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direto do planalto 04


Brasília, agosto de 2002


Eu tava ali na copa, tranquilão, lendo o meu New York Times quando o presidente requisitou os meus préstimos profissionais.

— O que é que o senhor deseja, Excelência? Café, água...

— Eu quero você, Ninguém. E já!

A sua voz não admitia contestações. Em dois segundos tava lá eu, materializado no gabinete do homem.

— Às ordens!

Fernando Henrique tava visivelmente preocupado. Alguma coisa tava aporrinhando as idéias lá dele.

Depois de dar voltas e mais voltas pelo gabinete, ele se sentou e perguntou:

— Você tem idéia do que é ser presidente?

Fui objetivo:

— Vagamente. Quer dizer, tenho.

— Pois então — continuou ele —, deve saber que muitas são as responsabilidades. Sou muito cobrado pela Nação e às vezes fico meio perdido.

Meio perdido? Completamente perdido, eu diria. Mas não disse.

— E o que é que eu posso fazer para ajudá-lo? — perguntei. O homem ficou sem graça, corou até. Depois, mais tranqüilo, abriu o jogo:

— Quero que você me arrume um pai-de-santo...

— Isso é fácil!

— Mas olha, veja bem: não quero o pai-de-santo vestido como pai-de-santo. Ia chamar a atenção de todo mundo por aqui e acabaria por me desmoralizar.

— E o senhor quer o pai-de-santo vestido do quê?

— Sei lá! Inventa um jeito de trazer o homem aqui — mas discretamente.

* * * * *

Achar o pai-de-santo até que foi fácil. Difícil foi convencê-lo a se vestir como homem. O sujeito queria ir para o Planalto à la Carmem Miranda, veja só!

— Sem chance — retruquei.

— Então eu não vou! — falou o cara.

— Mas é uma consulta exclusiva para o Presidente da República! Imagina isso no seu currículo...

Os olhos do pai-de-santo brilharam e em menos de dez minutos ele já tava enfiado num vistoso Armani.

* * * * *

— Seu Fernando, táqui o homem. É o Pai Tabajara da Pemba Grossa. Tarólogo, buziólogo, cartomante e Carmem Miranda nas horas vagas.

— Também leio mão em sueco e dinamarquês — completou o pai-de-santo.

O presidente ficou satisfeito e me dispensou.

* * * * *

Dez minutos depois o Pemba Grossa deixou o gabinete. Feliz da vida e soltando rojão pelos olhos. O presidente tornou a me chamar.

— Pois não, Excelência!

— Belo picareta o senhor me arrumou, hein!?

— Ele tentou passar a perna no senhor?

— Tentou. Mas se deu mal.

— Ele esclareceu, pelo menos, as suas dúvidas?

— Mais ou menos. Mas o saldo do nosso encontro foi positivo.

— Mas então o senhor tá reclamando do quê?

O presidente abriu um sorriso.

— Não tô reclamando — esclareceu ele. — Tô é muito contente.

— Agora é que eu não tô entendendo mais nada...

— Você me trouxe aqui um petista roxo, daqueles empedernidos. Consegui convencê-lo a votar na gente!!!

E eu pensando que o pai-de-santo é que ia passar a perna no presidente...

— E como é que o senhor conseguiu esse milagre?

O presidente ajeitou a gravata, abriu outro sorriso e falou com a maior naturalidade do mundo:

— Fiz ele acreditar na força do nosso candidato.

— Mostrou as propostas do seu Zé Serra?

— Não. Dei 50 mil pro Pemba Grossa...



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