A Véspera da noite de S. Jorge
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  A noite chega lentamente, o vento uivante gelava os ramos tenros das jovens árvores, um leve nevoeiro repousava no ar, lá fora no jardim o vento brincava com as folhas caídas no chão, levando-as para longe; os lobos, ao longe, soltavam mil queixumes à sua ama lunar, rogando por dias mais amenos; na imensidão branca vê-se uma casa, lá dentro um grupo de amigos sentava-se junto da lareira, ao calor acolhedor da velha lareira, tentando esquecer a noite fria que se instalara no exterior.

    -  Venham meus amigos! - chama um deles - Venham ouvir um conto fantástico, sentai-vos ao calor da lareira, onde os vossos antepassados se sentaram e contaram contos seculares. Vinde ouvir o que eu vos vou contar! Vinde ouvir onde a realidade e a ficção mesclam, e sua destrinça se torna difícil, se não impossível...

    E começou a contar:

    - tudo começou numa noite fria de inverno, como esta, noutro tempo e noutro lugar, onde as corujas e os mochos faziam coro, tentando calar o abrasador silêncio da noite; num deserto branco e gélido onde ninguém se aventurava em noites como esta. Porém, numa noite particular, uma luz trémula e esvaziada de forças, tentava lutar com a escuridão... quem seria a pobre alma que se aventurou na véspera da noite de São Jorge, quando se crê que todas as criaturas das trevas ganham poderes, e os servos do mal se encontram no auge da sua força, tentando sugar a alma inocente de qualquer criatura que aventure na noite?

    No entanto, o coração manda mais do que a razão, o aventureiro era uma jovem mercador, que ansiava por se juntar a sua esposa e aos seus adorados filhos. Pensava ele que venceria a tempestade e chegaria ao lar antes da noite, mas enganara-se, pois a tempestade viera mais cedo e agora ele estava perdido... Perdido, de facto..., pensava esta pobre alma que nunca mais voltaria para casa. Mas após várias horas de caminho, quando as forças pareciam abandoná-lo e os membros tornarem-se em gelo, ao longe viu uma luz salvadora, na linha do horizonte estava uma cabana, com uma luz que o guiava como uma farol guia uma barco num dia de nevoeiro, e tal como a traça atraí-se pela luminosidade da lâmpada fatal ,assim era o nosso jovem amigo...

    Chegado à luz. verifica que esta emana de uma cabana, e que esta era habitada por uma jovem mulher, que de bom grado o recebeu. A jovem ofereceu-lhe um prato de comida e uma bebida quente e sentaram-se ao calor da lareira, conversando pela noite fora. A certo momento o mercador pergunta-lhe o que fazia ali sozinha, no meio de um deserto, ao que ela respondeu:

    - Foi expulsa da minha aldeia. Diziam que eu era bruxa, que enfeitiçava os homens e tirava-lhes a alma, quando eu só queria curar as suas enfermidades...

    Após mais alguns minutos de conversa, em que o nosso personagem, demonstrou não acreditar nos boatos acerca da jovem, foram ambos entregar-se aos braços do conforto do sono redentor; ficando o nosso jovem ao calor da lareira. A meia-noite aproximava-se ledamente, e o jovem mercador dormia um sono rejuvenecedor, quando uma sombra feminina se abate sobre o seu corpo adormecido e indefeso, qual recém-nascido no berço...

finalmente o dia nasce, e com ele o sol, que ilumina os prados brancos, mas não havia sinal do jovem mercador, nem do seu refúgio na tempestade. Ainda procuraram o seu corpo durante dias, mesmo depois dos últimos pedaços de gelo derreterem, mas sem sucesso, o jovem mercador nunca mais iria regressar à sua esposa e aos seus filhos,  não regressaria o seu corpo nem a sua alma...

   - Depois de terem escutado estas palavras, meus amigos, este conselho eu vos dou, em circunstância alguma abandonem o vosso abrigo na véspera da noite de São Jorge, pois nessa noite as lendas são reais e os nossos piores medos concretizam-se. Agora, meus amigos, ide dormir, se o conseguirem...



 

 

©Lord Raven

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