Lenda
de Hiran.
Outubro de 1899 e.v.
Número 04.
Salomão,
o mais sábio dos reis do seu tempo, desejando levantar um Templo
ao Eterno,
fez reunir em
Jerusalém todos os obreiros de bons costumes para construir o Fabuloso
Edifício.
Publicou um
édito em toda a extensão do reino, e o édito foi conhecido
em toda a terra:
quem quisesse
vir à Jerusalém para trabalhar na construção
do Templo, seria recebido e bem recompensado,
contanto que
fosse virtuoso, cheio de zelo e coragem, e exemplo de todo o vício.
Para logo, Jerusalém
se encheu de grande número de homens que conheciam as altas virtudes
de Salomão
e pediam para
ser inscritos nos trabalhos do Templo.
Salomão,
tendo-se garantido de numerosos obreiros, realizou tratados com todos os
Reis vizinhos,
particularmente
com o de Tiro,
para que pudesse
buscar no Monte Líbano todos os cedros e madeiras de que carecesse,
assim como de
quaisquer outros materiais.
Já tinham
começado as obras, quando Salomão se lembrou de Hiran, homem
sóbrio e virtuoso,
e o mais sábio
do seu tempo, extraordinariamente querido do Rei de Tiro por suas grandes
qualidades.
Percebeu também
que tão grande número de obreiros dificilmente seriam dirigidos;
e os trabalhos
prosseguiam já penosamente, por causa da discussão que entre
eles reinavam.
Salomão
resolveu dar à eles um chefe digno de os manter em boa ordem,
e escolheu Hiran,
de nacionalidade Ethirea (???).
Enviou ao Rei
de Tiro, expressamente para tal fim, deputados cheios de presentes,
para solicitar-lhe
o famoso arquiteto.
O Rei de Tiro,
encantado da alta conta em que o tinha Salomão, acedeu ao pedido,
e lhe remeteu
Hiran em companhia dos deputados, carregados de dádivas e protestos
de amizade,
e incubidos
de dizer-lhe que, afora o tratado que haviam celebrado, perduraria entre
ambos uma eterna aliança, podendo Salomão dispor de tudo
que lhe fosse útil.
Os deputados
chegaram à Jerusalém, acompanhados de Hiran, em 15 de Julho
de ...
(Nota: sem
alusão à data no original???), um dos mais belos dias
de Verão.
Hiran foi recebido
com a pompa e magnificência devida às suas grandes qualidades.
No mesmo dia
Salomão deu uma festa a todos os obreiros em honra de sua chegada.
No dia seguinte,
Salomão, reuniu a câmara do conselho para regular os negócios
de importância;
Hiran assistiu
a reunião e foi muito honrado; Salomão disse-lhe em presença
de todos:
“Hiran, eu
vos escolhi para Chefe e Grande Arquiteto do Templo, assim como dos obreiros.
Eu vos dou
todo o poder sobre eles, sem que sejam necessárias outras deliberações
além das vossas;
tenho-vos
como um amigo, e vos confiarei o maior de meus Segredos.”
Em seguida saíram
da câmara do conselho e se dirigiram para o local dos trabalhos,
entre os obreiros,
aos quais disse
Salomão, em voz alta e límpida:
“Eis aquele
que escolhi para vosso Chefe e para conduzir-vos; obedeçam à
ele como à Eu mesmo;
ele tem todo
o poder sobre vós e nas obras; aqueles que se tornarem rebeldes
às minhas ordens e às suas
serão
punidos do modo que me parecer melhor.”
Foram, após,
visitar os trabalhos;
foi tudo entregue
entre as mãos de Hiran, que prometeu a Salomão pôr
tudo em boa ordem.
No dia seguinte,
Hiran fez reunir todos os obreiros, e lhes disse:
“Meus amigos,
o Rei, nosso
senhor, encarregou-me de administrar-vos e organizar todos os trabalhos
do Templo.
Creio, estão
todos dispostos a executar suas ordens e as minhas.
Há
entre vós alguns que merecem melhores salários: a cada qual
poderá ser ele aumentado,
pelas provas
que for apresentando de seu trabalho.
É
para vosso repouso e para distinguir vosso zelo que vou formar três
classes de todos os obreiros:
a primeira
será composta composta de Aprendizes,
a segunda
de Companheiros,
a terceira
de Mestres.
“A primeira
será paga como tal, e receberá o salário na porta
do Templo, na coluna J.
“A segunda,
também à porta do Templo, na coluna B.
“E a terceira,
no Santuário do Templo.”
Os salários
aumentavam proporcionalmente aos graus;
e eram todos
felizes sob a ordem de tão digno Mestre.
A paz, a amizade,
e a concórdia reinavam entre eles;
o respeitável
Hiran, como desejava que tudo estivesse em boa ordem, e não querendo
confusão entre os obreiros, aplicou a cada um dos graus sinais,
palavras e toques, para que se conhecessem,
sendo proibido
confiá-los a quem quer que fosse, sem a inteira permissão
do Rei Salomão e de seu Chefe. Recebiam, assim, o salário
conforme o sinal, de modo que os Mestres eram pagos como Mestres,
os Companheiros
como Companheiros e os Aprendizes como Aprendizes.
Com tão
perfeita regra, andavam todos em paz, e as obras prosseguiam à gosto
de Salomão.
Mas tão
bela ordem continuaria por longo tempo ainda? Não...
Com efeito,
três Companheiros, impelidos pela Natureza (Nota: Observar seu
curso caótico...),
e anciosos de
receber o salário dos Mestres,
resolveram conhecer
a palavra;
e como não
pudessem obtê-la senão do respeitável Mestre Hiran,
formaram o desígnio
de conseguí-la.
Ou por bons
modos, ou violentamente...
Como o respeitável
Hiran ia diariamente ao Santuário do Templo orar ao Eterno às
cinco horas da tarde, combinaram esperá-lo na saída, para
pedir-lhe a palavra dos Mestres, e, como haviam três portas no Templo
(uma ao Oriente,
uma ao Ocidente e uma outra ao Sul),
se repartiram
pelas três portas.
Um armado com
uma régua,
outro com uma
alavanca
e o terceiro
com um malho;
e assim o aguardaram.
Hiran, finda
a prece, dirigiu-se à porta do Sul, onde encontrou um dos traidores,
que lhe pediu
a palavra dos Mestres.
Hiran, atônito,
avisou-lhe que não era por tal modo que se obtinha a palavra,
e que preferiria
morrer à revelá-la.
O traidor, encoleirizado,
tocou-o com a régua.
Hiran, atordoado
com a pancada, retirou-se dirigindo-se para a porta do Ocidente,
onde estava
o segundo traidor que lhe fez a mesma pergunta que o primeiro.
Hiran recusou-se
a responder, e o traidor feriu-lhe com a alavanca, fazendo-lhe cambalear.
Hiran voltou-se
para a porta do Oriente, na esperança de poder sair; mas o terceiro
traidor,
que o aguardava,
fez ele parar e lhe fez a mesma pergunta.
Hiran respondeu
que preferiria a morte à revelar-lhe um segredo que não merecia
ainda.
O traidor, indignado,
deu-lhe tamanha pancada com o malho que o estendeu morto.
Como ainda era
dia, os traidores tomaram o corpo de Hiran e o ocultaram em um morro,
ao Norte o Templo,
esperando a noite para transportá-lo mais além.
À noite,
o levaram para fora da cidade, à uma alta montanha, onde o sepultaram;
e, como resolveram
transportá-lo ainda mais longe, plantaram na cova um ramo
de Acácia,
para com facilidade
reconhecer o Sítio, e regressaram à Jerusalem.
Versão de
Eliphas Levi (foto).
ANTERIOR
PRÓXIMA
RETORNAR
À PÁGINA INICIAL
666/05