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direto do planalto
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| Brasília, julho de 2002 É claro — tinha que sobrar pra mim! Quando o Ronaldo fez o gol do Penta e deixou o Kahn de quatro, comecei a fazer as contas: 7 mil 427 cafés com adoçante; 3 mil 259 cafés com açúcar; 722 cafés amargos; 4 mil águas com gás; trocentas mil águas naturais. Um trabalho pra 50 garçons — mas ia sobrar pra Ninguém. (Caso você ainda não saiba, Ninguém sou eu — garçom oficial do Planalto desde o período Sarney.) Pois é: assim que aquele juiz horroroso deu o apito final, um maluco soltou um rojão bem no meio do corredor do Palácio. Foi uma barulhada da porra, um verdadeiro Afeganistão brasiliense. Eu sou garçom, mas em momentos como esse cabe a mim, também, advertir a criadagem. E foi o que eu fiz: — Quem é o filodaputa que tá soltando rojão aqui? No final do corredor apareceu um sujeito usando sapatos italianos, calça social finíssima e a camisa número 9 da seleção. Na mão direita a prova do crime: um rojão recém-explodido. Eu já ia lhe passar outra descompostura, mas ele foi mais rápido: — Somos Penta, Ninguém! Eu tô comemorando. Cacêta!, era o seu Fernando em pessoa! E eu chamei o homem de filodaputa... — Com todo direito, Excelência — consertei — Quer mais rojão? — Quero você no meu gabinete agora! — ele ordenou. Fiquei desesperado: ele ia me mandar embora logo no dia do Penta, só por causa de um palavrãozinho... — Seu Fernando, foi sem querer. Eu não sabia que era o senhor. — Do que é que você tá falando? — Do palavrão. — Que palavrão? — Aquele que insultou a vossa digníssima e mui distinta senhora sua progenitora. — O Brasil inteiro falou palavrão hoje, Ninguém. Até eu soltei os meus. Ufff! Nada como ser devoto de São Toninho, o padroeiro dos garçons. A minha pele tava salva. Pelo menos por enquanto. No gabinete, FHC voltou a ser o mesmo de antes: presidente. Impossível imaginar que esse homem estivera há pouco soltando rojão pelos corredores. — O senhor quer tomar alguma coisa? — perguntei. — Um uisquinho pra relaxar? O presidente abriu aquele sorriso: — Uísque, Ninguém? Tenha a santa paciência! Se eu fosse escocês, vá lá. Mas hoje é dia de Brasil. Eu tomaria é uma cachaça! — Purinha? — Com limão. — Vou buscar! — Depois, Ninguém, depois. Agora tenho uma coisa importante pra falar. — Se é sobre a cerimônia de recepção, já fiz a contabilidade das águas e dos cafezes. Tá tudo contadinho na minha cabeça. — É sobre isso mesmo: no dia da recepção não quero ver a sua cara por aqui! — Tá me demitindo, seu Fernando? — Tô te dando uma folga, Ninguém. Pra você comemorar com o povo...
Eu tenho bem uns 16 anos de Planalto — mas nunca vi tanta gente assim: é um mar de cabeça e bandeira e camisa amarela que Deusolivre! A seleção demorou umas 5 horas pra chegar aqui. Com razão: depois de passar a Copa inteira na maior secura de mulher, tinha mais é que engatar na rabeira da Ivete Sangalo. E os organizadores ainda queriam que eles viessem no caminhão do corpo de bombeiros! A seleção queria mais é que o trio elétrico pegasse fogo...
Eu tava logo atrás do presidente quando começou a sessão de abraçamento dos Penta. Ninguém viu, mas eu tava lá. Quando ele recebeu a taça do Cafu, eu também tava bem pertinho. Quando o presidente ergueu a Copa, aliás, quem é que tava lá atrás escorando o homem pra ele não cair? Eu! Mas nenhum fotógrafo teve a sutileza de registrar o meu esforço. O ponto alto da festa, porém, foi a cambalhota do Vampeta: ele foi lá, rolou pela rampa e todo mundo aplaudiu. Não é do meu feitio, mas eu, mordido de inveja, fui lá e fiz a mesma coisa, só que com mais arte e requinte — afinal, conheço a rampa melhor do que o próprio presidente. O Vampeta, dizem, quebrou o protocolo e saiu até no Jornal Nacional. Eu quase quebrei o pescoço, que é algo infinitamente mais importante que o protocolo — mas não saí em jornal nenhum. C'est la vie. |