dante2.txt |
|
|
Resenhas de babel
Sobre a leitura Alexandre Gomes "Que outros se jactem das p�ginas que escreveram; a mim me orgulham as que li" (Borges) Falei antes do imenso prazer causado pelo turbilh�o mental que a leitura de um bom livro pode proporcionar. Lembrei disso quando ouvi algu�m me dizer que gosta muito de escrever, mas n�o tem paci�ncia para ler. A observa��o me pareceu um disparate e arriscando-me a ser injusto j� julguei mal qualquer coisa que o interlocutor infeliz poderia ter escrito. At� acho poss�vel, ainda que dif�cil, que algu�m goste de ler mas n�o escreve. Escrever � sobretudo um dom e como tal de certa forma independe da nossa vontade e esfor�o escrever p�gina memor�veis. Mas o racioc�nio contr�rio me parece imposs�vel, imagino imposs�vel que algu�m que goste de escrever produza qualquer coisa digna de nota sem gostar de ler. Como uma mente limitada por sua pr�pria experi�ncia seria capaz de produzir algo que n�o provocasse o mesmo desinteresse nos outros que provoca em si mesmo? N�o conhe�o quem escreva bem que n�o seja leitor intenso, assim como n�o h� texto escrito que n�o reflita tantos outros livros. Como o Borges da frase que serve de ep�grafe, creio que h� mais m�rito pr�prio em sermos capazes de escolher bons livros e penetrar-lhes at� a ess�ncia do que em encher uma p�gina com notas memor�veis - se a inspira��o nos sorri - ou com imbecilidades se a musa n�o nos sorri. Ao menos no primeiro caso � uma escolha, j� no segundo � uma imposi��o da natureza. N�o � � toa que prefiro livros de "sebos" proque quase sempre neles h� uma oura hist�ria rabiscada �s margens, grifada nos sempre contest�veis pontos que chamaram a aten��o de algu�m, quase sempre h� um nome assinalado do propriet�rio anterior, nos fazendo imaginar qual seria a hist�ria dele e daquele livro. Esta hist�ria subjacente daquele livro, a id�ia que algu�m compartilhou aquela leitura que fazemos, imaginar-se qual teria sido a rea��o do leitor anterior, o motivo que o levou a desfazer-se daquele volume, tudo isto ainda refor�a aquela forte m�stica que sempre permeia qualquer livro. N�o � � toa que h� tantas lendas sobre livros m�gicos... Isto me ocorre porque h� poucos dias soube de um destes destinos inusitados de um livro. Foi a terceira pe�a que Dante me prega este ano com a sua Divina Com�dia. Imposs�vel que eu n�o imagine que ele de alguma forma tenta se vingar de mim porque citando Asin Pal�cios comentei o fato de boa parte da Com�dia ter sido copiada de textos �rabes medievais. Ou talvez ele deseje me recompensar porque eu e a outra v�tima da pe�a o tiramos do ostracismo que substitui os livros cl�ssicos por ef�meros best-sellers, porque resolvemos imagin�-lo n�o como um a pe�a de museu mas insistimos em traz�-lo para a realidade. Como o Deus esquecido das Ruinas Circulares de Borges - que ensina a m�gica de criar um homem ao pobre homem em troca de reavivar seu culto e suas oferendas - Dante talvez se sinta t�o feliz em ainda ser lido como coisa viva que coloque em meu caminho estas pequenas brincadeiras inusitadas, que disfar�am-se de coincid�ncias para que seja necess�rio acreditar nelas. Enfim s� posso imaginar que estas hist�rias s� comprovam que ler � um processo que tem algo de m�gico realmente, que exige uma dedica��o quase religiosa, mas que em contrapartida abre para n�s a porta de novos mundos. |
Index
|