CARTA ESCRITA NUM CAFÉ
Por João Gabriel de Lima
Da janela, dá para ver, ao longe, o contorno
da
cordilheira. Estou escrevendo do nosso café - lembra? --,
aquele onde
as mesas são separadas umas das outras por telas de madeira.
Nas
noites, principalmente as de frio, ficam especialmente aconchegantes
os pequenos cubículos, cada um iluminado por uma lamparina
própria.
Por essa privacidade elegemos este café como o "nosso".
Pelo mesmo
motivo, escolhi, hoje, esse local para escrever - é incômodo
fazê-lo
sentindo olhares nas costas. Está frio, a temperatura lá
fora é de
cerca de um grau negativo. Os picos amanhecerão nevados?
Impossível
saber. De noite só se vê os esboços da paisagem.
Canso-me logo deles,
e passo, então, a contemplar o café, o "nosso"
café. Penso em quantos
lugares temos espalhados pelo mundo. E tento entender o que faz
de um
lugar propriedade de um viajante.
Um lugar se torna nosso, a meu ver, quando
voltamos a ele. A primeira vez é apenas um acaso. Se não
voltarmos,
estivemos ali só de passagem. Se voltarmos, teremos uma
história para
contar, nem que seja a nós mesmos. E as coisas se tornam
nossas quando
se transformam em histórias em nossa vida. Mesmo se nada
de importante
aconteceu na primeira vez em que estivemos num lugar, há
algo para
lembrar na segunda. Certa vez, viajei para o norte da África.
Entrei
num café e pedi uma água mineral. Do lugar, que
ficava no andar
superior de um prédio, fiquei observando as casas de telhados
brancos.
Um menino que falava a minha língua me ofereceu "chocolate"
- que, no
código que eles usam para se referir a drogas, significa
haxixe.
Passei umas duas horas ali, sem fazer absolutamente nada, sem
ser
abordado por algum mercador exótico ou beber algum coquetel
típico.
Mesmo assim, quando voltar lá, terei uma história
para contar. A de
como aprendi uma gíria árabe num café que
dava para uma rua de
telhados brancos. E poderei mostrar a quem estiver me acompanhando
o
"meu" café.
Quando conheci você já tinha alguns lugares
devidamente marcados. Você tinha os seus. Ficamos com vontade
de
mostrá-los um ao outro. O início da intimidade,
a meu ver, consiste
exatamente nisso. Em levar o outro aos lugares que temos. É
muito mais
importante do que assistir juntos aos filmes de nossas vidas,
ouvir
nossas canções preferidas, emprestar os livros sobre
os quais queremos
conversar. Quando retornamos a um lugar onde estivemos anteriormente,
voltamos, de certa forma, ao momento em que estivemos lá
pela primeira
vez, ao que éramos. Quando levamos alguém a esse
lugar, estamos
dividindo com esta pessoa um pedaço de nosso passado, informando-lhe
que queríamos ter estado com ela ali, naquele momento de
nossa
infância ou juventude. É como se quiséssemos
dizer que gostaríamos de
ter compartilhado nossa vida com ela por mais tempo ainda. Não
nos é
suficiente estar juntos desde o dia em que nos conhecemos. Queremos
incorporar também os dias antes de nos conhecermos.
Ao retornar aos nossos lugares, encontramos a nós
mesmos mais jovens - o que equivale a dizer, de uma maneira geral,
mais felizes. Fiz minha primeira viagem ao exterior aos vinte
e cinco
anos. Ao aterrissar, tomei o ônibus no aeroporto e saltei
numa praça
que só conhecia de cartão postal. Antes de procurar
hotel, fiquei
sentado sobre minha bagagem, sorvendo intensamente cada cena,
deslumbrando-me em como poderia haver vida - gente e carros passando
-
num cenário de fotografia, e divertindo-me com a sensação
exótica de
ver letreiros escritos em outra língua. Sempre que posso
volto a esse
país, a essa cidade e a essa praça, e ali encontro
a mim mesmo numa
época em que, como disse um escritor, ninguém ainda
estava morto. E
saio com a aquela sensação de leveza de quem ainda
não carrega dores.
Ter um lugar "seu" não é ter um lugar
habitual. O
restaurante onde comemos todo dia há vinte anos não
trará de volta
nossa juventude. Pelo simples fato de que, indo lá todo
dia, não
percebemos nosso envelhecimento. Há, assim, uma segunda
condição para
um lugar se tornar seu, além de voltar a ele pelo menos
uma vez. É
que, entre uma visita e outra, tenha transcorrido algum tempo.
O
suficiente para que você se espante ao reencontrar a si
próprio em
outra fase da vida. O suficiente para que essa sua versão
mais "leve"
tenha algo a lhe restituir. O suficiente para você ter novidades
para
dividir com ela. Por essa razão, tomamos posse de lugares,
em geral,
quando viajamos, e não quando estamos na cidade onde vivemos.
Os
lugares da nossa cidade só se tornam nossos quando uma
longa ausência
nos dá esse direito de posse - uma viagem demorada, um
período morando
em outro lugar, um exílio, uma qualquer modalidade de desterro.
Temos os nossos lugares pelo mundo e, numa
primeira fase de intimidade, queremos dividi-los com a pessoa
de quem
gostamos. Num segundo momento, começamos a conquistar lugares
juntos.
Foi o que aconteceu conosco. Passaram a ser nossos aquele restaurante
atrás do castelo, fora do circuito turístico, no
alto de uma ladeira
que ninguém sobe, onde o vinho da casa é insuperável
e os doces são
feitos na própria cozinha; a praia em que estivemos à
pé antes da
construção da estrada, que era deserta e hoje tem
até restaurante
típico, a ponto de nos orgulharmos por tê-la descoberto
antes de
todos, da mesma forma que lamentamos a profanação
daquele santuário; a
cripta da igreja ao lado do rio, que serve um chá delicioso,
bolos
ainda quentinhos e toca uma música barroca que combina
com a
austeridade da pedra que forra o chão e as paredes.
Neste café em frente à cordilheira estivemos
apenas uma vez. Nada de especial aconteceu - a não ser
o fato de
estarmos juntos --, mas teríamos uma história para
relembrar. Fazia
frio como hoje, e pedimos o conhaque mais barato do cardápio.
Era ruim
demais, pior que o do nosso país. Se voltássemos
juntos,
encontraríamos a nós mesmos numa dessas mesas, mais
jovens e pobres, a
ponto de ter que beber conhaque ruim, mas vivendo um daqueles
momentos
que fazem valer à pena retornar a um lugar, só para
relembrá-lo. Vim
justamente por isso. Para reencontrar você. Para escrever
essa carta
dizendo que sonho que estamos juntos quase todas as noites, e
nos
sonhos você está viva, e nos sonhos conversamos sobre
todos os
assuntos, inclusive sobre a sua morte, como se ela fosse apenas
um
fato a mais em nossa intimidade, sem importância suficiente
para
abalá-la. Logo que conhecemos uma pessoa, fazemos questão
de levá-la
aos nossos lugares, como que para estender a convivência
com ela até o
nosso passado. Depois que essa pessoa se vai, voltamos aos lugares
nos
quais estivemos juntos, numa tentativa de prorrogar essa intimidade
no
sentido oposto, o do futuro. Os lugares permanecem, e voltamos
a eles
como que para verificar se o amor tem, de verdade, essa característica
atribuída a ele pelos poetas românticos: a eternidade.
João Gabriel de Lima é
editor de Artes e Espetáculos da revista Veja
[email protected]
CARTA ESCRITA NUM CAFÉ
Por João Gabriel de Lima"a cripta da igreja ao lado do rio, que serve um chá delicioso, bolos ainda quentinhos e toca a música barroca que combina com a austeridade da pedra que forra o chão e as paredes. Neste café em frente à cordilheira estivemos apenas uma vez..."
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