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Capital Intelectual e Economia do Conhecimento
Silvio Lemos Meira

Dos anos 80 para c�, as tecnologias da informa��o invadiram a sociedade. N�o s� isso, sua velocidade de penetra��o nos pa�ses pobres � consider�vel: entre 1987 e 1994, perdemos 2 pontos percentuais (de 21.3 para 19.2%) do PIB mundial (dados da OECD, www.oecd.org), mas nosso mercado de tecnologias da informa��o cresceu na mesma ordem, de 6.3 para 8.4% do total mundial.
Enquanto talvez tenhamos, no Brasil, entre 2 a 5% das casas com micros, os EUA t�m mais de 50%. Mas menos de 20% das resid�ncias americanas tinham um modem em janeiro de 1997 (dados da Morgan-Stanley, www.ms.com), enquanto mais de 95% tinham telefone... e no resto do mundo rico n�o � muito diferente.

A incipi�ncia dos sistemas digitais de comunica��o � ind�cio de que a era da informa��o ainda est� come�ando. Nas escolas, o n�mero de micros ainda � muito pequeno: no Jap�o, em 1994, havia 50 estudantes por micro, o mesmo que em Portugal; havia cerca de dez estudantes para cada PC instalado nas escolas da Dinamarca, Inglaterra, Noruega e EUA, que t�m os melhores �ndices do mundo.

Esta "infoestrutura" � a base de uma nova economia, pois come�a a permitir o interc�mbio de dados, informa��o e conhecimento e o desenvolvimento das habilidades individuais e empresariais de definir, em rede, tarefas a resolver, localizar e recuperar a informa��o associada � solu��o e, finalmente, us�-la para resolver o problema e sintetizar e apresentar a solu��o.

Em muitas empresas, o balan�o de fim de ano mostra o valor do conhecimento. Na American Airlines, o sistema de informa��es SABRE corresponde a cerca de 10% da receita e a quase metade do lucro. Isso divide o neg�cio em dois: voar, para entender o dom�nio de aplica��o e, no mais das vezes, ganhar pouco com isso, por causa da competi��o acirrada. E vender informa��o e conhecimento sobre voar, algo mais sofisticado, muito menos concorrido e mais lucrativo.

Os empreendimentos, assim, come�am a se desmaterializar, de forma que seu capital intelectual se torna mais importante, atraente, rico e rent�vel do que suas contrapartes concretas. A Nike, por exemplo, n�o tem f�bricas: o que ela domina � o conhecimento, na forma de pesquisa, desenvolvimento, design, processos de fabrica��o, marketing, etc. Para fabricar, trabalho duro e pouco lucrativo, contrata outros, que ganham por t�nis produzido, enquanto a remunera��o do conhecimento, bem maior, vai para a Nike.

Um bom livro sobre este in�cio da era do conhecimento � Capital Intelectual, de Thomas S. Stewart (Ed. Campus). Bem escrito e recheado de casos interessantes, ajuda a definir o leque de preocupa��es para tempos em que o bem mais importante, conhecimento, � p�blico e pode ser usado sem ser consumido. O fato de qualquer pessoa obter conhecimento n�o diminui a capacidade de outros fazerem o mesmo.

Mas conhecimento � algo abstrato e mais esquisito do que p�o franc�s. Na verdade, o p�o nosso de cada dia � apenas uma inst�ncia f�sica do conhecimento de "fazer p�o". Claro que o dom�nio do processo de panifica��o, s�, n�o d�: � preciso um conjunto m�nimo de ingredientes e infraestrutura, j� que parece dif�cil "encantar" p�es. Mas, quando o bem a administrar � conhecimento, os processos de gest�o associados aos objetos mais comumente encontrados nas empresas devem ser reconsiderados.

Em particular, talvez o maior problema desta nova era, para as empresas, seja estruturar seu conhecimento de forma a saber quem sabe (ou soube, ou pode vir a saber) o que, onde e como est� armazenado e pode ser recuperado; onde, como, por que, para que e para quem foi usado e quais foram e s�o as consequ�ncias. Cada um tem bem vivas a experi�ncia de ficar tempos procurando algo que est� bem ao lado, ou de reinventar a roda, e muitas vezes, a muito alto custo pessoal e corporativo.

O livro de Stewart n�o fala de tecnologia, o que � uma b�n��o: d� pr� sair um pouco da corrida maluca de quem tem sei-l�-o-qu� maior e mais r�pido, para pensar e discutir no��es e conceitos que ser�o fundamentais na economia que, ainda, vem por a�.




Silvio Lemos Meira, 44 anos , � Professor Titular de Engenharia de Software do Departamento de Inform�tica da UFPE, em Recife, e Presidente da Sociedade Brasileira de Computa��o
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