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Resenhas de Babel
Cen�rios dantescos
Alexandre Gomes
"Aqui � mister deixar toda suspeita, dar por morta toda tibieza" (Dante, Divina Com�dia)

Contam-se nos dedos livros que tiveram tanta import�ncia na Hist�ria da humanidade quanto a Divina Com�dia de Dante, obra prima que marca a passagem de uma �poca � outra, de um modo de ver o mundo a outro. Muitos j� observaram que, como todos os grandes livros, a Divina Com�dia tem camadas sucessivas que permitem as mais diversas interpreta��es.
Borges afirmou que alguns comentadores viram tr�s camadas no texto de Dante, outros sete, mas que provavelmente elas s�o infinitas. Quem trilha a senda m�stica ver� s�mbolos usuais de que se trata de algo mais que um livro escrito ao acaso, detectar� l� um mapa do caminho � Unidade.
Ironizando alguns destes s�mbolos Borges diz no Livro dos Seres Imagin�rios, citando Stevenson, comenta a respeito de alguns dos seres descritos no Para�so: "se h� tais coisas no c�u o que n�o haveria no Inferno". Curiosamente o Inferno de Dante sempre foi a parte mais comentada da Divina Com�dia, talvez porque se encaixe melhor na defini��o estanque que se tem da Renascen�a como uma redescoberta dos valores cl�ssicos.
O inferno � certamente tribut�rio da Eneida e n�o � por outro motivo que � Virg�lio que guia o autor na visita aos c�rculos infernais. Tamb�m � uma vingan�a pessoal de Dante que l� colocou pela eternidade seus desafetos numa pequena vingan�a, talvez mesquinha m�s n�o incomum aos homens de g�nio.
Isto at� causa a impress�o que talvez a Divina Com�dia tenha sido uma obra que escapou ao controle do autor, tal como o Quixote de Cervantes suplantou a inten��a do autor como comentei h� alguns dias, talvez de algum prop�sito menor a Com�dia tenha conseguido se impor ao esp�rito de Dante. Isto explicaria, por exemplo, a enorme disparidade entre o Inferno/Purgat�rio e o Para�so.
H� algo que escapou a todos os comentadores - ou ao menos aos que eu j� li ou ouvi falar - que tentam estabelecer um v�nculo entre Inferno/Renascen�a e Para�so/Idade M�dia. Dante narra uma jornada que come�a no Inferno e termina no Para�so e n�o o inverso. Note-se bem que ele tamb�m esfor�a-se para descrever a sua pr�pria eleva��o espiritual neste trajeto, portanto me parece evidente que a leitura tradicional de Dante carrega um equ�voco de preconceito que idealiza a Renascen�a e demoniza a mentalidade medieval.
Mas h� outros motivos pelos quais esta vis�o n�o se sustenta. Longe se ser uma vis�o "can�nica" do Paraiso a obra de Dante � um tanto quanto "her�tica", como destacou em artigo c�lebre Cantor (http://www.press.jhu.edu/demo/philosophy_and_literature/20.1cantor.html). O simbolismo m�stico � evidente e se as origens do Inferno s�o encontradas na Eneida e base do Para�so encontra-se em textos m�sticos mu�ulmanos que relatam a viagem de Mohammad ao Para�so, como j� foi exaustivamente demonstrado pelo trabalho de Miguel Asin Palacios e outros que seguiram seus passos.
H� mesmo, como destacou Palacios na "La escatolog�a musulmana en la Divina Comedia" - do qual infelizmente s� pude ler trechos mas que foram suficientes para me demonstrar que n�o se tratou apenas de uma inspira��o, mas em muitos casos de uma transcri��o quase literal.
Compare-se, por exemplo, o LIBER SCALAE MAHOMETI, tradu��o latina de textos �rabes e persas de m�sticos mu�ulmanos - que j� circulavam pela Europa dois s�culos antes de Dante, com techos do Paraiso para se encontrar os mesmos s�mbolos e met�foras. E n�o raro os mesmos seres.

Alexandre Gomes � editor do PRIMEIRA P�GINA

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