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direto do planalto 01


Brasília, 13 de junho de 2002

O povo por aqui tá ficando besta. De novo. E é sempre assim: basta o Zé Serra subir um degrau nas pesquisas e a tucanaiada faz a festa. Parece até final de Copa. Deusolivre!

E eu, ó, eu aqui é que me lasco. Ontem à noite se juntaram o presidente, o Zé Serra e o Nizan. Cada um com um sorriso que nem cabia na boca. Era uma comemoração particular lá deles.

Pediram café e água com gás. Larguei o meu Financial Times e levei. Servi os três, dei meia volta e caí fora. Quer dizer, tentei.

— Você fica, Ninguém — falou o presidente. — Senta aí e ouve a conversa.

Coloquei a bandeja numa mesinha de canto e me sentei na poltrona das visitas.

— Hoje você pode sentar aqui com a gente — falou o Nizan.

Eu olhei imediatamente pro presidente. Ele concordou. O Serra torceu um pouco a boca, mas isso é típico dele. Tá sempre contrariado, mesmo quando tá feliz. Quando chamaram a dona Camata pra vice, o Serra resmungou:

— Só aceito por causa do partido. Pra mim, não teria nem vice.

Ficaram lá conversando o presidente e o Nizan. O Serra tava longe, pensando lá nos mosquitos dele. E eu com eles, mas silencioso na minha cadeira. Vez ou outra o presidente pedia mais água; eu servia. Vez ou outra o Nizan pedia café; eu servia. E voltava pra cadeira.

Foram três horas de patifaria política, estratégia, o caralho a quatro. Uma conversa suja de arrepiar porco espinho. Mas tudo em nome da "manutenção da estabilidade e do estado democrático". Uma porra, isso sim.

— Senhores — falou o presidente. — Creio que a reunião acabou por hoje.

Zé Serra voltou da Sibéria e enfim se manifestou:

— Vocês falaram um monte mas eu não entendi bosta nenhuma. O que é que eu faço?

— Segue as ordens do Nizan, tintim por tintim e sem trololó! — sentenciou o presidente.

Serra olhou atravessado para o marqueteiro mas não falou nada. Deu até dó.

— E eu, o que é que eu faço? — perguntei.

— Fica aí que eu ainda quero falar com você — respondeu o presidente.

FHC levou os dois até a porta e se despediu. Depois voltou-se pra mim:

— Você entendeu o que a gente falou aqui hoje?

— Entendi.

— E o que é que a gente falou?

Limpei a garganta, arrumei bem as palavras na língua e disparei:

— Vocês estão pensando no bem-estar do país. Às vezes é preciso agir com austeridade pras coisas não virarem baderna. O panorama econômico internacional não permite aventuras e nem aventureiros. Os compromissos assumidos devem ser cumpridos, custe o que custar. A democracia exige sacrifícios, e é por isso que entendo e apoio as decisões do governo. Na minha opinião, os métodos empregados para garantir a governabilidade nem sempre são transparentes, nem devem ser, mas isso pouco importa: os fins justificam os meios.

O presidente sorriu satisfeito (e surpreso!) e me dispensou.

Saí do gabinete equilibrando a bandeja e os pensamentos. Se ele soubesse o que realmente passa pela minha cabeça...

próxima!

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