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Resenhas de babel
O eloquente sil�ncio de Tchekhov

Alexandre Gomes

"H� muitos contos e artigos de fundo meus que eu com muito gosto jogaria fora como imprest�veis, mas n�o tenho nennhuma linha da qual possa me envergonhar" (Tchekhov)

O autor russo Anton Tchekhov (1860-1904) re�ne sobre si vis�es n�o s� distintas como diametralmente opostas. Admirado por quase todos os escritores que o antecederam ou o sucederam, nunca conseguiu grande �xito de p�blico e s� anos ap�s a sua morte suas pe�as de teatro come�aram a fazer algum sucesso.
Tanto seus contos como suas pe�as tiveram uma import�ncia fundamental na constru��o da literatura e dramaturgia modernas. Meticuloso no texto - e talvez por isso t�o admirado pelos homens de letras - Tchekhov descobriu todo o poder do sil�ncio, geralmente elemento essencial de suas pe�as de teatro.
Este � sem d�vida o primeiro ponto que torna o autor t�o grandioso ainda hoje: descobrir que atrav�s do intertexto se pode dizer muitas coisas que as falas dos personagens n�o seriam capazes de perceber.
Uma segunda falsa oposi��a na obra dele � a que op�e um texto elaborado, refinado, utilizado com precis�o para descrever ambientes s�rdidos. Mas diferentes dos realistas que o antecedem, Tchecov v� o repugnante n�o apenas pelo aspecto f�sico, mas retrata principalmente a fei�ra interior.
Um terceiro ponto a se destacar � que ele traz como grande pano de fundo de sua obra o t�dio, em especial o t�dio da prov�ncia, da decad�ncia, que ganha realidade quase material com os longos sil�ncios no intertexto, j� mencionadas.
Ao contr�rio dos seus antecessores que o admiraram - em especial Tolstoi - e dos sucessores que ele promoveu e animou - em especial o pai do realismo socialista Maximo Gorki - Tchekhov n�o tinha afinidades com o socialismo, nem com as grandes causas sociais, por mais que elas estivessem presentes em diversos de seus textos.
Tchekhov era um ardoroso defensor do individualismo e desconfiava que qualquer regime socialista corria o risco de ferir a dignidade do indiv�duo. Isto por�m n�o impediu que como m�dico tivesse acentuada a��o social, que descrevesse o horror da vida dos prisioneiros nas Ilhas Sacalinas, que se posicionasse firmemente no Caso Dreyfus ao lado da intelectualidade de esquerda e tampouco que abandonasse a prestigiosa Academia de Ci�ncias russa protestando contra a expuls�o de seu amigo Gorki.
Como todo autor, contudo, sua obra � muito mais eloquente que sua vida para demonstrar seu valor. Embora jamais tenha se chegado a um acordo sobre qual texto dele fosse o mais importante, h� um que certamente resume sua angustiada genialidade: Enfermaria No. 6.
� f�cil ver um certo car�ter quase autobiogr�fico neste conto, mas curiosamente Tchekhov n�o � o personagem principal da hist�ria, talvez confirmando sua frase famosa de que n�o h� pequenos pap�is, apenas pequenos atores.
O personagem, Ivan Dimitrich Gromov, � um jovem atormentado pela s�bita mis�ria da fam�lia, pela inf�ncia conturbada, pelo fracasso nos estudos e sobretudo pela not�vel, mas insubordinada, intelig�ncia - tal como Tchekhov.
O personagem tamb�m compartilha com o autor por uma indescrit�vel sensa��o de comisera��o e constrangimento face a prisioneiros agrilhoados, sentimento central da trama de Enfermaria no. 6 e que na vida real levou o autor a enfrentar sua tuberculose numa viagem de Moscou at� o extremo oriente, nas Ilhas Sacalinas.
Esta fixa��o em prisioneiros cria no personagem - e quem sabe no autor - uma paran�ia de um dia ser considerado culpado por algo e por causa disto ser submetido � mesma condi��o deles. Esta obsess�o vai se agravando e lhe roubando a impress�o de sanidade que as pessoas tem dele e acaba por fim em transform�-lo em um dos pacientes da Enfermaria No. 6 onde os considerados loucos enfrentam a s�dica hostilidade do carcereiro Nikita.
� l� que o protagonista do conto, Andrei Iefimitch Raguin, vai encontr�-lo quando o jovem m�dico assume seu posto junto a tal enfermaria. Cheio de boas inten��es o m�dico tolhe as arbitrariedades de Nikita e tenta se aproximar dos pacientes-prisioneiros.
Numa conversa com Ivan o m�dico percebe toda a sua profunda intelig�ncia e cultura e torna-se seu amigo e interlocutor. Juntos discutem filosofia, medicina, hist�ria, literatura como se ignorassem o ambiente s�rdido.
� deste contato que tamb�m o m�dico � assolado pelo mesmo mal do paciente: paran�ia. Encontrando pessoa t�o s�bia internada num asilo de loucos o m�dico come�a a imaginar se ele pr�prio um dia n�o poderia estar ali, sendo igualmente considerado louco, at� mais facilmente que o pobre Ivan, a quem reputa ser mais s�bio.
Esta impress�o causa a Andrei o mesmo mal que a vis�o dos prisioneiros causou a Ivan, come�a a querer tanto frisar que n�o � louco que acabam pro consider�-lo insano e o internam na mesma Enfermaria no. 6, onde o carcereiro se vinga da v� tentativa do m�dico de moralizar a enfermaria.




Alexandre Gomes � editor do PRIMEIRA P�GINA


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