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direto do planalto
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| Brasília, agosto de 2002 Eu tava ali na copa, tranquilão, lendo o meu New York Times quando o presidente requisitou os meus préstimos profissionais. — O que é que o senhor deseja, Excelência? Café, água... — Eu quero você, Ninguém. E já! A sua voz não admitia contestações. Em dois segundos tava lá eu, materializado no gabinete do homem. — Às ordens! Fernando Henrique tava visivelmente preocupado. Alguma coisa tava aporrinhando as idéias lá dele. Depois de dar voltas e mais voltas pelo gabinete, ele se sentou e perguntou: — Você tem idéia do que é ser presidente? Fui objetivo: — Vagamente. Quer dizer, tenho. — Pois então — continuou ele —, deve saber que muitas são as responsabilidades. Sou muito cobrado pela Nação e às vezes fico meio perdido. Meio perdido? Completamente perdido, eu diria. Mas não disse. — E o que é que eu posso fazer para ajudá-lo? — perguntei. O homem ficou sem graça, corou até. Depois, mais tranqüilo, abriu o jogo: — Quero que você me arrume um pai-de-santo... — Isso é fácil! — Mas olha, veja bem: não quero o pai-de-santo vestido como pai-de-santo. Ia chamar a atenção de todo mundo por aqui e acabaria por me desmoralizar. — E o senhor quer o pai-de-santo vestido do quê? — Sei lá! Inventa um jeito de trazer o homem aqui — mas discretamente.
Achar o pai-de-santo até que foi fácil. Difícil foi convencê-lo a se vestir como homem. O sujeito queria ir para o Planalto à la Carmem Miranda, veja só! — Sem chance — retruquei. — Então eu não vou! — falou o cara. — Mas é uma consulta exclusiva para o Presidente da República! Imagina isso no seu currículo... Os olhos do pai-de-santo brilharam e em menos de dez minutos ele já tava enfiado num vistoso Armani.
— Seu Fernando, táqui o homem. É o Pai Tabajara da Pemba Grossa. Tarólogo, buziólogo, cartomante e Carmem Miranda nas horas vagas. — Também leio mão em sueco e dinamarquês — completou o pai-de-santo. O presidente ficou satisfeito e me dispensou.
Dez minutos depois o Pemba Grossa deixou o gabinete. Feliz da vida e soltando rojão pelos olhos. O presidente tornou a me chamar. — Pois não, Excelência! — Belo picareta o senhor me arrumou, hein!? — Ele tentou passar a perna no senhor? — Tentou. Mas se deu mal. — Ele esclareceu, pelo menos, as suas dúvidas? — Mais ou menos. Mas o saldo do nosso encontro foi positivo. — Mas então o senhor tá reclamando do quê? O presidente abriu um sorriso. — Não tô reclamando — esclareceu ele. — Tô é muito contente. — Agora é que eu não tô entendendo mais nada... — Você me trouxe aqui um petista roxo, daqueles empedernidos. Consegui convencê-lo a votar na gente!!! E eu pensando que o pai-de-santo é que ia passar a perna no presidente... — E como é que o senhor conseguiu esse milagre? O presidente ajeitou a gravata, abriu outro sorriso e falou com a maior naturalidade do mundo: — Fiz ele acreditar na força do nosso candidato. — Mostrou as propostas do seu Zé Serra? — Não. Dei 50 mil pro Pemba Grossa...
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