Sil�ncio
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Numa morna manh� de Abril, o sol bocejava pregui�osamente revelando vergonhosamente os primeiros raios de luz, apresando a leve neblina que repousava nos bra�os de um ef�mera brisa primaveril; o dia era um rec�m-nascido, que em breve envelheceria e morreria, e com ele a paz e a seguran�a da claridade, ao longe um galo canta anunciando a passagem da noite para o dia, o Monarca do caos e das trevas havia sido deposto, o turbilh�o silencioso da noite havia sido dilu�do pela silenciosa surdina do dia. Mas enquanto aqui reinava o calor do dia noutros lugares, a m�o gelada da noite pendia sobre eles.

    Noutro lugar distante, onde de dia o sol queima e de noite a lua gela, o doce e letal encantamento da noite caia sobre as poucas criaturas que habitavam a vasta e �rida plan�cie, povoada por milhares de gr�os de areia, salpicada pela rara vegeta��o que a� teimava aguentar a ira do tirado sol, adjuvado pelo seu vassalo o vento. mas neste lugar de perdi��o, onde a m�o pesada da morte reina ainda existem o�sis de vida que subsistem na solid�o e na mansid�o vazia do extenso areal. E � num desses o�sis que se encontrava um desafortunado viajante, que dormia descansado, ignorando o que se passava em seu redor. A negritude envolvia o seu corpo, protegido dos rigores da noite por pesados panos e defendido pelo seu fiel amigo, um velho camelo, que sempre o acompanhava nas suas pequenas aventuras, e que por gra�a a um seu velho amigo apelidara de Pimp�o.

    Mas enquanto dormia, algures n�o muito distante dali, um breve clar�o p�rpuro eclodiu no escuro da noite, um clar�o que nascera como an�o e morrera como gigante. O que seria, s� a escurid�o sabia. A noite encerra em si segredos e mist�rios, que ningu�m sequer imagina. Segredos esses que quando desvendados mostram a face mais cruel e fria da natureza. De facto at� as mais arrepiantes verdades da morte, s�o factos naturais.

    Desperto por tal fen�meno, o nosso personagem curioso decide fazer uma incurs�o nocturna nos rigores g�lidos das escaldantes areias do deserto. Montado no seu velho camelo Pimp�o partiu em direc��o a um fogo p�rpuro que ardia ao longe. Na escurid�o da noite se aventurou at� chegar ao s�tio e onde emanara tal fen�meno, a� reparou que o fogo ardia languidamente, fogo este que n�o aquecia, nem queimava apenas ardia, fogo esse que provinha de uma cavidade, feitas nas areias do deserto. Ent�o subitamente como come�ara a terra engoliu o fogo, desperto pela curiosidade o viajante espreitou para dentro do buraco e ent�o viu... Viu a face mais terr�vel da morte e da vida; um dos segredos do universo encontrava-se enterrado debaixo dos seus p�s todo este tempo, e agora estava ao alcance dos seus olhos...

    Desesperado, correu fugindo, tentando em v�o apagar as imagens gravadas no seu c�rebro que atormentariam para sempre o seu sono, como se fosse poss�vel dormir, ap�s tal vis�o... Como uma crian�a ing�nua, que curiosa com a bela chama que se queima pela primeira vez, assim foi este aventureiro. Mas n�o seremos todos n�s inocentes crian�as que vamos descobrindo o mundo lentamente, � custa de dolorosas experi�ncias???...

    Hoje.., e para sempre, o jovem curioso caminha demente pelas areias do deserto, fazendo companhia ao vento que varre a longa imensid�o das dunas, tentando prolongar o seu estado de mis�ria, pois o que o espera..., o que nos espera a todos... mais tarde ou mais cedo..., � ainda mais ign�bil.

    E no fim, do turbilh�o de sons, nada resta a n�o ser o sil�ncio... 



 

�Lord Raven

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