QUER COM CORTE OU SEM CORTE???

Você já pensou em se submeter a uma cirurgia em que o médico não é médico e o bisturi pode ser a própria unha? Prenda o fôlego e saiba como são feitas as operações mediúnicas

Céu azul, dia quente, pessoas de branco por todos os lados. O galpão enfeitado com bandeirolas azuis abriga umas 200 pessoas. Todas parecem rezar. Em cima de um palco um sujeito entoa mensagens de esperança. De repente, uma porta se abre e um homem aparece puxando uma senhora pela mão. É o médium João Teixeira, famoso por curas espirituais que operaria. Depois de um breve discurso e de uma prece, ele pega uma tesoura longa em uma bandeja que está nas mãos do assistente. Sem nenhum tipo de anestesia e muito pouco delicadamente, empurra o instrumento para dentro do nariz da mulher. Ela levanta o braço com medo. Ele a tranqüiliza. Ouvem-se estalos. A mulher murmura, mas parece não sentir dor. O sangue começa a escorrer do seu nariz. Em segundos, o médium balança a tesoura no ar. Na ponta, um pedaço de carne esponjosa. "Carrega!", grita, e dois homens retiram a mulher do recinto.
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O centro Dom Inácio é visitado por centenas de estrangeiros todos os anos. "Eu estava na sala de cirurgia, orando. O João se aproximou de mim e enfiou o bisturi no meu olho", conta o americano Bob Dinga, 42 anos, professor em Aptos, na California, em Abadiânia pela quinta vez. "Antes, eu não enxergava quase nada, só vultos. Hoje, um dia após a operação, vejo que a sua blusa é azul e o seu cabelo é marrom." Dinga soletra palavras que lê nos cartazes, rindo como criança. Usar o bisturi não é, no entanto, o procedimento-padrão das cirurgias mediúnicas. Normalmente o médium pergunta ao paciente: "Com ou sem corte?" Cada um decide o que vai ser. 
A platéia assiste extasiada ao espetáculo que acontece toda semana no galpão da Casa de Dom Inácio, em Abadiânia, interior de Goiás. O médium João Teixeira atrai gente de muitos lugares. "Eu tinha um problema no nervo ciático. A dor era insuportável na parte baixa das costas. O tratamento médico tradicional não resolvia", conta Luiz Alberto Gomes Silva, que veio de Brasília. "Achei estranho ser operado pelo nariz. Perguntei para a entidade, o espírito incorporado pelo médium, se o corte não devia ser no local que doía, mas ela disse que não." Depois disso, Silva garante que a dor praticamente acabou. "Ficou apenas uma sensação estranha, como se tivesse tomado uma leve pancada", afirma.

O metalúrgico José Walter de Matos veio de Sabará, Minas Gerais. Ele sofreu vários pequenos cortes atrás da orelha antes de o médium enfiar uma tesoura com gaze em seu ouvido. Matos conta que vinha perdendo a audição do lado direito. Até o final da tarde em que foi operado, ainda não escutava bem, mas já havia comprado três garrafas do chá artesanal vendido pela Casa.


Tratamento de sinusite da Fundação Espiríta Caminho da Luz, em Campos Gerais (MG). "Depois que comecei a vir aqui, não tive mais nenhuma crise", diz o paciente

 

 As cirurgias na Casa de Dom Inácio, em Abadiânia (GO), são feitas em público. O paciente escolhe se quer ser cortado ou não O médium e presidente da Casa João Teixeira, depois de rezar, empurra uma tesoura pelo nariz de uma paciente   O "cirurgião" limpa o sangue e faz o curativo. A paciente, sem reclamar de dor, vai para uma sala separada e espera pela "alta"

Reportagens - Bruno Oliveira Rizzatti

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*OBS.: Ordem de Data


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