|
De por que eu não gostei
de um filme bacana
(uma agonia em seis peripaques)
Caetano Waldrigues Galindo
1. (Ressalto a uptodateness desta coluna,
plenamente integrada no que de mais chique se insinua no colunistismo
local e mundial: tome-se uma coisa qualquer, tanto melhor quanto
mais aparentemente desprovida de significado transcendente e a partir
dela produza-se uma série de preciosas ilações que digam respeito
a algum ponto-de-vista inovador que ilumine algum aspecto da condição
humana que nos angusteie e voilà a moderna coluna de imprensa!)
2. Vi, domingúltimo, um filme que me
havia sido bem recomendado por quatro pessoas cujas as opiniões
delas eu prezo sobejo. E, como o mais sagaz dos leitores há de ter
depreendido da leitura do título desta COLUNA, não gostei do dito.
Trata-se de "Italiano para principiantes", um filme do Dogma 95.
Para os mais desinformados (no moderno colunistismo é praxe desfazer
da ignorância do leitor de qualquer ponto de somenos importância.
Assim ó:) para quem passou os últimos oito anos na lua, o Dogma
95 é um manifesto assinado por uma renca de cineastas dinamarqueses
ou coisa que o valha e que prega uma nova forma de fazer cinema,
desprovida de ênfase técnica e centrada no texto. Assim é que um
filme filiado ao movimento (e o filme de que falo se abre com um
take de um diploma Dogma 95 em uma parede) é usualmente rodado em
vídeo, não em película, com atores amadores, com som direto, luz
natural, etc.. Uma espécie de naturebismo cinematográfico. É óbvio
que boa parte dessa diretrizes foi sendo rompida, gerando conseqüentemente
os melhores filmes do movimento, caso de "Os idiotas", que usava
atores profissionais, e do sublime "Dançando no escuro" que na verdade
selou o desligamento do movimento de seu maior expoente, Lars Von
Trier.
3. Pois bem. O filme em questão é, como
eu disse, bacana. Simpático, divertido e atraente. Mas (e esta é
a ilação transcendental) continuo a crer ser a arte artifício! Gosto
de artesania artística e de sentir sua presença. Se Woody Allen
fez um filme como "Maridos e esposas" com a movimentação de câmera
mais improvisada da história do cinema (é de bom tom também fazer
afirmações valorativas categóricas) isso não deixava de ser fruto
de um plano estético movido por uma finalidade explícita. Sabe como?
VHS é feio. Os movimentos de câmera do filme eram tolos. A edição
era às vezes estilosa mas sempre sem se justificar (never
be clever for the sake of being clever!). As atuações eram fracas.
O filme precisava desesperadamente de uma noção de tempo narrativo
para que a estória pudesse fluir melhor. Um mês a mais em uma sala
de montagem poderia salvar quase tudo. Alguns atores eram muito
fracos. E as pessoas teimavam em falar aquela língua esdrúxula!
4. Querem saber? (Não?) Me pareceu um
desperdício. De uma boa premissa e de alguns bons atores. E querem
saber do que mais? (Danem-se?) Façamos agora o inimaginável nos
meios cooltos: defendamos os vilões ianques. Botassem esse filme
numa oficina de roteiro no Sundance Festival, arranjassem um fotógrafo
polonês decente (um fotógrafo qualquer, Dio santo!), uma meia dúzia
de atores competentes e principalmente uma Susan E. Morse com uma
moviola e eu ficava bem mais feliz. Profissionalismo.
5. O Dogma, como idéia, é uma bela experiência
e um momento interessantíssimo de qualquer livro de história do
cinema. E seus dogmas podem, se nas mãos de um pusta cineasta, gerar
belíssimos filmes. O gênio floresce em meio a dificuldades. (Fellini
mudava até os diálogos depois da cena filmada!) Mas, eles, na maioria
dos casos, produzirão estudos de filmes. Por vezes, como nesse caso,
estudos de filmes muito interessantes. Não muito mais. E ponto.
... - Mas o filme ganhou o festival de Berlim, Caetano. ... Vocês
têm que compreender é que eu não entendo patavinas de cinema.
|