Edição de 05.05 a 11.05.2003



:: COLUNISTAS ::

André Tezza Consentino
Bob Marochi
Caetano Galindo
Rosiane C. de Freitas
Rogerio W. Galindo



De por que eu não gostei
de um filme bacana

(uma agonia em seis peripaques)

Caetano Waldrigues Galindo

1. (Ressalto a uptodateness desta coluna, plenamente integrada no que de mais chique se insinua no colunistismo local e mundial: tome-se uma coisa qualquer, tanto melhor quanto mais aparentemente desprovida de significado transcendente e a partir dela produza-se uma série de preciosas ilações que digam respeito a algum ponto-de-vista inovador que ilumine algum aspecto da condição humana que nos angusteie e voilà a moderna coluna de imprensa!)

2. Vi, domingúltimo, um filme que me havia sido bem recomendado por quatro pessoas cujas as opiniões delas eu prezo sobejo. E, como o mais sagaz dos leitores há de ter depreendido da leitura do título desta COLUNA, não gostei do dito. Trata-se de "Italiano para principiantes", um filme do Dogma 95. Para os mais desinformados (no moderno colunistismo é praxe desfazer da ignorância do leitor de qualquer ponto de somenos importância. Assim ó:) para quem passou os últimos oito anos na lua, o Dogma 95 é um manifesto assinado por uma renca de cineastas dinamarqueses ou coisa que o valha e que prega uma nova forma de fazer cinema, desprovida de ênfase técnica e centrada no texto. Assim é que um filme filiado ao movimento (e o filme de que falo se abre com um take de um diploma Dogma 95 em uma parede) é usualmente rodado em vídeo, não em película, com atores amadores, com som direto, luz natural, etc.. Uma espécie de naturebismo cinematográfico. É óbvio que boa parte dessa diretrizes foi sendo rompida, gerando conseqüentemente os melhores filmes do movimento, caso de "Os idiotas", que usava atores profissionais, e do sublime "Dançando no escuro" que na verdade selou o desligamento do movimento de seu maior expoente, Lars Von Trier.

3. Pois bem. O filme em questão é, como eu disse, bacana. Simpático, divertido e atraente. Mas (e esta é a ilação transcendental) continuo a crer ser a arte artifício! Gosto de artesania artística e de sentir sua presença. Se Woody Allen fez um filme como "Maridos e esposas" com a movimentação de câmera mais improvisada da história do cinema (é de bom tom também fazer afirmações valorativas categóricas) isso não deixava de ser fruto de um plano estético movido por uma finalidade explícita. Sabe como? VHS é feio. Os movimentos de câmera do filme eram tolos. A edição era às vezes estilosa mas sempre sem se justificar (never be clever for the sake of being clever!). As atuações eram fracas. O filme precisava desesperadamente de uma noção de tempo narrativo para que a estória pudesse fluir melhor. Um mês a mais em uma sala de montagem poderia salvar quase tudo. Alguns atores eram muito fracos. E as pessoas teimavam em falar aquela língua esdrúxula!

4. Querem saber? (Não?) Me pareceu um desperdício. De uma boa premissa e de alguns bons atores. E querem saber do que mais? (Danem-se?) Façamos agora o inimaginável nos meios cooltos: defendamos os vilões ianques. Botassem esse filme numa oficina de roteiro no Sundance Festival, arranjassem um fotógrafo polonês decente (um fotógrafo qualquer, Dio santo!), uma meia dúzia de atores competentes e principalmente uma Susan E. Morse com uma moviola e eu ficava bem mais feliz. Profissionalismo.

5. O Dogma, como idéia, é uma bela experiência e um momento interessantíssimo de qualquer livro de história do cinema. E seus dogmas podem, se nas mãos de um pusta cineasta, gerar belíssimos filmes. O gênio floresce em meio a dificuldades. (Fellini mudava até os diálogos depois da cena filmada!) Mas, eles, na maioria dos casos, produzirão estudos de filmes. Por vezes, como nesse caso, estudos de filmes muito interessantes. Não muito mais. E ponto. ... - Mas o filme ganhou o festival de Berlim, Caetano. ... Vocês têm que compreender é que eu não entendo patavinas de cinema.

 
 
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