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direto do planalto
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| Brasília, junho de 2002 Águas, cafezes, cafezes, águas. Dezenas. Centenas de vezes por dia. Isso enche o meu saco. Entro num gabinete, noutro, noutro, noutro. Vejo coisas que até o cão duvida. Também, os homens vivem ali. A família de cada um em seu estado e et cetera. É normal então encontrar camas improvisadas no interior dos gabinetes. Mas dorme-se muito pouco no Planalto, devo acrescentar — e as camas têm mileuma utilidades. Que o digam as secretárias e assessoras e outras mais.
Dia desses mesmo peguei um ministro despachando em seu gabinete — só de cuecas e meias. A sua assessora tava peladinha de dar gosto. É o calor. Quem conhece o clima de Brasília sabe do que eu tô falando. — Água? — ofereci. O ministro, meio constrangido, falou: — Água, sim. E Viagra também. A assessora dele não quis nada — mesmo porque o que ela queria era milagre, e santo eu não sou faz tempo. Vez ou outra também apanho gente de outros escalões em situações embaraçosas. Semana passada flagrei dois graúdos barbudos engalfinhados no gabinete. Pensei logo que era briga — mas era beijo. Fazer o quê? Em quinze anos de casa aprendi uma coisa muito importante: o que se ouve aqui, o que se vê aqui, morre aqui. Por isso é que eles não se assustam com os meus flagrantes. Eles fazem, eu vejo e fica tudo por isso mesmo. Não é à toa que o meu nome é Ninguém. Por essas e outras é que acabo privando tanto da amizade do presidente. Ele confia em mim — e sabe que sou formado, freqüentei academia, conheço geografia e sei até multiplicar. Mas é justamente por causa disso que ele abusa. Olha só a conversa de cerca frango que tivemos outro dia: — O que é que você acha que é a política, Ninguém?
Não respondi de pronto: a minha resposta não seria a que ele gostaria de ouvir. Cozinhei o galo, fiz que pensei e então disse: — Política é a fina arte que o senhor exerce como nenhum outro! Pela cara que fez, o homem gostou. E foi em frente: — O que você faria, por exemplo, com os Sem-terra? Aí nesse momento o Cidadão Ninguém baixou em mim e eu não pude mais me conter: — Daria terra pra eles! — E o salário mínimo? — Aumentaria, ué! — Faria a distribuição de renda? — Total! — Como trataria a corrupção? — Com o devido rigor! — Saúde, Educação, Moradia. Como é que você desataria esse nó? — Simples: dava uma bica no FMI e colocaria o dinheiro nessas áreas aí! O presidente riu de ficar roxo. Eu fiquei vexado. — O senhor perguntou, eu respondi... Já sentado em sua cadeira alta, o presidente falou: — Você entende tudo de povo, Ninguém... Quando o meu peito começou a se encher de orgulho, o presidente desferiu o coice final: — ...mas como político seria uma bosta! (Isso aí em cima foi o que ele disse, tintim por tintim. Mas eu, como manda o bom senso, não ouvi. E nem você.) |