AS CARTAS
por Marcelo Rosa
"As palavras de um louco
podem parecer absurdo em relação
a realidade, mas nunca em relação
ao seu próprio delírio"Jean Paul Sartre
Madalena cultivava um hábito, no mínimo, solitário: escrevia cartas para ninguém. Não era um ninguém só. Cada vez que escrevia, imaginava um alguém diferente.
- Hoje vou escrever para um presidiário!
- Dessa vez, escrevo para uma mãe, mas amanhã vou escrever para uma freira.O certo é que era uma maneira de passar o tempo, já que não havia muitas atividades possíveis no manicômio onde vivia. E participava a todos de seus delírios, de modo que acreditava que quem delirava, a bem da verdade, eram os do outro lado do muro. Porém não tinha como postar as cartas, o que era, para ela, desesperador. Um desespero que só poderia ser amenizado de uma forma: escrevendo outra carta. Não é difícil supor que depois de três anos presa, tivesse sob sua cama um baú, conseguido no sótão do manicômio, lotado de pequenas cartas - ela só escrevia uma página para cada ninguém. Escrevia sempre de madrugada e imediatamente após a assinatura, nem um segundo a mais, dormia pesadamente sobre o papel e a caneta e ao acordar pela manhã a carta já estava devidamente guardada no baú, de modo que ela nunca relia as cartas que escrevia.
Há três anos atrás, vivia livre. Livre daquele lugar horrível, e livre, absolutamente livre - e era esse o problema - no seu mundo particular. Dizia-se dela que vivia presa em seu mundo, que não conseguia se libertar. Para ela, todos estavam presos no mundo de fora. Presos em suas agendas, seus sapatos apertados e seus relógios de pulso. Ela porém se julgava livre. Tão livre que matou com uma faca de cozinha o cão da família, um poodle chato, que insistia em latir da janela da casa para todos que passavam pela rua. No fundo, qualquer um poderia ter tido a vontade de dar fim ao animal. É possível que alguém da casa já tivesse ido dormir com esse pensamento: "um dia mato esse cachorrinho de merda!". Ocorre que só Madalena teve a coragem. E enquanto o pequeno cão esganiçava em suas mãos, ela se impressionava com o sangue que jorrava da garganta dele. Sentia aquele líquido empapado espirrar em sua cara, escorrer pelas seus braços e empoçar em seu colo. Não que tivesse tido prazer naquilo, mas terminado o ato, não conseguia pensar em outra coisa. Ter se lavado, foi como ter despejado pelo ralo o único momento em que realmente conheceu as sensações do perigo, alguma emoção naquela vidinha tacanha.
Não lhe era permitido sair de casa. Suas palavras ilógicas aos do lado de fora de seu pensamento a condenavam a uma espécie de cárcere privado. Até que um dia, Madalena e a faca da cozinha sumiram. E após quase vinte e quatro horas de busca na vizinhança, foi localizada arrancando as vísceras de um gato. Já havia matado dois cães de rua. Temeu-se que aquilo progredisse e ela passasse a atacar pessoas. Foi internada.
E lá estava Madalena, a louca. Como as visitas dos familiares foram ficando cada vez menos freqüentes, até que cessaram de vez, Madalena logo descobriu que poderia ter uma série de confidentes invisíveis, como todos nós temos alguns quando criança. E era para eles que escrevia. Escrevia sistematicamente, uma carta por dia e nunca repetia o endereçado. Esses, eram concebidos de sua própria imaginação. Antes de iniciar uma carta imaginava a pessoa a quem escreveria. Idealizava primeiro a figura física, depois a personalidade e por último, a índole. E, só então, abria o coração ou apresentava hostilidades, de acordo com esse último item imaginado, o caráter. E quando optava por abrir seu coração, o fazia da forma mais doce que um mortal pudesse fazer. Usava metáforas delicadas, contava sobre flores e estrelas, sobre chuvas e sonhos, elementos que a sua imaginação escolhia para fazer companhia àquela solidão permanente.
Raramente imaginava que estivesse escrevendo para algum filho-da-puta qualquer. Mas quando acontecia, descarregava um ódio, que só seria eliminado se matasse algum pequeno animal, embora ela não sentisse ódio quando matava animais. Sentia fascínio pela agonia, pela vida se esvaindo, pelo cessar da resistência e pela aproximação lenta da morte. E de qualquer forma, sabe-se lá o motivo, após o ato, sentia-se exaurida de qualquer sentimento de ódio. Como no manicômio não podia matar gatos ou cães, escrevia para crápulas imaginários desejando-lhes sofrimento, azar e uma morte com todas as dores físicas e emotivas possíveis a um ser-humano. Mas quando escrevia uma carta dessas, ficava aliviada por meses até que tivesse desejo de escrever outra assim, de modo que a grande maioria de suas cartas eram apaixonadas e carinhosas.
Acontece que um dia Madalena adoeceu. Apareceu no manicômio uma espécie de vespa, enorme e multi-colorida, provocando correria entre funcionários e fascínio entre os loucos. A vespa foi diretamente em Madalena, fincou-lhe o ferrão na jugular e desapareceu no jardim. A louca foi tomada por dores descomunais e seu corpo, em tentativa desesperada de defesa, ferveu em febre.Matias foi designado para acompanhar a sua recuperação e ministrar as drogas que os médicos supunham que pudessem fazer algum efeito contra o veneno daquele inseto até então nunca visto igual. Madalena, em seu delírio febril, misturado com seus delírios de louca, passou a dizer as palavras que costumava escrever. Matias, madrugada adentro, logo se interessou pelas palavras de amor e ódio da louca. As frases, a princípio pareciam não fazer sentido lógico. Mas como eram belas, Matias passou a anotá-las e em pouco tempo percebeu que não eram sem sentido, mas apenas desconexas. Quando tinha um punhado de frases, percebeu que podia montá-las como um complicado quebra-cabeça que invariavelmente ficava faltando uma ou mais peças. Mas, percebeu que era só esperar e Madalena, cedo ou tarde, soltava a pérola que faltava. Tomou nota, na segunda noite, das seguintes palavras da moça:
"O mar ruge de dia. À noite, quando ouves o rugido vindo do mar, atente-se: não é o mar que ruge. É o céu."
Matias anotava atônito. Tinha que escrever rápido e por vezes tinha dificuldade de entender a própria caligrafia. Não demorou a perceber que seria mais fácil organizar as frases se utilizasse um pedaço de papel para cada uma. Quando Madalena dormia em sono profundo, ele espalhava pelo piso os papéis e tentava colocá-los em alguma ordem que viesse fazer sentido.Já era a quarta noite e a febre não cedia. E foi quando Madalena dormiu para não mais acordar. Matias foi o único a testemunhar a morte de Madalena. Cauterizado pelas muitas mortes já presenciadas no manicômio, dessa vez chorou. Havia chorado quando viu o anjo da morte pela primeira, segunda ou terceira vez. Até que percebeu que seu choro era inútil, e, seco, não chorou mais. Mas por Madalena chorou feito criança. Não tomou as providências burocráticas de praxe. Deixou-as para o dia seguinte. Argumentou para si próprio que depois da morte, não havia nada que fosse absolutamente urgente. Permitiu-se descansar. Adormeceu ao lado do corpo, vencido pelas poucas horas de sono que tinha tido até ali e sonhou que centenas de vespas como a que atacou Madalena, invadiram o manicômio, porém não atacaram a ninguém e foram testemunhadas apenas por ele, que velava solitário o corpo e sentia uma tristeza oceânica pela partida sem adeus da louca. As vespas criaram um espetáculo ambíguo: moveram-se como em um balé em torno do corpo, com uma beleza colorida irretocável e indiscritível, mas de uma sonoridade insuportável, de modo que Matias tinha também um sentimento dúbio, desejando a presença das vespas aos olhos e a partida delas aos ouvidos. E ele, sem perceber que era um sonho desejava que voassem para longe antes que qualquer outra pessoa acordasse e as visse. Matias não acordou com o final do sonho, como normalmente acontece. Dormiu pesadamente e veio despertar com o sol que penetrava pela janela e esquentava a sua nuca.
No dia seguinte ao funeral, ele sentou-se com as dezenas de frases depositadas pela louca em seus ouvidos e que suas mãos tiveram o cuidado de anotá-las.
Imediatamente após ter espalhado as frases sobre a mesa e assoalho, Matias foi tomado por figuras de sua infância e adolescência. Lembrou que a calçada na esquina mais próxima de sua casa tinha o piso todo quebrado. Passava por ali de dia, sem preocupações, mas à noite tinha pesadelos que, quando passava por aquele lugar, o chão se abria e ele caía num buraco negro e infinito. Durante a queda, gritava desesperadamente por ajuda e acordava aflito e respirando em golfadas, com o frio na barriga. Contava para sua avó que sempre respondia que quando sonhamos que estamos caindo é que estamos crescendo. Mas, o sonho era recorrente, e Matias, na sua pureza de menino, acreditava que era um chamado divino para ajudar pessoas que estivessem no fundo de um poço qualquer.
Por isso, tinha desde muito cedo a predisposição da ajuda, do amparo, do consolo. Não exatamente a ajuda de socorrer algum necessitado de alguma situação adversa. Trazia em seu coração a piedade, a bondade e a complacência cega de que até o mais inescrupuloso estuprador e assassino tinha em algum lugar de sua alma, um pouco de bondade. Só não sabia se bondade o suficiente para livrar a alma do inferno. Para tentar descobrir, fez seminário, por que tinha para si que, como padre, poderia escrutar a alma de pessoas a fim de encontrar algo que pudesse compensar tudo que aquela mesma alma tivesse de mal. Resolveu que seria capelão de penitenciária, para levar esperança àqueles que a sociedade não teve paciência de procurar bondade em suas almas. Mas, depois de três anos de seminário já tinha coletado decepções o suficiente para desistir do clero. A Igreja Católica, com seus templos milionários e ao seu modo de ver, com suas regras repressoras, que protegiam mais a Instituição do que os seres humanos que a ela procuravam, não servia para seus propósitos de acolher revoltas e tristezas e devolve-las em alegria e atos de bondade. Matias era um romântico ingênuo. Desses que todo mundo critica, mas que todos sentem tanta falta de mais românticos ingênuos como ele.
Matias pensou em estudar psicologia, mas já tinha perdido muito tempo no seminário. Urgia, obcecadamente, consolar as pessoas. Tentou emprego nas assistências sociais, mas só aceitavam voluntários, por não terem como pagar. Não servia para Matias, ele precisava de um mínimo para se manter. Tentou cadeias. Virou carcereiro. Na penitenciária, aprendeu noções de enfermagem e após alguns anos, por melhor condição financeira e mais segurança foi parar no manicômio. Acertou em cheio. Os loucos só pensam que estão desconfiados. Os detentos desconfiam mesmo. E Matias queria apenas que confiassem nele. Só nunca imaginou que ficaria com o legado de decifrar os enigmas das frases de uma louca que morrera praticamente em seus braços. Olhava as frases e impelido por um desejo que logo se tornou obsessão, passou a tentar colocá-las em alguma ordem que pudessem fazer algum sentido.
Durante o dia, Matias mantinha suas atividades normais, e madrugada adentro, à luz de uma vela para não ser percebido, voltava a espalhar as frases da louca pelo piso, numa busca frenética pelos possíveis sentidos. Sentia-se com a obrigação quase missionária de desvendar o que aquilo queria dizer e para quem deveria ser enviado. Durante várias madrugadas empenhou-se na missão, de modo que dormia em torno de três ou quatro horas por dia. Invariavelmente acordava no chão, debruçado sobre os papéis e com a vela totalmente consumida e apagada.Até que ele encontrou o baú de Madalena. Lá estavam, devidamente organizadas por ordem de data, todas as cartas que amenizaram a solidão da louca. Em várias cartas, reconheceu frases que tinha anotado durante o delírio febril dela. Notou que suas palavras alucinadas eram na verdade flashes de sua memória. Desistiu de tentar decifra-las. Não fazia sentido continuar tentando. Percebeu que, como em toda palavra poética, o suposto sentido revela muito mais sobre quem está tentando decifra-la do que sobre quem a escreveu.
Como os endereçados não tinham um nome específico, Matias viu uma possibilidade de aquietar o seu espírito: pelo contexto do texto, definia para que pessoa Madalena pudesse ter escrito e passou a postar os poemas - ele as entendia como verdadeira poesia. Se percebia que a carta havia sido escrita a um padre, por exemplo, escolhia um padre qualquer e remetia. Em cinco semanas, já havia remetido todas. No remetente assinava com o nome completo da louca e o endereço do manicômio. Esperava que alguma pessoa respondesse. E ele, naturalmente, seria a pessoa encarregada de cuidar das respostas. As leria como se fosse a louca. Emprestaria os seus olhos e mãos ao espírito dela. Acreditava que, de alguma forma, Madalena pudesse tomar conhecimento das respostas recebidas, quando ele as lesse. E havia decidido também que leria cada resposta só uma vez e as juntaria no mesmo baú onde estavam as cartas que ele mesmo havia enviado.
Porém, Matias esperou por anos e não recebeu uma carta sequer. Aprendeu a conviver com essa esperança muda. Uma esperança que vivia do silêncio dela mesma...
Matias viveu até os 110 anos de idade. Completamente lúcido para os loucos, e absolutamente esclerosado para os demais. À sombra da principal árvore do hospício, Matias viu a grande vespa multi-colorida se aproximando. Não tentou proteger a jugular, mesmo sabendo que seria ali o ataque. Ao contrário, esticou o pescoço num convite ao inseto para que cumprisse o seu trabalho, a sua missão. E só então, nos dias de seus delírios febris, deu-se conta com a mais absoluta certeza que sua busca para consolar e confortar as pessoas, seu sonho messiânico de menino, alcançou a sua realização mais profunda e bela, exatamente junto aquelas pessoas que ele nunca tomara o menor conhecimento de quem eram: as pessoas que receberam as cartas de Madalena, a louca.
Marcelo Rosa é
Músico.
CARTA ESCRITA NUM CAFÉ
Por João Gabriel de Lima"a cripta da igreja ao lado do rio, que serve um chá delicioso, bolos ainda quentinhos e toca a música barroca que combina com a austeridade da pedra que forra o chão e as paredes. Neste café em frente à cordilheira estivemos apenas uma vez..."
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"era o oposto da figura virulenta, forte e bela que espera-se de um príncipe. No segundo café, perguntou sobre mim o suficiente para concluir que sou ..."NO CANTO ONDE OS ISQUEIROS SE ENCONTRAM: A Cantada.
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.....
la lala lá.
...
Já no carro, em frente ao portão, lalá, ascendeu um cigaruuh!AS CARTAS
Por Marcelo Rosa"Imediatamente após ter espalhado as frases sobre a mesa e assoalho, Matias foi tomado por figuras de sua infância e adolescência. Lembrou que a calçada na esquina mais próxima de sua casa tinha o piso todo quebrado."
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