Os dias foram passando e o final das férias chegando. Comecei a me preocupar, como faríamos para nos despedir, sobretudo como faríamos para nos ver depois? O Nô não falava nada mas acho que ele pensava na mesma coisa, aquilo começou a me irritar. Um dia invoquei o assunto de leve, ele apenas me disse para eu não me preocupar, que ele já tinha resolvido tudo. Fiquei tentando imaginar em que ele pensava, não tinha a menor idéia. Até que ele me falou do seu plano, ele morava numa casa enorme quase vazia, bastaria eu me mudar para lá!
Pensei comigo mesma que ele tinha pirado de vez. Era verdade que a casa dele era enorme, dessas mansões no Alto de Pinheiros, e que quase nunca eu via seus pais ou sua irmã na casa dele. Soube depois que os pais do Nô estavam se separando a anos, quer dizer, cada um para um lado, e que a sua irmã tinha arrumado um namorado e nem voltava muito em casa. Aliás comecei a compreender um pouco o Nô, do porquê de sua violência, porque ele ia tão mal nos estudos, na verdade ele era muito rico mas abandonado. Quem cuidava da casa era dona Neusa, uma empregada de cria já de idade que era a segunda mãe dele e de sua irmã e que morava também na casa. Do meu lado éramos bem mais modestos e ao mesmo tempo meu apto nunca estava vazio, sempre tinha alguém em casa e isso sempre foi uma dificuldade nas experiências de Paula no início.
O plano de Nô não tinha pé nem cabeça, conclui que deveria me virar sozinha. A solução foi no final das férias eu dar uma desculpa esfarrapada ao Nô na hora de sair para a praia, dizendo que ficaria em casa arrumando as malas. Quando ele saiu corri para arrumar tudo, voltei à minha roupa de sapo e caí fora rezando para o Nô não me ver daquele jeito. Eu já tinha escrito um bilhete para ele no qual dizia “Nô, meu amor, me perdoa mas o teu plano não daria certo. Eu não posso abandonar a escola, mesmo se pudesse meus pais não dariam sossego até me encontrar. Prefiro assim, fica mais simples. Eu te ligo, ou se quiser telefone em casa e peça ao meu irmão gêmeo, o Rui, de me chamar. Se der eu atendo, se não der te ligo mais tarde de volta. Tudo vai dar certo, vamos voltar a nos ver, não teria mais como viver sem os teus carinhos. Toda tua, Paula.” Inútil dizer que Rui era o meu nome de sapo.
No dia seguinte ao que o Nô estaria de volta fui atrás de um orelhão mais isolado e liguei para o Nô. Ficamos horas naquele telefonema, parecia que estávamos a 600 Km um do outro, no entanto mal havia uma quadra de distância entre nós. Passei a telefonar todos os dias, eu comprava um monte de fichas de telefone e ficávamos conversando, mas eu não via como seria possível Paula reaparecer. Paula sair de casa seria impossível, mesmo se não tivesse ninguém em casa eu morava num prédio de apartamentos com vizinhos, zelador, porteiro, etc. Fora que mesmo se eu pudesse sair quando não houvesse ninguém em casa, nunca teria como saber para a volta. Falei do problema, ele me disse para não me preocupar que ele já estava resolvendo tudo. Para variar tive de esperar para saber qual era o seu plano, mas desta vez era algo muito legal mesmo.
Quando foi chegando o final de semana Nô me disse de “pedir ao Rui” de vir na casa dele sábado à noite, como sempre fazíamos antes com os outros amigos, que assim que fosse possível ele diria ao Rui de vir me chamar. Achei aquilo curioso mas fui. Salvo pelo Mário que não estava, tinha ido se encontrar com a Patrícia, estavam todos os outros de sempre. Nem os pais nem a irmã do Nô estavam em casa, foi uma noite comum como passávamos naquela época pelo menos até o momento de irmos embora. Nessa hora Nô disse-me, Rui, espera um pouco porque tenho um exercício de matemática que tenho de resolver, eu queria que você me dê uma mão. Êta desculpa esfarrapada, os outros dois acharam aquilo muito estranho também mas ficou por isso mesmo, foram embora. Fiquei com medo do que tipo de coisa que o Nô iria tentar, ou eu era Paula ou eu era Rui, não queria misturar as bolas.