T&D Editora e Empreendimentos Culturais
Ltda em julho/1995
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