Adriana de Margarida Gil Site Oficial de
direcção de fotografia Rui Poças
Adriana
dossier de imprensa 2
O Cinema tenta a poesia
(…)”Adriana é um filme que não tem género atribuído. Chamemos-lhe farsa, para abreviar, sem estar muito certo da classificação, já que o sorriso, com sarcasmo, é o seu mais constante resultado, enquanto navegamos por um espaço narrativo libertário. Ao espectador pede que se dispa da necessidade de um acto ter uma consequência e depois outra, que a sua lógica desliza mais pelos terrenos da permissão poética que pelas baias da razão. Se, em Herberto Hélder, aceitamos a presença da frase presente, a melodia da duração, o baloiço do tempo, porque não aqui? Margarida Gil provoca essa atitude, por via de uma beleza continuada, de que a fotografia de Rui Poças é trave, uma espécie de melopeia em que cada cena nos envolve sem sentirmos necessidade de segurança no devir. A sua coerência é interna, lança pontes para o real, mas destaca-se quer do raciocínio quer do psicologismo.
É bonito ver Adriana acontecendo – funâmbula de qualquer coisa que o cinema raramente experimenta, medindo os riscos, mas verdadeiramente não se preocupando demais com eles. (…)
Jorge Leitão Ramos in “Expresso”, 28.05.05
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Entra-se em "Adriana" por uma cena em tom dramático: um anúncio de uma morte (uma mulher que morre a dar à luz), um homem que expele a dor partindo um espelho. Mas logo se ouve, em comentário surpreendentemente fora de tom com o que era (é) o registo da cena, uma criada a avisar dos proverbiais 7 anos de azar que esperam quem parta um espelho. Descompressão? Sim, mas "dissonância", sobretudo, anúncio do filme a vir, entrada num "quase-burlesco" que está sempre a surpreender o espectador e, mais do que isso, a "desenquadrá-lo": para acompanhar o périplo de Adriana, o espectador terá se aguentar (ou, como diz Margarida Gil na entrevista ao lado, "aceitar") este balanço.
Não obstante, é dessa dor que parte o filme. Depois esconde-a, em narrativa de fábula: nessa ilha onde tudo começa, não voltou a haver "fornicação", não há mais nascimentos. Para "constituir família por métodos naturais", Adriana (Ana Moreira) será enviada pelo pai ao continente - e esse é o seu périplo. Primeiro, uma Lissboa que é um "mundo", quase sempre nocturno e subterrâneo, habitado por personagens que vivem numa semi-marginalidade, seja por classe (a de Isabel Ruth) seja por, digamos, feitio (Saturnino, interpretado por Bruno Bravo, travesti que faz números de playback num cabaret). E uma espécie de "intelectual blasé", David (Vítor Correia), tipificável como "sedutor" - e a cuja volatilidade Adriana resiste. E como já mais nada tem a fazer nesta Lisboa de espaço circular, parte para o norte (há uma intriga "factual" que justifica a viagem: Adriana vai, literalmente, à procura da sua identidade, depois de os documentos lhe terem sido roubados à chegada ao aeroporto).
No "norte" (convém, apesar de tudo, não levar demasiado à letra a geografia) Adriana encontra um mundo mais ordenado, e também um tempo (um outro tempo) mais ordenado - na sinalização de uma espécie de aristocracia rural onde a genuinidade já se mostrou permeável à falsidade (a usurpadora de identidades já lá ocupou um lugar). Aí, muito próximos de um mundo de "sonho" (há um chauffeur que é um miúdo, apenas porque sim e sem que tal se questione), mais jogos de sedução, desta feita mais nitidamente comandados por Adriana (é sobretudo aqui que, como diz a realizadora na entrevista, a sua inocência se aproxima da "perversidade"). E uma grande cena erótica, ou, se calhar melhor, uma grande elipse erótica - com Adriana, o aristocrata (um José Airosa magnífico em "renitência") e uma imagem de S. Sebastião. Depois, o regresso à ilha.
Tudo isto, e é um filme que abunda em peripécias, se desenrola num tom de "comédia verbal" coerente e vigoroso, de onde não se exclui o sotaque açoreano impecavelmente mantido por Ana Moreira, principal marca da estranheza de Adriana. E mais, "Adriana" mantém uma narrativa capaz de encontrar um ponto justo (sempre, ou quase sempre) entre o que é da ordem dela (da narrativa) e o que já é um sinal da sua irrisão - como diz a realizadora, não se pode olhar para o filme "à letra", mas isso não quer dizer que a "letra" não seja fundamental. Em parte, isso explica a sua estrutura episódica, o vai e vem entre personagens (sobretudo na sequência lisboeta), a acumulação de pequenos elementos (quase como "apartes", visuais ou sonoros), o estranho balanço, nas sequências açoreanas, entre a autenticidade do lugar e a impressão artificiosa do que há de "representação" nesse lugar. "Adriana" é um filme entusiasmante, inesperado e arriscado, vale a pena aceitar o seu desafio.
Luís Miguel Oliveira in "O Público", 24.05.2005
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Sexo (im)possível
Moça casadoira procura homem para constituir família por métodos naturais. Podia ser este o título de ‘Adriana’, a película de Margarida Gil que arrebatou o prémio Tóbis para Melhor Filme Português, no recente IndieLisboa.
Sofia Canelas de Castro in "Correio da Manhã", 26.05.2005
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entrevista 1
"Adriana" tem "um olhar muito terno" sobre Portugal
Em "Adriana", que hoje
estreia, Margarida Gil conduz-nos por uma deambulação bem humorada pelo Portugal
profundo, ilhas incluídas
Margarida Gil (Covilhã, 1950),
cúmplice de João César Monteiro e realizadora da RTP (os primeiros programas de
Herman José tinham a sua assinatura, assim como muitos documentários), tem
também feito algumas incursões como cineasta.
Depois de "Relação Fiel e Verdadeira" (1989), "Rosa Negra" (1992) e "O Anjo da
Guarda" (1999), surge agora com uma comédia. "Adriana" (2004) é a sua quarta
longa-metragem, e também a mais surpreendente. O COMÉRCIO falou com ela sobre
este filme insólito.
- "Adriana" segue a estrutura dos contos tradicionais, é uma espécie de
demanda... Esta foi uma preocupação presente logo na escrita do argumento?
- Não. Por acaso, é a primeira vez que ouçoo isso. Falam-me muito em referências
todas muito eruditas - Nicholas Ray, Cukor...
- Também lá estão...
- ...E eu fico toda contente, não é? João CCésar Monteiro... "Alice no País das
Maravilhas" tem sido uma referência muito citada...
- Também...
- É tudo gente muito nobre. Eu só agradeço,, com muitas vénias. Mas, muito
modestamente, não havia nada à partida. É uma ideia original. Tanto quanto é
possível as ideias serem originais, porque são sempre fruto de coisas que nós
vamos absorvendo, lendo, assistindo, debatendo... Mas é muito interessante que
me diga isso, sabe? Gosto imenso. É a primeira vez que alguém me diz isso, e
ainda por cima é do Norte.
- Mas é realmente a mesma estrutura: uma personagem que sai do seu meio,
passa por uma série de peripécias e regressa sã e salva ao seu meio.
- Só pode, não é? É a primeira vez que alguuém me confronta com isso e não me
espanta nada que tenha razão. Mas nunca reflecti sobre isso.
- No meio de muitas referências cinéfilas e de alguns "cameos" de amigos e
cúmplices, o filme faz lembrar "Veredas" (1978), de João César Monteiro, também
com argumento de Maria Velho da Costa e no qual a Margarida Gil era actriz.
- Há uma cena em que há uma homenagem explíícita às "Veredas": o banho na
cascata. Aquilo é mesmo homenagem-homenagem.
- Mas, para além disso, este filme poderia ser um "Veredas" actualizado para
2005?
- Tem graça, também [risos]. Não sei, nuncaa pensei nisso. A Maria Velho da Costa
vai adorar quando lhe contar isto. Vai olhar para mim, muito séria: "Ah, que
giro! Não tinha pensado...". Mas talvez pela estrutura deambulatória, da
personagem que anda um pouco à deriva, é possível.
- Acha que é fácil para o espectador comum entrar nesta lógica de "Alice no
País das Maravilhas" e ultrapassar algumas incoerências que poderão surgir se
não nos abstrairmos do registo realista?
- Uma comédia não pode ser vista como um reegisto de burocratas, não é?, nesse
sentido literal, se não nenhuma comédia se aguenta. As pessoas percebem logo o
registo do filme. Eu acho que, a partir do momento em que a Srª Mariana, a
empregada do D. Edmundo, diz "Ai meu senhor! Espelho partido são sete anos de
castigo!", as pessoas percebem que aquilo não é propriamente um melodrama e
passa logo para um registo de comédia. Agora não é "O Pátio das Cantigas"... Não
tenho nada contra, mas não é propriamente esse o registo pretendido. É mais o do
sorriso.
- O filme também é muito cáustico em relação ao Portugal de hoje.
- Não! Eu acho que é um olhar muito terno, não acho que seja muito cáustico...
Por acaso, não acho nada! As coisas são como são, há uma certa veracidade, não
é? Mas é como diz a falsária-mor: "É tudo falso, mas falso do melhor que há!".
Portanto, há uma selecção. Mas acho que é muito bondoso.
- Pode falar-se de algum feminismo em relação ao processo criativo deste
filme e ao próprio argumento?
- Acho que não. Não sei o que é que entendee por feminismo...
- As personagens masculinas, à excepção do pai, são todas muito frouxas... É
um filme de mulheres, praticamente.
- [risos] As figuras dos homens... Todos, ddesde o pai. Todos os homens dos
Açores são míticos, são fortíssimos... Aliás, são baleeiros. Excepto o D.
Edmundo, que aliás é um sonoplasta. Não são actores profissionais. Mas são
homens que são de uma nobreza extraordinária, não é? Dançam, no final, portanto
há uma força muito erótica.
- Mas há um contraste entre a virilidade e o desejo latente, na ilha, e uma
certa impotência, no continente. Aliás, a Adriana regressa à ilha virgem como
veio.
- É um bocado verdade. Mas acabava logo o ffilme, se a coisa se resolvesse... Tem
de haver desencontros. Há uma procura, mas a ilha resolve a coisa. A ilha é uma
mulher erotizada. É rochinha, mesmo. É por isso que, de facto, aquela grávida do
final é grávida bem grávida. Não é do Espírito Santo, não é? Portanto, a ilha
respira sensualidade e erotismo.
- Quanto tempo é que durou a rodagem?
- Seis semanas e um dia. Até nas viagens fiilmámos. Foi duríssimo! Não havia
muito dinheiro e, por isso, foi precisa uma grande cumplicidade. Cumplicidade
que eu acho fundamental com o produtor (José Mazeda), com o director de
fotografia (Rui Poças, que foi fundamental neste filme) e, depois, com aqueles
actores.
- A Ana Moreira...
- Eu, a partir do momento em que tive a Anaa, suspirei.
- Já estava a pensar mesmo nela?
- Quando escrevi, não estava a pensar em niinguém. Depois, poderíamos escolher
todas as Adrianas diferentes que quiséssemos. Mas a Ana parece-me uma Adriana
fascinante. Adorei trabalhar com ela.
- Essa vontade de trabalhar com a Ana Moreira já tinha surgido quando viu
algum filme com ela?
- Ah, eu acho-a absolutamente genial, mas mmesmo! Estou a falar a sério, sem
medir a palavra. Vi-a n´"Os Mutantes", da Teresa Villaverde, e no "Venus Velvet",
e eu acho que ela é assim uma força da natureza que apareceu no cinema, como a
Isabel Ruth, como a Isabel de Castro... Há assim umas pessoas que aparecem no
cinema, vindas não se sabe donde, umas ninfas, e que vivem para o cinema, para a
câmara, e a Ana é um caso desses. Extraordinária! É uma pessoa pela qual eu
fiquei com uma admiração sem limites, muito sinceramente.
Adriana no país dos falsários
Em "Adriana", Ana Moreira é uma adolescente açoriana enviada pelo severo pai ao
Continente, para "constituir família por métodos naturais". Aqui chegada, é
roubada logo no aeroporto e a sua missão transforma-se em deambulação.
Em Lisboa, conhece uma hortaliceira que fuma cachimbo, o seu filho
travesti-Amália e um pigmaleão que a ensina a falar à lisboeta mas não chega a
instruí-la nos prazeres do sexo tântrico. Em "Adriana", as coisas parece que não
fazem sentido, mas fazem. Está lá o Portugal do momento, todo: "falso, mas falso
do melhor que há".
Rodrigo Affreixo in "O Comércio do Porto", 26.05.2005
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entrevista 2
Margarida Gil cineasta e professora
"A brincar às coisas sérias fiz uma comédia
com alçapões"
Adriana
surpreende pela novidade dos registos de fábula e de farsa, depois de filmes
realistas e dramáticos...
Só tenho realmente dois trabalhos, em vídeo, que são pouco naturalistas, estão
perto da fábula uma encomenda da RTP, Daisy - Um Filme para Fernando Pessoa,
texto de José Sasportes; e uma outra da Lisboa'94, A Luz Incerta, a
partir d'A Hora do Diabo de Pessoa. Não é que desemboquem aqui, mas está
lá o desenho, meio fantasista, imaginoso, quase de conto infantil. Sempre me
puxou um pouco para aí, ainda que o tom dos meus outros filmes seja sombrio, às
vezes tenebroso, melodramático. Isso não deixou de me interessar, mas fui capaz
de brincar com muita liberdade às coisas sérias, tal como as crianças.
Assim era puxado o fio de A(d)riana?
Sim, é a iniciação duma rapariga vinda dum mundo mítico, também o mundo
autoritário do pai, para um mundo prosaico que é o do continente, o Portugal de
hoje. Ela lança o olhar da inocência sobre o universo profano da cidade
[Lisboa], atravessa um mundo de contradição entre a verdade e a falsidade, o
original e a cópia...
O movimento dialéctico dela evolui noutras oposições ilhas/continente,
fertilidade/esterilidade, moral/amoral.
Sim, sagrado/profano, a carne/o Espírito Santo, etc., coisas com que já me tinha
metido, mas de forma muito irónica e quase simbólica.
A iniciação de Adriana replica a de Margarida Gil em Veredas (1977),
de João César Monteiro/Maria Velho da Costa, trajectória sinuosa de Norte para
Sul, em contexto de lendas e tradições, também com um ritual de fertilidade,
além do banho, sendo-lhe até, de caminho, cortada a longa cabeleira?
Não foi consciente. Aqui o ritual está já contaminado pelo turismo que se
desenvolve como um carcinoma na sociedade moderna aliás, a equipa de televisão
está lá para registar com um olhar turístico, o olhar que mata aquilo. Há uma
homenagem explícita, o banho na cascata é mesmo citação. O meu corte de cabelo
na passagem de Norte para Sul, em Veredas, foi também iniciático, nem me
lembrava... A forma como trabalhava nos filmes do João [César Monteiro] era tão
simbiótica que me saía tudo do pêlo.
E apesar de, nos filmes próprios, a Maria Velho da Costa participar, só neste
há emergência verbal do tom farsesco, notória e desconcertante. Porquê?
Este filme nasceu no final da rodagem do Anjo da Guarda, num tempo
atribulado de grandes lutos os meus pais, o meu irmão, o João César, amigos...
Anos terríveis, de tragédia em tragédia e, de repente, passaram a sair-me só
coisas cómicas, ria-me o tempo todo, comecei a achar que estava doente da
cabeça, mas disseram-me que alguns criadores trabalham em comédia nos momentos
mais terríveis. Este guião, com várias demãos, foi aquele em que mais trabalhei,
estava pronto quando a Maria Velho da Costa entrou no processo, com todo o seu
peso nos diálogos, sim, mas as situações já lá estavam todas, o registo cómico
também, o "constituir família por métodos naturais", frase-ponto-de-partida a
dar o rumo e o tom à trajectória da protagonista.
Seria como um exorcismo, uma atitude de defesa, de sobrevivente?
Instinto de sobrevivência, talvez, não sei explicar. Mas fez-me espécie, achava
extravagante a facilidade com que me saíam aquelas coisas cómicas...
Quem inventou a pássara falante?
Fui eu que pensei na Lola, personagem falante que veio do casting. A
única que não fala é a Joana de Deus, a Cláudia Teixeira que foi Joaninha n'A
Comédia de Deus, mais uma piscadela de olho, claro.
Porquê essa excepção na fala?
Ela devolve a linguagem pelo gesto dos surdos-mudos e a música de Schubert
porque não pode falar, se calhar está morta, é doutro mundo. Por que ancora o
filme nos Açores?
Porque é tudo quanto há de mais parecido com a serra da Estrela, o meu Monument
Valley. Andava com a mania dos Açores há anos, escrevi o guião sem alguma vez lá
ter ido, sabia que ia encontrar certas coisas e encontrei. Antes, quando o dei a
ler ao meu amigo José Medeiros, ele disse-me que havia na Graciosa umas coisas
assim... Também no Pico encontrei coisas que tinha descrito... É espantoso como
a paisagem natural de origem nos marca tanto fui guiada pela intuição, que é
extraordinária, embora não possa competir com a realidade, muito mais
interessante.
E o sotaque? Ana Moreira é açoriana?
Não, faz de conta. Trabalhámos com apoio duma técnica de voz e dum actor, fez-se
uma transcrição e ela trabalhou. É uma pessoa extraordinária, tem grande
capacidade de trabalho. A estranheza que causa, a falar, era fundamental as
pessoas pensarem que não percebiam percebendo é muito a atitude do falante em
relação aos desvios da norma-padrão. Sobretudo vindo ela de Rabo de Peixe, uma
aldeia de pescadores, um gueto a todos os níveis e portanto linguístico, que
leva ao extremo o falar de São Miguel, não sei se não é também uma forma de se
fechar ainda mais ao exterior, como defesa. Era importante essa fala num filme
de desvios.
Desvios de quê ou em relação a quê?
À norma imposta pelo pai e por um problema do pai. Ele é a Ordem. Ele ordena,
Adriana obedece. Manda-a ao encontro de alguém que lhe faça um filho e ela está
disponível para fazer o filho com quem apareça, só que não há quem lho faça.
Os métodos naturais, proibidos na ilha, estão mesmo em baixa no continente?
Será falta de jeito dela ou deles. Na comédia, ela tem de continuar em frente,
mas só lhe saem duques.
Além do aristocrata, que não me lembro se é duque mas parece impotente,
tinha-lhe saído o travesti e o tipo do sexo tântrico. Grande crise. Que saída?
A Adriana poderá esperar a vez dela, a ilha encontrou uma solução.
E por métodos naturais, ao que parece.
Não sabemos. Terá sido o Espírito Santo? Não terá? Certo é que uma mulher da
ilha engravidou, resolveu o assunto, quebrou a maldição. E aquela ilha é muito
erotizada, é prometedor o regresso de Manuel, vindo da América. Há uma certa
crença minha no mundo pagão, do deus Pã. Na natureza. Como diz a personagem de
Isabel Ruth, "dá um jeito que a natureza faz o resto", uma frase que ouvi a
Sophia de Mello Breyner. É a crença na imanência das coisas a ilha contém a
possibilidade de se resolver, de se continuar. Acho que isto vem comigo, nos
filmes, desde Relação Fiel e Verdadeira, porque está no meu percurso. Há,
de resto, um diálogo inconsciente entre os dois filmes. Embora aquele seja muito
sofrido, tenebroso, romântico, pesado, tem uma possibilidade de luz, a grande
tenacidade e resistência duma miúda de 17 anos, a Catarina Alves Costa, nem
sequer actriz. Se não o tivesse feito, não poderia fazer Adriana, sou um
e outro, estou entre os dois, num jogo arriscado. Afinal, trabalho sempre do
lado inconsciente, sonâmbulo, na corda bamba sobre uma água profunda e
tumultuosa, como a menina a passar a ponte no Anjo da Guarda. Arrisco mas
levo tempo a perceber o quê e falta muito para perceber agora o que é deixar uma
pele para trás. E nem tudo é leve aqui, esta é uma comédia com alçapões.
A Adriana, se lá cai, não se magoa...
Sem deixar por isso de passar por situações violentas, mas é assim a comédia e
gostei muito de trazer a actriz da tragédia para o sorriso, na imagem oposta à
d'Os Mutantes.
Também o Bruno Bravo, um actor e encenador sério, em travesti de Amália
Rodrigues, não é?
Pois, gosto disso, de ver as imagens feitas com um olhar distante... de quem vem
de longe, lá da Serra da Esrela. Preciso de recuar, de dar uma volta ao bilhar
grande e tornar a olhar doutra maneira.
Elisabete França in "Diário de Noticias", 26.05.2005

ainda sobre "Adriana"
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