Rui e Paula não era um caso de dupla personalidade mas realmente duas facetas de uma mesma pessoa. Rui nunca ignorou Paula e vice-versa, Rui se aproveitava das vivências de Paula e vice-versa. No entanto Rui e Paula não se misturavam. Rui enquanto homem nunca desejou outro homem. Paula, enquanto mulher, nunca teve desejo pela Patrícia ou outra mulher. A única exceção foi a transa com a menina da festa na casa do Nô, quando da cintura para baixo era Paula, da cintura para cima Rui. Um momento decisivo, talvez.
Meses depois Rui encontrou uma namorada e vale à pena contar como foi isso. Entre os amigos da universidade havia uma menina chamada Carolina que não era exatamente de se fechar o comércio, mas que era bonitinha e inteligente. Rui percebeu que quando Carolina falava com ele os seus olhinhos brilhavam. Além disso Carolina tocava violão e Rui adorava vê-la tocar e cantar.
Visto o vivido por Paula Rui tinha muitas dúvidas, entre outras se tudo funcionava direitinho depois de passar tanto tempo amassado. Foi nessa época que Rui aprendeu a se masturbar “normalmente”, para ver como era e se tudo funcionava ainda. Tudo parecia estar em ordem. Em alguns meses os pelos tinham voltado, Rui tinha cortado os cabelos para a alegria dos pais.
Um domingo Rui foi à casa de Carolina ouvi-la tocar piano. Chegando lá encontrou um outro sujeito que Rui já tinha percebido que não largava da menina. Na sua insegurança Rui se disse que não tinha chances, que ela já tinha encontrado alguém, mas ficou lá ouvindo ela cantar. Além disso o sujeito tocava violão também, Rui não tocava nenhum instrumento de música, era deprimente. Não sei porque cargas d'água o sujeito foi embora mais cedo, Rui ficou às sós com Carolina. Ela tocou mais um pouco, tentou lhe ensinar alguma coisa e Rui também já ia embora achando que não tinha nenhuma chance. Na hora de se despedir Carolina lhe deu um beijo na boca o que liberou toda a vontade do Rui em tê-la entre os seus braços, e eles começaram a namorar. É curiosa a semelhança com o início do namoro de Paula com o Nô ou da Patrícia com o Mário. Pelo menos naquela época os rapazes arrotavam mundos e fundos, mas eram as meninas que tomavam a iniciativa de fato.
Algo muito impressionante era o que as famílias faziam com as meninas naquela época. Carolina ainda era virgem e, mesmo sabendo como deveria fazer para convencê-la graças à experiência de Paula, Rui levou uns seis meses para conseguir penetrá-la. Além de todo o drama em torno da virgindade e da gravidez a pobre menina morria de medo, tinham lhe enfiado na cabeça de que era muito dolorida a primeira vez. Para se ter uma idéia de como as meninas eram travadas naquela época, culpa provavelmente de loucuras de tias velhas e solteironas.
Rui teve algumas namoradas antes de se casar e todas lhe admiravam a capacidade em comprar roupas para elas. Inclusive uma dessas namoradas, muito ciumenta, encanou que Rui ia às compras com alguma outra menina, afinal não era normal um homem ter tanta sensibilidade. As roupas caiam como luvas e acentuavam exatamente o que elas tinham de mais belas. Certamente era Paula quem aconselhava Rui nessas compras, creio que Paula se projetava no corpo delas e comprava as roupas para ela. Por essa razão sempre dava certo.
Esse dom de Rui acabou definindo o seu futuro profissional. Formado em Matemática e ganhando uma miséria como professor do segundo grau, um dia Rui começou a fazer roupas graças a um amigo metido a artista que se lançava nisso. As roupas que Rui fazia para as namoradas caiam tão bem que logo Rui começou a ter algum sucesso. Ele percebeu que esta seria uma maneira de fazer coerente a sua vida e foi fundo. Juntou o que lhe restava de economias e foi para a Europa fazer um curso de estilista. Graças à sua sensibilidade Rui teve algum sucesso, acabou sendo empregado por uma grife famosa e acabou ficando, passando a viver corretamente com um bom salário. Enquanto Paula se expressava nas roupas Rui se aproveitava das modelos, foi assim que Rui acabou encontrando a mãe de seus filhos. Ela é uma linda modelo brasileira vinda de Salvador, por essa razão o vínculo foi mais forte. Dois brasileiros perdidos no exterior, deu no que deu.
Rui nunca contou essa História a nenhuma de suas namoradas, menos ainda à sua esposa. Rui sabia o bastante por Paula de que o pior que uma mulher pode saber sobre o seu homem é que ele é bicha. Nunca ele imaginou que uma mulher pudesse ser compreensível o bastante, mesmo sabendo de que não é exatamente o caso dele. Rui é um homem normal, apenas coabita no mesmo corpo e alma com uma mulher chamada Paula. Mas vai explicar isso, na dúvida sempre ele achou evitar.
Rui voltou raramente à São Paulo mas até hoje guardou contato com a Patrícia e o Mário, que acabaram se casando, tendo vários filhos e são até hoje muito felizes. Mesmo morando fora Patrícia fez questão de que Rui/Paula fossem padrinho/madrinha do primeiro filho deles. Essa é a grande piada que fazemos até hoje, ela sempre me diz que nunca sabe se eu sou o padrinho ou a madrinha do seu filho. Evidentemente ela é a única pessoa do planeta que eu admito brincar assim comigo.
Pela Patrícia e Mário fui sabendo dos outros amigos dessa época. Zeca é um ótimo analista de sistemas e ganha muito dinheiro, Gil virou economista e se meteu em instituições do governo, parece que se deu bem. Todos se casaram e tiveram filhos. Quanto ao Norberto, o que eu soube é que ele foi para o interior, para a região de Ribeirão Preto e abriu um negócio de motocicletas, parece ter dado certo. Fico feliz de saber que ele também se casou e teve filhos. Na verdade não gostaria nunca de cruzá-lo na rua, prefiro guardar para sempre a imagem daquela época, em que ele foi o primeiro namorado de Paula.
Durante muito tempo Paula ressurgiu ainda algumas vezes entre quatro paredes. Vista a profissão de Rui havia uma certa facilidade em se providenciar roupas para Paula. Em algumas épocas em que Rui estava sozinho Paula reaparecia durante a noite, mas era muito frustrante. Era muito gostoso voltar a se montar e passar uma noite normalmente em casa como Paula, mas sozinha o prazer não era o mesmo de antes. Por outro lado Paula já não tinha mais o mesmo corpinho ambíguo de adolescente e o resultado já não era tão bom, pelo menos para permitir de sair na rua sem chamar atenção. Por essa razão Paula foi deixando de se manifestar materialmente, embora nunca tenha deixado de existir.